O solista…

Coincidindo com a anunciado episódio do meio desta trilogia sobre o balanço da época, foi noticiado prolongamento do contrato com Sá Pinto por mais um ano. Vale o que vale, até porque já vimos o actual presidente a fazer juras de amor na véspera de uma chicotada, mas obriga-me a ir direito quase ao fim do post: independentemente de ser por mais um ano ou por mais dois, concordo com a continuidade de Sá Pinto. Ou, se preferirem, considero que seria um erro estarmos a começar novamente do zero e que ele justifica a oportunidade de começar uma época e tentar levar a nau verde e branca às conquistas.

Voltemos, então, ao início. Afirmei, e continuo a ser dessa opinião, que Sá Pinto serviu, inicialmente, como um escudo para o fracasso da escolha Domingos e para os maus resultados que começavam a incomodar em demasia. Nome querido à maioria dos Sportinguistas, Leão de corpo e alma, figura próxima das claques, Ricardo Sá Pinto acalmou as hostes que pediam sangue e agarrou numa equipa completamente escaqueirada física e animicamente.
Ora essa terá sido, precisamente, a primeira grande vitória de Sá Pinto: conseguir motivar as tropas e tirá-las do espartilho que esmagava a motivação e a crença. Numa entrevista recente ao jornal Sporting, o velho Manel Fernandes afirmava que o seu treinador preferido havia sido Malcom Allison, pela capacidade que tinha de fazer com que os 30 jogadores que compunham o plantel gostassem todos dele. Não sei se todos gostarão de Sá Pinto, mas a verdade é que deixou uma marca nos juniores que acabaram por sagrar-se campeões e tem merecido os mais rasgados elogios e juras de solidariedade por parte dos jogadores.

E foi essa solidariedade a imagem de marca da equipa, principalmente no trajecto feito na Liga Europa. Foi essa mesma solidariedade que faltou na final da Taça e que motivou a que o treinador, pela primeira vez, se tenha mostrado desgostoso e desiludido com os homens que comanda, contrariando um discurso positivo em que, mesmo nos jogos sem brilho, elogiava os que tinham estado em campo. Aliás, esse será o grande mistério destes primeiros meses de Sá Pinto como treinador do Sporting: a imagem de pouca motivação e pouca vontade no jogo mais importante do ano. Só ele e os jogadores poderão explicá-las.

Do maior mistério para os maiores desafios: contrariar o futebol autocarro que muitas equipas apresentam e conseguir ganhar fora cerca de 90% das vezes que se ganha em casa.
Se Alvalade se tornou, como é obrigatório para alguém que quer ser campeão, a casa onde finalmente mandamos, as deslocações foram praticamente todas ausentes de vitórias. Existirá, provavelmente, mais do que uma única justificação, mas um dos factores é, sem margem para dúvidas, a ausência de um futebol que consiga provocar desequilíbrios. É inegável que o Sporting pratica um futebol previsível, onde os extremos e as subidas dos laterais têm papel preponderante. Mas falta dinamismo no meio. Falta, por exemplo, ver os médios surgirem junto à área adversária a criarem superioridade, a rematarem, a marcarem. No fundo, falta a Sá Pinto conseguir aliar a boa organização atingida, capaz de bloquear adversários como City, Benfica ou Porto, à envolvência atacante que os adeptos do Sporting exigem. A envolvência que surgiu em alguns momentos, como a primeira parte em Manchester, o jogo contra o Guimarães, o jogo contra o Benfica, o jogo contra o Braga. Tudo jogos em que o adversário também procurou atacar. A excepção terá sido a segunda parte frente ao Bilbao, em Alvalade, onde a fúria leonina quase partiu os alicerces da estrutura defensiva adversária.

Assim, e como a vantagem de uma aprendizagem à força que lhe dá um conhecimento sobre as capacidades (ou falta delas) dos jogadores, Ricardo Sá Pinto partirá para 2012-13 com o desafio de mostrar que percebeu que, para atingir o sucesso, é preciso algo mais do que apertar com eles. E que, para jogar à Sporting, é preciso mais do que manifestar essa vontade em apelativas conferências de imprensa.

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Espero que não passe de uma invenção

Considerei digna a conferência de imprensa para confirmar a não renovação com Polga.
Irrita-me termos vendido o João Pereira por metade da cláusula, mas consigo entender o valor quando penso que o Valência marcará presença na Champions e que acharia um disparate o Sporting dar 4,2 milhões para contratar outro João Pereira.
Agora, nem sei o que dizer quando leio esta merda:«O defesa Edgar Ié e o médio Agostinho Cá, ambos de 18 anos, recentemente campeões nacionais de juniores pelo Sporting, estão a caminho do Inter Milão. Segundo A BOLA apurou, a provável transferência dos jogadores para o colosso de Milão renderá uma verba a rondar os 800 mil euros no imediato, mas o montante global da operação poderá ascender aos três milhões de euros, mediante o cumprimento de determinados objetivos por parte dos dois atletas».
Espero, muito sinceramente, e apesar de bater certo com o que se noticiava aqui, que não passe de uma invenção…

Nem o caneco, nem o caralho!

«Sofremos esta semana uma enorme deceção, com a derrota na final da Taça de Portugal. Não vale a pena ignorá-lo e cabe-me a mim, como presidente, assumir a derrota. Todos mereciam ter vivido a alegria da conquista, falhei esse objetivo!»
As palavras pertencem a Godinho Lopes, mas esta espécie de mea culpa peca por escassa. Porque, e não há volta a dar-lhe, Godinho e as pessoas que escolheu, falharam praticamente todos os objetivos.

Digo praticamente porque este ano acabou por representar o regresso dos Sportinguistas a Alvalade, em massivo apoio à sua equipa. Do entusiasmo inicial ao clássico frente ao Porto, do bálsamo Liga Europa ao derby com o Benfica, passando por assistências surpreendentes como aquela frente ao Guimarães, foram vários os exemplos de efetivo entusiasmo e efetiva crença nas bancadas. Portanto, esse acabou por ser o lado mais positivo deste ano: o Sporting não esteve de volta, como se anunciava, mas os Sportinguistas voltaram (e trazê-los de volta ao estádio era um dos objetivos propostos).
Nota positiva, ainda, para a conquista do campeonato de juniores e para o acordo com o município de Odivelas para reunir equipa B, atletismo, râguebi, andebol, futsal e basquetebol num único complexo desportivo. Resta saber o que isto representará em termos da prometida construção do Pavilhão junto ao Estádio de Alvalade.

Quanto ao resto, zero. Sim, eu sei que Godinho tinha apontado este como sendo um ano zero neste processo de trazer o Sporting de volta, mas ninguém nos avisou que este seria mais um ano a zeros.

Falhou o objetivo de lutarmos pelo título (e seria triste apontar o o facto de termos ficado a 16 pontos do primeiro, em vez de ficar a 30, como uma conquista), falhou o objetivo de ficar em segundo, falhou o objetivo de ficar em terceiro (e depois ainda vimos o Chelsea ganhar a Champs e ajudar o terceiro português a evitar uma pré), falhou o objetivo de aceder diretamente à Liga Europa, falhou o objetivo da Taça de Portugal (da forma vergonhosa e dolorosa a que todos assistimos), falhou o objetivo da Taça da Liga (contra reservas do Moreirense e afins).

Zero, zero conquistas, numa época em que gastámos dinheiro como há muito não era gasto. E, a propósito de dinheiro gasto, situações como a de Luís Aguiar, Rodriguez ou Bojinov são inaceitáveis. E ainda motivaram a revolução do departamento médico, que tinha vetado estes e outros nomes por não os considerar em condições.

Entretanto, Godinho mandou para casa um dos pilares fundamentais do seu projeto. Domingos, que a par de Duque e Freitas foi apresentado como sendo peça incontornável de uma ideia vencedora, tornou-se incapaz de levar a bom porto essa mesma ideia. Para o seu lugar entrou alguém capaz de apaziguar os adeptos mais inquietos: Sá Pinto. Sportinguista, homem da casa, surgiu como resposta às notícias postas a circular de que Domingos andava a encontrar-se com dirigentes do fcPorto. Godinho e sus muchachos safaram-se e, ironia do destino, num ato de fuga para a frente pouco ou nada pensaram, arriscaram-se a conseguir ir à pré da champions, à final da Liga Europa e a ganhar a Taça. Teria sido um ato de gestão genial, pois teria, mas, e pese todo o sofrimento que me (nos) fez passar, o facto de ter sido feito ao pontapé (aliás, nos últimos anos é assim que o Sporting tem sido gerido) acabou por justificar o morrer na praia.

Depois, há pormenores que não surpreendem. Quer dizer, talvez surpreendam os mais crentes. Olhando para a lista que Godinho apresentou aquando das eleições, tínhamos perante nós madeira para alimentar uma fogueira de vaidades. O que se passou, ontem, com aquele senhor arraçado de sapo, de seu nome Ângelo Correia, a mandar mais uma pedrada nos alicerces podres desta direção, foi apenas mais um episódio a juntar ao «espera aí que vou pôr-me ao fresco» de Carlos Barbosa, aos constantes recadinhos do papagaio Eduardo Barroso e ao triste episódio Paulo Pereira Cristóvão que permitiu aos suspeitos do costume fazerem rebolar o nome do Sporting no lodaçal do futebol português em que outros, há anos, se banham com total impunidade.

PPC que, ao lado de Godinho, fica também ligado à patética rábula da decoração do túnel (foda-se, custava muito encher aquilo de imagens de jogadores nossos a festejar golos?!?), às supostas gravações de incidentes graves na zona dos balneários do estádio da luz, e ao fechar os olhos aos atos vergonhosos praticados pelas claques nos dias que antecederam a final da Taça: primeiro, agrediram que estava à sua frente, na fila, para comprarem bilhetes. Depois, nas suas casinhas, que, diga-se, se situação no nosso estádio, trataram de vender a 50 euros bilhetes que custavam 10. E, na manhã da final, era ver afixados nas respetivas portas folhas com a indicação «bilhetes esgotados».

Costuma dizer-se que o que nasce afinado, perdão, torto, tarde ou nunca se endireita. E a verdade é que, quando olho para o ano em que a minha filha começará a ir ao estádio comigo, corro o risco de oferecer-lhe camisolas onde o cabrão do azul tmn ainda não desapareceu e um clube onde o passivo não pára de aumentar, gerido por pessoas que, caso não arranje um investidor nos confins do mundo e caso a equipa não comece a ganhar logo de início, irá à sua vidinha com a chegada do Outono e nos deixará à beira de mais uma época tão despida quanto as árvores sem folhas.

Quinta-feira, dia de estreias

Independentemente do que venha a ser dito, hoje, na Academia, onde supostamente será feito um balanço da época, a Cherba Frames arranca hoje com uma trilogia sobre o ano desportivo que há dias terminou. «Nem o caneco nem o caralho», «O solista…» «…e os artistas» são os títulos escolhidos para os posts que animarão os próximos dias numa das salas mais leoninas do país; o Cacifo.