O Bloco de Notas do Gabriel Alves – Liga Europa, jornada 3

É um estádio bonito, novo… arejado
Futbola Klubs Ventspils – Sporting
22 de Outubro 2009, 20h05, Ventspils Olimpiskai Stadium

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Dois graus, meus amigos, é a temperatura que se fará sentir à hora do jogo. Aposto num Liedson de luvas e colants, feliz por jogar num relvado sem crateras.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
Quem diria que, por esta altura, o Ventspils estaria com possibilidade de apurar-se para os oitavos da Liga Europa? Campeões em título e donos da liderança no campeonato letão, empataram em Berlim, com o Herta (1-1), e em casa, com o Heerenveen (0-0), mantendo inalterado o seu esquema 4-5-1, com Edgars Gauračs sozinho na frente e rápidas tentativas de saída em contra-ataque.

Este homem é um Mister
De forma surpreendente, o Ventspils trocou de treinador depois  do play-off de acesso à Champions, despedindo o ucraniano Roman Grygorchuk, que havia guiado a equipa a três títulos consecutivos na Letónia. Para o seu lugar chegou o italiano Nunzio Zavettieri, antigo técnico das camadas jovens do AC Milan e do Inter, que também já foi adjunto na Unidese. Os dois empates registados na Liga Europa mostram bem a escola deste senhor (ou será que esta coisa de empatar faz parte do estilo de quem vem das camadas jovens?).

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
Edgars Gauračs foi o herói, em Berlim e é craque da selecção de sub-21 da Letónia. E pela Letónia anda perdido um avançado português, que até foi formado no Sporting, chamado João Martins.

 A vantagem de ter duas pernas!
Aleksandrs Kolinko, Andrejs Pavlovs, Vitālijs Astafjevs e Jurijs Laizans são internacionais A pela Letónia, mas arrisco dizer que nenhum jogador do Ventspils tinha lugar no Sporting e que o defesa italiano Alessandro Zamperini vai ser expulso.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
Paulo, tu até podes dizer que está um frio do caraças e que na Letónia há maior propensão ao aparecimento de icebergs, mas se o Titanic verde e branco não regressar a Lisboa com três pontos no porão, é uma vergonha!

Vamos jogar no Totobola
Futbola Klubs Ventspils – Sporting   x 2

Cantinho Zandinga
já não acredito nos astros…

“Só por causa disso?”

– Tou?
– Boa noite, é do Sporting.
– Desculpe?
– Estou a ligar-lhe do Sporting para saber se está interessado em aderir ao tarifário Sporting, que lhe dá 10% de desconto nas cham…
– Desculpe lá, mas não tou a perceber…
– Falo-lhe do Sporting Mobile, que lhe dá um cartão com carregamentos e…
– Ó amigo, não vale a pena que eu não estou interessado.
– Mas… nem no cartão recarregável?
– Não! Este ano não gasto nem mais um euro com o Sporting…
– Porquê?
– Porquê!?!? (Risos) Você não vê os jogos de futebol?
– (…)
– Acha que os jogos do Sporting dão vontade de gastar dinheiro no clube?
– Só por causa disso?
– Ó amigo, vá lá à sua vida e deixe-me em paz.
(desligo)

Foi esta a chamada que interrompeu o meu serão. “Só por causa disso?”. A frase continuou a soar na minha mente durante mais alguns minutos. Este é o estado do clube. Um rapaz de uma qualquer empresa de marketing liga a um sócio e gameboxeur em nome do Sporting e questiona a razão do meu divórcio comercial com o clube. E, pelo tom, até foi uma pergunta sincera, sem ironia. Eu acho que até tinha preferido a ironia. O gozo, de algum lampião disfarçado de operador de call center. Mas não… foi honesto, completamente alienado da desilusão colectiva que se apoderou da alma do clube.

O episódio é revelador. Como a carta que recebi esta segunda-feira a propor a ida ao jogo da Taça contra o Penafiel (na véspera…), tendo em conta a “busca incessante de melhores condições para os seus Sócios”. Isto só não é de uma total falta de respeito, porque é simplesmente estúpido e um comportamento acéfalo de uma organização amadora. É gerir um manicómio com técnicas de gestão aplicada.

E é grave. Porque revela que ninguém no clube parece perceber os perigos do Sporting Corporate. Não há Corporate sem Sporting. Não há Mobile sem Sporting. Não há cash-flow sem golinhos, sem futebol. E quando se investe recursos no Corporate, sobram défices no relvado, sobram buracos no tapete. É uma inversão da lógica. Não se investe no “core business” e desperdiça-se dinheiro no marketing de uma coisa podre. Se não estivesse podre, nem era preciso muito marketing. Mas quem escolhe poupar dinheirinho, não pode querer estimular o consumo. 

Se o rapaz me tivesse ligado em plena euforia futebolística eu tinha, provavelmente, subscrito o Sporting Mobile, para gritar golos entre amigos, para mandar sms com imagens tremidas das coreografias da claque. Teria ido ao jogo da Taça, mesmo pagando mais uns euros. Já teria comprado duas camisolas, a do Liedson e a do Vukcevic, talvez até a do Matigol. Teria os novos cachecóis, uma ou duas garrafas de vinho, um abre caricas, uma ou duas bandeiras, provavelmente uma bola verde e branca.

Agora, gasto o dinheiro em cinema (a conselho do Paulo Bento). Quanto às chamadas do Sporting, só se for para mandar aquela gente toda para o caralho!

O Paulo Bento ainda treina aqui? (dia 1460)

Pois é, caros leões. Faz hoje quatro anos que o Paulo Bento assumiu o comando técnico do Sporting Clube de Portugal, substituindo um fragilizado e desorientado José Peseiro.

A estreia oficial deu-se a 23 de Outubro de 2005, com um empate em Barcelos (2-2), o mesmo resultado que viria a registar-se uma semana depois, no Bessa. O momento alto viria a ter lugar à 20ª jornada, quando fomos dar um banho de bola à Luz, vencendo por 3-1, e dando início a uma série de dez vitórias consecutivas que criaram a ilusão de podermos ser campeões. O sonho foi desfeito da forma mais dura: em Alvalade, perdendo com o Porto (0-1), que viria a sagrar-se campeão com mais sete pontos do que nós. 

As expectativas eram altas para 2006/2007, e a equipa correspondeu, disputando o campeonato até ao fim com o Porto (ficámos a apenas um ponto de distância, na célebre época da mão do Ronny em Alavalade, ou do miserável empate, 0-0, frente ao Desportivo das Aves, também em Alvalade). Esta foi, também, a única época bentiana em que a equipa entrava em campo pronta a resolver os jogos na primeira parte, postura compensada com a vitória na Supertaça (frente ao FCP), na Taça de Portugal (frente ao Belenenses) e uma equilibrada prestação na Champions, com destaque para a vitória frente ao Inter e o empate em Munique.

A partir de 2007/08 começou a derrocada. Ficámos a 14 pontos do Porto, marcámos menos golos, perdemos mais cinco jogos. Perdemos a final da Taça da Liga por termos entrado com os tomates apertadinhos frente ao Vitória de Setúbal. Ficámos em 3º no nosso grupo da Champions (atrás de Roma e Man United), o que nos permitiu disputar a Taa UEFA, onde viríamos a ser eliminados, em casa, frente a um defensivo Glasgow Rangers. Salvou-se a Taça de Portugal, com uma meia final épica (5-3 ao Benfica) e uma final onde fomos claramente superiores ao FCP (2-0).

Com a vitória na Taça de Portugal e o apuramento para a Champions, com direito a estar no pote 2, a servirem de balões de oxigénio, Paulo Bento manteve-se no comando para 2008/09. Ficámos a apenas quatro pontos do Porto (sempre esta merda do “estivémos perto”), sendo eliminados pelos mesmos tripeiros da Taça de Portugal (em Alvalade, com um jogo polémico, onde fomos eliminados nos penaltis). Voltámos a chegar à final da Taça da Liga, entregue por Lucílio Baptista ao Benfica. E, na Champions, fizemos duplamente história: passámos pela primeira vez aos oitavos de final e, todos vaidosos por lá estarmos, levámos 12-1 (no conjunto das duas mãos) do Bayern de Munique.

Esse foi, quanto a mim, o momento chave para o que se passa actualmente. Paulo Bento não sentiu vergonha nem se demitiu. Quem mandava também não sentiu vergonha nem o demitiu. Depois veio Bettencourt e, ainda com menos vergonha, disse que o queria “forever”.

O resultado está à vista: um futebol paupérrimo, três vitórias, dois empates e outras tantas derrotas, apenas 8 golos marcados e 6 sofridos, que nos colocam a 10(!!!) pontos do primeiro lugar. Falhámos o apuramento para a Champions fazendo os melhores jogos da temporada (frente à Fiorentina), e estamos com duas vitórias na Liga Europa. O Estádio de Alvalade tem as bancadas cada vez mais descompostas e um relvado que nos coloca ao nível de qualquer campo do Burkina Faso. A descrença está completamente instalada, embora Bettencourt e companhia continuem a ver em Paulo Bento uma solução para o problema.

Para mim, essa teoria de que a solução para o problema é o próprio problema, não faz sentido. Aliás, para quem está sempre a apelidar Paulo Bento de “milagreiro” e afins, rebuscando estatísticas de apuramentos para a Champions e artimanhas do género, resta-me terminar com números: em 189 jogos como treinador do Sporting, Bento tem 116 vitórias, 43 empates e 29 derrotas, o que dá uma média de 61% de vitórias. Uma merda, diria eu, se fosse treinador de um clube como o Sporting.
Mais merdoso, só se atentarmos na média de golos marcados (também podia falar dos sofridos, nomeadamente em bolas paradas, e no estranho facto do Paulo, em quatro anos, nunca ter achado necessário contratar defesas altos): 1,64 golos por jogo, confirmando a teoria de Bento de que prefere jogar feio e ganhar qq coisinha e de que os adeptos, se querem espectáculo, devem ir ao cinema. E o jeito que daria ter as centenas que vão aos cinemas do Alvaláxia nas bancadas do nosso querido José Alvalade…

O Paulo Bento ainda treina aqui? (dia…)

eu: “e então, é este fim-de-semana que os jogadores fazem a folha ao Paulo Bento?”
alguém que pertence à direcção do nosso clube: “Nem penses nisso, pah. Os jogadores estão todos do lado do treinador! Estão do lado dele e esfarrapam-se todos nos treinos… Não dá mesmo para perceber o que se passa…”

Encolhi os ombros e estou sem saber o que dizer até agora…
(esta breve troca de palavras teve lugar há, sensilvelmente, três horas)

Eu vi bem?

Portugal – Malta.
Minuto 82. Canto a favor de Portugal.
Miguel Veloso coloca a bola em João Moutinho, posicionado fora da área, no lado oposto.
Moutinho recebe, domina, levanta a cabeça e faz a bola sobrevoar a defesa, para a entrada de Nuno Assis, vindo de trás.
O lance não acaba em golo fruto da arrojada saída do redes maltês, mas fica a pergunta: aquilo eram dois jogadores do Sporting a construir um lance de bola parada ensaiado, não eram?

Não!

Joaquim_Oliveira

“Foi celebrado em 2001 com a Olivedesportos, SA, em regime de exclusividade, um contrato sobre os direitos de transmissão televisiva para as épocas de 2001/2002 a 2007/2008. Até ao exercício transacto, o pagamento dos direitos televisivos, por parte da Olivedesportos, era efectuado directamente à Sporting Património e Marketing (SPM), debitando a Sporting, SAD a SPM por esse mesmo montante. A partir do presente exercício, a Sporting Comércio e Serviços (SCS), debita directamente os direitos à Olivedesportos, e a SAD recupera junto da SCS 30% dos mesmos a título de recuperação de despesas”.

Isto está na nota 26 do relatório e contas da Sporting, SAD da época 2008/2009. E é por isto que eu sou contra a passagem da SCS para a SAD, como será proposto a votação nesta AG. 

Pode parecer complicado mas não é, se tivermos presente que a Olivedesportos, cujo contrato com a SAD vai até 2013, renovável por mais cinco anos, controla 10% do capital da… SAD. Ou seja, eu não quero que o meu sócio minoritário na minha mercearia seja, também, o meu fornecedor de bananas. Porque se eu recusar o preço do quilo da banana que ele me faz e quiser procurar outra Chiquita, o meu sócio vai pressionar e, no limite, tornar a minha vida num inferno, para que eu aceite o preço… que ele próprio faz… da banana.  Ainda para mais, quando ele também trata dos placards das marcas que me patrocinam. Marcas essas com as quais ele trabalha há anos e das quais é sócio também.

Podia descrever a falta de bondade de passar a Academia para a SAD (o activo com mais valor do Sporting a poucos anos de ficar ao lado de um aeroporto internacional) ou da criação dos VMOCs, os “terríveis VMOCs”, que farão do principal credor, patrocinador e financiador do clube num dos proprietários da Academia, via VMOCs (é inevitável que ninguém compre dívida de uma sociedade tecnicamente falida, nem mesmo os adeptos doentes… logo, fica em casa, nos bancos colocadores).

Mas a chave do futuro do futebol português, do Sporting, das empresas de media nacionais e, por consequência, do pensamento colectivo do País, são os direitos de TV. Foi o dinheiro da TV que impulsionou os grandes impérios futebolísticos da Europa no presente. E é a falta desse dinheiro que está a atrofiar o futebol português e o Sporting.

Eu não votei Bettencourt não só pelo disparate do “Paulo Bento Forever” mas, sobretudo, porque o JEB foi a invenção de uma cara mais popular (sabe-se lá porquê) para levar a cabo uma missão que o pateta do Franco não conseguiu. Na sombra, manobraram, como manobram ainda, as figuras de sempre, desde o BES (cujo vice-presidente está no conselho fiscal do Sporting) ao Oliveira, o gajo das bananas. E no que o Franco falhou três vezes, JEB tenta agora ter sucesso. Tudo o resto – futebol, militância, sócios, modalidades, pavilhão, etc. – é fogo de vista. A AG de hoje é prova disso. O que interessa é pôr os direitos de TV na SAD para manter o “status quo”. Para prolongar a estrutura do poder podre.

O argumento de que se trata de fortalecer a SAD com activos que sirvam de garantias mais fortes ao financiamento, baixando os custos da dívida, é válido. É justo, até. Mas o problema são os actores de todo este plano da pólvora. Fossem todos independentes e dissociáveis e eu admitia a bondade da proposta. Assim, não quero mais estas bananas e enquanto não tiver outras não acredito que a mercearia ganhe a autonomia necessária para crescer como merece e pode.

Por muito que custe admitir, o Sporting já não é dos sócios porque o clube não sobrevive com o que os sócios dão. Sobrevive com receitas externas, vindas de parceiros de negócio. Em qualquer negociação, cada uma das partes luta pela melhor parte do bolo. Quando uma das partes está nos dois lados, o Sporting já nem recebe a sua parte do bolo que é justa. Limita-se a dar a farinha, a água, acuçar, manteiga, os ovos. O bolo é comido por todos os que estão à mesa, do lado de lá e de cá. E o clube fica com as migalhas, que vão chegando para alimentar os famintos em que todos nós nos tornámos.

Quem votar “sim” esta noite, está contente com as migalhas. Quem votar “não” está farto e quer uma fatia do bolo, se faz favor.

O Paulo Bento ainda treina aqui? (dia 6)

“A escolha foi clara: Paulo Bento para sempre. Com o seu futebol triste e feio. Que nem dá vitórias, nem dá espetáculo. Como tenho bom perder, aceito a escolha que os sócios fizeram por esmagadora maioria em eleições livres e democráticas. O que não aceito, o que acho humilhante, é ver Bettencourt a descarregar a suas culpas nos adversários.

Longe de mim vir aqui em defesa de rivais. Mas alguém duvida que o Benfica está a jogar bem? E alguém põe em causa o mérito do seu novo treinador? Era triste o Sporting vangloriar-se de segundos lugares. É feio, perante o trabalho dos outros, em vez de arregaçar as mangas para fazer melhor, procurar desculpas externas para erros próprios.

Não sou, nunca fui, adepto do corrupio de entradas e saídas de treinadores que dominou o Benfica durante anos. Mas parece-me óbvio que Paulo Bento já teve tempo de sobra para provar o que vale. E parece estar a piorar a cada ano que passa.

É seguramente um grande sportinguista, capaz de aceitar trabalhar em condições pouco favoráveis. Por isso merece o respeito de adeptos e sócios. Mas chega uma altura em que a gratidão tem os seu limites. E talvez, na verdade, o Sporting precise de alguém que exija um pouco mais da direção. E que, em troca, dê mais ao clube.

O espírito que hoje domina o Sporting é aquele que se vê em jogos sem chama, nas bancadas vazias e na obsessão em procurar fora do clube as culpas para a sua desgraça. Bem sei que uns dias são da caça, outros do caçador. Estes dias têm sido do Benfica e do Braga. Chegará seguramente o nosso. Apesar da teimosia, todos sabemos que esse dia será sem Paulo Bento.”

Daniel Oliveira, in Record