O meu Figo

FIGO_03_copy

Acabou. Luís Figo, o jogador de futebol da minha vida, acabou a carreira.

Quando for velho, quando os putos da altura me falarem do mais recente produto da Academia sportinguista, mais um candidato à Bola de Ouro, eu responderei com um saudosista, “o melhor de todos foi o Figo, nunca houve mais nenhum igual”. Estou, hoje, a dezenas de anos de distância, absolutamente convencido que nunca haverá um jogador de futebol assim.

Para mim, na relação que mantenho com o futebol, seguramente mais nenhum jogador de futebol chegará, da mesma forma, ao meu sistema nervoso central. Porque eu cresci com o Figo. E o futebol cresceu em mim com o Figo. A minha ligação ao Sporting potenciou-se com o Figo. A minha paixão pelo futebol moldou-se com o Figo. Com o futebol do Figo, eu fui testemunha privilegiada de uma absolutamente improvável combinação de arte, trabalho, coragem e liderança. O Figo dentro das quatro linhas foi, na sua progressão, uma lição de vida.

O homem pouco me interessa. Pouco me interessou, sempre. Talvez uma escolha semi-consciente, quando se começou a perceber que o homem tinha pouco a ver com o futebolista. Mas, nesta esquizofrenia constante, o futebolista era tão grande que tornava o homem inferior e descartável. Um Peter Parker para o Spiderman.

O Figo do Sporting foi o ponto da partida, de uma importância para o meu sportinguismo que, quem conhece o meu percurso de vida clubística, perceberá (aos outros, poupo-os por tímida modéstia). O Figo do Barcelona acompanhei-o como se toda a minha geração estivesse à prova na Europa. Era ali que íamos mostrar o que valíamos. E valemos muito. Inesquecíveis fintas. A “bicicleta”, as simulações dos centros que punham os defesas à roda, os golos contra o Real Madrid, aquele fabuloso golo no épico da Taça de Espanha contra o Atlético de Madrid, de fora da área, na sequência de um canto. A confirmação de um talento construído na base do trabalho. Um líder, um símbolo.

Pelo caminho, o percurso inigualável do melhor jogador português de sempre na selecção. O mais consequente do futebol champanhe de 1996, o fabuloso líder de 2000, a melhor equipa de Portugal que eu vi jogar.

O Figo do Madrid valeu pelo primeiro ano e meio. Já era outro símbolo, de coisas que abomino. Mas com a bola nos pés, fez a segunda melhor época da sua carreira. Com a globalização às costas, continuou imparável em campo. Mágico. Depois, aquela lesão, acabou para sempre com o meu Figo. O melhor extremo direito da história do futebol. Sobrou o líder, o guerreiro, o capitão. Ainda ouve uma reciclagem do Figo original no Euro 2004, onde fez os dois jogos mais marcantes da sua carreira, para mim. Não tanto pelo talento, velocidade, instinto, que já lá não estavam na plenitude, mas por isso mesmo. Porque, como um leão maduro, não foi atrás da presa. Deixou a presa vir até ele. E devorou-a. Contra a Espanha foi um exemplo épico de liderança, levando uma nação às costas. Contra a Holanda, fez o melhor jogo de sempre pela Selecção. Um jogo perfeito. A imagem dele na Luz, com os papelinhos azuis e brancos a voar, é a imagem do momento mais doloroso da minha vida futebolística, um daqueles que invade a galeria da vida real. Porque eu queria ganhar. Mas queria ganhar com ele.

O primeiro ano em Itália ressuscitou-o pelo orgulho. Foi na altura certa para o futebol mais difícil do mundo. Deu uma contínua e regular lição de classe amadurecida. Como um Grand Torino, como o Grand Torino. Depois, foi uma lenta valsa até ao fim.

O Figo será sempre vítima do homem. Mas a história julgará o futebolista. E esse foi o melhor jogador de futebol da minha vida. “Eu vi o Figo”. Que melhor posso dizer quando for velho?

Anúncios

22 thoughts on “O meu Figo

  1. Foi grande, muito grande. Lembro-me bem dele nos anos de 1993 a 1995 no Sporting. Teria sido campeão em 94 se Sousa Cintra (o autêntico) não lhe tem dado uma paragem cerebral e substituído um treinador sabedor e estimado por todos (coisa rara), por um tipo com manias. Foi enorme em Barcelona. Não gostei que se tivesse transferido para os lampiões/andrades de Espanha e o encanto começou a quebrar-se aí.

    Saudações Leoninas

  2. Aquele golo à Inglaterra no Euro 2000(??), quando perdíamos por 2-0 e ganhamos por 3-2. Foi uma dos momentos mais marcantes para mim.
    Mesmo o homem FIGO, que não deixou de festejar o golo do Inter contra o Sporting, que eu compreendo perfeitamente.
    Parabéns. Muito bom post.

  3. Combinou sem dúvida a classe futebolistica, essencialmente trabalhada, com uma muito boa gestão de carreira. A esse nível, é sem dúvida um exemplo para os jovens.
    Não me importo de o ver no futuro em Alvalade com outras funções, sendo que o melhor produto de sempre da Academia é e será, estou convencido, Cristiano Ronaldo. Nesse, é tudo inato. É talento em bruto. Pode no entanto não ter a carreira de Figo por falta de cabecinha…

    Numa outra perspectiva Luís Figo andou sempre demasiado às ordens do vil metal sem necessidade. Assinou ao mesmo tempo com o Sporting e Benfica no tempo de Sousa Cintra. Mais tarde assinou pela Juventus e Parma e acabou no Barcelona. E há 2/3 anos teve aquela rábula de festejar no banco do San Ciro o golo contra o Sporting de forma efusiva para ser fotografado a fazê-lo…..

  4. Não sou do SCP (gosto do SCP), mas venho ao V/ Blog diariamente. E venho exactamente por textos como estes. É o blog de futebol mais verdadeiro que conheço, sem pretensões, sem merdas. Parabéns.
    Revejo-me completamente no que escreves sobre o Figo. Acho que em poucas linhas descreves muito bem o percurso do jogador, embora não concorde com esse “amor do avesso” que tens ao homem. Talvez por não ser sportinguista.
    Mas, o que para mim representa este dia (julgo que também se subentende no teu texto) é o fim de um resto de infância, de memória, de orgulho juvenil que morre com a carreira do Figo. Sinceramente, aquela imagem do Figo a sair de campo na final de 2004 (quando não resiste em olhar perifericamente a taça) tem para mim um significado ainda mais de acordo com o que disse. Depois ainda veio a alemanha, e aquela troca de camisola com o zidane já é, em tudo, conformismo, ou melhor, saber perder depois de deixar tudo em campo. Como sempre foi. Por isso também admiro o homem: dá a patada depois de levar, exige respeito, está a trabalhar. Não se intimida, levanta-se, assume a responsabilidade. Acata a derrota formalmente, de consciência tranquila, porque ninguém correu mais do que ele naquele campo e ele sabe-o.
    Ao Figo devo alguns dos melhores momentos do meu imaginário juvenil.

    Abraço

  5. O Figo foi, além de um extraordinário futebolista, um grande profissional de futebol. E é exactamente esta característica que me faz gostar pouco dele pois para mim o futebol é praticamente só emoção.
    O Figo preocupou-se sempre, acima de tudo, em orientar a sua carreira como se fosse um gestor e não um amante da bola. A saída do Sporting é execrável mas perfeitamente natural no mundo empresarial. A ida para o Real Madrid não tem palavras de tão grotesca que foi mas é completamente compreensível do ponto vista financeiro e de gestão da carreira.
    Admiro-o como o futebolista que foi, não gosto do homem que é e, por favor, não falem mais dum regresso ao Sporting. O Figo não tem clube, foi um profissional que soube gerir a sua carreira como poucos mas, por causa disso, nunca teve paixão pelos adeptos.

  6. Douglas,
    junto-me a ti no sentimento que expressas no post. Efectivamente, o Figo é um referência futebolística para a nossa geração (mesmo para lampiões e tripeiros) e não posso deixar de recordar aquele ano em que combinámos que, se o Barça ganhasse ao Madrid com um golo do Figo, não fazíamos a barba durante 15 dias.
    Fico à espera que surja outro jogador capaz de fazer-me ter vontade de andar como o meu pai andava, nos anos 70/80.

  7. Até na despedida deixou bem evidente o contraste entre jogador e homem.
    Escolher um momento tão simbólico como o fim de uma carreira verdadeiramente exemplar com uma peruca de palhaço nerazurro, diz tudo sobre esta questão.
    Sobre o jogador, nada a dizer. O futebolista por quem mais sofri.

  8. Grande, grande post.

    O Figo foi o futebolista que mais admirei. Como costumava dizer, seria o único a quem era capaz de pedir um autógrafo.

    O último grande jogador que fez mais do que 2 épocas no SCP.

    Por causa dele, a liga espanhola ganhou uma nova dimensão (para mim). Por causa dele, torci pela 1ª vez por uma vitória “blanca”.

    Ao contrário de muitos, não considero errada a sua saída do Barcelona. Uma equipa que ele carregava às costas e que decide aumentar o Rivaldo mas não age da mesma maneira para com a verdadeira estrela. Claro que não gostei da maneira como festejou o golo do Inter contra nós.

    Ainda hoje falava de Figo dizendo a um amigo que desde a sua saída, não temos um verdadeiro líder na Selecção. Quem se esquecerá do golo marcado à Inglaterra no Euro, na reviravolta de 2-0 para 2-3?
    Que pena que o Deco o tenha lesionado, numa entrada que sempre considerei maldosa, na LC e tenhamos chegado ao Mundial de 2002 com Figo em sub-rendimento.

  9. Tal como o Jordão também achei estranho o Figo aparecer a anunciar a sua retirada com aquela cabeleira de palhaço!!! Mas isso não invalida a sua qualidade como jogador e mais um grande post no Cacifo!!!

  10. O Figo descrito nest post, tão relacionado que está com o teu amor ao Sporting, não mereceria uma imagem equipado à Sporting? Tinha que ser equipado de vermelho?

    De resto… gostei.

  11. Concordo com (quase) tudo o que dizes, Douglas. Mas confesso uma coisa: mais do que a forma como ele saiu do Sporting, aquilo que eu realmente nunca perdoei ao Figo foi a sua saída do Barça para o Real. Posso perceber as condicionantes, posso aceitar a ingenuidade de ter posto tudo nas mãos do Veiga, posso compreender que o destino dele fugiu-lhe das mãos. Ainda assim… nunca perdoei ao Figo ter-se colocado na situação de “pesetero”. Nunca.

  12. Excelente, Douglas.

    Estive em Barcelona quando ele era um deus e não me esquecerei dos posters espalhados pela cidade com Figo omnipresente. Apetecia-me dizer 2 coisas: faço anos no mesmo dia que ele (é o mais perto que se deve poder chegar a uma divindade) e o meu clube é que o fez.

    Outro episódio fantástico foi ver, no meio do mato africano, um miúdo com o 7 a dizer Figo nas costas.

  13. pessoalmente nao idolatro esse senhor….

    raramente o ouvi falar do sporting….assinou pelo benfica…nao quis acabar a carreira do sporting…
    a maneira como festejou aquele golo…

    etc etc etc… ah e sei que o clube dele sempre foi o benfica!! fonte segurissima!!

    quanto ao cristiano sem duvida mais genuino e sportinguista!!! ai aquele manguito aos no name….lol

  14. Grande post. Deve ser uma questão geracional, mas revejo-me completamente no texto.

    Artur, apesar de admitir que não foi um exemplo de “fair play” e que seria condenável se não fosse no estádio do recreativo de Carnide, admito que um dos melhores momentos do CR foi esse que referiste.

  15. Pingback: Obrigado, Luís. E até sempre! « O Cacifo do Paulinho

  16. Pingback: Breve biografia de Luís Figo, o «Pesetero» « Aventar

  17. Lembro-me do figo a comemorar um golo contra o Sporting como nenhum benfiquista o faria, lembro-me dos inúmeros “cortes”, que deu ás direcções do sporting, sinceramente o figo é tão sportinguista como o paulinho é benfiquista.

Deixe uma Resposta para Jordão Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s