E nós?

Sousa Cintra chamou ao jogo de Leiria “um enxovalho”. Não o Sousa Cintra do Cacifo, mas o verdadeiro. A sabedoria popular deste homem está muito para lá das SADs, pólos, charutos ou whisky. Foi um enxovalho. E o Sporting do losango, dos Tiuís, dos Abéis, o Sporting de merda esteve todo lá. As razões são tristemente conhecidas e deprimente debatidas. Mas há uma que nunca é sugerida. Ou pensada.

Onde estávamos nós? Salvo raras e semi-profissionais excepções – 3000, para aí -, onde estavam os adeptos do Sporting? Quantos levantaram as peidas dos sofás e fizeram 100 e tal quilómetros para apoiar a equipa? Quantos decidiram pagar os (ridiculamente caros) bilhetes do jogo para ajudar? Onde estava aquele sangue que jorrou das bancadas contra os lampiões? Em casa, parado, anestesiado.

Não é fácil fazer o raciocínio ao contrário. Fácil é do alto das nossas vidinhas dizer que o Paulo Bento é jovem e teimoso, que o Romagnoli é uma merda, que o Miguel Veloso tira folgas em dia de jogo, que o Abel é mau, que o Rui está verde, que o Tonel tem limitações, que o Soares Franco é muito fraco, que o Sporting está a dar dinheiro a muita gente que não é do Sporting, que o clube está a perder a alma por cartões magnéticos e SADs falidas. Tudo isso é verdade… e explica quase tudo. Mas há que reconhecer.

O que é que a gente dá? Pagamos quotas, compramos gameboxes, empurramos a equipa quando ela já está a ganhar ou quando joga contra adversários emocionais. Já é muito, dirão. É. Mas não é tudo. Porque depois, assobiamos o Nani quando remata a 25 metros, insultamos jogadores de 19 e 20 anos até eles acertarem uma, perdemos a paciência com jogadores que são mais do Sporting que nós, como o Sá Pinto, o Beto ou o Carlos Martins. Moemos o juízo a gajos que depois vão brilhar para outro lado. Queremos o Dias da Cunha fora dali, fazemos a vida negra a treinadores de ataque e ainda mais negra aos defensivistas. Oscilamos entre estados de euforia e depressão, como tão bem ilustrou o Sousa Cintra (o do Cacifo, não o verdadeiro). No limite, os mais radicais tentam agredir o melhor jogador alguma vez formado em Alvalade e impedem o clube de contratar o melhor treinador do mundo.

Os adeptos somos todos nós. E também nós somos responsáveis pelo estado a que chegou o Sporting. A nossa bipolaridade impede-nos de apoiar indiscutivelmente o clube. Estamos demasiado traumatizados, é verdade. Mas estamos longe de fazermos parte da solução e, algumas vezes, somos parte do problema. Tenho poucas dúvidas de que se o estádio do Leiria estivesse cheio de adeptos a apoiar a equipa, a merda tinha sido outra. É que estavam pouco mais de 3000 mil gajos que mandavam um urros de vez em quando! Assim é mais difícil.

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2 thoughts on “E nós?

  1. Douglas,
    a questão que levantas e bastante pertinente, e até vai de encontro ao que foi noticiado ontem, no Record, “Alvalade perde 126 mil adeptos”.

    Penso no entanto que o teu “E Nós?”, pode ser visto de dois ângulos que têm uma mesma base, adeptos acomodados e conformados, mas que levam a duas questões:
    – deve criticar-se a fraca afluência?
    – deve criticar-se aquilo que parece ser uma falta de vitalidade para questionar o estado das coisas e provocar a mudança? (afinal, por bastante menos corremos presidentes e treinadores).

    O mais curioso, é que dou por mim a pensar que o que acaba por provocar ambas as situações é algo que defendes no texto (e que eu defendo também): o interiorizar de que os adeptos devem apoiar incondicionalmente a sua equipa. No fundo, interiorizar do discurso que nos pede paciência e nos pede para acreditar num projecto que precisa de tempo (e que eu considero utópico, porque todos os anos vemos partir um dos jogadores que seriam a base desse projecto e da equipa que o mesmo defende).

    Penso que isso explica a forma simpática como se aceitou a merda de exibição e consequente eliminação com o Glasgow ou, mais recentemente, como não houve uma recepção negativamente calorosa depois da humilhação a que fomos sujeitos em Leiria.

    E penso que explica igualmente a fraca assistência nesse jogo (disputado naquela que, se não me engano, é a segunda cidade portuguesa com mais sportinguistas): os adeptos leoninos estão à beira de um ataque de nervos e sabem que, indo ao estádio, é meio caminho andado para esses nervos se transformarem em assobios, traindo o desejo de apoiar incondicionalmente.

    Domingo lá estarei, apoiando rumo ao segundo lugar. Se por acaso as coisas correrem mal, não vou assobiar (nunca o fiz, acho que não sou capaz), mas por certo vou abandonar o estádio questionando a razão pela qual eu (nós) não faço nada para tentar alterar o que acho que vai mal no meu clube.

  2. Sou leitor do seu blogue e sei que anda atento à porcaria que para aí vai no futebol, mas fique de olho no que se passa no Sporting porque os que andam lá dentro não são melhores que o Bruno Pidá. Investigue aquilo que está a acontecer na convocação da assembleia extraordinária.
    Já fiz parte da Juve Leo, ainda tenho muitos contactos na claque e no clube e já falei com pessoal que conhece os elementos do movimento que está a tentar convocar a assembleia. Disseram-me que primeiro foi o Rogério Alves que pediu 45 mil euros para despesas, agora é a direcção que se recusa a dar informações necessárias para a oposição preparar a assembleia e apresentar propostas e também já houve ameaças de pancada quando eles estiveram no estádio a recolher assinaturas.
    Pior: em certos círculos da Juve diz-se que o … prometeu dinheiro a alguns arruaceiros da claque para destabilizarem a assembleia, para não deixar discutir nem votar nada, porque os pontos são muito incómodos e implicam com muita porcaria desta e outras direcções (MDC, Lima Carvalho, etc.)., a ordem dele é que “a AG não pode chegar ao fim”. Ele é useiro nestas coisas e disto sei eu porque sei como ele comandou a bancada sul para insultar o Dias da Cunha e o Peseiro (mandava ordens por SMS) e como já agitou outras assembleias. Você sabe que ele tem na mão alguns jornalistas, oferece bilhetes, viagens e jantares, mas ele também domina alguns capos das claques e dá dinheiro por baixo da mesa para as claques estarem sossegadas e não haver contestação à direcção, se você se lembrar de como foi no tempo do Materazzi vê logo a diferença, foi só haver dois empates e houve logo dirigentes a levar bofetadas, agora estamos a vinte e tal pontos do primeiro e andam a vender o clube aos bocados mas está tudo no sossego…
    Também lhe digo que a direcção tem um plano para dar cabo da assembleia geral e exterminar a oposição que começa a haver, disseram-me que eles estão a planear eleições antecipadas para não darem tempo à oposição de se organizar e poderem concorrer só com uma lista. Andam a ligar a alguns ex-apoiantes do Abrantes Mendes, a prometer lugares, para haver uma lista “de consenso” para calar os críticos. Eles já têm um plano para meter o estádio e a academia na SAD, até já fizeram avaliações porque já está fechado um negócio com o BES para vender tudo logo a seguir sem a autorização dos sócios. Primeiro pedem aos sócios para autorizarem, dizem que é só engenharia financeira para passar para a SAD, e depois vão vender a outro logo a seguir sem pedirem nada a ninguém. Este negócio é muito importante para o BES e para o Soares Franco, que é empregado do banco e deve-lhe dinheiro, e eles não podem arriscar que a oposição ganhe força para pôr em risco esse negócio, por isso querem calá-los rapidamente

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