Sporting – 2 (Veloso a Liedson); Barcelona – 5 (Henry, Polga, Messi, Caneira, Bojan)
Nível de endorfinas: Nulo. Já tinha sido provado noutros bailaricos com a nata da Europa que o Sporting joga futebolinho. Um défice de competitividade que faz os jogadores bloquearem, em choque, quando respiram a mesma relva dos praticantes de futebol a sério. É normal, é humano. Um gajo quando vai na auto-estrada na faixa da direita e vê, no retrovisor, um Ferrari a encostar-se na nossa traseira mais rápido que o tempo que demora a fazer pisca, percebe que há vários níveis de qualidade na vida. Há carros bons e carros razoáveis. E depois, há carros muito, muito bons. Este Barça é um Ferrari. E jogadores como o Messi ou o Xavi são Ferraris. Quando metem um passe, de primeira, na única trajectória possível entre os pés do adversário, quando seguram a bola, colada ao pé, apesar da pressão, quando driblam os pés mais gulosos. E depois, o Guardiola vai a caminho de ser um Ferrari. Por muito que os jogadores do Sporting corram atrás da bola, há sempre uma ou duas linhas de passe. E os jogadores do Barça estão quietos… estão é sempre no sítio certo no momento certo. Isso é táctica, não é feijões numa folha A4.
Bom, o futebolinho ajuda a explicar a pobreza leonina. Mas não explica a goleada. A goleada explica-se pela incapacidade mental de superar os medos. É a diferença entre ver o Ferrari e acabar na berma com a sensação de pânico, numa auto-estrada cheia de carros por todos os lados. Ou ver o Ferrari, segurar o carro numa velocidade elevada, aguentar a pressão dos nervos e, quando for seguro, sair da frente e passar para a faixa do meio, a uma velocidade mais de acordo com a cilindrada do nosso veículo. Os jogadores do Sporting entram em pânico quando percebem que jogam futebolinho. E bloqueiam. Sem atitude, sem garra, sem orgulho.
A culpa não é só deles. É do treinador e dos passadores-de-cheques. Em aparente sintonia. Este jogo é para desfrutar? Já estamos qualificados com o orçamento cumprido? Então vamos meter mais alguns putos na montra, para ver se ainda metemos algumas comissões ao bolso antes de irmos embora… Eles que se divirtam. Pois, humilhação europeia, danificando mais o moral da malta e, mais importante, danificando a imagem do clube na Europa. No mundo. (Somos mais uns na caminhada do Messi para a lenda). E deixa-se no banco os únicos dois jogadores do plantel que souberam, na Era Mourinho, como se trava um Ferrari na auto-estrada sem acabar na berma.
Tudo isto acontece porque o Sporting vive na Era da Impunidade. Diz o speaker, com os cabeçudos a caminho das escadas, “um grande aplauso para os jogadores do Sporting!”. Ahn?!? Está tudo louco? Não, não se aplaude uma equipa sem atitude, com medo, sem nervo. Durante o jogo, ajuda-se ou, pelo menos, não se piora as coisas. Mas no fim de um jogo destes, não se aplaude. Porque isso é dar a entender que está tudo bem, que daqui a uns jogos já ninguém se lembra e já estamos preocupados com o sr. Paixão, e o Sr. Xistra. Pois…
Momento-chave: Eu até podia escolher o auto-golo do Caneira, que matou a legítima crença do estádio, numa golfada ao estilo Lampiões-encavados-em-meia-hora. Mas o momento-chave foi a palestra do Paulo Bento no balneário, antes do jogo. Se não se explica aos jogadores que este jogo é mais importante para o clube do que para aquele grupo de jogadores, não se está a fazer o trabalho como deve ser.
Prémio Gladstone: Tantos e tão bons. O facto de todos os cinco golos terem resultado de erros próprios quer dizer que o Sporting será o Gladstone do conjunto das 16 melhores equipas da Europa?
Prémio El Dieguito: A finta curta de Messi na falta que deu origem ao livre do Xavi ao barrote. Este é real. Este é mesmo o sucessor. Que tenha saúde. E obrigado por teres vindo a Alvalade.
Prémio Zé Piqueno: Ninja continuará residente deste segmento enquanto continuar a empurrar adversários numa qualquer discussão de merda em plena goleada.
Visão Zeman: losango lento, losango morto. Ponto final. Na segunda parte, uma espécie de losango marreco, a coxear toscamente para um 4-4-2. Veloso e Moutinho no meio, com o Moutinho um pouco à frente e à direita. Djaló na esquerda mas numa linha mais à frente da de Moutinho. E Pereira na direita, perdido. Um desequilíbrio total mas muito mais fácil de meter a bola a rolar e os jogadores a correr que o maldito losango.
Uma palavra para Moutinho. Foi o único jogador do Sporting que jogou num nível já perto do futebol a sério dos outros. Passes seguros, a dois toques, controlo sem deixar fugir, bola no pé sob pressão e até dribles entre dois adversários. O resto dos artistas - até mesmo o Liedson, coitado, que dá tudo - parecia que estavam a jogar descalços…
Outra palavra para Romagnoli: medo (nosso e dele).
Vivó Sporting… até morrer!: Nós também somos culpados. O grau de ansiedade de jogadores de futebolinho aumenta com o volume dos assobios, que produz uma sensação de vergonha em qualquer ser humano. Já o apoio incondicional dá um nível de conforto que permite correr o risco, sem medo de errar. Aos cinco minutos já havia gente a insultar jogadores do próprio clube. Enfim, a burguesização do futebol dá nisto… Por outro lado, o facto de o Anorthosis ter mais gente no estádio contra a Roma que o Sporting contra o Barcelona não se explica só pela crise económica e bentiana.
Dito isto, momento bonito em que Figo foi utilizado como arma de arremesso contra a malta culé. Um “pesetero”, mas um grande “pesetero”!
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