O José, Zé para os amigos, Djozé para os que o receberam e acreditaram nas suas capacidades, tinha na Páscoa um dos momentos mais esperados. Todos os anos regressava a Portugal, onde revia familiares e amigos e onde, como mandava a praxe, o Carlos do café teria à sua espera uma selecção de jornais desportivos.
«Então, ontem, conseguiste ver os teus amigos lagartos?», perguntou-lhe o Carlos.
«Não, pá. Estive a terminar umas pesquisas que me obrigaram a trabalhar noite dentro».
«Também não perdeste nada, rapaz. Tiveram uma sorte quem nem te conto. Se jogarem assim na segunda menos de quatro é derrota»
O José, Zé para os amigos, Djozé para os que o receberam no país para onde foi trabalhar, sorriu, agradeceu os jornais, e foi instalar-se à lareira, que o raio das noites ainda estão frias como tudo.
«Caraças, de repente parece que toda a gente gosta do Rui Patrício», comentou para si mesmo ao ver as capas dos desportivos do dia. Pegou na Bola e ensaiou começar a ler a crónica. Dizia o escriba que o Metalist entrou avassalador e que o Sporting nem sabia onde meter-se. Curiosamente, o mesmo escriba continua dizendo que a prova disso surgiria aos 32 minutos, com Patrício a parar um isolado Taison. «Uma grande oportunidade em mais de meia hora para quem foi avassalador?!?», questionou-se. «Estranho». Mais ainda, quando viu, na página ao lado, que bem cedo Wolfswinkel seguia isolado quando lhe foi tirado um fora-de-jogo a despropósito. E que a ideia de colocar André Martins ao lado de Schaars correu bem mas podia ter corrido mal. Desistiu da leitura, até porque as capas dos outros dois indiciavam nova leva de interrogações e análises duvidosas.
Recuou um dia na análise de impresa e viu capas pintadas a vermelho e a enormes elogios. Viu uma imprensa orgulhosa de uma eliminação, como que dizendo que as vitórias morais, as tais que a selecção nacional eternizou e onde o bom futebol do seu Sporting encaixou durante anos, eram, afinal, momentos que valem tanto como uma passagem de eliminatória. Decidiu ir directo ao jornal mais antigo, onde se falava da eliminação do Porto, frente ao Manchester City. Nova saraivada de elogios, nova vitória moral de uma equipa que, dizem, merecia ter ganho mas acabou derrotada (e por números claros).
O José, Zé para os amigos, Djozé para os que o receberam e acreditaram nas suas capacidades, colocou a pilha de jornais no chão. Levantou-se, para lavar os dentes, e enquanto manejava a escova como mosqueteiro da saúde oral, procurou arrumar na sua cabeça a enorme confusão que a prenda do amigo Carlos lhe tinha provocado. Ora, portanto, o seu Sporting, a única equipa portuguesa em prova nas competições europeias, era visto como um clube que pouco joga, que só sabe sofrer e que deve agradecer aos deuses ter formado o melhor guarda-redes português (o José repetiu esta última frase três vezes, para certificar-se que este era mesmo o guarda-redes do Sporting e não da selecção nacional, como os jornais repetiram vezes sem conta). Os outros, que jogam com o adversário que desejaram que lhes saísse no sorteio e perdem com a versão mais patética desse adversário da última década, são enormes, são equipa, são um orgulho nacional. Mesmo que joguem sem um único português. E ainda há os que, ano sim ano não, passam por Inglaterra para comer quatro ou cinco batatas, e são aplaudidos por perderem injustamente.
Passou no quarto dos filhos, para aconchegar a roupa aos dois pequenos leões vencidos pelo cansaço. E ele mesmo se sentiu cansado. De um país onde, no futebol como na vida, se faz um frete em aplaudir as vitórias de quem acredita que, mesmo fugindo ao mais do mesmo e aos poderes instituídos, pode atingir o sucesso.