O barrote

Houve um momento neste derby que mudou tudo. Mudou o jogo, mudou os adeptos, mudou o Sporting. Salvou o Sporting. O Moutinho, o capitão Moutinho, a bandeira Moutinho, o líder Moutinho, deslizou às pernas do seu herói, Rui Costa, levou a bola com ele. Levantou-se. Protegeu a bola. Virou-se para a baliza. Avançou uns metros e quando dois adversários estavam a chegar, chutou a 20 metros. Não chutou, rematou. Com força, colocação, raiva, revolta. E a bola só não entrou, porque do lado de lá estava o melhor guarda-redes português. Mas foi ao barrote. E ainda bem, porque renasceu o Sporting. Foi aí que nasceu a minha roquidão e as minhas mazelas na perna e pé direitos. E foi aí que todos os que estavam no estádio começaram a ficar roucos. E foi aí que assisti e vivi um dos momentos mais marcantes da minha vida de estádios de futebol. O estádio acreditou. E gritou e cantou essa fé lá para dentro. E os jogadores convenceram-se que eram capazes. Não pensaram mais duas vezes. Agiram por instinto. Na base da adrenalina. Foi aí que o discurso de Paulo Bento no balneário começou a fazer sentido naquelas cabeças. É verdade que o Romagnoli tinha saído, o Derlei tinha chegado, o Izmailov começou a furar o lado direito e o Vuk saiu da esquerda para estar em todo o lado perto da bola. E o Djaló foi para a entrada da área, entre centrais e trinco. Mas isso são os ossos, os músculos, a pele. Faltava o sangue. E esse começou a entrar em campo às golfadas da bancada. Quando o Liedson (sempre o Liedson) marca o segundo, o Paulo Bento chamou o capitão. E pediu calma, passes no meio campo. Mas a bancada não deixou. Continuou a injectar sangue naquele corpo verde e branco. De tal forma que até o Derlei ressuscitou. Aquele que parecia um balde de água fria típico do fado leonino, rapidamente secou com a crença, a fé, o sangue e o suor que continuaram a jorrar das bancadas. E quando o Djaló recebeu a bola a meio-campo, não hesitou, não quis pensar, não passou para trás, com “calma”. Acelerou, ouviu a bancada, o sangue subiu-lhe à cabeça e começou a fazer bicicletas. E a bancada grita “CHUTA!”. E ele chuta e marca! E deixa de haver um quadro mental para encaixar o que passou pelas cabeças de quem já não conseguia estar mais de 30 segundos a plenos pulmões. Não há referências, um gajo procura, mas não encontra. Não há nada comparável ao impacto de um golo destes no sistema central nervoso de um adepto. E o tiro do Vuk é o ponto final. O grito de libertação. As gargalhadas de pura felicidade física. A explosão da raiva acumulada durante 60 minutos de sacríficio, de dor. Que desapareceu com aquele remate ao barrote, que salvou o Sporting.

PS: A foto de cima tem as mesmas caras da que está abaixo. Mas reparem na diferença. Naquelas expressões está tudo. Tudo o que este derby significou… não há felicidade pura, como abaixo, há emoção. Há sangue, há raiva, há cérebros à procura de referências mentais que não existem. Como aquilo que todos nós sentimos na bancada e em todos os cantos leoninos. É por isso que este derby foi único. Jogadores a agirem como adeptos.
PS2: Os saltos do Liedson no terceiro golo foram dos momentos mais sinceros do levezinho desde que está no Sporting. Uma imagem, uma metáfora do que significou isto tudo para os jogadores. E que, aconteça o que acontecer, dá o cimento para construir o futuro. Haja tijolos.

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One thought on “O barrote

  1. “(…)E ainda agradeço mais ao nosso treinador por ter conseguido incutir nos jogadores a força de vontade que necessitávamos para dar a volta àquele “estranho” resultado. E o facto de ter conseguido dar a volta à cabeça e ao coração dos jogadores, significa que os jogadores estarão com ele até ao último instante, acreditando sempre no homem que os lidera. A união faz a força e foi essa a razão pela qual ontem espetámos 5 nos lampiões! Foram de uma entrega inigualável, de um espírito de sacrifício enorme! Foram o nosso orgulho!” (…)

    oleaorampante.blogspot.com

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