Memórias e matrecos

Quem é que se lembra deste gajo, com um penteado claramente inspirado no de Joey Tempest, o vocalista dos Europe? EskilssonEskilsson, uma das famosas unhas do Jorge Bigodes Gonçalves, e um dos maiores barretes futebolísticos que vestiu a nossa camisola (ao pé dele, o Farnerud era um craque). Hoje, descobri esta pérola, no MaisFutebol:

«Adorei jogar no Sporting, mas não foi fácil. Chegámos a ter sete meses de salários em atraso», lembra Eskilsson, internacional oito vezes pela Suécia. «O grupo era extraordinário e aguentou tudo. Aliás, sempre me fascinou o sentido de humor dos portugueses». Preparem-se para o que aí vem. «Sabe qual era a nossa forma de luta?» Greve aos treinos? «Não, nem pensar. Festas nos balneários. O Carlos Manuel arranjava os bolos e todos os meses assinalávamos a passagem de mais um salário por receber. Funny, right?».
«Oceano, João Luís, Mário Jorge, Carlos Xavier, Ali Hassan e Miguel. Ah, e o crazy Morato». Eskilsson tem na ponta da língua o nome dos «melhores amigos no Sporting». «Dava-me bem com todos. Foi pena a época ter sido má para a equipa e para mim. Acabámos em quarto». Hans Eskilsson faria sete jogos e um golo (em Viseu) de leão ao peito no campeonato nacional. «Pouco, muito pouco», assume o próprio. A simpatia contagiante, a meias com uma humildade anormal, leva-o a analisar as razões do falhanço pessoal. «O problema é que eu era um jogador rápido, de contra-ataque. Não era técnico, nem habilidoso. E o estilo do Sporting baseava-se no passe curto. Esse tipo de futebol não era bom para mim», reflete Eskilsson, a duas décadas de distância.

«Espere, eu tive mesmo muito azar no Sporting». Vamos a isso. «Num jogo para a Taça de Portugal marquei cinco golos. Foi contra uma equipa dos distritais [Alhandra, 11-0 a 21 de dezembro de 1988]. O pior é que o treinador Pedro Rocha já estava no Uruguai, para as férias do Natal, e não viu nada», explica Eskilsson. «Ou seja, quando voltou, os adjuntos contaram-lhe o meu feito e ele não se acreditava. Ria-se e dizia que não. Era a brincar comigo, mas voltei para o banco. Estava em top forma», assegura o sueco, apresentado em Alvalade como o rei leão dos caracóis louros. A frustração apoderava-se dele e atingiria o máximo esplendor antes de um derby na Luz. «Tudo me corria bem e nos treinos as reservas, onde eu estava, ganharam 3-1 aos titulares. Fiz dois golos. No final o Carlos Xavier veio ter comigo: vou dizer ao mister que tens de ser titular contra o Benfica». Hans Eskilsson integraria a convocatória, mas nada mais. «No balneário soube que nem para o banco ia. Fiquei na bancada a ver o jogo, arrasado. Depois lesionei-me e só voltei a jogar na parte final da época».

[…] «Jogávamos em Faro, contra o Farense [4 de dezembro de 1988, derrota por 1-0]. Ia a isolar-me e sofri falta. Claramente penalty. Olho para o lado e vejo o bandeirinha a dizer que é fora da área. Fiquei doido. Pus a minha expressão mais dura, aproximei-me dele e tentei intimidá-lo». A reação do árbitro assistente foi «completamente inesperada». «Tocou-me no cabelo e começou a atirar-me beijos. E ria-se. Acho que a minha cabeleira, afinal, não metia medo a ninguém». […] Quais os colegas de equipa que mais impressionaram Eskilsson? «No Sporting, o Silas, o Oceano e o Vítor Damas. Era um gentleman, fiquei tristíssimo com a morte dele».
Antes do virar de página, o desabafo. «Sabe do que me arrependo? De não ter sido defesa central mais cedo». Perdão, Eskilsson? «Cheguei ao Estoril em 1991/92 (quatro jogos) e o Fernando Santos colocou-me, às vezes, a médio defensivo. Gostei e no ano seguinte voltei à Suécia decidido a ser central. Tive os melhores anos da minha carreira a jogar nessa posição até 2000».

Hoje, Eskilsson é jogador profissional de poker. E, embora ache que o melhor que ele tinha feito era nunca ter calçado umas chuteiras, sou obrigado a agradecer-lhe a oportunidade de recordar dois momentos que fazem parte do meu crescimento.

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41 thoughts on “Memórias e matrecos

  1. o farnerund acho que ainda joga( nao sei é bem onde, ainda na 4f vi o irmao dele a jogar pelo young boys frente ao basileia para o campeonato suiço)

    • Riga parabéns pela resposta ao post de hoje no Fonte Segura.

      Aquele artista do revisor é mesmo intelectualmente desonesto daí as resposta mais rispidas com que leva na caixa de comentários.

      SL

    • Esta é a primeira vez que escrevo aqui, mas nao podia deixar de saudar alguém que vai ao Stade de Suisse (espero que tenhas ido pelo YB). Nao fui na quarta, mas fui no Domingo ver o Young Boys contra o FC Zürich, jogo em que o Farnerud marcou um golaço, tirando isso que jogador banal (mesmo assim, melhor que o irmao).

      SL

      • Peço desculpa, mas lembrei-me que ja havia aqui um Joaquim Agostinho. Para nao usurpar identidades, passo a Trindade (em homenagem ao Alfredo)

  2. adorei! espero que este “memórias e matrecos” seja para continuar porque o que não nos faltam são pérolas destas! E o Leal a marcar um autogolo? ahahahah, será que foi por isso que o contratámos?

  3. 3 coisas:

    1.Foda-se, em 1988 o futebol era bem mais rápido, corriam pa caralho
    2. Aquela falta sobre o Fernando Mendes hoje era vermelho direto. Incrível
    3. Silas, que jogador. O homem era tecnicamente fabuloso, a bola viesse como viesse quando chegava aos pés dele era como se tivessem cola. Não se arranja aí um Silas?

  4. chiiiiiii…. quando este indivíduo de farta cabeleira, a lembrar uma edição vintage da revista ‘Gina’, jogava no SCP que ainda andava de voador. No entanto, segundo o meu pai, já sabia dizer de cor o 11 inicial do grande SCP.

    • Espera aí…

      Eu vi o Eskilsson jogar. Era uma bela merda, e jogava num período em que o Sporting não pagava salários.

      Também me lembro do senhor que o trouxe, juntamente com outras unhas. Lembro-me bem como saiu. E curiosamente o gonçalvismo lembra-me outras características actuais.

      Já 97% dos não-cogumelos, do Sporting devem ter as primeiras memórias em 1997 ou em 1998. Alguns cheios de vontade de dar exemplos até pretendem reeditar o maior erro do João Rocha: meter o Futre no FCPorto. Porque pedia demais.

      O problema dos cacifeiros é que não conhecem a história do Sporting. Só (como diz o Bruno).

      • Conheço a história do SCP sim, até te digo mais veio um senhor chamado Sousa Cintra que trouxe mística e grandes equipas e não fomos campeões por autênticos roubos.

        Também me lembro do Manuel José e dos 7-1 aos bois.

        Lembrou-me ainda de uma meia final espectacular contra o Inter dos três alemães, vê lá tinha dez anos e de outra contra o Real Madrid dois a um contra Buitre (Butragenho para os leigos), Michel e Laudrup.

        Dos teus amigos croquettes lembro-me de um fantástico 7 a 1 sofrido contra o Bayern e de um fantástico 7.º lugar fora das competições europeias.

      • Oh Lanternas, tens uma de uma memória seletiva. Uma amnésia do caralho mesmo dos amigos croquettes, finais europeias, 2 títulos, o Sousas a despedir o Queiroz ékéra.

        Chirola: mais um que só tem merda na cabeça.

        E há dúvidas que 97% dos cacifeiros tem menos de 25 anos? Não falo de idade mental, que isso não safa aqui o Chirola.

      • Finais europeias????? Só foi uma final europeia e conseguiram perder em casa.

        Sim o Sousa Cintra fez mal em despedir o Robson mas pior foi o teu amigo Duque contratar o Mourinho e no dia seguinte mandou-o pro caralho por pressão da merda da Juve Leo. Grande gestão lá teve o homem de ir para o Porko ser campeão europeu. Fodassssss o Mourinho com aquela equipa do SCP, nem digo nada.

        Numa coisa dou-te razão de facto os salários em atraso no tempo do bigodes foram uma vergonha e no tempo do Godinho e do Betencas foram outra.

        Ainda falas em memória selectiva.

        Dasse

    • tinha motivos para tal :)
      mas não bate o momento inacreditável, do segundo golo do ACViseu: o apanha bolas, em transe, a cair com mais estrondo do que o Jesus, e um jogador que, em vez de juntar-se à molhada que festeja, resolve realizar um número de circo! É brutal!

      • A cena do número 5 é realmente brutal. Eu partia a espinha toda. Aquilo é cena de yoga.

  5. Andrija “sou melhor do que o Maldini” Balajic, que cromo supera nas calmas esta vedeta.

    Recordo ainda um dos jogadores mais feios a vestir a verde e branca o senhor Gil Baiano.

    Já para não falar do melhor bigode de sempre pertencente a Paulinho Cascavel que quando combinado com a farta cabeleira na nuca dava origem a um aspecto de azeiteiro que intimidava. Além do nome claro. Mas fiquei muito feliz quando contratamos o homem ao Guimarães, no fundo era um Ghillas da época eh eh eh.

  6. Se me lembro do eskilsson? Tenho quase 39 biscas lembro-me bem dele. Só não me lembro de o ver jogar :)

    Mas esta história é uma delícia. Gostava muito que viessem mais entrevistas a antigos jogadores do Sporting com histórias por contar.

  7. Que espectáculo de post.
    é para continuar (como se eu mandasse alguma coisa)
    E deixo já aqui duas propostas ao cacifeiro mor!
    Peter Houtman e McDonald (não me lembro do 1º nome).

    • Ainda me lembro do meu irmão comprar cromos com esse grandes jogadores. O homem adora cadernetas.

      Quando pude comprar cromos era eu que fazia as colecções os repetidos eram para trocar no Rossio, os outros repetidos que não davam para trocar eram para o dossier da escola e para decorar a cama e levar na cabeça da mãe eh eh eh.

      Conhecia um gajo que tinha a colecção do Itália 90 e do euro 92 na cama eh eh eh

  8. Que jogo.. lembro-me que gritei pelos dois lados.. (sou de Viseu) e estava lá nesse jogo.
    Parece-me que também foi o último jogo oficial para o campeonato do saudoso Damas…..

  9. Pessoal,

    Isto faz-me lembrar, com carinho, a minha adolescência.
    Essa equipa tinha:
    – Ricardo Rocha (jogava na seleção Brasileira – teve no Mundial 90);
    – Oceano;
    – Silas (Jogava da seleção Brasileira- teve do Mundial 90);
    – Douglas (fez também, pelo menos, um jogo na seleção Brasileira);
    – Guarda-Redes era o Rodolfo Rodriguez (titularissimo do Uruguai);
    – Carlos Manuel (hoje transformado em comentador “idiota” (com muitas ideias) da Sporttv);

    Pergunto: Como não fomos campeões nesses anos??!!!???

  10. Lembro-me perfeitamente e tenho uma história que ainda hoje me faz rir:

    Fazia musculação e ginástica no final dos anos 80 na nave do antigo estádio. Num dia depois de terminar, eu e alguns colegas fomos ver um jogo de reservas onde se encontrava a jogar o Eskilsson.
    Após uma jogada fantástica onde o citado fintou dois ou três adversários e o guarda-redes contrário envia um chuto para a bancada sul onde nos encontrávamos, num falhanço clamoroso, como era seu apanágio.
    Eu e os outros levantámo-nos e em uníssono gritámos: Eskilsson! Eskilsson! como éramos talvez as únicas pessoas na superior sul, ele olhou-nos e acenou-nos, ao que nós respondemos Go Home!! Go Home! Ows restantes jogadores fartaram-se de rir. Foi hilariante.

    Obrigado por me recordarem dessa história. Um grande abraço.

    SL

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