A noite em que o Jubas se suicidou

Quando, no final dos 90 minutos, fui deitar a minha filha, surpreendi-me com a falta do Jubas em cima da cama dela. Com todos os outros bonecos no seu lugar, ainda mais se notava a ausência do maior de todos, com o seu equipamento às riscas. Encontrei-o no chão, sozinho, de cara enterrada na madeira.
«Onde estava, pai?»
«Estava no chão»
«Porquê?»
«Acho que saltou, porque estava triste com o Sporting»
«Mas o Spoquing ganhou!»
«Não. Estava a perder e aquele golo serviu para empatar. Agora vai ter que jogar mais tempo»
«Anda cá, Jubas. Não estejas triste. Eu dou-te miminhos»
«…»
«O Spoquing vai ganhar?»
«Sim… acho que sim»
«O Spoquing não ganha porquê, pai?»
«Xii… por tanta coisa, filha. Vá, o pai conta-te uma história mais fixe, pode ser?»
«Boooooooa! Põe o Jubas com cuidado ali ao pé do Panças, para ele não cair outra vez!»

Agora vou ver se a minha filha está bem tapada. Só não sei se valerá a pena voltar a erguer o Jubas, caso ele esteja de cara no chão. É que, a mim, também só me apetece bater com a cabeça em qualquer lado esperando que, ao acordar, alguém me diga que não corro o risco de passar os próximos sete meses a jogar para quase nada.

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Oceano

Parece-me justo dedicar-te este Bloco de Notas. Ao gajo que me habituei a ver correr com os pés para fora, ao gajo que vi mandar um dos maiores pontapés de que tenho memória (frente ao Malines, em que resolveste chutar pouco depois do meio-campo e deixaste a trave do Michel Preud’homme a tremer duante algum tempo), ao gajo que levou um velhinho Alvalade, cheio, ao desespero (frente ao Inter, na meia da Uefa Cup, com aqueles falhanços na cara do Zenga), ao gajo que levava o espírito do B.A. para dentro do campo (nem faltava o bigode e os acessos de fúria perante lances menos conseguidos), ao gajo que amava a camisola que vestia, a alguém que soube evoluir e contrariar as suas próprias limitações (tornando algumas delas em virtudes), ao gajo que se tornou num dos mais sui generis marcadores de penaltis de que guardo memória, ao gajo que jogava onde fosse necessário para o bem da equipa (nunca mais me esqueço de ver-te a guarda-redes, nas Antas, ou de terem tentado transformar-te num ala direito), ao gajo que conseguiu ser respeitado por adeptos de cores rivais, ao homem que, hoje, poderá dar lições de Sportinguismo a muito menino que sonha ser craque.

Como tu disseste, ontem, se o clube precisa de ti, tu dizes presente. Foi sempre assim, afinal. Por isso te desejo toda a sorte de mundo. Por isso desejo que, caso algo corra menos bem neste teu novo papel, nós, adeptos, não nos esqueçamos que estarás a fazer o teu melhor e que o pedido de contas deve ser feito a outras pessoas.

Os putos, os putos…

Quero agradecer, publicamente, a dois dos nossos jornais desportivos por me terem feito rir logo pela manhã.
Parece que, à semelhança do Alf, entretanto recambiado para a Corunha, há por aí um puto que vai dar que falar. Que vai ser patrão e coiso e tal, de uma equipa onde não há espaço para portugueses.

Já agora, caros jornaleiros, permitam-me indicar-lhes uns nomes que, com jeitinho, vão, efectivamente, dar que falar. João Mário, Ricardo Esgaio, Bruma, Cédric, Pedro Mendes e Betinho. Claro que não justificam primeiras páginas, mas são capazes de vir a tornar-se na base da selecção nacional. Mesmo que se continue a insistir, com a conivência do seleccionador, em dar espaço, minutos e visibilidade a projetos de qualquer coisa que nunca se chega a perceber muito bem o que é.

Quando se fala em criar condições para o sucesso

Quando ouvi Godinho Lopes dizer que, antes de se contratar um treinador, devemos criar as condições necessárias para que, independentemente do nome, possa vir a ter sucesso, não consigo deixar de recuar a 99/00, época em que demos um pontapé nos 18 anos de abstinência. E porquê?, perguntam vocês.

Parece-me, muito sinceramente, que tem faltado uma peça. Discreta. Mas fundamental. Tem faltado alguém que faça o trabalho que era feito por Manolo Vidal, alguém que esteja próximo dos jogadores, que partilhe as suas dores e as suas alegrias, que dê a cara por eles e que os defenda. Luís Duque não tem perfil para desempenhar esse papel e, em minha opinião, a única forma em que o vejo a blindar o balneário é atravessando-se na porta.

Para mim, Manuel Fernandes será o nome que mais poderia aproximar-se do que representava Manolo Vidal. Com a vantagem de estarmos a apostar num grande Sportinguista, capaz de falar a mesma linguagem dos jogadores, e de, uma vez por todas, ficarmos a perceber o que é que um dos nossos maiores símbolos vivos faz ao certo no nosso clube.