O futebol português é pródigo em lançar atoardas. E algumas delas assumem, por vezes, o estatuto de clichés inquestionáveis. Alguém, um dia, diz uma alarvidade, um bronco qualquer repete-a, um ignorante ouve, espalha, e às tantas a coisa propaga-se pelas massas. Depois chega aos media que lhe dão o carimbo de voz do povo, os jornalistas repetem-na, repetem-na, e passados uns tempos introduzem-na no léxico da profissão, apropriam-se dela e passa a ser difundida como verdade. É assim que funciona. E depois andamos todos a discutir as coisas com base nestas verdades absolutas, ignorando que o embrião dessa realidade foi uma ‘boutade’ de um energúmeno qualquer.
Dou-vos um exemplo. Recorrente. Ouvimos várias vezes por época, na voz de jornalistas ou comentadores desportivos, a teoria de que “os adeptos do FCP são os mais exigentes do futebol português”. Se navegarem pela blogosfera tripeira verão que essa ideia é já um dado adquirido. Também a podem encontrar em relatos radiofónicos, artigos de opinião ou comentários de jogos na TV. É uma verdade. Ou, pelo menos, difundem-na como tal. Perante isso, eu pergunto apenas como é que se afere esse grau de exigência dos adeptos. Pela quantidade de very lights que se enfiam nos carros dos treinadores quando as coisas correm mal? É capaz de ser uma boa opção de resposta. Mas enquanto ninguém me explicar, por a + b, como é que se chega a esse “ranking de exigência de adeptos”, enquanto ninguém me conseguir provar que de facto assim é, continuo a achar que o conceito é apenas uma estupidez. Ou vão querer dizer-me que se assobia mais uma derrota no Dragão do que se assobia uma derrota em Alvalade?
Vivemos hoje no Sporting um fenómeno semelhante. Um certo dia – provavelmente bêbado, seguramente sem noção do significado do que estava a dizer –, o ex-presidente Soares Franco teve a infeliz ideia de defender que era preferível garantir dois segundos lugares consecutivos para o Sporting, para assegurar receitas da Champions, do que ganhar um campeonato e no ano seguinte ficar em terceiro, correndo o risco de disputar só a UEFA. A ideia é, claro, absolutamente indefensável: por mais economicista que seja a estratégia do clube, nunca um presidente pode admitir, qualquer que seja o cenário, preferir dois segundos lugares a um título de campeão.
Tal como expliquei no arranque deste “post”, esta foi a ‘boutade’ que deu início ao processo de evolução até à “verdade” que hoje se vive no Sporting. A tal ideia de que “ficamos satisfeitos com os segundos lugares”. E a coisa nem seria problemática se fossem só os outros a achar isso de nós. O grave, o realmente dramático, é que são os próprios sportinguistas a achar isso do clube: que ninguém se preocupa em ser campeão, que ninguém faz um esforço por ser campeão. O exemplo máximo disso foi que esse disparate serviu mesmo de lema numa campanha para a presidência do clube.
Isto revela, para mim, uma total ausência de clarividência. Ou seja, fomos capazes de andar 18 anos a acreditar que lutávamos sempre pelo título e que as direcções, treinadores e jogadores davam o máximo pelo clube. Mesmo quando ficávamos em quarto lugar e o “nosso” campeonato passava por ganhar um joguinho aos lampiões. Mas agora, quando no espaço de 9 épocas ganhámos dois campeonatos, fomos a uma final da Taça UEFA, ganhámos 3 Taças de Portugal e 3 Supertaças… somos todos uma merda porque só jogamos para o segundo lugar.
Eu sei que, quando estamos a viver as coisas, se torna difícil analisar os assuntos em perspectiva. Eu sei que, quando o último título já tem sete anos e quando levamos com quatro segundos lugares consecutivos, se torna difícil analisar a realidade sob um prisma mais alargado. Aquilo que nos dói, o que nos move para a discussão, é o facto de não ganharmos agora, hoje. Eu sei que é assim, porque também sou assim. Mas mesmo dando esse desconto não percebo essa ideia do “só jogamos para o segundo lugar”. Para ser honesto, nestes quatro anos de Paulo Bento senti esse estigma uma única vez: quando fomos empatar à Luz 1-1, com o título ainda no horizonte, a duas jornadas do fim do campeonato, abdicando de arriscar a vitória com medo de perder o jogo e o segundo lugar. Em quatro anos, aconteceu uma vez. Mas esse facto não interessa. Porque a teoria do “segundo lugar” é que vale. E vale para tudo.
O jogo corre mal? É porque só interessa o segundo lugar. Perdemos o campeonato no confronto directo com os tripeiros, como aconteceu este ano? É porque só interessa o segundo lugar. O Paulo Bento faz merda? É porque só interessa o segundo lugar. O Vuk não joga a ponta-de-lança? É porque só interessa o segundo lugar. Só jogamos em losango? É porque só interessa o segundo lugar. O Veloso amuou? É porque não quer mais do que o segundo lugar. Não conseguimos dar espectáculo? É porque só interessa o segundo lugar. Temos menos gente no estádio? Lá está, é porque só interessa o segundo lugar. Tudo, hoje, no Sporting, é analisado à luz desse alegado desprendimento pela luta pelo título. E isso parece-me francamente redutor.
Mais grave: alinharmos todos nessa chachada de discurso parece-me deveras preocupante. A dois níveis.
Para a equipa, que sofre com a nossa impaciência, porque mesmo que não sejamos os “adeptos mais exigentes do país”, conseguimos assobiar qualquer puto que esteja a aparecer, só porque, com 18 anos, não tem já a maturidade para resolver 15 jogos consecutivos.
Mas deveria ser sobretudo preocupante para nós, sportinguistas, que preferimos alimentar o cepticismo e perder o foco na capacidade de acreditar. E já nem digo “acreditar nas vitórias ou nos títulos”; digo apenas “acreditar na boa vontade dos que nos representam”. É que quando já nem esse benefício da dúvida conseguimos dar aos nossos… então é porque algo está realmente mal. Connosco, não é só com o clube.