Venham mais cinco

Cheguei a casa há coisa de 10 minutos e, ao tirar o casaco, voltei a sentir uma dor no ombro direito. Curiosamente, é uma dor que me faz sorrir, pois resulta da forma descontrolada como festejei os golos na passada quarta-feira.

Durante 90 minutos, o amor irracional que sinto pelo Sporting (começou há 26 anos, tinha eu cinco) atravessou todas as fases que um amor de verdade atravessa.

Durante 45 minutos sofri. A equipa que eu amo estava ali, à minha frente, levando pancada atrás de pancada, e aqueles incumbidos de defendê-la pouco ou nada faziam para evitar as constantes punhaladas rumo ao coração.

O intervalo chegou e eu, amargurado, quase ferido de morte, sentia-me afundar no verdadeiro pântano que tem sido toda esta época. Mais do que tristeza, sentia raiva. Uma raiva enorme, que pedia incessantemente para ser libertada e povoava a minha mente com a crença de que um golo, um golo apenas, podia mudar tudo.

Quando os segundos 45 minutos tiveram início, sentia as hostes agitadas. Sentia que, tal como eu, a família verde e branca apenas pedia um motivo para mostrar que no fundo, bem lá no fundo, mantinha a secreta esperança de celebrar à chuva algo realmente histórico.

E veio o remate do Moutinho. A bola embateu na barra. O meu coração voltou a bater.
E entrou o Derlei.
A curva sul renasceu e, por mais estapafúrdio que tal pensamento pudesse ser, os leões na bancada sentiam que aquele jogo nunca poderia acabar como estava.

E veio o primeiro golo. Djaló.
A minha raiva libertou-se e gritei golo com tanta força que me engasguei.
Do outro lado, a uma centena de metros, quem lançara antecipadamente “olés” sentia medo.
Faltavam 25 minutos.

E veio o segundo golo. Liedson.
A minha raiva soltou-se definitivamente e vieram-me as lágrimas aos olhos enquanto abraçava o meu irmão.

E veio o terceiro golo. Derlei.
E já não era raiva. Era toda uma época de amor incondicional espezinhado que, num golpe de ninja, me corria nas veias com sangue a ferver e me fazia escalar a vedação que separa bancadas, erguendo bem alto o meu punho cerrado com a mesma força com que punha à prova a resistência das minhas cordas vocais.

E veio o empate.
E, estranhamente, quase não o senti(mos).
Nada podia impedir aquela épica comunhão de sentimentos.

E veio o 4-3. Djaló.
E o meu coração rebentou, espalhando sangue de leão por todo o meu corpo, ao ponto de sentir as veias das têmporas pulsarem de tal forma que, arrisco eu, se fosse uns anos mais velho tinha desfalecido em plena curva sul.

Mas como ainda não sou uns anos mais velho, como a curva estava belíssima e a equipa jogava de forma fantástica, os meus olhos abriram-se e viram a bola sair dos pés do Miguel e tomar a direcção que eu, na bancada, pedida aos gritos para ela tomar. E o Vuk, que tal como os onze leões em campo parecia ouvir o que eu lhe dizia, encheu o pé e mandou-me de volta, punho cerrado e sorriso rasgado, para os braços do meu irmão. 

16 de Abril de 2008
Gostava de acreditar que esta é a data da revolução no futebol do meu Sporting. Uma revolução feita por 11 homens que mostraram estar ao lado de quem os dirige e, depois de meses de agonia, partilharam com quem os apoia a verdadeira vontade de ganhar.
Sei que os problemas da equipa continuam lá. Mas também sei que faltam quatro jogos para o fim da liga, mais a final da Taça.
Assim, e já que falei em revolução, não resisto a utilizar uma frase constante numa das músicas de Zeca Afonso: venham mais cinco!

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2 thoughts on “Venham mais cinco

  1. so hoje li este post mas fikei intrigado!! oh cherba mas tu nao tas na cadeira de rodas??? e ntao caraças como é k saltas te e abraças te o teu brother !!!!!! hummm aki ha gato!!! lolada

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