O Bloco de Notas do Gabriel Alves – jornada 6

Sporting – Naconal
20h15, Estádio de Alvalade

“Mais do que jogar bem, é importante somar três pontos para estar na luta”, Paulo Sérgio.

Caro Paulo, espero que esta frase não seja o regresso da teoria de que quem quiser ver um espectáculo, o melhor que tem a fazer é ir ao cinema. Sim, temos que ganhar mas, parece-me, faz parte da história do Sporting empolgar quem está nas bancadas.
Vá, deixa-te de merdas, coloca de uma vez o puto Salomão a jogar (haja pelo menos um que joga bonito) e mete na cabeça desses meninos que, à sexta jornada, não há volta a dar: é ganhar ou ganhar!

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O vácuo, os adeptos, as insónias e a cultura de vitória

O nosso capitão deu um entrevista ao jornal dos outros. Aparentemente, também já é o nosso, algo que já se tinha percebido durante a pré-época. Mas isso são contas de outro rosário.

A entrevista é, na sua essência, de um vazio assustador. Não diz muito mais do que diria num flash interview qualquer. As generalidades abundam, assente num discurso padronizado, aprendido nos cursos de comunicação futebolística das SAD. Por outro lado, a alienação da realidade é confirmada, sobretudo na ideia de que contra os lampiões “dominámos o jogo, tivemos mais posse de bola. No entanto, cometemos dois erros que foram fatais”.

Preocupa-me um capitão do Sporting a falar assim. Porque é um sinal de que os problemas não serão resolvidos. Serão “mascarados”. O benefício da dúvida – de que se trata de uma conversa para fora – não me sossega, pela infantilização dos adeptos que pressupõe. Mas enfim, o rapaz é novo e não se pode pedir um Oceano, quando ainda só se tem um riacho, fresquinho dos ares da montanha.

Mas há pedaços importantes que salvam a banalidade geral.

“O adepto sportinguista é um pouco instável emocionalmente, passamos de melhores para piores do mundo num ápice e isso tem de deixar de acontecer”. Ora, um capitão do Sporting assumir isto é de uma coragem evidente. E de uma utilidade fundamental. Ele depois mete água nesta ferida, mas é isto que a malta precisa de ouvir. Cada vez mais. Para perceber que somos parte do problema e recusamos, por vezes, ser parte da solução.

“Quando perco, não durmo”. Isto é um sopro de ar fresco na mercantilização do nosso clube.

“Vinha da formação, habituadíssimo a ganhar. No futebol profissional é mais difícil, mas queremos implementar aqui uma cultura de vitória”. Esta é a frase mais importante e paradoxal de toda a entrevista e, só por ela, já valeu a pena. Ora, o Sporting tem cultura de vitória na formação, que se perde no futebol profissional, curiosamente marcado, nos últimos anos, pelos jogadores da formação. Há, portanto, um fosso entre o que se faz na Academia e o que se passa em Alvalade. Porquê? Há muitas hipóteses, mas nenhumas certezas. A única, para já, é que são jogadores como o Carriço que poderão ajudar a resolver um dos dois principais problemas do clube: a identificada falta de cultura de vitória. Já quanto ao segundo – a competência -, esperemos que a “cultura” do Carriço não seja traído pela sua “competência”. Porque seria um dramático desperdício.

O Sporting de hoje: do “clube amador” à “gestão profissional”

Reza a lenda que no início da década de 90 havia um clube governado por um louco ali para os lados de Alvalade. O louco era o Sousa Cintra e o clube era o Sporting. Nesse tempo, quando se vivia na expectativa de voltar a ganhar o título que fugia há uma década, havia um leão a viver verdadeiramente na selva: despediam-se treinadores como quem bebe copos de água, vendiam-se ilusões, apareciam Pelés que acabavam a jogar no Famalicão, corríamos com quem liderava o campeonato, contratavam-se Douglas, Silas e Luisinhos, viviam-se momentos históricos na UEFA, juntavam-se Balakovs, Figos, Valckxs e Paulos Sousas num único onze, levava-se a imprensa em tournée para contratar avançados jugoslavos que acabavam por não vir, pilhava-se o plantel aos lampiões, enfim, era a loucura. Não ganhávamos, mas era a loucura. Acreditávamos, enchíamos Alvalade, jogava-se à bola, tínhamos jogadores com mística e mesmo perdendo para os rivais havia sempre ânimo em cada adepto para enfrentar uma discussão, convicto de que nós é que éramos realmente grandes. Isso de não ganhar era um detalhe.

Nesse tempo que a história teimou em marcar como a época de gestão taberneira e amadora, o Sporting tinha um passivo de 30 milhões de euros. Estávamos em 1995. Repito: 30 milhões de euros. Com a curiosidade de, nesse mesmo ano – e como explicou recentemente o Tomás Aires num artigo do “CM” – o Sporting ter um património superior a 60 milhões de euros só em terrenos. Ou seja, sensivelmente o dobro do passivo. E isto, sublinhe-se, com uma gestão amadora.

Depois veio Roquette. Primeiro com Santana como fantoche, depois ele próprio como mestre da banda. Vinha o mundo das SAD e da gestão profissional. O argumento era simples: o futebol moderno era uma indústria e o clube tinha de ser gerido como tal. Uma indústria que pressupôs ser visionário, antecipar o futuro, transformar o clube numa empresa, primeiro, e num conjunto de empresas, depois. Todas elas com activos tangíveis e intangíveis, capitais, accionistas, balanços, empréstimos obrigacionistas, dívida financeira, passivo corrente, passivo não corrente, VMOCS, enfim… um fartote. O adepto comum não percebeu nada. Ouviu falar num estádio novo, numa academia, na aposta na formação e na projecção do Sporting como grande emblema nacional do século XXI. E nisto o povo português é fodido: cheirou a modernice, o verbo era erudito, a malta tinha pinta de perceber do assunto e até era descendente de fundadores, portanto… vai de aceitar tudo.

Depois, depois cá estamos nós, hoje, para fazer contas à gestão profissional: o estádio ia custar 75 milhões e teve uma derrapagem para mais de 115 milhões; a Academia estava orçada em 6 milhões e custou quase o triplo; na vertigem de consolidar o domínio após o primeiro título (em 2000) gastou-se o que se tinha e o que não se tinha na compra e salário de jogadores caros nos anos seguintes (João Pinto, Paulo Bento, Dimas, Sá Pinto, Jardel, entre outros), construíram-se edifícios-sede, centros comerciais, exploraram-se clínicas… por aí fora. Em 2000 o passivo do clube rondava já os 65 milhões de euros. Em 2005 os relatórios e contas apontavam para passivos na ordem dos 150 milhões de euros. Mas em 2009, Soares Franco viria esclarecer que afinal o passivo estava mascarado e o seu montante real era de 280 milhões desde… 2005 (?!?!?!?!). O clube estava tecnicamente falido e nas mãos da banca e credores. Hoje o passivo ronda os 300 milhões e sucedem-se as fugas em frente com reestruturações financeiras atrás de reestruturações financeiras.

Aqui chegados, que balanço? Em 15 anos ganhámos dois campeonatos, meia dúzia de taças e supertaças e fomos a uma final da UEFA. O passivo entretanto cresceu de 30 para 300 milhões. Compensou? Claramente não! Sobretudo porque ninguém consegue perceber ao certo o que se passou durante este trajecto que levou o clube a multiplicar o seu passivo por 10 em década e meia. A não ser o mais simples de se perceber: que muita gente terá ganho dinheiro à custa do clube e que José Roquette, Dias da Cunha e Soares Franco (e todos os que os acompanharam nas suas aventuras) são os rostos de uma gestão danosa que comprometeu seriamente o presente e o futuro do Sporting.

Não, isto não é populismo: é um facto. Foi esta gente que conduziu o Sporting à situação actual. Por isso me custa hoje a acreditar que esteja nestes senhores, ou nos seus cooptados, a salvação para o buraco em que estamos enfiados. Ainda acreditei em Bettencourt: pela falta de comparência de oposição credível e talvez porque me parecesse menos engravatado que os antecessores. Mal sabia eu o que aí viria… Por isso, repito, já não consigo acreditar nesta gente. Espero que me surpreendam, claro, mas já não acredito. Sobretudo porque, com o clube financeiramente estrangulado e com a gestão desportiva algemada à banca, a Sporting SAD está hoje condenada a colocar em segundo plano aquilo que era suposto ser o “core business” da “empresa”: o futebol enquanto espectáculo. Pior do que não ganhar, pior do que a terrível sensação de não estarmos aptos a lutar pelos títulos, é esta ideia de que o futebol jogado do Sporting parece traduzir, há um par de anos, a mesma sensação que os nossos gestores e accionistas devem ter quando olham para a merda que fizeram: “é uma chatice”.

(Próximo capítulo – “O Sporting de hoje: o jogador, o activo e a acefalia do gestor”)

As perguntas que resultam do derby – take 5

Qual é a lógica de, depois de ter conseguido motivar meio plantel com uma vitória em Lille e depois de afirmar que essa mesma vitória representava óptimas dores de cabeça para o jogo contra o Benfica, colocar em campo exactamente a mesma equipa que tinha jogado com o Olhanense? Afinal, há mesmo 11 titulares e outros tantos reservas? E será que esses 11 têm mostrado merecer essa mesma titularidade?