Pipi das meias altas

Porque é que o Romagnoli não serve para o Sporting? A resposta não é simples. Vamos por partes. Pipi não tem a culpa toda. A partir do momento em que os adversários do Sporting 2.0 perceberam que o amigo do Maradona era determinante para olear o losango do Paulo, começaram a colar um trinco ao rapaz. O segredo do sucesso do ano passado – durante dez jogos – foi que os burros dos treinadores nacionais não perceberam que o Pipi não é um 10 típico. Por uma simples razão: não tem força (sem músculos, não se carrega o balde). Então, para poder utilizar a técnica (que também não é excepcional, não tem um-para-um em velocidade nem uma visão de jogo brilhante – joga sempre com a cabeça em baixo) típica de um jogador de cabine telefónica (em forma, ninguém lhe tira a bola… em Portugal), fugia para as alas. Aí, era ele que fazia circular a bola entre Nanis, Moutinhos, Tellos, Abeis e outros. Controlo em passes curtos. Dá e leva. Progressão em solavancos. Simples. Resultou. Ganhámos uma taça.
O problema veio depois. É que Pipi precisava, este ano, de fazer mais que os 15 jogos das duas primaveras anteriores (a humidade é fodida para a renite do jovem). Não havia Nani e não se tinha ainda descoberto o caminho para o tesouro (leia-se, o incrível Vuk). Encostado à parede pela espada do losango, Pipi não correspondeu. E afundou-se com a equipa. E é por isso que não serve. O nº 10 de uma equipa que quer jogar “futebol a sério” não pode esconder-se, não pode falhar mais passes simples do que os que acerta. E, mais importante, precisa de desequilibrar. Fazer aquilo que o Moutinho fez em 11 minutos: um golo lindo, uma assistência em esforço para golo, um slalom foquinha para outro golo, um penalti sacado com o corpo. Em 11 minutos, Moutinho fez mais que Pipi em toda esta época.
Se o Sporting 2.0 quiser fazer um update, tem de ter um jogador que renda 90% dos jogos na posição mais importante de uma táctica losango. Um tipo que em cinco bolas, perca uma e decida noutra. Um jogador que seja diversificado a jogar à bola, para que os marcadores fiquem na dúvida se ele vai chutar, tabelar, passar em ruptura (adoro o novo futebolês), fazer uma cueca, passar a 30 metros, etc. Um 10 do género do… Moutinho. Pois, o Pipi não tem culpa. O problema do Pipi é que está lá um muito melhor que ele. E o 10 que o Sporting merece.

(o Pipi não tem culpa também de estar a condicionar todo sistema táctico do Sporting. É que o Paulo insiste na porra do losango porque é o único esquema em que o Pipi joga. Ele diz que é por causa do Liedson, mas ele que veja os DVD do tempo do Peseiro. E se o 10 não rende, o losango (sem uma boa defesa e sem o Nani) está morto – há meses).

3 thoughts on “Pipi das meias altas

  1. Douglas,

    Acho muito válida a explanação sobre a valia técnica de Pipi e a forma como a equipa fica condicionada pela sua fraca prestação Outono/Inverno.
    Para mim, Pipi seria apenas uma solução para entrar nos últimos 25 minutos quando as coisas não estão a correr bem.

    No entanto, creio que sobreavaliaste o Moutinho a 10.
    É verdade que o pequeno João é pau para toda a obra, impressiona como no mesmo jogo chega a fazer três dos quatro lugares do meio-campo sempre de forma regular, mas regular, apenas isso.
    Ainda não o vi fazer um jogaço a 10.
    Os melhores jogos de Moutinho foram ao lado de Rochemback, em 4-2-3-1,tácticamente extraordinário a defender e com liberdade para subir, desde que o rei das caipirinhas ficasse lá atrás.
    E atenção, era apenas a sua primeira época a sério!
    Até aqui, com excepção dos 2 últimos golos que marcou, à Barbosa, a vocação atacante de Moutinho tem sido intermitente.
    Talvez seja fruto da polivalência, espero que seja só isso.

  2. Caro Douglas:

    Parece-me que o moutinho não será um verdadeiro 10, apesar da sua polivalência em jogar em todas as posições do meio campo (excepto talvez a médio lateral) é para mim um médio centro e não um 10, isto porque como bem consideras um verdadeiro 10 tem de desiquilibrar num 1 contra 1 e não reconheço essa capacidade de finta no moutinho e a velocidade de acelaração para o fazer. Além de que também aprecio num 10 a capacidade de finalização (não me parece ainda que esta seja uma capacidade do moutinho, mas como aparece pouco na zona de finalização devido à posição que ocupa no terreno não tenho a certeza) e penso que lhe falta a capacidade de remate a meia distância, não à entrada da área e em jeito como ele tem, mas um remate forte e colocado pelos 25 metros. Daí que tenho sempre que concluir que o 10 do Sporting se encontra vago desde Balakov

  3. Tenho ideia de que, no futebol moderno, as posições são cada vez menos fixas. Basta ver o que o Liedson faz em termos defensivos, personalizando uma máxima que é, em minha opinião, básica: quando temos a bola atacamos a baliza adversária, quando a perdemos atacamos a bola!

    E, ao contrário do Romagnoli, o Moutinho faz isso (já para não dizer que joga de cabeça levantada). Não será um 10 estilo Ronaldinho, Kaká ou Zidane, embora o francês ajudasse a defender, mas é um 10 que me parece ideal para o futebol que se pratica hoje em dia ou, pelo menos, ideal para a táctica com que o Sporting joga. Com as devidas diferenças, comparo o papel que o Moutinho pode desempenhar no Sporting com o papel que o Lampard desempenha no Chelsea ou que, quando em forma, o Deco desempenha no Barcelona.

    Quanto ao Pipi, já disse o que tinha a dizer num outro post, mas ainda assim, e a título de curiosidade, fica aquilo que o Luís Freitas Lobo escreveu na altura em que o argentino estava a caminho do Sporting:

    Técnica: Tem um perfeito domínio da bola em corrida, num estilo muito semelhante ao de Aimar. Não é um driblador típico, mas solta criatividade em cada arrancada que executa nos últimos 25/30 metros.

    Táctica: Tacticamente, cresceu muito nas últimas épocas, passando a ocupar com maior rigor a zona entre linhas atrás dos avançados e na frente dos médios mais defensivos. O seu futebol virtuoso ganhou vocação cerebral. Segura bem a bola e domina os timing de passe.

    Velocidade: Tem uma velocidade de explosão que pode marcar a diferença embora seja franzino e seja muitas vezes derrubado em falta. Poderá ser a chamada segunda velocidade num meio campo do Sporting estruturalmente lento.

    Pé direito: O seu melhor pé que utiliza, preferencialmente para conduzir a bola e executar os passes mais precisos, sobretudo curtos ou rente à relva. É raro executar passes em profundidade.

    Pé esquerdo: Embora não seja o seu pé natural, também sabe aproveitá-lo muito bem na recepção, apoio e passe curto. Uma questão de escola que nunca descura o lado ambidestro do bom futebol.

    Personalidade: Não é um líder por natureza, por vezes até parece algo tímido, mas cresce quando a bola lhe vem parar aos pés. Nesse momento parece capaz de ditar leis em campo. Nunca se esconde, porém, do jogo.

    Imaginação: Tem a escola criativa do futebol argentino de rua. Solta imaginação á medida que avança com a bola sem nunca se perder com adornos desnecessários. É a chamada imaginação objectiva.”

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