O estranho caso das bolas paradas

Duvido que algum Sportinguista ainda não se tenha questionado sobre se, em Alcochete, se treinam lances de bola parada. Eu confesso que, olhando para os nossos jogos, aposto no “não” como resposta.

Dizem as estatísticas que, desde que a época começou, já tivemos a nosso favor mais de 130 cantos. Dizem também as estatísticas que, desses momentos que resolvem cada vez mais jogos no “futebol moderno”, nós aproveitámos um, logo na primeira jornada, com uma cabeçada de Tonel.

É verdade que houve evolução, pois deixámos de marcar aqueles cantos patéticos à maneira curta, mas eu não consigo aceitar que não consigamos aproveitar estes lances. Como é possível, por exemplo, ter vinte cantos a favor, mais não sei quantos livres nas laterais da área, e não marcar sequer um golinho? Sim, isto aconteceu. Na Trofa.

E depois… os livres, um pequeno pormenor que em muito contribui para que a minha tolerância relativamente ao Roca seja zero! Já alguém experimentou deixar o Vuk e o Izmailov marcarem os livres? Já alguém pensou que é ridículo, quando temos cantos a favor, o Vuk raramente estar dentro da área?

Pronto, Paulo, a folha do bloco que te envio esta semana pede atenção a estes lances. Talvez seja uma mariquice minha, mas esta coisa chata de treinar cantos e livres pode render, pelo menos, 15 pontos no final do campeonato. E três podiam vir já amanhã.

p.s. – prometi a um dos nossos leitores, o Jedi, que explicava a minha teoria do 3-5-2 e, como o prometido é devido, aqui vai.
Patrício; Polga, Carriço e Miguel Veloso; Pereirinha, Moutinho, Adrien (ou Roca) e Izmailov; Vuk (completamente solto, a vir buscar jogo ou a criar superioridade nas laterais); Liedson e Derlei (ou Djaló)

A defender, e se fosse necessário, o 3-5-2 rapidamente passava a 4-4-2 (Pereirinha a recuar p def direito, Veloso a defesa esquerdo, Vuk a fazer de médio direito) ou a 4-5-1, com o Derlei ou o Djaló a descerem um pouco mais, para posição 10, deixando sempre o Liedson mais adiantado.

Obrigado, Marcos

Numa altura em que os posts do Cintra e do Douglas apaziguaram as dores de espírito, a minha memória fez-me recuar precisamente à época em que festejámos o fim da abstinência de títulos.

Nessa época 99/00, existia no plantel do Sporting um central brasileiro chamado Marcos que, depois de dar nas vistas no Rio Ave, rumou à Holanda, para jogar no PSV. Pouco ou nada utilizado, Marcos acabaria por chegar ao Sporting, para substituir Marco Aurélio, entretanto vendido no mercado de Inverno. Como está bom de ver, o pobre Mirko Jozic (claramente no meu top 5 de treinadores que passaram por Alvalade) nada ganhou com esta troca e acabámos por ficar em 4º lugar.

Nova época, novo treinador. Chegava Giuseppe Materazzi que, disse ele há uns tempos, quis trazer o filho para Alvalade. Não o deixaram, e o italiano teve que contentar-se com o Marcos, o mesmo que viria a dar a machadada final na curta carreira do Giuseppe pelas bandas de Alvalade ao meter as duas mãos à bola, dentro da área, contribuindo de forma decisiva para aquela vergonhosa derrota na Noruega, contra o Viking (3-0), e consequente eliminação da UEFA.

Materazzi foi corrido e chegou Inácio. O resto, todos nós sabemos de cor.

p.s. – só por curiosidade, no jogo em que Marcos se estreou, frente ao Desportivo de Chaves, alinhámos com a seguinte equipa: Tiago; Patacas, Beto, Marcos e Heinze; Pedro Barbosa, Vidigal e Vinicius; Simão, Krpan e Edmilson, tendo entrado, durante a segunda parte, Santamaria e Acosta. Se com esta verdadeira árvore das patacas acreditávamos no título, não podemos deixar de fazê-lo agora.

Camisola 10

vuk

É num quarto escuro, que qualquer luz brilha de forma mais intensa. É neste fundo em que batemos, que mais valor dou a este fabuloso jogador de futebol. Há muitos anos que não via um jogador tão bom com a camisola do Sporting. E não é só tecnicamente. Isso também o Izmailov é. Também o João Pinto foi. Há muito anos que um jogador não me enchia todas as medidas. Todos os remates são a sério, mesmo os disparatados. Os centros são perfeitos. A luta pela reconquista da bola é até à morte. O controlo e posse de bola é perfeito, ou em técnica ou em força. O passe é bem medido. As acrobacias são loucas mas, muitas vezes, criteriosas. E, depois, há a paixão. A paixão de jogar à bola, a felicidade de fazer as coisas melhor que os outros, a frustração quando não consegue. Até a sua recuperação psicológica é uma lição de humanidade. E os erros que tanto me custaram, só dão agora mais brilho às exibições. Até a persona extra-futebol é fascinante…

Em apenas uma semana, guardo dois lances na memória, que dizem tudo: o calcanhar para o Derlei; e, mais importante por mais revelador, o minuto que passou deitado no chão, com as mãos na cabeça, no final do jogo contra o Braga. Está tudo ali: de rastos, fisica e animicamente. Sem vontade, nem forças para cumprimentar adversários, colegas ou adeptos, como todos os outros fizeram. O que se passou não foi normal. Não pode ser normal no Sporting. Não foi mais um jogo. E o Vuk mostrou, ali deitado, isso mesmo.

Desde Balakov que a camisola 10 não estava tão bem entregue. Desde Balakov que eu não tinha no Sporting um jogador que me fascinasse tanto.

Eu quero extraordinariamente que o Sporting seja campeão este ano. Para este jogador ficar na história do clube. Para celebrar com ele. Se não acontecer, na minha história, ele já está. Só espero que fique e não tenha ter ser escondido também, lá no fundo de uma gaveta do meu cérebro.

Resumidamente

“O treinador do Sporting saberá melhor do que ninguém as opções que toma. Mas ao ver a equipa jogar fica a sensação de que não existe muita gente a acreditar que o título é realmente possível“, Luís Sobral, in MaisFutebol, após o empate na Trofa.

Uma semana depois, o raciocínio continua a fazer todo o sentido.

AI JESUS

Nível de endorfinas: Dolorosamente negativo. Um banho táctico e um grande par de tomates de Jorge Jesus. Ponto. O Braga é a melhor equipa da Superliga? Atendendo aos jogos com os grandes, não tenho dúvidas. Mas isso não chega. O calcanhar de Jesus é assumir os jogos como favorito. Mas quando a pressão está do outro lado, ui, ui… tem dado lições a todos. E, sem roubalheiras, estaria em primeiro.

Momento-chave: Entrada de Matheus em campo.

Prémio Zé Piqueno: The one and only, Derlei. Mas quando usa, de forma leal, a agressividade na disputa de bola, está a fazer um serviço à equipa.

Prémio Gladstone: Abel. No geral.

Prémio El Dieguito: Vuk e Izmailov. Fazem mais de 90% das coisas bem, são os únicos, com o Liedson, capazes de jogar com o bafo do adversário no pescoço, têm uma técnica impressionante… eles e o levezinho merecem mais deste Sporting…

Visão Zeman: 4-4-2, de início. Não está a correr bem isto. A lentidão é assustadora porque, ao habitual medo de errar, junta-se a falta de rotinas. Resultado: só se joga com os defesas laterais, que tentam jogar com os extremos. Alternativa: joga-se directamente nos avançados. O ponto forte do sistema está, contudo, no meio. No Moutinho e Roca que, com extremos, têm mais espaço para subir com a bola. E, depois sim, meter nas costas dos defesas para extremos e avançados. Falta rotina. Se tivesse sido usado desde meados da época passada…

Já este Braga de Jesus não dá hipóteses a equipas lentas a assumir o jogo, seja qual for o sistema. Meio campo perfeitamente colocado, pressão alta e centrais sempre a apertar. Com a bola dos pés, impecáveis. O Sporting não recuperou bolas, praticamente.

Na segunda parte, Paulo bem na substituição e, depois, um desastre… Jesus meteu o Mossoró no 1-0, para dar critério e posse de bola nas saídas para o ataque. Já Tiuí por Pereinha foi um disparate, porque deixou Abel em campo e, sobretudo, porque tirou Vuk de perto da área. Ainda assim, empate aos trambolhões, do céu. E eis que Jesus nos presenteia com o seu belo par de colhões. Alvalade ao rubro a puxar a equipa? Então tomem lá o Matheus. Mudou o jogo, porque retraiu a defesa do Sporting com quatro avançados e, com o jogo a partir-se, matou-o num contra-ataque em superioridade numérica. Depois, foi deliciar-se com a sua audácia.

Está tudo aqui: Paulo Bento deve estar a pensar… porque é que não congelámos o jogo a seguir ao golo? Porque do outro lado estava alguém com mais coragem, arrojo e que tinha feito o trabalho de casa. E, talvez, porque do outro lado estava alguém… melhor.

Vivó Sporting… até morrer!: Racionalmente, temos de ganhar os dois jogos grandes. Ganhando, estamos na corrida e com a vantagem anímica que entretanto perdemos. Emocionalmente, quem põe dinheiro neste Sporting?

O caminho da eficácia

“Em termos defensivos temos números de uma equipa que pode ser campeã. Em termos ofensivos falta maior eficácia, para termos mais alguns pontos. Aquilo que o Sporting produz e cria não tem tido reflexo em termos de eficácia”, Paulo Bento, na conferência de imprensa que serviu de antevisão ao jogo desta tarde/noite, frente ao Braga (Alvalade, 19h).

Pois é, Paulo, eu acho que há jogos em que o Sporting pouco ou nada tem criado e, também por isso, pouco tem marcado. Depois há as opções técnicas e tácticas que tanto me aborrecem e que ajudam a explicar alguns resultados menos conseguidos. Ah, e as fantásticas primeiras partes que servem de aquecimento em vez de servirem para resolver o jogo na primeira meia-hora.

Olha, mais logo dava jeito entrar para ganhar. O Braga vem jogar fechado, saindo de forma perigosa no contra-ataque. Tem uma das melhores defesas, mas também tem lá o Moisés. Sim, o tal que ainda treinaste, mas que foi corrido por ter documentos falsos. E o João Pereira, prontinho a ir para a rua se souberem provocá-lo.

Nós não temos o Liedson e também não vamos ter um árbitro a oferecer-nos um golo em fora de jogo e a roubar penaltis ao Braga, mas se recordares a segunda parte do jogo contra o Paços e a de quarta-feira, contra o fcp, será meio caminho andado para conquistares as bancadas. Vai uma ajudinha?
Rui Patrício; Caneira, Carriço, Polga, Pedro Silva; Pereirinha, Roca, Moutinho, Izmailov; Derlei e Vuk

Abraço.
Spoooooooooooooooooooooorting!