Caneirada II e III

“Tenho comigo essa característica há uns anos e também tenho conseguido desenvolver essa liderança por esses campeonatos fora. Sinto-me, sem qualquer tipo de problemas ou preconceitos, o grande líder desta equipa do Sporting”

“Tudo parte de cima e aí [o Sporting] tem as pessoas certas neste momento. O presidente Soares Franco, Ribeiro Telles, Rita Figueira, que lideram a parte se calhar não tão vista para fora mas que é muito importante para sustentar a sociedade. (…) Quando as coisas estão bem, não há que mudar.”

Record, 2/8/2008

A fusão entre estas duas caneiradas torna os propósitos do Caneira bem claros. Há estratégia nesta entrevista. E permite perceber coisas interessantes para o futuro do clube. Mata o tabu do Soares Franco. É óbvio que se recandidata, desde que tenha as condições mínimas. Para solidificar a sua posição junto dos sócios, procura ganhar apoios no balneário. É bom ou mau para o Sporting? Mais uma vez, depende dos resultados.
Quanto ao balneário, esta auto-proclamação pode ser importante. Mas para fora. É óbvio que os líderes não se apregoam. E é claro também que todos os jogadores do Sporting já sabem que o Caneira é o líder. Ele não fez esta declaração no chuveiro nem na piscina. Ele disse-nos a nós o que todo o plantel já sabia. E quando o soube, soube-o naturalmente. Mas, neste momento, os adeptos precisavam que lhes fosse assegurado que o “abalo” que o Moutinho causou está a ser resolvido. E que há gente lá dentro a assumir as suas responsabilidades. Eu prefiro que haja alguém que se levante e diga “ok, isto é fodido, mas temos de andar para a frente”, em vez de ficarem todos sentados a conspirar sobre o que se vai passar.

E é aqui que se juntam as caneiradas: o Caneira está intimamente ligado à SAD. Tem a confiança dos superiores e é, ao mesmo tempo, um deles no balneário. Os grupos que se geraram naturalmente – os brasileiros e os putos, basicamente, agora que a balcanização foi dissolvida – vão ouvir o que o Caneira tiver para dizer. Porque na parte detrás do seu cérebro, estará sempre a pairar a possibilidade de, se antagonizarem o auto-capitão, podem criar anti-corpos nos signatários dos seus contratozitos. No fundo, era o que se passava com o Jorge Costa no Porto, com o Humberto Coelho no Benfica.

O outro claro sintoma desta parte da entrevista é que o Moutinho não é o verdadeiro capitão. Era o capitão que ganhou o respeito da equipa em campo. Mas não era o tipo para resolver os amuos do Vuk, as birras do Liedson, o apagamento do Izmailov, as dores de burro do Pipi, os perus do Patrício, os refrigerantes do Veloso ou os excessos do Tonel. Esse papel estava nas mãos do Paulo Bento. E isso não chega. É preciso alguém ao mesmo nível mas com autoridade moral para que as coisas se resolvam. O treinador tem a cenoura e o pau. É ao burro do lado que se tem de ir buscar o exemplo para continuar a puxar a carroça. O Caneira é esse burro. O Sá Pinto era esse burro. Não está aqui em causa, apenas, a identificação com o clube. Nisso, o Moutinho era, até aos infames 15 segundos, uma boa aposta. Mas é preciso mais. O Caneira tem a autoridade leonina (ainda que um pouco forçada), tem a autoridade dos superiores (a sintonia com o Paulo Bento é quase familiar e com a SAD é “just business”) e tem a autoridade dos intangíveis. Aqueles factores que não são visíveis de fora. Aqueles que levam a que todo um grupo de onze jogadores concentre os olhares num só jogador no preciso momento em que a equipa sofre um golo num jogo decisivo, à procura de alguém que assuma o comando e os guie de novo para o jogo. (Quem viu o épico da taça no estádio, percebeu que sem o Derlei o Sporting não ganhava aquele jogo. E percebeu-o muito antes de ele entrar em campo).

Uma imagem: o Figo a ir buscar a bola ao fundo da baliza depois daquele golo contra a Inglaterra. Não é o gesto que importa. É um acto natural em qualquer jogador normal. É o olhar. É a expressão naquela cara que nos diz que está ali o líder daquela equipa.

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5 thoughts on “Caneirada II e III

  1. Muito bom.

    Espero que apareçam os resultados para que a tua teoria sobre o impacto no balneário se concretize.
    Temo que a interpretação do Polga seja, “és o nº3
    não saltes por cima de mim que sou o nº2, ou vou fazer birras em conjunto com o Liedson até final da época”
    Mais uma vez, espero estar redondamente enganado.

    Em relação à direcção, não podia estar mais de acordo. Business.

  2. Bela análise.
    Reitero apenas a preocupação já expressa pelo Meszaros. Ou seja, os eventuais “grãos” que possam surgir na engrenagem desta transição de liderança em relação ao clã brasileiro.
    Mas quero acreditar que há sintonia no balneário. Por muitos defeitos que tenha, nessas merdas o Paulo Bento tem algum mérito: mesmo na fase mais crítica da época passada, sentiu-se o balneário a remar todo para o mesmo lado (quando seria fácil, por exemplo, repetirem-se os cenários dantescos do balneário do Peseiro). E quando olho para o plantel actual, quando olho para um Caneira, um Polga, um Roca ou um Ninja, confesso que não vejo nacionalidades. Vejo referências. Líderes naturais. Espero que o grupo também faça essa leitura.

  3. Bem visto, Jordão. E olha que entre o Custódio e o Moutinho, a braçadeira ainda esteve no braço do Ricardo. Essa sim, uma verdadeira vozinha de comando.

  4. Penso que tanto no caso do Moutinho como no do Custódio, a opção do Paulo Bento teve um fundamento: entregar a braçadeira a jogadores formados no clube, permitindo-lhes crescer com essa mesma responsabilidade, até porque havia outras vozes de comando no balneário capazes de escudar os putos.

    Acontece que, na época passada, a equipa ficou sem vozes de comando (à excepção do Derlei, como ficou comprovado na meia-final e na final da Taça de Portugal) e o Moutinho quase que sozinho na tarefa de ser o eco das ideias do treinador.

    Não tivessem sido aqueles 15 segundos à saloio, o Moutinho continuaria a envergar a braçadeira com a nossa total aprovação, tendo mais do que nunca uma segunda linha de vozes de comando que o amparassem em mais uma etapa do seu crescimento enquanto líder.

  5. A brilhante análise feita pelo Douglas só põe em evidência uma pessoa: o Paulo Bento. Porque foi ele que escolheu o Moutinho. Tal como tinha sido ele a escolher o Custódio. Ou seja, por duas vezes, entregou a braçadeira de capitão a jogadores que não eram líderes de coisa nenhuma. E isso é grave. O Caneira é líder porque tem perfil, carisma, experiência e é politicamente bem relacionado. Por isso, é um líder natural.

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