O ladrão, a falta de vergonha e as estranhas prioridades

Lucílio Baptista voltou a fazer das suas, estando directamente ligado à perda de pontos do Braga. E, como não podia deixar de ser, o principal beneficiado poderá ser o clube a quem o dito senhor resolveu entregar uma Taça da Liga. No seguimento desta coincidência que, por certo, não passará disso mesmo, o jornal A Bola volta a ultrapassar todos os limites da falta de vergonha, brindando-nos com uma capa que é um autêntico nojo.

Ainda assim, e é essa a principal razão deste post, o pasquim lampião noticiou, no fim-de-semana, que “Com o aproximar do mês de Janeiro, a SAD continua a fazer a normal pesquisa de mercado à procura de jogadores que possam constituir uma mais-valia para o plantel de Paulo Bento e o sul-americano, mais especificamente o argentino, é um dos que tem sido privilegiado nas últimas observações. As lacunas no plantel sportinguista estão identificadas, provavelmente nem todas poderão ser colmatadas como gostariam os responsáveis pelo futebol profissional, mas a prioridade passa por encontrar mais uma solução para o meio campo […]”

A pergunta imediata é: reforçar o meio campo?!? Então… e a defesa? Melhores laterais? Um central capaz de varrer o jogo aéreo? Ok… o meio-campo. Mas o quê? Mais um médio interior que consiga jogar à direita e à esquerda e que, se for preciso, faça bem posições centrais? Ou vamos, definitivamente, comprar jogadores para as alas que ajudem a enterrar o maldito losango?

A pergunta seguinte é: porquê a Argentina? Ou, se preferirem, e esta é uma pergunta com a qual já “parti a cabeça” a outros amigos cacifeiros, porque não África? Continua a fazer-me confusão este virar de costas a um continente onde não faltam talentos capazes de conciliar técnica e força, e para o qual apenas os franceses parecem estar de olhos abertos. Sim, há muito bons jogadores na Argentina mas, salvo raras excepções, demoram uma eternidade a adaptar-se ao nosso futebol.

O Campeonato do Mundo de sub-20 foi, aliás, belo exemplo do poderio do continente africano, com destaque para o Gana, que depois de uma prova exemplar de futebol de ataque, aguentou o Brasil na final e venceu nos penaltis. Será que os enviados do Sporting ao referido mundial, anotaram no bloquinho, por exemplo, o nome do defesa direito ganês, Samuel Inkoom? Do médio Ibrahim Ayew? Ou do avançado Adiyiah?
Claro que há mais talentos africanos, como Tresor Mputu (Congo), Ahmed Saad (Líbia) ou Kermit Erasmus (África do Sul) , entre tantos outros. Será assim tão complicado descobri-los antes dos chamados tubarões?

E, mesmo que não se queira aponta a lança a África, será que o bloquinho dos nossos espiões apontou, por exemplo, o nome do defesa-central brasileiro Rafael Toloi? Ou, mesmo que não tenham tido o trabalho de ir até ao Egipto, será que já olharam para um defesa-central do Rio Ave, chamado Fábio Faria, com óptimo jogo aéreo e com apenas 20 anos, o que lhe dá enorme margem de progressão?

Ok, pronto, vamos lá à Argentina. Só vos peço para não trazerem outro Romagnoli. Ah, e se não for ser muito exigente, que não deixem escapar o Rabiu Ibrahim…

Mão-de-obra

Disse-me um Sportinguista, depois de afirmar que não se importa de jogar mal e ganhar: “os lampiões é que se fartam de marcar golos. Também, com aqueles jogadores todos que compraram…”.
Eu respondi: “vai pró caralho, meu. Tu achas que nós, com um treinador que saiba o que significa jogar ao ataque, não temos jogadores para dar 3, 4 ou 5 a várias equipas?”

Faço-vos a mesma pergunta e até acrescento: eu não trocava o Veloso, o Moutinho, o Vukcevic, o Matías, o Izmailov e o Liedson, pelo García, o Ramires, o Di Maria, o Aimar, o Saviola e o Cardozo.

O Bloco de Notas do Gabriel Alves – Liga Europa, jornada 3

É um estádio bonito, novo… arejado
Futbola Klubs Ventspils – Sporting
22 de Outubro 2009, 20h05, Ventspils Olimpiskai Stadium

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Dois graus, meus amigos, é a temperatura que se fará sentir à hora do jogo. Aposto num Liedson de luvas e colants, feliz por jogar num relvado sem crateras.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
Quem diria que, por esta altura, o Ventspils estaria com possibilidade de apurar-se para os oitavos da Liga Europa? Campeões em título e donos da liderança no campeonato letão, empataram em Berlim, com o Herta (1-1), e em casa, com o Heerenveen (0-0), mantendo inalterado o seu esquema 4-5-1, com Edgars Gauračs sozinho na frente e rápidas tentativas de saída em contra-ataque.

Este homem é um Mister
De forma surpreendente, o Ventspils trocou de treinador depois  do play-off de acesso à Champions, despedindo o ucraniano Roman Grygorchuk, que havia guiado a equipa a três títulos consecutivos na Letónia. Para o seu lugar chegou o italiano Nunzio Zavettieri, antigo técnico das camadas jovens do AC Milan e do Inter, que também já foi adjunto na Unidese. Os dois empates registados na Liga Europa mostram bem a escola deste senhor (ou será que esta coisa de empatar faz parte do estilo de quem vem das camadas jovens?).

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
Edgars Gauračs foi o herói, em Berlim e é craque da selecção de sub-21 da Letónia. E pela Letónia anda perdido um avançado português, que até foi formado no Sporting, chamado João Martins.

 A vantagem de ter duas pernas!
Aleksandrs Kolinko, Andrejs Pavlovs, Vitālijs Astafjevs e Jurijs Laizans são internacionais A pela Letónia, mas arrisco dizer que nenhum jogador do Ventspils tinha lugar no Sporting e que o defesa italiano Alessandro Zamperini vai ser expulso.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
Paulo, tu até podes dizer que está um frio do caraças e que na Letónia há maior propensão ao aparecimento de icebergs, mas se o Titanic verde e branco não regressar a Lisboa com três pontos no porão, é uma vergonha!

Vamos jogar no Totobola
Futbola Klubs Ventspils – Sporting   x 2

Cantinho Zandinga
já não acredito nos astros…

“Só por causa disso?”

– Tou?
– Boa noite, é do Sporting.
– Desculpe?
– Estou a ligar-lhe do Sporting para saber se está interessado em aderir ao tarifário Sporting, que lhe dá 10% de desconto nas cham…
– Desculpe lá, mas não tou a perceber…
– Falo-lhe do Sporting Mobile, que lhe dá um cartão com carregamentos e…
– Ó amigo, não vale a pena que eu não estou interessado.
– Mas… nem no cartão recarregável?
– Não! Este ano não gasto nem mais um euro com o Sporting…
– Porquê?
– Porquê!?!? (Risos) Você não vê os jogos de futebol?
– (…)
– Acha que os jogos do Sporting dão vontade de gastar dinheiro no clube?
– Só por causa disso?
– Ó amigo, vá lá à sua vida e deixe-me em paz.
(desligo)

Foi esta a chamada que interrompeu o meu serão. “Só por causa disso?”. A frase continuou a soar na minha mente durante mais alguns minutos. Este é o estado do clube. Um rapaz de uma qualquer empresa de marketing liga a um sócio e gameboxeur em nome do Sporting e questiona a razão do meu divórcio comercial com o clube. E, pelo tom, até foi uma pergunta sincera, sem ironia. Eu acho que até tinha preferido a ironia. O gozo, de algum lampião disfarçado de operador de call center. Mas não… foi honesto, completamente alienado da desilusão colectiva que se apoderou da alma do clube.

O episódio é revelador. Como a carta que recebi esta segunda-feira a propor a ida ao jogo da Taça contra o Penafiel (na véspera…), tendo em conta a “busca incessante de melhores condições para os seus Sócios”. Isto só não é de uma total falta de respeito, porque é simplesmente estúpido e um comportamento acéfalo de uma organização amadora. É gerir um manicómio com técnicas de gestão aplicada.

E é grave. Porque revela que ninguém no clube parece perceber os perigos do Sporting Corporate. Não há Corporate sem Sporting. Não há Mobile sem Sporting. Não há cash-flow sem golinhos, sem futebol. E quando se investe recursos no Corporate, sobram défices no relvado, sobram buracos no tapete. É uma inversão da lógica. Não se investe no “core business” e desperdiça-se dinheiro no marketing de uma coisa podre. Se não estivesse podre, nem era preciso muito marketing. Mas quem escolhe poupar dinheirinho, não pode querer estimular o consumo. 

Se o rapaz me tivesse ligado em plena euforia futebolística eu tinha, provavelmente, subscrito o Sporting Mobile, para gritar golos entre amigos, para mandar sms com imagens tremidas das coreografias da claque. Teria ido ao jogo da Taça, mesmo pagando mais uns euros. Já teria comprado duas camisolas, a do Liedson e a do Vukcevic, talvez até a do Matigol. Teria os novos cachecóis, uma ou duas garrafas de vinho, um abre caricas, uma ou duas bandeiras, provavelmente uma bola verde e branca.

Agora, gasto o dinheiro em cinema (a conselho do Paulo Bento). Quanto às chamadas do Sporting, só se for para mandar aquela gente toda para o caralho!

O Paulo Bento ainda treina aqui? (dia 1460)

Pois é, caros leões. Faz hoje quatro anos que o Paulo Bento assumiu o comando técnico do Sporting Clube de Portugal, substituindo um fragilizado e desorientado José Peseiro.

A estreia oficial deu-se a 23 de Outubro de 2005, com um empate em Barcelos (2-2), o mesmo resultado que viria a registar-se uma semana depois, no Bessa. O momento alto viria a ter lugar à 20ª jornada, quando fomos dar um banho de bola à Luz, vencendo por 3-1, e dando início a uma série de dez vitórias consecutivas que criaram a ilusão de podermos ser campeões. O sonho foi desfeito da forma mais dura: em Alvalade, perdendo com o Porto (0-1), que viria a sagrar-se campeão com mais sete pontos do que nós. 

As expectativas eram altas para 2006/2007, e a equipa correspondeu, disputando o campeonato até ao fim com o Porto (ficámos a apenas um ponto de distância, na célebre época da mão do Ronny em Alavalade, ou do miserável empate, 0-0, frente ao Desportivo das Aves, também em Alvalade). Esta foi, também, a única época bentiana em que a equipa entrava em campo pronta a resolver os jogos na primeira parte, postura compensada com a vitória na Supertaça (frente ao FCP), na Taça de Portugal (frente ao Belenenses) e uma equilibrada prestação na Champions, com destaque para a vitória frente ao Inter e o empate em Munique.

A partir de 2007/08 começou a derrocada. Ficámos a 14 pontos do Porto, marcámos menos golos, perdemos mais cinco jogos. Perdemos a final da Taça da Liga por termos entrado com os tomates apertadinhos frente ao Vitória de Setúbal. Ficámos em 3º no nosso grupo da Champions (atrás de Roma e Man United), o que nos permitiu disputar a Taa UEFA, onde viríamos a ser eliminados, em casa, frente a um defensivo Glasgow Rangers. Salvou-se a Taça de Portugal, com uma meia final épica (5-3 ao Benfica) e uma final onde fomos claramente superiores ao FCP (2-0).

Com a vitória na Taça de Portugal e o apuramento para a Champions, com direito a estar no pote 2, a servirem de balões de oxigénio, Paulo Bento manteve-se no comando para 2008/09. Ficámos a apenas quatro pontos do Porto (sempre esta merda do “estivémos perto”), sendo eliminados pelos mesmos tripeiros da Taça de Portugal (em Alvalade, com um jogo polémico, onde fomos eliminados nos penaltis). Voltámos a chegar à final da Taça da Liga, entregue por Lucílio Baptista ao Benfica. E, na Champions, fizemos duplamente história: passámos pela primeira vez aos oitavos de final e, todos vaidosos por lá estarmos, levámos 12-1 (no conjunto das duas mãos) do Bayern de Munique.

Esse foi, quanto a mim, o momento chave para o que se passa actualmente. Paulo Bento não sentiu vergonha nem se demitiu. Quem mandava também não sentiu vergonha nem o demitiu. Depois veio Bettencourt e, ainda com menos vergonha, disse que o queria “forever”.

O resultado está à vista: um futebol paupérrimo, três vitórias, dois empates e outras tantas derrotas, apenas 8 golos marcados e 6 sofridos, que nos colocam a 10(!!!) pontos do primeiro lugar. Falhámos o apuramento para a Champions fazendo os melhores jogos da temporada (frente à Fiorentina), e estamos com duas vitórias na Liga Europa. O Estádio de Alvalade tem as bancadas cada vez mais descompostas e um relvado que nos coloca ao nível de qualquer campo do Burkina Faso. A descrença está completamente instalada, embora Bettencourt e companhia continuem a ver em Paulo Bento uma solução para o problema.

Para mim, essa teoria de que a solução para o problema é o próprio problema, não faz sentido. Aliás, para quem está sempre a apelidar Paulo Bento de “milagreiro” e afins, rebuscando estatísticas de apuramentos para a Champions e artimanhas do género, resta-me terminar com números: em 189 jogos como treinador do Sporting, Bento tem 116 vitórias, 43 empates e 29 derrotas, o que dá uma média de 61% de vitórias. Uma merda, diria eu, se fosse treinador de um clube como o Sporting.
Mais merdoso, só se atentarmos na média de golos marcados (também podia falar dos sofridos, nomeadamente em bolas paradas, e no estranho facto do Paulo, em quatro anos, nunca ter achado necessário contratar defesas altos): 1,64 golos por jogo, confirmando a teoria de Bento de que prefere jogar feio e ganhar qq coisinha e de que os adeptos, se querem espectáculo, devem ir ao cinema. E o jeito que daria ter as centenas que vão aos cinemas do Alvaláxia nas bancadas do nosso querido José Alvalade…