ATRACÇÃO PELO ABISMO

O jogo de ontem dispensa, pela recorrência dos incidentes, a análise normal do Cacifo. Quem quiser saber porque é que o Sporting perdeu dois pontos, pode socorrer-se da secção “jogo-a-jogo”, onde os erros de ontem estão mais do que reflectidos.

Importa, antes, perceber o que está a passar-se na cabeça do Paulo Bento. Quem leu o “Eurico, o presbítero” (quem leu?), lembrar-se-á daquele episódio em que Hermengarda atravessa a ponte para, finalmente, chegar a Eurico. Em determinado momento, ela olha para baixo, para o abismo e o sr. Herculano dá-nos conta da atracção que ele exerce sobre o ser humano, desestabilizando a mente e enfraquecendo a razão. Quando se vai na auto-estrada a 150 km, um simples gesto no volante leva-nos imediatamente à tragédia. Quando se está numa situação social delicada, a palavra errada pode provocar consequências imprevisíveis. Quando, nesses momentos, se pensa nisso mais que cinco segundos, é porque o abismo está a chamar. O bom senso e a noção da punição que esse passo traria, coloca-nos de novo no caminho certo. Até ao Eurico.  

Insensatez e impunidade. São estes dois conceitos que dominam a mente do treinador do Sporting. Há quem possa pensar em estupidez e burrice, mas eu prefiro valorizar racionalmente o homem. Paulo Bento está a olhar para o abismo e aceita isso tranquilamente. Ele continua a dizer as coisas erradas nas situações erradas e guina o volante, sem razão nenhuma, em plena auto-estrada. Futebolisticamente falando, continua a meter os jogadores errados nos sítios errados nos jogos errados nos momentos errados. E, como Hermengarda, ele sabe qual é a opção certa. Mas resiste… a atracção pelo abismo é mais forte. Vukcevic a titular, Moutinho no meio, Djaló com Liedson, Izmailov sempre em campo. Isto é o Eurico de Paulo Bento. Mas ele continua a meio da ponte.

Porquê? Porque a teimosia é irmã gémea da insensatez. E porque sente-se inimputável. Não tem medo das consequências, porque não há consequências. O Sporting vive na era da impunidade. Os casos, os pontos perdidos, os erros tácticos e técnicos, o discurso taberneiro, a paranóia arbitral. Tudo isto faz mal ao Sporting. Penaliza o clube e os sócios. Envergonha a história da instituição. O Paulo Bento é irrelevante nesse cenário. Não representa nada. E alguém devia tornar isso claro ao senhor. Porque de tanto olhar para baixo, o Paulo Bento começa a ter muito pouca margem para fugir à força de sucção do abismo. O pior é que quando ele se atirar, leva-nos a todos na queda.

4 thoughts on “ATRACÇÃO PELO ABISMO

  1. “Paranóia arbitral”? Acha mesmo que se trata de paranóia ou evidências?
    “Envergonha a história da instituição”? O que envorganha a história do Sporting Clube de Portugal é ganhar 4 taças em 3 anos? É ir à Champions 3 vezes seguidas? É estar entre os 16 melhores da Europa? É ter um orçamento 3x menor que os adversários e ter resultados melhores? É jogar, pelo menos com 6 portugueses a titulares? É ter no plantel principal 8 jogadores da formação?
    Ou será estar 17 anos sem ganhar um campeonato? Ou será ter jogadores que mandam o treinador “tomar no cu” e voltarem a ser titulares? Ou será ter 4 treinadores por época? Ou será iniciar a pré-época com 8 jogadores como no tempo de Amado Freitas e Jorge Gonçalves? Ou será vender jogadores da formação à primeira proposta?

    Ontem quando ouvi a equipa titular achei que Bento não estava a ser justo. Mas porra, há valores! A entrevista de Veloso (pai) ao Correio da Manhã é nojenta! As palavras de Paulo Barbosa são nojentas! Eles só disseram o que Veloso (filho) pensa, mas não tem coragem de dizer, frontalmente, a Bento. Estes senhores deviam agradecer ao Sporting de ter dado um ganha pão para a vida aos 3, agradecer por ter livrado o Veloso do Benfica, logo deram-lhe a oporunidade de ser jogador de futebol, e de o ter livrado de hoje ter obesidade mórbida, pois era para aí que caminhava quando o Benfica o expulsou!

    Bento vai sair no final da época. Até lá apoiem-no. Nas eleições votem demonstrem o seu desagrado, mas até lá sejam por um só Sporting!

  2. cantinhodomorais,
    apoiar é aquilo que mais temos feito. Aliás, se esteve ontem no estádio, viu a forma como, até ao apito final, a equipa foi incentivada.

    Acontece que a paciência tem limites e quer-me parecer que o Paulo Bento já ultrapassou todos esses limites. Claro que a culpa não morre solteira, e para este clima de impunidade em que navega o Sporting em muito contribui a ausência de um presidente que perceba minimamente de futebol ou de um director desportivo que se faça ouvir.

    Perante a ausência de uma estrutura para o futebol profissional, Paulo Bento foi transformado em toda essa estrutura e é hoje rei e senhor do futebol profissional do Sporting. É ele que fala sobre todo e qualquer assunto, É ele que, com carta branca da direcção, gere tudo e todos a seu belo prazer.

    Diz no seu comentário, que quando ouviu o onze titular achou que o Paulo Bento não estava a ser justo. Não deixa de ser engraçado, que esse sentimento de injustiça o leve a falar apenas do Miguel Veloso. Então, meu caro, acha normal que o Djaló saia da equipa? E o Vukcevic? Acha normal que, sem jogos a meio da semana ou qualquer necessidade de rodar a equipa, se altere uma estrutura que até tinha conseguido marcar três golos em dois dos últimos três jogos?

    Eu não acho e acredito que milhares de sportinguistas também não achem. Acontece que, e como o Douglas tão bem escreveu, “o Sporting vive na era da impunidade”, ou seja, o Paulo Bento sabe que, faça o que fizer, vai continuar cantando e rindo como treinador do Sporting. E, neste estado de saturação que atravessa o universo de adeptos leoninos, corremos o risco de, nas próximas eleições, vermos o clube ser entregue a um qualquer palerma que se apresente como alternativa.

    Ah, e por favor, não me peça para sentir-me realizado com taças e supertaças ou por ir à Champions sendo o primeiro dos últimos. Eu quero é ser campeão!

  3. Que grande, grande post! Infelizmente para todos nós, a análise é mais do que correcta.

    Eu até gosto do PB, mas entre a teimosia dele e o vazio enorme que se fez à sua volta, estamos perder a melhor oportunidade dos últimos tempos para sermos campeões.

    Entristece-me isso e assusta-me a falta de alternativas credíveis…

  4. Excelente análise, Douglas. Assino por baixo.

    Cantinho do Morais, deixo-te algumas notas e perguntas:
    – Prefiro ganhar (só) um campeonato de 3 em 3 anos do que ganhar uma Taça ou Supertaça por época.
    – Porque joga o Romagnoli?
    – Preferia jogar, por sistema, um futebol agradável – mesmo só sendo campeão de 3 em 3 anos –, do que jogar este futebol de segunda divisão austríaca para ganhar umas tacinhas que não levam ninguém ao Marquês de Pombal. O mesmo é válido para os consecutivos segundos lugares para ir à Champions. É fixe, e tal, mas é suposto ficarmos felizes só com isso? E quando percebemos, a meio de uma época, que não vamos conseguir passar novamente desse registo, é suposto continuarmos felizes?
    – Outra coisa…. porque joga o Romagnoli? Será porque está em forma?
    – A aposta na formação e os “seis portugueses titulares” não são mérito exclusivo do Paulo Bento. Era o que mais faltava ter de engolir esse argumento! Essa é a estratégia de fundo na gestão do clube nos últimos 10 anos, portanto não me venham agora apresentar essas estatísticas como fruto do trabalho do homem. Aceitava esse argumento se, por exemplo, o visse a trabalhar de forma coerente na transição dos putos dos juniores para a equipa sénior. E aproveito para deixar a pergunta: tirando o Carriço, há algum puto que actualmente, na transição para o plantel principal, continue a jogar na posição em que fez toda a sua formação? Não, pois não? E, pergunto, isso faz algum sentido?
    – Pergunto-te outra vez… porque joga o Romagnoli? Será porque não há opções?
    – A qualidade do futebol praticado por uma equipa não é (não pode, não deve ser) um “pormenor” na análise global ao trabalho de um treinador. Nos meus 26 anos de memória lagarta não recordo uma fase tão prolongada de desânimo, descrença, tédio, aborrecimento, marasmo, aborrecimento, sonolência… já disse aborrecimento?, ao ver o nosso clube jogar. Já lá vão 3 anos desta merda, porra! Não é normal esta sensação de sacrifício que atravessa actualmente o espírito dos adeptos em dia de jogo. Militância? Ir ao estádio ver aquilo já roça a auto-flagelação, foda-se!
    – Olha lá… e porque joga o Romagnoli? Será porque é melhor que os outros?
    – O Paulo Bento tem mérito por ter feito o que fez com orçamentos e plantéis muito mais escassos do que os concorrentes directos. Mas não me parece intelectualmente honesto que esse handicap seja agora o mote universal para absolver todas as falhas do homem. O facto é que ele tem agora em mãos o melhor (e mais equilibrado) plantel do Sporting nos últimos 15 anos. Mas continuamos a jogar como se lá estivessem os Purovics, Farneruds, Gladstones e Paredes de sempre. Isto faz sentido?
    – Mudando de assunto… porque joga o Romagnoli? Será que é só por teimosia do Paulo?
    – Por que carga de água não pode o adepto do Sporting ter uma cultura de exigência em relação a quem gere/treina/joga no Sporting? Porque é que, sempre que contestamos uma opção, criticamos uma decisão ou nos irritamos com uma teimosia exagerada, somos apontados a dedo como uns infiéis, uns injustos, uns anti-sportinguistas? Já chegámos à Venezuela?
    – Consegues explicar-me, porra!, porque joga o Romagnoli?! E será que na estrutura da SAD ninguém pergunta ao Paulo Bento, no fim de um jogo como o deste fim de semana, porque caralho jogou o Romagnoli 60 minutos?!?!
    – Não menosprezemos o sinal de repulsa que os adeptos estão a manifestar em relação à qualidade do futebol do clube. Por mais cambalhotas que se dêem para justificar as míseras assistências que estamos a ter em Alvalade, há um factor que estará sempre à cabeça: ninguém gosta deste tipo de espectáculo (?). Temo, aliás, que no balanço da sua passagem pelo Sporting, esse afastamento dos adeptos possa ser uma das principais marcas do Paulo Bento. E isso será mau. Para todos. Mas sobretudo para nós. Porque ele irá treinar outro clube qualquer. E nós por cá ficaremos, a lamber as feridas.

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