Arquivo de Setembro, 2012

Sporting Clube de Portugal

Hoje, pelas piores razões, o nome faz todo o sentido.
Temos uma troika, que, afinada, entrou contra vontade da maioria e colocou o destino da nossa equipa nas mãos de quem não se revela capaz de nos tirar do buraco. Vivemos na austeridade de nos irem aos bolsos, e de nos pedirem esforços e compreensão. Dizem-nos que o duro presente é incontornável para um radioso futuro, mas cada vez menos de nós acreditam nesse futuro.
Portugal teve um 15 de Setembro. O Sporting pode ter um 30 de Setembro. Basta colocar de lado a ideia de que as Assembleias Gerais são para os sócios, e aparecer em massa! (e não se preocupem com os meninos das claques. Estão muito ocupados a preparar novos cânticos de incentivo ao amigo que se senta no banco).

Sem esforço, sem dedicação, sem devoção, e eu defintivamente sem paciência

Acho que chega. Sinceramente.
Chega de querer acreditar, de ser mais emocional do que racional, de tentar ver um pequeno pormenor positivo no meio de tantos negativos, de tentar através do que escrevo, manter a fé leonina em níveis aceitáveis e os leões que por aqui passam unidos em torno de algo.

Esta é a verdade, nua e crua: à quinta jornada de um campeonato onde os nossos principais rivais estão enfraquecidos, frente a quatro equipas que lutam pela manutenção e uma que luta pela Liga Europa, jogando três vezes em casa, temos 6 pontos em 15 possíveis. O futebol que apresentamos chega a roçar o patético. A atitude com que se entra em campo é, quase sempre, vergonhosa. Como não acontecia num passado recente, temos um plantel recheado de bons jogadores, alguns muito bons, mas com os quais não se consegue formar uma equipa. Não há sistema táctico definido, ao fim de 6 + 3 meses de trabalho. Não há um 11 base. E, agora, até já temos um treinador incapaz de passar para fora um discurso pacificador relativamente ao grupo.

Sinceramente, acho que chega. Chega de palminhas junto à linha, chega de gritaria, chega de tentar montar a táctica com o jogo a decorrer, chega de discursos que evocam grandeza sem correspondência nos actos, chega de olhar em frente e de levantar a puta da cabeça, chega de gozar com quem ainda contribui para estarem mais de 35 mil nas bancadas.
Sá, por mim, e acredita que me custa dizê-lo, o teu lugar ficava livre ainda esta noite. E nem te preocupes com o facto de terem-te aumentado o contrato, e ires passar os próximos dois anos a receber. Fizeram um negócio parecido com o teu antecessor. A diferença é que eles sabem que, se te despedirem, também eles vão com o boda, ou seja, se não fores tu a tomares a atitude, os gajos vão continuar a agarrar-te pelos suspensórios indiferentes à queda livre em que nos encontramos.

O Bloco de Notas do Gabriel Alves – Liga 012-013, jornada 5

É um estádio bonito, novo… arejado
Sporting – Estoril
29 Setembro 2012
18h15, Estádio José Alvalade

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Um jogo à tarde, meus amigos, num dia em que a chuva vai dar tréguas, em que a temperatura sobe e que tem uma manif a anteceder a ida a Alvalade. Dia cheio, portanto.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
O Estoril chega a Alvalade motivado pela vitória conquistada frente ao Marítimo (embora os insulares tenham ficado reduzidos a dez logo aos cinco minutos), depois de uma derrota e dois empates. Cinco pontos em quatro jornadas não é mau para quem luta pela manutenção.

Este homem é um Mister
Não há muito a dizer sobre Marco Silva, cuja carreira de treinador se resume ao Estoril. Mas achei piada à tentativa do gajo de influenciar a nossa forma de ir ao jogo, ao dizer que o Sporting, frente ao Gil, foi mais ofensivo mas torna-se uma equipa desequilibrada.

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
Haverá a curiosidade de rever Diogo Amado, Hugo Leal será o estratega da equipa, mas o homem em destaque é Luís Leal, pelo hattrick apontado na jornada anterior.

A vantagem de ter duas pernas!
Olha onde anda o Carlitos, o tal que ia ser craque no Benfica e que acabou como estrela do Basileia.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
Sá, estou muito curioso para ver quais as tuas opções e de que forma vamos ser capazes de capitalizar uma vitória com tanto peso psicológico. Que se mantenha a atitude de segunda-feira e que essa mesma atitude seja expressa por um 11 que não fuja muito a Patrício, Cedric, Rojo, Onyewu (porra, não está cá), Carriço, Ínsua; Rinaudo; Jeffren, Izmailov, Carrillo; Viola e Wolfswinkel. O resto é alcançar três pontos obrigatórios.

Vamos jogar no Totobola
Sporting – Estoril   1

Espero, sinceramente, que os tenham no sítio para emitir mais um comunicado

«O presidente da associação de árbitros de futebol não acredita que tenha havido uma reunião entre dirigentes do FC Porto e do conselho de arbitragem que visava vetar os nomes dos árbitros Duarte Gomes e Bruno Paixão para os jogos do clube azul e branco, como noticia hoje [ontem] o jornal Correio da Manhã.
O dirigente afirmou à Antena 1: “Essa reunião poderá ter existido mas não tenho conhecimento dela e que seja uma reunião nesses termos de vetar árbitros não acredito que assim seja…”

Poderá ter existido?!? Ao que chegou a bandalheira…

Parece-me simples

Não tenho nada contra Gelson, e até aplaudo de pé a postura do gajo, no jogo de segunda-feira.
Mas, parece-me, há algo claro como a água e Sá Pinto terá percebido à força (o, agora nosso, Ricardo, não terá culpa de terem tentado vender-lhe uma infância e adolescência azuis): jogar com um Douglas, é diferente de jogar com um André. Jogar com um Paulo Sousa ou com um Duscher, é diferente de jogar com um Paulinho Santos. Jogar com um Rinaudo, é diferente de jogar com Gelson.

p.s. – também me parece incontornável a ideia, de que Ínsua é titular sem espinhas. Aliás, não deixa de ser curioso, que a mudança tenha começado, precisamente, no regresso destes dois jogadores.

Esforço, Dedicação, Devoção e Lágrimas: o lado racional

Terá valido a pena festejar com lágrimas, uma vitória sobre o Gil Vicente? Terá valido a pena gritar golo a plenos pulmões? Terá a revolução táctica sido pensada, ou fruto da vertigem causada pelo abismo? Terá Sá Pinto percebido que tem mesmo que mexer na rigidez em que amarrou o nosso futebol?

Estas são algumas das perguntas que se colocam, e que são completamente válidas. Afinal, depois de uma pré-época as soluços e de um arranque de época completamente engasgado, uma vitória arrancada a ferros não dá garantias algumas de que entremos no rumo certo. Nem de que Sá Pinto venha a revelar-se o homem certo no lugar certo. Mas dois pormenores ficaram, inegavelmente, demonstrados: primeiro, que a revolução táctica não foi feita assim tão à toa; segundo, que os jogadores acreditam que este treinador pode conduzi-los às desejadas conquistas (basta ver o que Ínsua acabou de escrever no twitter).

Ao entrar em campo numa fusão de 4-4-2 com 4-3-3 (Viola, várias vezes, era mais extremos do que segundo avançado, Pranjic deixava várias vezes a linha para se juntar a Rinaudo e Izmailov no meio), Sá Pinto cortou radicalmente com o Sporting mecânico, em que cada movimento da equipa parecia obedecer a regras de xadrez e onde o espaço para a criatividade ficava, unicamente, entre à inspiração de Carrillo. A entrada em jogo da equipa provou isso mesmo e, confesso, espanta-me ler que vários leões considerem que pouco fizemos para resolver o jogo na primeira parte. Para mim, fizemos a melhor primeira parte da época e, em condições normais, as três ou quatro oportunidades de golo claras (sim, claras) de que dispusemos, praticamente deixariam sentenciada a partida antes do intervalo e obrigariam o adversário a trocar a Marranita por uma Vanette, aumentando as possibilidades de mais golos surgirem.
Pelo meio, como aquele fio de água gelada que entra pelo isotérmico quando se decide ir às ondas no inverno, sofre-se um golo às três pancadas, golpe doloroso numa alma já tão amassada.

Depois, a meia hora do final, o murro completo na mesa. Sá tira um central e coloca Carrillo em campo. Se me disserem que isto não foi ensaiado, acredito. Se me disserem que não foi pensado, duvido. A falta de ensaio notou-se no tempo que os jogadores demoraram a assimilar o novo desenho, na forma muitas vezes atabalhoada como ocuparam os espaços, até no bloqueio cerebral, que podia ter custado um segundo golo e que Rui Patrício resolveu com silenciosa classe. O não ser pensado… não me parece que a entrada de Carrillo seja à toa, tal como a colocação de Izmailov e a forma como ele e Rinaudo se articularam para compensar a dificuldade do russo chegar-se à frente.

Se Sá Pinto teria feito algo do género num outro cenário. Provavelmente, não. Mas fez quando tinha que fazer. Arriscou em demasia?!? Foda-se, mas, afinal, em que ficamos? Se mantém o médio defensivo em campo é um maricas, se assume que temos capacidade para ganhar a adversários destes com as preocupações defensivas quase abaixo de zero é louco? Se querem que vos diga a verdade, Sá Pinto terá feito algo muito aproximado do que qualquer um de nós faria. Mais, Sá Pinto acabou por reforçar a minha tese de que, a jogar em casa contra 90 por cento das equipas do nosso campeonato, é encostá-los lá atrás de tal forma quem nem têm tempo para pensar em contra-ataque. Sim, porque, e custa-me que alguns de nós vão nas cantigas da imprensa desportiva, se o Gil jogou assim tão pouco não é apenas por ser uma equipa limitada; antes porque os nossos jogadores souberam fazer sobressair essa limitação com as diversas recuperações de bola feitas (mas isto não vejo ninguém, com responsabilidades editoriais, escrever).

Terá valido a pena festejar com lágrimas, uma vitória sobre o Gil Vicente? Terá valido a pena gritar golo a plenos pulmões? Terá a revolução táctica sido pensada, ou fruto da vertigem causada pelo abismo? Terá Sá Pinto percebido que tem mesmo que mexer na rigidez em que amarrou o nosso futebol?
Sim. Sim (sempre). Não sei bem. Não sei.
Mas sei que, e já o disse, vi algo sem o qual qualquer genialidade táctica vale tanto como engatar a Monica Bellucci e sofrer de ejaculação precoce: vi todos a remar para o mesmo lado, acreditando no seu líder. E isto é coisa para permitir que o meu lado racional abra espaço à emoção, à fé de puto Sportinguista que, por mais anos que passem, não quero deixar de ser e que só pede que o deixem manifestar-se mais vezes.

Next on O Cacifo

Esforço, Dedicação, Devoção e Lágrimas: o lado racional. Estreia esta madrugada.

Aprendam a saborear as vitórias, caralho!

 

Será que, nem nos momentos positivos, conseguimos unir-nos?

Esforço, Dedicação, Devoção e Lágrimas

Há vitórias que vão para lá dos excelentes desenhos tácticos, das jogadas de laboratório e, porque não dizê-lo, para lá dos três pontos.
A vitória sobre o Gil foi uma dessas vitórias, daí que considere justo separar todas as vertentes do jogo em diferentes posts, começando por analisar aquilo que me parece o mais importante: a resposta às notícias que davam o Sporting como partido internamente.

A forma como os jogadores, primeiro, puxaram pela alma e pelo coração para derrotarem os seus próprios fantasmas e, depois, a forma como festejaram o golo da vitória, não pode deixar quem quer que seja com dúvidas sobre se estão ao lado do treinador e unidos entre si. Não sei se isso chegará para levar-nos a conquistas, mas sei que sem isso dificilmente lá chegaremos.
Depois, Sá Pinto. Para lá do sentido e significativo abraço a Luís Duque, ao vê-lo incapaz de segurar as lágrimas, vi-me a mim, vi um de nós, incapaz de conter-se depois de um daqueles golos gritados com tanta força que desatam o nó de qualquer gravata de nervos. À minha frente tinha um homem que não está agarrado ao lugar, antes a fazer o que, seja muito, seja pouco, sabe para conquistar o direito a continuar no lugar com que sonhou.

E é, precisamente, de momentos como o de ontem à noite que se fazem os sonhos. Mesmo que, como os nossos, sejam frágeis, cheios de dúvidas, de contradições, de receios em estar a acreditar em algo que se esfume. Ainda assim, duvido que algum de vós tenha adormecido sem puxar pelo lado bom da nossa bipolaridade verde e branca. E acordado com vontade de ver todas as primeiras páginas, ou não fosse a vitória de ontem uma daquelas que aproxima os adeptos da equipa.

 

O Bloco de Notas do Gabriel Alves – Liga 012-013, jornada 4

É um estádio bonito, novo… arejado
Sporting – Gil Vicente
24 Setembro 2012
20h15, Estádio José Alvalade

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Era tão bom que esta segunda-feira, perfeitinha para jogar à bola, nos oferecesse um jogo igual ao da época passada, não era?.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
Zero golos marcados, zero golos sofridos. Três empates. Este é o Gil do arranque desta época, sendo que dois dos nulos foram frente a Porto e na visita ao Funchal. A solidez defensiva pode explicar-se pelas poucas mexidas em termos defensivos e de meio campo, as dificuldades ofensivas resultam das ausências de Caiçara, um defesa que subia bem, e dos avançados Hugo Vieira e Richard.

Este homem é um Mister
Paulo Alves tem a estranha mania de dizer que jogou o jogo pelo jogo, mesmo quando resolve estacionar o autocarro. Mas que fez uma boa época no ano passado, lá isso fez.

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
Acho que quando a maior figura do Gil é um central, chamado Cláudio, especialista em marcar penaltis, está tudo dito (André Cunha será o mais evoluído tecnicamente, fazendo todo o sentido envergar a camisola 10) .

A vantagem de ter duas pernas!
César Peixoto. O nome diz tudo.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
Sá, espero que tenhas a noção de que, mais logo, ou vai ou racha! Por mais que venhas dizer que as notícias de teres o lugar a abanar são desprovidas de sentido, divido que não o sintas. Está na altura de começares a mudar: a abordagem ao jogo, a leitura do mesmo aquando das substituições, o discurso na análise às partidas. E, já agora, dava jeito colocares em campo jogadores que são titulares de caras e que, sem jogar, mais tempo levarão a ganhar ritmo.

Vamos jogar no Totobola
Sporting – Gil Vicente   1

Dar tempo ao tempo sem saber que tempo é esse

Sá Pinto diz que o tempo se encarregará de colocar as coisas nos seus devidos lugares, e que a nossa superioridade face aos adversários será compensada com golos e vitórias. Luís Duque diz que as contas fazem-se no fim (provavelmente, inspirado pelo facto de estarmos na vindima e no provérbio dos cestos). Vários rostos conhecidos, uns mais verdes do que outros, defendem que esta equipa ainda precisa de tempo. Nós, os adeptos, desesperamos com o passar do tempo sem alegrias que não se consigam segurar nas contas feitas aos dedos das mãos. Pelo meio, algo que me parece transversal: ainda não se decidiu o que se quer fazer com o tempo do Sporting. Ou, se se preferir, que tempo tem o Sporting?

Sinceramente, acredito que o Sporting tem o tempo que se lhe quiser dar. Não se trata de um clube que fez três ou quatro brilharetes nos último três anos, e que já se julga grande. Trata-se de um clube, efectivamente, grande. Grande em história, grande em títulos, grande em ecletismo, grande em qualidade e quantidade de adeptos, grande na forma como resiste a contextos sociais e políticos que beneficiam adversários, grande em termos de futuro, saibamos aproveitar uma marca que, assente em vitórias e uma correcta estratégia de marketing tem tudo para conquistar umas largas dezenas de milhar de crianças e teenagers.

Então, que tempo queremos nós dar ao Sporting, a este Sporting que partiu para esta vontade de estar de volta torto e afinado e que mostra uma angustiante incapacidade de dar dois passos em linha recta?

Há quem continue a recordar o exemplo de Alex Ferguson, o escocês que foi para Manchester quando o United estava dois lugares acima da despromoção (1986-87) e que só em 92-93 conseguiu quebrar um jejum de 26 anos sem vitórias no campeonato. Durante esses seis anos, o United chegou a terminar em 11º, existiram vários momentos de contestação, mas Sir Alex manteve-se à frente do barco e, a partir dessa vitória (os indícios de que estava perto começaram um ano antes e confirmaram-se com a chegada do jovem Cantona), temos a história que todos nós tão bem conhecemos.

Há quem puxe pelo nome de Arsène Wenger, à frente do Arsenal desde 1996 e sem saber o que é ser campeão, se não estou em erro, há quase uma década. Mas quantos títulos conquistou nos primeiros sete anos, um deles sem derrotas, quantas vezes admirámos o futebol apresentado e a capacidade de reinventar plantéis e perdas de melhores jogadores, muitas vezes recorrendo a jovens promessas?

Há quem defenda o exemplo do Borussia de Dortmund, que soube dar a volta ao abismo da falência (se a memória não me atraiçoa, penso que chegaram a arrendar o próprio estádio e a aceitar a ajuda financeira do Bayern), da despromoção, do fundo do poço tão fundo como imaginamos o fundo dos poços. Isto, depois de uma vitória na Liga dos Campeões e de um campeonato conquistados com três ou quatro anos de diferença. Sem dinheiro, o Dortmund virou-se para onde podia: para a formação e para a procura de talentos emergentes. E, ao fim de dez anos, encontramos um Dortmund bi-campeão, num projecto de sucesso onde cabe o nome de Jürgen Klopp, o treinador que chegou em 2008 e que foi sexto e quinto classificado antes de atingir o título, de ver disparar o valor de vários jogadores e de tornar o Westfalen num dos estádios com maior número médio de espectadores (os 80 mil lugares estão quase sempre lotados).

E nós, o que queremos fazer com o nosso tempo? Acho que essa é a pergunta mais complicada de fazer e de responder. E cuja resposta, penso, deveria começar pelo recuperar dos motivos que levaram a que não se soubesse capitalizar em continuidade os títulos arrecadados em 1999-2000 e em 2001-2002. Como é que se transformou a escada do sucesso numa descida a um cabrão de um poço que, a cada ano, parece ganhar maior profundidade?
A segunda pergunta é, o que devemos fazer para inverter a situação? E é esta pergunta que nos leva à necessidade de definirmos o que queremos fazer com o nosso tempo: dar-lhe tempo ou provocar mais uma mudança brusca?

Confesso que não sei como reagiria se, oficialmente, fosse assumido que o Sporting iria reinventar-se e me fosse pedida paciência e apoio para alguns anos de aposta na formação. No meu ADN não foi inscrita a ideia de andar a jogar para ir à Liga Europa (ou menos). Mas acho que o problema maior não será esse. Antes, esta sensação de que andamos à deriva, sem saber que rumo tomar. E, claro, a minha ausência de confiança em quem gere o clube e em quem lidera a equipa principal. Porque, muito sinceramente, o que sinto é que se fala em “dar tempo”, sem se saber o que fazer para não tornar a espera demasiado longa.

A machadada final?

Sim, é um rumor. Mas é um rumor assustador.
Scolari?!? Sco-la-ri?!? O Sco-la-ri vai txi pegá!

Nem um chocolatinho, para adoçar a boca…

Pronto, conforme se previa, bastou mexer um bocadinho no meio-campo para se sentir algo diferente. Não muito, é verdade, mas pelo menos entrou-se com vontade de fazer qualquer coisa, mesmo que cedo se percebesse que essa qualquer coisa estaria sempre dependente de um momento de inspiração de Carrillo ou de Izmailov, ou de uma combinação deste último com Elias. Sá Pinto deu a entender que tudo poderia ter sido diferente com um golo, e eu concordo. Tivesse aquele remate de Wolfswinkel terminado nas redes, em vez de embater num defesa, e, muito provavelmente, estaríamos com um agradável travo a chocolate suíço na boca. E talvez a vitória chegasse, caso Xandão, o tal que ficou mas que duvido que se avance para a sua contratação, não tivesse aquele bloqueio cerebral. Que, diga-se, foi imediatamente seguido por Sá Pinto, na patética substituição de Elias.

A verdade é que empatámos com mais uma equipa mediana, que nem com um a mais quis atacar. Jogou-se um bocadinho, durante 20 minutos. Teve-se coração e atitude, com um a menos. Mas isso é demasiado pouco para um clube como o Sporting. Valha-nos que continuamos fortes, muito fortes. Que tudo isto é uma grande injustiça e que, continuando a apresentar futebol de qualidade, mais cedo ou mais tarde os golos e as vitórias vão surgir. Espero é que não demore muito, pois já não sei o que fazer com este  palato tão empalhado.

O Bloco de Notas do Gabriel Alves – Liga Europa, fase de grupos, jornada 1

Este é um bloco de notas desencantado. Ou revoltado, se preferirem.
Tudo o que peço, muito sinceramente, é para não voltarmos a entrar em campo com um meio-campo que não funciona. Estou farto de um trinco que só sabe correr, farto de um Elias sem saber o que fazer e de um Adrien que não sabe o que fazer naquele lugar. Sinceramente, acho que qualquer Paulo Sérgio já teria percebido isso.
Mais, estando em condições, Izmailov tem que ser sempre titular e tem que jogar no meio.

Creio que bastará colocarmos um ponto final nesta teimosia táctica, que começa a ganhar contornos bentianos, para estarmos mais próximos do que todos desejamos: a vitória. Ou, se preferirmos pegar na visão de Sá Pinto, creio que deixar de apostar num meio-campo que nunca chega ao final dos jogos, será meio caminho andado para a equipa deixar de ser injustiçada, e passar a ser recompensada, perante o real valor que tem.

A paixão

Quando me apaixonei por ti, eu tinha tempo. Todo o tempo. Tempo para escutar o relato, imaginando-me no relvado a festejar golos inesquecíveis. Tempo para ler os jornais, incluindo uma tal de Gazeta, quase decorando tudo o que era escrito sobre o ti. Tempo para fazer recortes, que serviam para decorar paredes e para personalizar os cadernos da escola.

À medida que a minha vida foi mudando, condicionei o meu tempo. E a minha vida. Tudo por aquilo que por ti sentia.
Os bolos de aniversário passaram a ser, durante quase uma década, decorados com um derby onde, invariavelmente, a bola terminava na baliza encarnada. Os brinquedos reduziram-se face a camisolas, meias e calções com as tuas cores. Qualquer tarde de praia estava manietada por uma transmissão radiofónica ou televisiva. Deixei bem claro que não atendia telefonemas durante um jogo. E também não dirigia palavra a quem, durante esses 90 minutos, comigo falasse de outro assunto que não o jogo em causa. Canalizei a minha mesada para poder ir ver-te, pois já bastava ter a minha mãe a pagar-me as quotas. E, assim que tive oportunidade, passei eu a pagá-las. Apanhava o barco, fizesse chuva ou sol, para chegar a Lisboa e rumar a Alvalade. A tua casa. A nossa casa. E, várias vezes, fi-lo sozinho, sem que isso diminuísse a ansiedade de um encontro que me soava sempre a primeiro.

Veio a faculdade, os namoros mais a sério, veio a minha cara-metade, veio o casamento, veio a minha filha. E, em todos esses momentos, algo se manteve inquestionável e incontornável: tu! Em 35 anos de vida, 30 anos de paixão, 24 deles como sócio, abdicando de sábados e domingos, de sexta e de segundas, de terças de quartas e de quintas, fosse de tarde ou de noite, até de manhãs quando um dia de férias tinha outro sabor a ver os craques a sair da 10A e as miúdas da rítmica no velho pavilhão. Dei, sempre, tudo de mim. Por ti. Po nós. Por este sentimento inexplicável que nos une.

Escrevo-te, agora, porque me sinto angustiado. Cansado, diria. Cansado de, ao longo do tempo, me teres exigido cada vez mais. Mais tempo, mais dinheiro, mais paciência, mais fé, mais devoção, mais provas de amor de cada vez que me fazes sofrer. E tu, o que é que me dás em troca, agora que já nem bom futebol consegues prometer-me? Já sei, vais continuar a pedir-me para acreditar em ti, não é? Porra, mas isso já tu sabes que não mudará. É algo que se tornou parte da minha forma de ser.

O que está aqui em causa, e parece-me que tens dificuldade em perceber, é que, nos últimos anos, tens deixado nas minhas mãos a tarefa de alimentar e não deixar cair esta paixão. Tenho abdicado de tanto por ti, recebendo em troca uma fugazes alegrias que, de forma ilusória, voltam a acelerar o ritmo do meu coração para depois fazê-lo parar com tal estrondo que me sinto perdido.

É assim que me sinto: perdido. Não, não deixei de estar apaixonado por ti. Mas estou, claramente, mais distante. E isso custa-me muito mais do que uma derrota, porque nunca pensei chegar ao ponto de questionar-me se devo abdicar do meu tempo por ti. Apetece-me fazer reset. Começar tudo de novo. Preciso, incontornavelmente, que me proves que continuas a ser o Sporting por quem me apaixonei. E que também estás na disposição de continuar a alimentar esta paixão.

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