Orange County

Ainda deliciado pelo menu de degustação de há uma semana, tive dificuldade em aceitar as intragáveis papas de serrabulho que me serviram na terra dos ovos moles.
O cheiro deixou-me zonzo, logo de início, obrigando-me a ir ao cesto de pão como forma de protelar o levar à boca da primeira garfada. Mas, como homenzinhos que, de semana para semana vamos provando ser, não dei parte fraca e comecei a mastigar. Da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. Mais um pouco de pão, para disfarçar o enfado. Da cozinha, solta-se um entusiasmante aroma a cabrito, que me agita. Levo o copo de vinho à boca, mas mais não consigo do que molhar os lábios e contrariar um esboço de agonia perante a martelada que nos foi servida.
Numa mesa ao fundo, levantam-se vozes, permitindo-me uma pausa. Que vieram de longe,  à espera de comer chanfana, e só lhe serviram rojões. E que as espetadas de mexilhão estavam demasiado insossas. “Isto só pode melhorar”, penso, voltando a colocar os olhos no cabrão do serrabulho.
Mais uma garfada, com o palato a parecer aceitar melhor esta dura prova mas, ainda assim, a pedir auxílio.
“Traga-me um sumo de laranja natural, sff”, peço, sem medo de ser apelidado de maricas pelos taberneiros anfitriões.
Olhares de desconfiança de uns. De surpresa de outros, perante a inusitada combinação de sabores.
Pimba, espetam-me o copo em cima da mesa, como se de um copo de três se tratasse. Faz-se silêncio e sinto todos os olhos postos em mim. Os da mesa do fundo cessam, finalmente, a indiganção verbal. Avanço para o copo sem rodeios, mão firme, olhos no bocal, concentração total na necessidade de encaminhar para o estômago o que se enrola na boca. Fecho os olhos. E sorrio. Já só sinto o doce da laranja.

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O Bloco de Notas do Gabriel Alves – jornada 9

É um estádio bonito, novo… arejado
Feirense – Sporting
30 Outubro 2011
20h15, Municipal de Aveiro

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Diz-se que este sol de inverno, sob o qual os leões vão preguiçar durante o dia, dará lugar a uma noite fria onde as bancadas de Aveiro, pintadas a verde e branco, vão matar saudades dos tempos do Euro 2004.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
O Feirense ainda não perdeu em casa, para o campeonato. Mas também não ganhou. Empataram com o Porto e com o Marítimo, deram muito boa conta de si, na Luz, e chegam a este jogo com uma derrota (3-0) em Braga. Em 4-2-3-1, vão, obviamente, querer fazer um brilharete.

Este homem é um Mister
Quem não se lembra de Quim Machado, cabelos ao vento, a distribuir mais porrada do que a construir jogo? Agora, o homem garante que estatísticamente o Feirense está mais perto de ganhar do que o Sporting (não faço ideia do que o homem quis dizer) e que vai jogar para ganhar. É um favor que nos fazes, oh Quim!

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
Paulo Lopes, na baliza, e Rabiola, nas extremas, são os dois melhores jogadores do Feirense. Mas a atenção dos Sportinguistas vai estar virada para Diogo Rosado.

A vantagem de ter duas pernas!
Se tudo correr bem, no final do jogo, Stopia vai pedir para regressar a casa e passar umas férias em Cabo Verde.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
Domingos, adorei a frase “nós queremos ganhar sempre. E para ganharmos, os outros têm que perder”. É de filósofo. Também aplaudi o recado ao Rodriguez e a postura sem paneleirices perante a entrevista do Schaars. Para ser perfeito, falta ganharmos, mais logo. Se tal acontecer, aposto que, amanhã à noite, vão aparecer mais putos a pedir que os façam sócios do Sporting do que a pedir guloseimas mascarados de qualquer coisa parva.

Vamos jogar no Totobola
Feirense – Sporting    2

Capitão sem braçadeira

Não serei o único a achar que Schaars tem todas as condições para, num futuro próximo, vir a tornar-se capitão de equipa do Sporting. No fundo, um pouco à imagem de Stan Valckx, um dos meus jogadores preferidos de sempre com a camisola verde e branca. Ora, depois de ler a entrevista que Schaars dá, hoje, ao Jogo, fico totalmente convencido de estarmos perante um capitão, sem medo de falar e fazendo-o com critério. Use ou não use braçadeira. Ficam as passagens que mais gostei.

«Sei as minhas funções e sei que a equipa me aprecia como jogador, é uma boa relação e ligação […] Há cinco ou seis posições consolidadas, a minha é uma delas. Pode ser que as coisas mudem no futuro, mas se acontecer, não vou dizer ao treinador que está errado; tenho é de provar que está errado. Temos de provar que merecemos ser titulares»

«Desde pequeno que sou sempre capitão, em todas as categorias, também quando fui campeão em Portugal pelos sub-21 da Holanda. Também no AZ Alkmaar era capitão. Não digo que seja um líder, mas sou aquele que orienta as coisas para os outros, faço que as coisas aconteçam e resolvo tudo. É natural, não forço nada ou tento mostrar o que não sou. Sou assim. Não me sinto líder. Agora, nem é tão fácil, porque ainda não domino bem a língua. Quando acontece alguma coisa, tens de reagir depressa e eu não sei dizer tudo; digo “hey”, mas “hey” é o quê? Vejo situações que vão acontecer, se vejo jogadores fora da posição, se vejo que algum tem de estar uns metros para o lado grito para corrigir. Se se movimentarem, já não acontece o que eu previa. É essa a minha maior virtude: vejo coisas antes de elas acontecerem. Se calhar, é por isso que falam da minha liderança.»

«Agora sim, estou adaptado. No início era difícil, às vezes aos 70′ de jogo já estava sem ar e tinha de ir com calma. Mas agora já vou com vinte e tal jogos, com os da pré-temporada, já estou completamente adaptado»

«Não estou sempre a dar nas vistas, a marcar golos, mas sou como aquilo que se põe entre os tijolos numa construção; sou uma espécie de cimento, é assim que vejo o meu papel numa equipa»

«Desde o primeiro dia que ele insiste no trabalho e acredita nele. E no final vê-se que tinha razão. Não se pode comprar tantos jogadores e ser logo uma grande equipa.»

(Capel é um fenómeno?) «Não. Acho que ele é um bom jogador, tal como outros o são, mas… ainda não é um Messi [risos]. Ainda agora, com o Gil Vicente marcou dois golos de cabeça, mas o segundo, por exemplo, até a minha avó marcava [risos]. Mas, por exemplo, o Carrillo entrou e em apenas 15 minutos esteve em três golos… Tudo depende da perspectiva. Ele é um dos jogadores do plantel que estão realmente confiantes, é um jogador que precisa disso, porque quando a equipa jogar mal, então é que quero ver se ele é capaz de passar por três adversários. Quando a equipa está confiante, toda a gente joga bem e ele aposta no um contra um e consegue levar a melhor. É um bom jogador, não há dúvida, nós precisamos dele, mas ele também precisa da equipa.»

«O Sporting não é clube de ser segundo ou terceiro; temos de ser campeões. Mas estamos ainda no início. Damos mais e mais para mostrar carácter a nós próprios e vamos continuar. Todos esperam os grandes jogos, mas se não ganharmos os jogos pequenos, nunca seremos campeões.»

«Não somos imbatíveis; ainda não. Ainda não somos suficientemente bons para isso […] Agora somos fortes e um adversário duro de defrontar. E ainda só jogamos juntos há dois meses. Não jogamos juntos há três anos, isto é só o princípio»

«Eu não vim para ficar em terceiro; vim para encurtar a diferença para Benfica e FC Porto e tentar ainda mais – ser campeão»

«Somos o Sporting e temos de mostrar aos adversários que somos um grande clube. Se formos fortes de início, todos os jogadores da equipa se sentem desde logo envolvidos. Temos de agir em vez de reagir, esse é o caminho»

Do banco à bancada

A emoção, transportada no brilho nos olhos, é generalizada.
Domingos sorri. Onyewu, o Capitão América, imita Bojinov, o nosso Tony Stark sem a armadura de ferro. Wolfswinkel festeja como se tivesse sido ele a marcar. Carrillo ri, como se tivesse acabado de pregar uma rabeta ao seu melhor amigo, numa futebolada de rua com balizas feitas de pedra. Nas bancadas, abraçam-se conhecidos e desconhecidos. Há quem se sente, talvez por sentir as pernas a tremer ou o coração a ceder. Grita-se Sporting. Uma e outra vez, num grito que, ao longo da semana, nos ecoa no labirinto do cérebro, como que guiando-nos em direcção à tão procurada saída: o próximo jogo.

Esta é, para já, a maior conquista de Domingos: transformou um plantel numa equipa onde todos jogam, mesmo os que ficam de fora. Ficar no banco não é um drama. Ver um colega brilhar é motivo de orgulho. Um golo é um orgasmo colectivo. E esse estado de espírito depressa se transmite às bancadas, numa comunhão que torna, a cada semana, o Sporting num adversário mais forte e mais temível.

Sob este estado de alma, percebo perfeitamente as declarações de Domingos, garantindo que não existirá deslumbramento e que há ainda uma larga margem de progressão para a equipa. Não só espicaça, ainda mais, os jogadores, desafiando-os a superarem-se, como relembra aos adeptos que a guerra ainda agora começou e que existe a possibilidade de terminarmos bastante esfarrapados algumas das batalhas. E, creio, a resposta a esses momentos valerá tanto como os três pontos que ficaram por conquistar. Serão eles capazes de olhar esse momento como, hoje, celebram um golo? Seremos nós capazes de controlar a nossa bipolaridade e, ao primeiro revés, não colocarmos em causa tudo o que de bom se vai conquistando? Se do banco à bancada o elo se mantiver, então, meus amigos, poderemos continuar a sorrir com a vertiginosa proximidade do sucesso.

Ela é linda

Foi amor à primeira vista.

Vínhamos de uma relação falhada, frustrada, traumática. Tínhamos sido mal tratados, estávamos doridos, feridos. Tínhamos problemas de autoconfiança, uma crise de amor próprio e vulneráveis emocionalmente. Ela apareceu do nada, naquele jeito despreocupado, ignorando o nosso passado. A mera visão da beleza prometida fez-nos apaixonados, irracionalmente.

As primeiras trocas de olhares, os encontros fortuitamente planeados, a pré-época da nossa relação, foi culminada com a primeira noite. Mágica, intensa, tão inesquecível quanto inesperada, apesar dos nervos. O fuso horário tornou tudo mais especial. E, entretanto, ela continuava a juntar argumentos, continuava a olhar de volta, sempre com novos brilhos, novas promessas.

Voltámos a casa e caímos no chão. Ela não estava a cumprir o que tinha prometido. Mostrava os mesmos defeitos da anterior paixão dolorosa. Parecia tudo igual, demorava a consumar o que prometia, tinha problemas de saúde, como a outra, tinha defeitos, os mesmos que a outra. Seria ela ou seríamos nós? Estaríamos a projectar os nossos traumas nela? O problema se calhar era nosso.

E de repente, numa noite avulsa, ela voltou. Contra todas as probabilidades, o encanto voltou. Do caos fez-se luz. As discussões, as gritarias, os choros, a raiva – naturais quando dois seres tentam compatibilizar-se à pressa, sob intensa pressão – ameaçavam tudo. Mas uma superior necessidade de sobreviver, de fazer bem, de escapar ao destino, transformou-a. Primeiro com sofrimento, com suor e lágrima, depois com confiança, com ego, agora com encanto, com magia.

Estamos apaixonados. Ela é linda.

Estamos empurrados por um “segundo vento”. O cabelo cheira bem, o torso é renascentista, as pernas fortes mas elegantes, tem uma personalidade especial, ri como nenhuma outra, das coisas certas, pensa, fala e escreve como os melhores poetas e filósofos. E é prática. Humanamente prática. Eficaz, tem noção das suas próprias limitações, mas contorna-as com sentido de humor e uma frieza nórdica. E a cara, deuses… baby face… killer.

Van Wolfswinkel. Explica o encanto. É a primeira coisa que se vê nela. A cabeça. Diego Capel. Vê-la mexer-se assim, aquele gingar, aquela pose, dá-mos um arrepio pela espinha. Elias. As pernas. Longas, lindas, vitais. Schaars. A personalidade, o carisma. Rinaudo. A paixão, o coração. Onyewu. A força, a imponência de um corpo olímpico. Matigol, a magia, a poesia. Carrillo. O ego. O id. O superego. Insúa, o pragmatismo, o realismo. Rodriguez, a maturidade. João Pereira, a inconsciência. Bojinov, a paixão. Jeffren, a  promessa de uma vida constante em comum.

Ela é linda e estamos loucamente apaixonados. Cada noite em casa é tão inesquecível quanto a ressaca do dia seguinte é desestabilizadora. Escrevemos o nome dela nos cadernos, cravamos as árvores com os nossos nomes, contamos os minutos até à próxima noite. Fora de casa, o sentido de aventura aumenta os níveis de adrenalina e destrói-nos o resto da vida pessoal.

O prazer de viver com ela é ininterrupto. Mas é finito. Em breve, acabar-se-á a paixão. Seremos confrontados com os seus defeitos. A vida em comum é isso mesmo. Teremos de aprender a viver com as curvas que a vida dá, que o futebol dá, aprender a não descarrilar, juntos. Temos de passar por cima das contrariedades, saltar ao mesmo tempo, aguentar as oscilações hormonais, os buracos negros da química que agora é tudo. A nossa paixão, hoje, é um treino. É um enraizamento para nos preparar, para nos segurar no meio das tempestades que se avizinham. Nestes momentos de encantamento, temos de estar conscientes que estamos a trabalhar-nos para o futuro, a esculpir a cumplicidade que nos fará sobreviver a todas as crises e a todos os nossos inimigos.

Antes de melhorar, vamos piorar. Vamos cair outra vez. E vamos levantar-nos, olhos nos olhos, à procura da velha paixão que nos consome agora e que nos salvará depois. Só então estaremos preparados para fazermos algo juntos, que ficará para sempre, para a história, a nossa e a dos outros. O filho da nossa paixão demorará o seu tempo, mas se nos lembrarmos de como ela era linda quando a conhecemos, como ela é linda agora, como ela pode ser linda sempre, mesmo quando não parece, esse filho chegará, custe o que custar, demore o que demorar. Se da paixão se fizer amor, seremos campeões!

 Sporting!

PS: Este é o meu último texto no Cacifo. Oficializo assim a saída que já era oficiosa. Faço-o por muitas razões que não interessa explicar. O Cacifo fica em boas mãos. Sem mais. “Douglas is dead, long live o Cacifo!”

Tantos mil

Creio que nenhum de nós acreditará que o Benfica disponibilizará mais bilhetes do que aqueles a que as regras obrigam. E quando digo nenhum de nós refiro-me, também, aos nossos dirigentes. Daí que o desejo que, hoje, faz capa do Record, de ter 10 mil leões na casa do rival, seja por mim entendido como uma medida de motivar e unir, ainda mais, os Sportinguistas. Como uma espécie de desafio a todos nós para que, seja em que bilheteira for, acorramos à compra do máximo de lugares possível e sejamos parte activa de uma invasão à Luz como há muito não se vê.
Ganhem ao Feirense, ao Leiria e ao Braga (para a Taça). Nós faremos o resto.

p.s. – não foram dez mil, mas foram mais de cinco mil as visitas ao Cacifo durante o dia de ontem. E quase 130 comentários, todos eles respeitando o post. Senti-me esmagado. Obrigado.   

Foi quase como tu me contavas, Avó

Quando, aos cinco anos de idade, assumi difinitivamente que era e seria do Sporting, ainda não conhecia a preferência clubística da minha avó, nascida em 1930. Pese o contacto quase diário que mantínhamos, as nossas conversas versavam mais sobre planos para trocar as recomendações maternas ou paternas de “ele hoje come peixe” por um bife de vaca mal passado, com batatas fritas e arroz, e um ovo a pedir uma carcaça mergulhada de cabeça. Ou por uma ida ao Paris, na avenida com o mesmo nome, para comer o “combinado”, prato criado numa época em que nós, os putos, não tínhamos problemas de colesterol e onde as salsichas fritas se juntavam à conjugação de proteína e hidratos anteriormente descrita.
No regresso, passávamos pela Diplomata, salvo erro em plena Av de Roma, onde os príncipes, não nós mas os bolos, eram pirâmides perfeitas de fofo pão de ló, coberto por doce de ovo solidificado no ponto e uma cereja orgulhosa a servir de boné. Levávamos uma caixa para casa, mais um Kalkitos para dar largas à imaginação durante a tarde.

Não sei muito bem quando, mas a minha avó acabou por perceber que eu era do Sporting. Tal como ela. E, naquele seu jeito particular de ver a bola, passou-me alguns ensinamentos – “os do Benfica são uns saloios cheios de peneiras. Coitados…”; “ainda gostava de saber de onde apareceu o Porto… deve ter sido alguma intrujice”  – e deixou-me na memória imagens que nunca vi: “se tu visses o Albano, tão pequenino, a passar por baixo das pernas dos adversários. Fintava cinco ou seis de uma vez e eles nem sabiam onde ele estava. E o Peyroteu não falhava golos. Epá, tanto que eu e o teu tio gritávamos a ouvir o relato na telefonia. E o Azevedo até defendia com um braço partido. Naquele tempo é que era, tinham todos medo de jogar connosco!”.

Ontem, no dia em que fui obrigado a dizer-te adeus, foi quase como tu me contavas, avó.
Apareceu um pequenino, chamado Capel, que não passou por baixo das pernas de alguém mas que marcou dois golos de cabeça, o primeiro um grande golo. Depois apareceu um miúdo, mais alto, que parece ter saído de uma Bimby (aquela máquina que te fazia dizer “inventam tudo”) onde colocaram o Nani e o Quaresma e que se fartou de fintar os adversários como tu dizias que é bonito. Também temos por lá um avançado, o Wolfswinkel, que quer marcar tantos golos como o Peyroteo. Temos médios que pautam os ritmos de jogo, o Schaars, o Rinaudo, o Elias, o Matías… E um defesa direito, o João, que, de quando em vez, resolve ser protagonista pelos melhores motivos. Ainda não temos um guarda-redes a defender de braço ao peito, mas voltámos a ter um treinador que faz a diferença.
E olha que quase aposto que já há muito boa gente com medo de jogar connosco.