Verdes Anos: Carvalho – não há amor como o primeiro!

carvalho e damas

 

Carvalho – não há amor como o primeiro!, by manel

Carvalho foi o titular da baliza do Sporting ao longo de quase toda a década de 1960. Provavelmente o seu valor ainda não foi totalmente reconhecido, pois está entalado entre dois guarda-redes míticos: Carlos Gomes, antes, e Vítor Damas, depois. No entanto, Carvalho foi um extraordinário guarda-redes na linha do que era tradicional no clube de Alvalade. A colecção Ídolos do Desporto intitulou-o de “Homem tranquilo” do Sporting, mas os companheiros de equipa chamavam-lhe “Cavalo” tal era impetuosidade com que saía da baliza. Adversários e colegas experimentaram aquele rolo compressor que nada temia e que se impunha na luta dentro da grande área. O entusiasmo que colocava no jogo era de tal ordem que não hesitava em empurrar violentamente os defesas do Sporting para a frente. Conta a lenda que na finalíssima com o MTK esbofeteou o Pérides porque este hesitou numa bola dividida. No final do jogo com o Varzim, que sagrou o Sporting campeão nacional em 1965-66, Carvalho desfaleceu com a emoção.

Nesse tempo, o Sporting jogava em 4-3-3 com “notas” do 4-2-4. Jogadores da linha média como Osvaldo Siva, Ferreira Pinto ou Peres incorporavam-se no ataque, tornando a equipa bastante ofensiva e espectacular. Era fundamental ter um guarda-redes assim. Mas entre os postes também era extremamente competente. Há imagens televisivas de jogos com o Benfica ou o Porto que revelam que Carvalho, apesar da sua invulgar compleição física, era felino a reagir aos remates de curta distância.
Por essa altura os quatro “grandes” possuíam guarda-redes com categoria semelhante: Carvalho, Costa Pereira (Benfica), José Pereira (Belenenses) e Américo (F. C. Porto). Eu não tinha dúvidas, o melhor de todos era Carvalho. No rádio ouvia nas tardes de domingo os relatos de futebol. As descrições do jogo eram de tal forma minuciosas que eu o visualisava vestido de negro defendendo com heroicidade a baliza leonina. Não era por ali que a coisa dava para o torto.

Num dos últimos dias de dezembro de 1967, pela primeira vez, entrei no Estádio de Alvalade e, pela mão de um tio, instalei-me no velho peão que rebentava pelas costuras. Apesar de ainda ser um puto, fi-lo com a solenidade de quem entra numa catedral. Pudera, até aí não tinha passado do S. Luís, do Sporting Farense. Logo na minha estreia para um derby com o Benfica. E, finalmente, Carvalho estava ali ao alcance do meu olhar. Para tudo ser perfeito, o Sporting venceu por 3-1!
Nesse jogo, a realização de um sonho, Carvalho confirmou todo o seu esplendor como guarda-redes!
Eu não sabia, mas aquela seria a última época de Carvalho como titular da baliza sportinguista. Um jovem turco chamado Vítor Damas, no banco dos suplentes, espreitava o futuro. É conhecida a fotografia em que de uma forma fraterna e protectora Carvalho pousa a mão no ombro de Damas. A passagem do testemunho. Um Leão!
Depois, ao longo do tempo, grandes guarda-redes defenderam a baliza do Sporting. Mas, como é sabido, não há amor como o primeiro!

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46 thoughts on “Verdes Anos: Carvalho – não há amor como o primeiro!

  1. Achei imensa piada à parte do “jovem turco” :) quem quer ser grande no futebol europeu/africano da guiné, tem que passar pela turquia!!

    Ah, grande texto, adorei!!! (mesmo nao tendo vivido esses tempos)

  2. Espectacular texto e pedaço de memória.

    Sem dúvida um grande guarda redes feita da matéria de lendas.

    Isto é que precisamos homens a serio com tomates. Vejo alguns da formação com este perfil, com este cerrar de dentes.

    Oxalá inspire os jovens turcos que ai vêm.

    Os guarda redes do SCP equipam quase sempre de preto pois é uma cor elegante, tal como o clube.

    SL

  3. Ontem ao comprar a gamebox em Alvalade troquei algumas palavras com ele a propósito de Bruma. Só depois descobri com quem falava , não o reconheci de imediato porque só o vi jogar 1/2 duzia de vezes. Appresenta uma condiçao fisica invejável para um homem da sua idade e um Sportinguismo intocável é percetivel no seu discurso.

  4. O meu pai contou-me que o Carvalho foi contratado depois de um jogo que fez em casa (Luso do Barreiro), contra o Sporting, em que defendeu tudo e mais alguma coisa. Foi negociado logo ali. Acho que foi recorde na altura: 18 contos.

    Só de olhar para ele, impunha respeito. Numa altura em que os guarda-redes em Portugal eram baixotes e meio atarracados, Carvalho era a excepção. Pelos vistos, não eram só os avançados que tinham medo dele, também os defesas do Sporting!

    Foi o melhor guarda-redes português da sua geração e uma injustiça não ter sido o titular no Mundial 66. O Costa Pereira era um anão, comparado com o Carvalho.

  5. OFF TOPIC:

    ” Comunicado Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD

    Perante as notícias veiculadas nos Órgãos de Comunicação Social sobre o atleta Atila Turan, vem o Sporting esclarecer o seguinte:

    1.º Atila Turan é jogador do Sporting Clube de Portugal, e é à equipa técnica que compete decidir em que equipa o jogador deve treinar;

    2.º A declaração onde é confirmado que o clube francês “Stade de Reims”, tem já um acordo com o jogador para a sua transferência, sem qualquer conhecimento do Sporting, confere violação dos regulamentos da FIFA, podendo o mesmo incorrer em sanções disciplinares;

    3.º As afirmações atribuídas ao empresário do atleta, Sébastien Thiery, ao jornal “Le 10 Sport”, configuram crime de difamação, pois são totalmente falsas.

    O Departamento Jurídico do Clube e da SAD vão iniciar os devidos procedimentos perante os factos acima descritos. ”

    Continuam a querer dar tiros no nosso Sporting, mas agora andamos na guerra com colete à prova de balas!

  6. Eu sou de 80 mas ainda vi o Carvalho jogar… Carvalho continuou a defender as nossas redes em jogos de veteranos (ora aí está uma boa ideia para o Cacifo de Ideias) até idade bem avançada e lembro-me apenas de o meu pai dizer “o Carvalho ainda não perdeu o jeito”.

  7. Obrigado Manel, pelo texto. Nao sou da epoca do Carvalho, nasci em 72, mas o meu pai falava e ainda fala hoje muito dele.

    Mas Damas, meu deus! o nosso jogador mais mítico, é impossível falar de Vitor Damas sem me comover. Só tenho pena de nao ter idade para me lembrar dele no auge da sua carreira no Sporting, que foi a 2ª metade da década de 60 e praticamente toda a decada de 70. Eu era muito novo, pelo que só me lembro mesmo do regresso dele, quando veio de Espanha, a partir do ano de 1984, em que infelizmente já nao ganhou nenhum título.

    No momento em que tanto se fala do seu maior sucessor – o grande Patricio – recordar Damas é recordar o melhor Sporting da minha vida!

    Curiosamente, de tantas e tantas recordaçoes que guardo do grande Damas no velhinho Alvalade, a recordaçao mais curiosa que guardo é de Damas no ….Portimonense. Tinha eu os meus 10/11 anos e estava de ferias em Portimão com os meus pais e irmão e fomos ver um treino do Portimonense. Na altura o Portimonense era treinado por – guess who? – Sr. Manuel José!- E Damas defendia os postes.Foi em 1983, creio. Damas estava ser bombardeado pelo Manuel José, petardos fortissimos à baliza, e Damas, já com 36 anos tinha ainda uma agilidade impressionante. Era um felino autentico, quase quarentão. O treino consistia em petardos de rajada rematados pelo Manel, sem deixar o Damas respirar: puma!pumba!pumba! E Damas nao falhava um, até que depois duma sucessão de para ái uns 10 remates seguidos,o Damas já em desespero larga um sonoro “FODAAAA-SE!” que deixou o pessoal no estádio às gargalhadas, e o meu pai a olhar para mim a rir-se meio atrapalhado. Porra, mas q impressão que fiquei naquele dia daquele monstro atleta, que ficou gravada para sempre.

    Eu sei que o post é sobre o grande Carvalho, mas agradeço-te Manel, por me deixareS lembrar esse enorme “jovem turco”. Grande abraço. VIVA O SPORTING!
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    Deixo-vos algumas palavras do discurso na homenagem que se fez dele, no dia 6 de Abril de 2003, 5 meses antes do cabrão do cancro o levar:

    “Este é um momento muito especial. Temos entre nós Vítor Damas, uma figura inesquecível do Sporting, um guarda-redes que fez história no futebol português, um atleta que deixou a sua marca gravada para sempre na memória de quem teve a sorte de o ver actuar. Vítor Damas começou a jogar aos 14 anos no Sporting e só abandonou as balizas aos 41. (…) Como guarda-redes, Vítor Damas foi um atleta único. A sua elegância, a sua eficácia, os seus reflexos fantásticos permitiram-lhe criar um estilo irrepetível que arrebatou multidões e ajudou gerações a gostarem ainda mais de futebol e do Sporting. Vítor Damas, na baliza, era um espectáculo dentro do maior espectáculo do Mundo! Vestir 743 vezes a camisola do Sporting é um feito único. Alcançá-lo com a qualidade, a dignidade, a dedicação e o orgulho com que o fez Vítor Damas é um enorme motivo de admiração e gratidão de todos os sportinguistas”.
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  8. Obrigado, Cherba, pela postagem do meu texto. Sinto-me orgulhoso por participar desta maneira no Cacifo e exprimir a admiração sem limites que nutro pelo Carvalho, redes que recordo em cada jogo do Sporting. Há manias assim!!! ;)
    E fico muito grato pelas palavras simpáticas dos Cacifeiros.

    • Eh pá que brilhante iniciativa.
      Meu avô tem 90 (sócio há 75 que levei-o lá este ano a receber um pin) e sp me falou do Carlos Gomes, do Carvalho não me recordo… A ver se este fds estamos juntos e me conta.
      Aliás, se conseguir estruturar episódios que tenha vivido venho cá partilhar que ele não é mt de internet ;-)

  9. sendo de 63, carvalho é apenas uma memoria das imagens televisivas posteriores, sendo um ferrenho adpeto do “turco” que lhe sucedeu, tendo escolhido a posicao de guarda-redes, para poder ser como ele, falhei só por um bocadinho… eheheh, assim do tamanho do…pois…
    de qualquer das maneiras carvalho para a minha geracao, teve o azar de ser o “anterior” ao Damas, mas até o meu me costumava dizer, o puto é bom mas o carvalho tinha sido melhor…mas para mim, nao tendo visto Azevedo ou Carvalho, foi sem sombra de duvidas Vitor Damas, pela elegancia , o arrojo e sobretudo o seu sportinguismo, doente como poucos… bem hajam Guardioes do nosso Templo…

    • Também eu sou de 63, e também o meu Pai dizia o mesmo, o Damas não é mau, mas o Carvalho foi melhor, e o Carlos Gomes melhor ainda.
      Não me lembro do Carvalho no Sporting, mas lembro-me do Carvalho no Atlético, já que ia com o meu Avô ver os treinos à Tapadinha, e ficava invariavelmente atrás da baliza a fazer os mesmos (tá bem tá…..) voos que os gr’s.
      Ainda tive o privilégio de receber umas luvas, que o Carvalho me deu após um treino.
      A última vez que o vi foi no dia das últimas eleições e vejo com satisfação que continua fisicamente em grande forma.

  10. Obrigado pelo texto caro Manel, gostei de o ler e de ver o clip de mais um dos nossos idolos. O abraço fraternal com o Vitor Damas e as expressões de ambos deixam qualquer um sensibilizado, eram mesmo outros tempos e outras gentes. Abraço.

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