Últimas caneiradas

Caneirada IV
“Pode-se começar em 4x4x2 e passar para o losango. O esquema pode ser determinante mas o que importa é, acima de tudo, os jogadores dentro do próprio sistema”.

Record, 2/8/2008

Não é das ideias mais originais da entrevista mas é a mais reveladora sobre o Sporting 2008/09. Há muitas coisas importantes para atingir o sucesso desportivo, mas eu sou um pouco Luís Freitas Lobo nas minhas convicções. Dois aspectos são determinantes para chegar lá: os jogadores e a táctica. O individual e o colectivo.

Quando não há grandes jogadores, a chave é a capacidade de usar uma óptima organização para tapar as deficiências da equipa. Isso foi feito na primeira fase da vida do losango pelo Paulo Bento, que pôs fim às loucuras peseirentas. Mas faltou sempre dar o salto. Porque, de repente, o sistema táctico do Sporting era o mais discutido nas tabernas. E quando os bêbados acertam na táctica das equipas é porque o esquema tornou-se demasiado previsível.

O Caneira fala em “começar” no 4-4-2 e depois mudar para o losango. Se a equipa tiver capacidade para fazer essa mutação, aumentará muito a capacidade competitiva. Contra a Samp, viu-se um cheirinho dessa mutação, mas ao contrário. Com entrada do Veloso e do Pereirinha, os movimentos colectivos foram mais de 4-4-2 clássico, ainda que o Moutinho tenha jogado à frente do Veloso. O Sporting usou mais os médios ala para estender o jogo e centrar para a área. E os avançados deixaram de receber a bola nos flancos para passar a ficar mais no meio, a cortar nas costas ou a finalizar centros (como quando o Postiga falhou grotescamente um cabeceamento sozinho). Os movimentos do Djaló foram paradigmáticos. Na primeira parte, o Sporting só furou, em ataque organizado, quando ele escorregava para a direita para abrir linhas de passe no corredor. Fê-lo duas vezes com sucesso (depois decidiu mal). Na segunda parte, as melhores jogadas saíram do apoio dos defesas laterais ao Izmailov e ao Pereirinha, com o Moutinho sempre a dar tempo para alimentar essas subidas. O Djaló prendia os centrais, libertando o Postiga (vide cabeceamento desastroso). Resta uma incógnita muito importante: Rochemback. No losango clássico, o seu jogo à patrão não é capitalizado num dos vértices do losango. Na adaptação ao 4-4-2, ou joga no meio com alguém ao lado (Moutinho ou Veloso) ou fica demasiado exposto aos seus defeitos (sozinho atrás não segura o meio-campo, a 10 fica com pouco espaço à frente para distribuir).  

Como o Caneira diz, são precisos jogadores que saibam mudar o “chip”. Ler o jogo para melhor aproveitar as duas tácticas. Moutinho é o jogador perfeito para isso. Infelizmente ainda há os “15 segundos infames”. Se os jogadores não conseguirem fazer a mutação a meio do jogo, o Paulo Bento pode estar a dar um passo maior que a perna. E todos – ele, nós e os jogadores – ficaremos tão frustrados como naquele jogo, há dois anos e pouco, em Alvalade quando o Porto fez a festa com o golo do Jorginho. Porque é sinal que, desde aí, a equipa não conseguiu crescer o que precisava para ganhar. 

Caneirada V

“Quiseram passar esses direitos dos jogadores, do grupo, para uma empresa que não estava liga à Federação (…). E eu expressei o meu ponto de vista, que não estava de acordo. Foram questões externas [que me afastaram] da selecção´.”

Record, 2/8/2008

Às vezes esquecemo-nos da importância da selecção nacional para tarados como nós. 22 anos depois de Saltillo e seis depois de Macau, o desempenho de Portugal em mais um dos cíclicos pontos altos da história do futebol voltou a ser enxovalhado pela mesquinhez e provincianismo típicos deste país ainda a gatinhar para fora do esgoto histórico. É pena, porque podíamos, com alguma sorte e, sobretudo, com muito mais competência, ser bicampeões europeus… Mas ao menos houve gente que ficou um bocadinho mais rica… menos mau…

Caneirada Extra

“É verdade que [o estabelecimento de leitões Caneira em Negrais] não tem nenhuma ligação comigo e muitas vezes existe esse equívoco”

Record, 2/8/2008

Choque! Não posso acreditar! E eu que trincava aquele bacorinho cristaliço com uma infantil convicção de que estava a viver um momento cumplicemente leonino… Este início de época é desilusão atrás de desilusão…

 

3 thoughts on “Últimas caneiradas

  1. Fezada da época, nº2 (a nº1 está no post anterior):
    O sporting não vai jogar com um, dois, ou três sistemas. Paulo Bento vai abrir um novo horizonte táctico no futebol mundial, o “poli-sistema”. Porque todos os jogadores vão saber lidar com o tal chip de que fala o Caneira. Menos o Ronny, que vai engolir o chip dele e rachar um dente. Chegaremos ao fim da época com um saldo de 80% de vitórias, sem que consigamos ao certo perceber se jogámos em 4x4x2 em linha, 4x4x2 losango, 4x3x3 trapézio, 4x1x3x2 duplo triângulo isósceles, 7x1x2, 4x5x1 ou o raio c’o parta. Mas ganhamos. E ficamos contentes. E o Luís Freitas Lobo corta os pulsos, por não conseguir encaixar setas suficientes nos esquemas que vai querer desenhar para as crónicas da Bola e do Expresso, a explicar como joga o Sporting. Sporting sempre. Caralhos fodam o losango.

  2. Desculpem lá o seguinte:
    Abro assiduamente este cacifo e eu, como muitos de nós não conseguimos entender a paralisia cerebral que deu no Moutinho. E de tanto ouvir falar em Caneiradas, deu-me um click: Já repararam que o Moutinho é Capitão por simpatia e por capacidade de entrega mas não o será por se impor no balneário. Convenhamos que deverá ser um pouco difícil ao anãozinho ter voz grossa o suficiente para se fazer ouvir. E imaginem o Caneira, com um ego condizente com o seu porte físico, a ouvir e obedecer a um pisco com o Joãozinho. E um Rochemback, um Postiga, um Tonel… Até eu tinha vontade de fugir….

  3. Rudolfo,
    A questão não é o Moutinho ter ou não “envergadura” para usar a braçadeira. Até há 15 dias isso era inquestionável: era o capitão e ponto final. E não seria um qualquer Fernando Aguiar (uso este nome para ilustrar um energúmeno com físico de wrestler) que ousaria colocar em causa a entrega, dedicação, profissionalismo e amor à camisola do Moutinho. Ou seja, o comando, por muito pouco “físico” que fosse, estava entregue e bem entregue. O problema foi o Moutinho ter desbaratado tudo isso em três pequenas infelizes frases. Mas pronto… isso já foi mais do que esmiuçado neste blog. Resta apanhar os cacos desta tempestade, colar tudo rezar para que a coisa chegue intacta ao fim da época.

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