hoje escreves tu: «Um pouco mais de verde»

Todas as quartas, a voz dos cacifeiros salta da caixa de comenários para a primeira página, naquela que considero uma forma de enriquecer o blogue, de reforçar o Sportinguismo e de agradecer a todos os que, diariamente, ajudam a fazer do Cacifo aquilo que ele é ( quem quiser saber as regras, clique aqui).
E o de hoje tem a particularidade de ser escrito por uma Leoa, que assim se torna na primeira mulher a assinar um post no Cacifo. Um grande post, diria eu, subindo a fasquia em relação ao que já de bom tinha sido escrito na primeira semana e aumentando a responsabilidade do escriba que se segue: Oscar Neves.


Um pouco mais de verde
by Lioness

Eram as Barbies. Os laços e as fitinhas. Os Nenucos, nababos numa corte de bonecas. Os tachinhos, os pratinhos, as chaveninhas e os bulezinhos, todos com a pega do diminutivo que (só) cabe numa cozinha em ponto pequeno. E antes que a janela se feche com a pergunta irritada – mas porque “raio” (ou uma caralhada que o valha*) é que eu estou a ler sobre brinquedos de criança (de miúda, ainda por cima!) num blogue sobre o Sporting??!! Por nada. Ou talvez por tudo.

Ao ver o Sá Pinto a cirandar junto ao banco, na passada quinta-feira, enquanto os arruaceiros do Legia nos tentavam escavar o estádio – bem que podiam ter emprestado um centésimo da agressividade ao Juskowiak, podia ser que ainda tivesse marcado mais uns golitos quando por cá passou – dei por mim a pensar não no instante em que me tornei sportinguista, porque não me lembro, mas no exato momento em que tomei consciência disso. E porquê puxar o fio ao novelo das memórias, em vez de gritar, como quem tenta coser o fio de jogo esgarçado da nossa ainda frágil equipa, a ver se remenda em campo os buracos que outros rasgam nos bastidores? Porque o Sá Pinto estava lá, nesse exato momento de que vos falo. Porque nesta passada quinta-feira – 18 anos depois – nos voltámos a encontrar. Mas essencialmente porque continuo a crer (passo a imodéstia) que é por pedaços de história comum como esta que ainda sentamos os dedos nas teclas para escrever sobre o Sporting, como se corrêssemos esbaforidos pelo campo, rumo à baliza. E continuamos a olhar, mesmo quando as vitórias fazem gazeta, para o nosso lugar no estádio como o recanto mais confortável da nossa casa, apesar da cadeira ser dura, de estar um frio do camandro, do gajo da frente não se baixar nem por um segundo e do Izmailov ter falhado aquele golo de baliza aberta, como é que possível, car…aças?! [E sim, bem sei que ele agora se redimiu].

Voltemos às Barbies. Aos lacinhos, às fitinhas e por aí adiante. No tsunami cor-de-rosa que despencava sobre o meu quarto de miúda era difícil manter a cabeça à tona. Foi então que o meu pai – sportinguista dos quatro costados, mas pouco dado a evangelizações à força – resolveu resgatar-me, com uma pincelada verde. Subtil, mas a tinta permanente. Único filho homem no meio de duas irmãs, sem sobrinhos por perto, com um sogro que ligava pouco à bola e sem filho varão para dar continuidade à linhagem sportinguista, apostou que sairia da boca da filha mais nova o rugido de leão (de leoa, neste caso) que tanto ansiou ouvir. E acertou na mouche.

Talvez porque me tenha ensinado a ler nas páginas d’A Bola – já sei que vão dizer que é o jornal dos “lampiões”, mas para mim ler A Bola é como quando mascávamos pastilhas Gorila quando éramos miúdos: sabíamos que aquilo nos ia deixar um buraco nos dentes e outro no estômago do tamanho do Grand Canyon, mas atafulhávamos a boca com aquela porcaria na mesma – ou porque me via devorar livros como o Maniche devora javalis (ou seria o Obélix? Não, esse era um bocadinho mais magrinho), o meu pai ofereceu-me aquilo que, no Sporting havia de mais parecido com um livro (pois, há o Almanaque, mas, lá em casa, almanaques só o Borda d’Água, para saber para que lado sopra o cabelo do Paulo Bento): a caderneta de cromos do Sporting, época 1994/95. A minha primeira caderneta. Tinha eu 6 anos, e uma vida pintada a verde pela frente

Nas janelas numeradas colaram-se primeiro o verso dos autocolantes e depois os meus sonhos. Mal sabia eu que as meninas não jogam à bola – na verdade jogam, eu é que não, que tenho o talento futebolístico de uma love child do King com o Michael Thomas – e já me imaginava dentro das quatro linhas a fazer o gosto ao pé. Ao meu lado, o Sá Pinto, (ainda) com os caninos afiados, como um leão faminto, o Naybet e os seus canudinhos – «Pai, não gozam com ele por ter cabelo de menina? Achas? Levavam logo um papo-seco nas trombas, que ele não é de se ficar!», o Marco Aurélio que me acompanhou até à véspera do primeiro campeonato, o Nuno Valente quando começou a fazer a dieta do Maniche, o Figo com uma farta cabeleira e sem tanta peneira, o Peixe já fora de água, o Costinha aos domingos à tarde, na baliza, com o seu chapéu, o Cintra que nos dá o mote e o Paulinho que nos empresta o Cacifo, o Balakov que o meu pai me ensinou a tratar pelos dois nomes, «como se tratam os génios», e tantos outros de boa e má memória. (Entretanto descobri noutro blogue esta foto, que rematava a caderneta).

E eu que olhava para todos eles, cheia de vontade que o meu pai me levasse mais uma vez (só mais uma!) ao velhinho Alvalade. Como agora, não éramos campeões de nada, a não ser do Queijo Castelões, mas havia garra, carisma, o célebre (e desculpem-me o tom carroceiro) «até os comemos, caralho» (digo eu agora, que na altura desconhecia o vernáculo).
Havia o esforço, a dedicação e a devoção que voltei a ver no rosto do Sá Pinto, 18 anos depois (e é claro que já tinha visto antes, mas ainda não ao leme deste barco desgovernado que tem sido o nosso Sporting, nos últimos tempos). Às vezes, como julgo que aconteça com ele, também me apetece saltar para o campo, abanar os jogadores e dizer-lhes, ao jeito do Jorge Perestrelo, mas adaptado a quem lhe falta a barriguinha: «até eu, com as minhas pernas de alicate, fazia melhor, porra!».

Tal como o Sá Pinto, que porventura não chegou ao lugar que (não tenho dúvidas) sempre quis seu na hora mais certa, talvez também eu não seja a pessoa mais indicada para estar a falar sobre o meu clube, nas quatro linhas de um Cacifo onde provavelmente a maioria dos que aqui se acotovelam me ganham em anos de sportinguismo, em conhecimento futebolístico e em jeito para a bola. Mas é isto que, para mim, é ser do Sporting. É não virar a cara a luta, é ser maior que o tamanho dos nossos sonhos, para pôr os pesadelos atrás das costas. E é arriscarmo-nos a fazer figura de urso (ou ursa leoa) pelo Sporting – que é o nosso grande amor – de sorriso até à testa.

Finalmente, é por isso que depois do esforço, da dedicação e da devoção, acredito poder estar a despontar (mesmo que ainda muito longe) o prenúncio da glória. Que o Sá Pinto esteja no lugar dele, e eu a espreitá-lo do meu, no topo Sul, com a minha velha caderneta debaixo do braço da memória, é o que desejo. E que estejamos todos a celebrar um pouco mais de verde.

*pois é, eu também li o comentário ao anterior “hoje escreves tu”, sobre como o Cacifo se está a tornar numa espécie de cruzamento entre as entrevistas do Daniel Oliveira e o programa As Tardes da Júlia. E aos que partilham dessa opinião, deixo o meu mais sincero: aprendam a ler, foda-se!

104 thoughts on “hoje escreves tu: «Um pouco mais de verde»

  1. como todo o respeito pelos dois grandes sportinguistas que escreveram prefiro discutir o sporting do que saber o quao sportinguistas eles sao ou como se tornaram sportinguistas.

    Abraco

    • Ao escreveres um comentário tão infeliz (e fico-me pelo infeliz porque estamos no fim do mês e já quase gastei toda a minha ira) esqueces que discutir o Sporting também é falar dos Sportinguistas e da sua forma de sentir o Sporting. Ou para ti Sporting são 90 minutos de jogo mais as decisões da direcção? Vai lá rever os teus apontamentos e poderás de certeza conferir que está lá escrito que, se existe o Sporting que todos nós adoramos, muito se deve a Sportinguistas como a Lioness.

    • Não é propriamente dos posts que mais gosto de ler, mas tenho uma boa solução: não os leio e espero pelo próximo. Quem gostar que os aproveite e comente.

      • Ainda que mal pergunte, se não lê estes posts, como sabe que não gosta?

        É que realmente eu adoraria ter essa sua capacidade, i.e., não ler comentários de certos Cacifeiros por sabe de antemão que não seriam merecedores da minha atenção.

      • Não, não necessito de mais nada. Fico apenas com muita inveja de não ter essa capacidade. Os meus parabéns e espero, sinceramente, que essa sua mais-valia lhe possa ser muito útil em todos os contextos.

    • foda-se, oh sportingforever, consegues explicar-me de que forma é que o teu comentário enriquece o que quer que seja?!? Foi só para seres o primeiro a escrever, confessa lá…

  2. Mais um grande post para a colecção do cacifo! Aposto que o Sá Pinto procura transmitir este sportinguismo verdadeiro.
    Grande iniciativa Cherba. É por estas e por outras que o cacifo é do caralho!
    SL

  3. Lioness,
    já percebi que foste escolhida a dedo, bem vinda…

    Cherba,
    nem vale a pena adjectivar-te a ti ou ao teu constante bom trabalho
    o cacifo é do caral**

  4. Uma grande posta, de uma grande mulher, num enorme blog.

    Sinto-me particularmente identificado com este post porque cresci a babar-me com essa enorme equipa. Como foi dito no post, os génios tratavam-se pelos dois nomes. Mas o nosso 10 estava no limiar do sobrenatural. Krassimir Genichev Balakov. Assim mesmo, com o nome completo, para se distanciar desses “bons jogadores” como maradona ou cruijff.

    Todos os elogios sobre esta belíssima prosa são insuficientes. Por isso deixo abaixo as declarações do nosso Capitão América, que, embora sejam destinadas a moralizar o grupo e o treinador, podem bem ser aplicadas para ilustrar este post, bem como o sentimento sportinguista:

    “Primeiro faz o necessário. Depois faz o possível. Antes que dês por isso, conseguirás fazer o impossível.”

    Isto é o Sporting!

    • O Maradona também não era mau: muitas vezes tratado por Diego Armando Maradona. Nomeadamente pelo Gabriel Alves num VHS dos melhores golos de campeonatos do mundo que tenho la em casa…

  5. Esse ultimo cromo foi a melhor equipa do SCP que me lembro de ver jogar, com os grandes Krassimir e Oceano que tanta falta faziam agora.

    Dani e Figo a desequilibrar eram os deuses da altura, estavam por todo o lado em campo.

    Iorda, Juskoviak, Amunike e o Jorge “condiçoes psicologicas” Cadete eram os Ases.

    Pelo menos a escola o Sá Pinto fez toda nesse ano com os melhores professores possiveis, agora só tem de aplicar aos craques atuais.

    SL

  6. Lioness-só tenho a dizer duas palavras para agradecer por este texto que demonstra mais uma vez a diferença que e ser do Sporting ou de outro clube.
    GRANDE LEOA

    cherba – para quem critica esta tua iniciativa e sei que não precisas da minha opinião para nada .Os cães ladram e a caravana passa.

    E o SPORTING E O NOSSO GRANDE AMOR

  7. comeste-me a cabeça com a cena das barbies confesso, mas sem dúvida, escreves muito bem e sabes do que falas. Acrescentava aí o Valckx, um holandes que deixou saudades. Temos Leoa pois temos e pelo que vejo podes dizer ao senhor teu pai que tomaste bem conta do legado!

  8. Mais um grande texto! Tb eu fiz essa caderneta…tinha 10 anos! Está no meu quarto bem guardada. Essa equipa foi uma pena não ter ganho um campeonato…

    As leoas dão outra cor a este espaço! ;)

    (Em relação ao primeiro comentário, completamente ridículo. Faz-te mas é homenzinho…e escreve tb um!)

    Bora lá Sporting!!

  9. Muito Lioness, grande texto sobre o nosso grande Sporting.

    Equipa mítica, que apesar de não terem sido campeões faziam-nos orgulhosos!

    P.S.: É com uma mulher assim que eu quero casar!

  10. Parabéns pelo texto Lioness. É sempre bom ler-se textos com qualidade, mas esta temática já está um pouco batida… Talvez possamos ver textos com outras temáticas por aqui, e há pano para mangas…

  11. Aproveito para aqui confirmar uma ideia que há muito tenho: se as mulheres são os seres mais maravilhosos que existem neste mundo, uma mulher Sportinguista é o símbolo máximo da perfeição.

    • Ora aí está uma frase que nos enche de orgulho como mulheres Sportinguistas e que sentimos o clube como ninguém.

      O que mais me irrita é quando me dizem “Discussão de futebol é para homens” … fico capaz de lhes partir os dentes … convém dizer que não são Sportinguistas que o dizem porque esses sim até gostam de me ouvir defender as nossas cores até à exaustão.

      Muito bom post Lioness e revejo-me nessas tuas palavras.

  12. Quando vejo o SPORTING jogar como sabe e me “enche as medidas” fico verdadeiramente feliz por dentro. O dia fica mais claro, o humor é excelente… só apetece pedir para…

    “Don’t stop me now, i’m having such a good time, i’m having a ball…”

    O senhor do video explica melhor…

  13. Grande Texto!!!

    O Capel lesionou-se na seleção espanhola.
    Fdx, o cabrão do rodrigo não joga, o paneleiro do luisão também não jogou e o capel, vindo de uma lesão, vai logo jogar. Vão-se foder !!!

    Somos mesmo uns meninos do caralho. Assim nem daqui a 20 anos seremos novamente campeões.

  14. Adorei. Cheguei a fazer também uma caderneta com tudo o que encontrava do Sporting. Caramba, estive a ver a foto que a Lioness deixou no seu brilhante texto, e ainda hoje não consigo perceber por que raio, com uma equipa daquelas, só ganhámos uma taça! Fui ao Jamor ver essa final e lembro-me perfeitamente da finta macaca que o carlos xavier fez para o cabeceamento do iordanov, no primeiro golo ao Marítimo! Era ainda uma amostra de gente, e por isso não conseguia reter tudo, mas sempre pensei que o Paulo Sousa fizesse parte dessa equipa. Agora vejo que saiu um ano antes. Seja como for, e tendo em conta a equipa, só com muita incompetência não ganhámos o campeonato desse ano.
    Obrigado por mais uma memória, Lioness.

    P.S. Para os mais cépticos: gostar do Sporting não se esgota só no bitaite táctico do café. Gostar do Sporting é isto: recordar os momentos bons e as misérias por que já passámos, sendo certo que o nosso grande amor nunca será posto em causa!
    P.P.S. O Sporting aos sportinguistas. Já é hora! Por mais merda que o Sá possa vir a fazer, teremos sempre a certeza que o fez com a melhor das intenções. Aquele homem, agora treinador de todos nós, até come a relva pelo clube!

  15. Ao contrário do que foi dito, logo no 1º comentário, eu vejo este espaço como uma família de Sportinguistas. Numa verdadeira família partilham-se histórias, experiências, que nos dão um sentimento de conforto e conhecimento mútuo.

    Existem posts quase diários onde se discute o dia-a-dia do clube, portanto o abrir a excepção, num post por semana, em que se eleva o sentimento Sportinguista, parece-me de louvar e de manter.

    Muitos parabéns pelo texto, infelizmente vi essa grande equipa a perder nas Antas, num jogo em que o azia Coroado expulsou o Juskowiak, por lhe fazer o gesto “precisas de óculos”

    SL

    • Isso do Juskowiak foi na Amadora (vitória por 2-0 com bis do polaco).

      Nas Antas empatámos 1-1 (golo de Figo). Aliás, nessa época não perdemos nenhum jogo fora de Alvalade para o campeonato (fomos derrotados em Madrid pelo Real).

      • Foi em Faro e o gesto foi ao fiscal de linha, em mais um exemplo de como o Coroado é muito valente menos em tribunal onde mete o caralho no cu e diz que não viu nada de anormal na exibição dum árbitro comprado pelo fêcêpê. Na Amadora aconteceu outra coisa engaçada. O guarda-redes deles, o Hubart, agarra a bola e ao repô-la em jogo chuta contra o Jusko que apanha o ressalto e faz golo. Mas como ele estava muito perto do redes, o árbitro invalidou o golo.

      • Está certo, esse 1-1 foi em 94/95, a época que é referida no post, o jogo que eu vi foi em 94, mas referente à época 93/94 e perdemos mesmo 2-0. O Juskowiak foi realmente expulso nesse jogo (afinal não lhe faltava “agressividade”), a minha memória pode-me é estar a atraiçoar quanto ao motivo.

      • Esse foi o jogo de má memoria, da entrada ao fernando couto, esse anjinho, das expulsões, dos desacatos na rua e do adepto apunhalado.

        Comecei a ver um gajo apanhar um enxerto de porrada á entrada do estádio por tentar gamar uma carteira, um adepto a sair de maca do estadio e desacatos na rua para acabar.

        Os corruptos no seu melhor.

      • I stand corrected. Foi contra o Estrela da Amadora, sim senhor. Mas estes lapsos de memória compreendem-se. As roubalheiras dos árbitros contra nós são tantas e tão frequentes que é impossível lembrar com detalhe todas elas.

  16. Correndo o risco de me resvalar a chuteira para a lamechiche – e façam o favor de me dar um berro à Schmeichel se assim for – queria agradecer a todos por terem recebido no Cacifo como se recebe um amigo em casa. E por me terem deixado um sorriso na cara, verde não na cor – que o meu pai também me ensinou a lavar os dentinhos – mas no espírito.

    Confesso que quando entreguei esta prosa ao Cherba estava com receio que não vissem com bons olhos a intromissão de uma presença feminina ao “balneário dos rapazes”, mas senti-me aqui tão bem recebida como quando me sento sozinha no meu lugar, em Alvalade, ou quando chuto de letra para os meus colegas de trabalho um comentário sobre o nosso Sporting.

    A propósito de muito do que aqui já foi dito sobre a equipa que continua a deixar alguma saudade, de há 18 anos para cá, sobre o próprio Sá Pinto e sobre o que me levou a encher-vos as leoninas jubas de pó com uma memória antiga, permitam-me só mais uma tirada: O Sá Pinto não é o Messias, não vem montado num cavalo verde e branco e, acredito, como grande sportinguista que é, também ele reconhecerá que não chega nas condições ideiais ao lugar que agora ocupa. Mas àqueles que lhe pediram para meter os tomates entre as pernas (desculpem, mas teve de ser) e para recusar treinar a equipa principal, deixo uma pergunta: «quantos de vós, por mais que a sanidade o pedisse, eram capazes de virar as costas ao Sporting, quando ele mais precisasse»?

    A rematar, mais uma pérola verde de que entretanto me lembrei: «Ganas, muchas ganas. Queria provar a mim próprio que estava bem. E o Sporting pareceu-me o desafio ideal. Está no meu coração, é um clube com uma história riquíssima e uns adeptos muito especiais» (Beto Acosta (o nosso Matador), em entrevista ao jornal i, quando lhe perguntaram porque é que arriscou vir para o futebol europeu com 32 anos.

    Quando ouço falar em ganas, lembro-me sempre das «ganas de salir a gañar» do Camacho-a-única-coisa-que-eu-fiz-de-jeito-foi-chorar-pelo-Villa e não, não é nada disso de que aqui se fala. São as ganas de ver os jogadores comerem a relva, de ouvir o estádio gritar pelo golo, de podermos encher a boca para dizer: «somos do Sporting, porra», com um selo de campeão colado na testa. São essas ganas que tem faltado a quem nos dirige, a quem se senta no banco e, pior de tudo, a quem sobe ao relvado. Espero que, finalmente, elas comecem a aparecer e que quem enverga a camisola verde e branca (seja nas bancadas, na tribuna, no banco, ou dentro das quatro linhas) perceba finalmente o peso que ela tem. E a faça voar.

    Uma última palavra para os que acham que não interessa falar sobre o que é o Sporting ou o que faz de nós sportinguistas. Eu também acho que não chega e às vezes (muitas vezes) já enjoa. Mas, a meu ver, é por estar tantas vezes esquecido o que «é o Sporting» e de que matéria somos feitos, que se têm cometido os crimes lesa-Sporting que temos visto sair impunes.

    Obrigada ao meu pai por me ensinar tudo isto. E obrigada ao Sporting por ajudar a fazer de mim aquilo que sou hoje.

  17. Excelente texto, é mesmo assim, convém manter o nível do primeiro :)

    É bom saber que as nossas leoas também sabem rugir com atitude e não apenas a espreitar de vez em quando. Parabéns pelo texto Lioness!

    Saudações Leoninas

  18. Ganhamos em casa ao Real Madrid por 2 a 1, mas fomos eliminados com o Golo de Laudrup, com saída em falso do guarda-redes Lemajic, um frango!
    Eu estive nesse jogo em Alvalade.

  19. Grande post. Muitos parabéns! Por mim, cara Lioness, podes escrever sempre que quiseres.

    Ainda melhor do que o teu genial post, ė o comentário que aqui atras deixaste. Esse sim, encheu-me as medidas. Tivessem alguns dos dirigentes 10% do nosso sportinguismo e já teríamos atalhado caminho, rumo à glória.

    SL

    • Estou como tu. Gostei muito do post mas ainda mais deste comentário, ainda por cima respondendo ao 1º comentário com categoria :D

      Parabéns Lioness! Os meus cromos ainda os tenho colados na gaveta da minha mesa-de-cabeceira :p

  20. Belo texto, estas contribuições de quarta-feira foram um belo reforço ao cafico Cherba!

    Lioness, tás lá, és uma verdadeira Leoa! E essa equipa de que falas está nas mentes de todos nós. Para mim, das melhores senão a melhor que já tivemos.. O que seria termos hoje um conjunto de jogadores como esses…

  21. Ainda não comentei aqui a minha opinião do Sá Pinto. A profissão do treinador é uma das mais díficeis e ingratas do mundo. Em primeiro lugar porque a avaliação dos outros sobre o treinador não depende sobre o seu trabalho mas sim sobre o que a equipa mostra em campo. Há um filme que demonstra isso muito bem, baseado em factos reais, (Damned United) em que o treinador do caraças é contratado pelo Leeds só que lá os jogadores não gostavam dele e ele acabou despedido (ou demitiu-se, já não me lembro.) Os principais componentes que um treinador deve ter são Física – Táctica (Defensiva e Ofensiva) – Psicológica. Diz se que o Carlos Queiroz é um mestre nas metodologias do treino físico, ficou comprovado que o Scolari é um motivador de homens e o JJ é o mestre da táctica. Isto só para distinguir 2 perfis de treinadores diferentes. Para mim a parte física num treinador principal não é muito importante já que estes fazem-se acompanhar de especialistas nesta matéria. Os melhores treinador são aqueles que são tão bons na parte psicológica e táctica do futebol, onde o Mourinho e o Fergunson são os exemplos de topo. O Sá Pinto parece me ser um bom motivador e grande suporte para os jogadores, parece conseguir fazer passar a mensagem. A minha questão é se a mensagem dele tem qualidade? Não basta gritar ” Vamos a eles caralho!”. Tem de haver conhecimento sobre as várias fases do jogo. Até agora não se tem safado mal e se não tenho concordado com todas as suas opções até agora, pelo menos tenho as compreendido, o que com Domingos já não se verificava. O futebol de Sporting ainda é pobre mas também ainda não houve tempo e parece me que está se a tentar implementar bons princípios.

    Para concluir tenho fé no treinador apesar de ainda ter dúvidas e só com o decorrer do campeonato é que se pode perceber melhor a qualidade do treinador. Não vai ser nos jogos com o City que se vai ver isso mas sim nos jogos da nossa liga. Os jogadores parecem gostar dele e isso quando é sincero é já um muito bom sinal.

  22. “Mas é isto que, para mim, é ser do Sporting. É não virar a cara a luta, é ser maior que o tamanho dos nossos sonhos, para pôr os pesadelos atrás das costas. E é arriscarmo-nos a fazer figura de urso (ou ursa leoa) pelo Sporting – que é o nosso grande amor – de sorriso até à testa”
    Bom! Muito bom e muito belo!
    Parabéns Lioness
    SL

  23. e agora tenho de ler os textos dos ‘amigos de cherbakov?’ unsubscribe, então. isto já nao é o que era, de qualquer forma. e ‘aprendam a ler’ mostra mesmo que a imagem do sportinguista snob (diferente, nao é?) nao é assim tao afastada da realidade.

    • Snob é quem acha que a sua opinião vale mais que a dos outros. Nunca me viram aqui – nem em lado nenhum, escondida atrás de um nick, ou em nome próprio – a mandar calar quem quem que seja, ou a desvalorizar a sua opinião. O comentário que fiz, fi-lo precisamente para responder àqueles que acham que, lá por não se falar de táctica se está a ser piegas e não se pode escrever por causa disso.

      E fica sabendo que não sei se me posso incluir na categoria de “amigos do cherbakov” mas que, se assim for, muito isso me orgulha.

      Aprender a ler não é saber juntar as letras e extrair sentido às palavras. É aprender, principalmente, a respeitar a opinião dos outros. E snob é, com todo o respeito, a avózinha.

    • amérrico,
      sendo o mais sincero possível, eu quero é que tu te fodas!

      Sendo mais simpático, mas continuando a ser sincero, tenho pena que não tenhas percebido que as pessoas que, nestas duas quartas-feiras, aqui escreveram, e que continuarão a escrever nas próximas, são pessoas que se mostraram interessadas na possibilidade de participar no Cacifo de uma forma que vai para além da caixa de comentários. E que essa possibilidade ganha forma após sorteio dos nomes inscritos.

      Tendo isso em conta, fica claro que o “aprendam a ler” te assenta que nem uma luva. E, sim, isto já não é o que era. Bastou tu apareceres.

  24. O poster com essa equipa (exactamente a foto do Armazém Leonino que está no link no belo artigo da Lioness) foi das poucas coisas que trouxe comigo quando me mudei da casa dos meus pais. Está aqui por cima da minha secretária e olho para ele todos os dias.

    Confesso que não sei bem qual é a mística que nos une. Talvez por ter sido a equipa que ganhou aquela taça do Iordanov, o primeiro título a sério que celebrei já com perfeita consciência do que era ser Sportinguista, eu que tinha 4 anos aquando do campeonato de 1982. Ou talvez, mais provavelmente até, pelo Krasimir Balakov, esse génio de nome completo que tão ingloriamente saiu do nosso clube para o Guimarães da Alemanha (sem desprimor nem para o VSC nem para o Stuttgart, mas convenhamos). O primeiro (o primeiro que me doeu amargamente, pelo menos, porque outros houve antes) numa longa linha de desaproveitamento e desleixo dos verdadeiros magos da bola que vamos tendo, que tratamos ao pontapé, por mais bem tratado que tenha sido o Krasimir Balakov enquanto cá andou, e que despachamos sem coração, para depois chorarmos por eles durante décadas. Como nos preparamos para voltar a fazer, com o grande Matias Fernandez.

    • Oh pá… Oh Valckx… se o Matias rendesse metade ou 1/4 do que rendeu o Balakov eu próprio fazia-lhe uma estátua…

      É triste mas Matias nunca rendeu o que dele se esperava… e já lá vão 3 anos… tempo mais que suficiente.

      Por mim pode ir, “devidamente” pago…

  25. O Cacifo é do caralho!

    Gostei, divertido e com alma de Leão, Leoa neste caso.

    Parabéns e obrigado por um bocado bem passado e pelas boas memórias de um grande passado, até das “chiclas” e das Barbies da minha irmã pintadas com o cabelo de verde .

  26. O post aborda uma questão que me parece muito importante: há equipas que se tornam inesquecíveis independentemente de títulos e troféus. Há uma equipa do Brasil no mundial de 82 que ficou na história, mesmo perdendo nos quartos de final. Era muito pequeno, mas lembro-me de ter ficado inconsolável por causa daquele jogo com a Itália. Penso que o Brasil ganhou dois títulos mundiais depois de 82, mas a equipa que ficou na memória foi a do mundial de Espanha.
    Há uma questão de identidade de um clube ou de uma selecção e da sua expressão potencial em campo que supera todas as outras considerações. As equipas de Balakov, Paulo Sousa e Figo e, posteriormente, a de Balakov, Amunike, Figo e Oceano (aquela da final da taça em que o Carlos Xavier fez a sua despedida em grande, a lembrar o último grande prémio de Keke Rosberg) conferiram identidade ao clube porque jogavam à imagem do clube. E isto aconteceu também porque tinham um treinador que sabia o que era jogar à Sporting (custa dizer, são demasiado conhecidos os aspectos negativos do personagem, mas é um facto que não consigo distorcer: mesmo no fatídico 6-3, se Queirós tivesse o Yekini, o Rui Barros e o Tavares – só não assinaram em Dezembro porque o Cintra não resolveu a tempo o diferendo com a Ovarense que impedia o clube de inscrever jogadores – para substituir os lesionados Peixe e Juskowiak, a história podia ter sido diferente).
    Como diria o gigante americano, para Sá Pinto, primeiro que tudo, é necessário que a equipa perceba o que é jogar à Sporting. Depois, será possível estabelecer, do ponto de vista técnico e táctico e de acordo com os jogadores, as premissas de como jogar à Sporting. Quando menos se esperar, teremos um clube inteiro – sócios, adeptos e simpatizantes – a rever-se na sua equipa. Se ganham ou não, é perfeitamente irrelevante.

  27. Viajar nas recordações é a mesma coisa que ir ao museu do Sporting !!
    Conhecer o passado, recordar as vivências e enaltecer as referências isso é o Sporting !!
    Muito bom li e reli essas épocas de grandes craques e relembrei-me de outros, que por ventura parte de vós só conhece de novo, também eles referências de um Sporting feito de raça e mística como era a equipa de 1970 e a de 1974 recheada de valores bem Leoninos como Damas, Laranjeira, Manaca, Xico Faria, Dinis, Marinho, Nelson e Yazalde e tantos outros !!
    Muito bom o texto porque me fez viajar no tempo !! SL

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