O raio da galinha da vizinha e uma implacável cultura de exigência que nasceu há quatro meses

Época 2011-2012. Leonardo Jardim era, então, treinador do Braga. Em Alvalade, 50 mil enchiam as bancadas, entusiasmados pelo Sporting de Domingos, repleto de contratações sonantes. Passaram seis meses. Domingos foi posto na alheta (ou foi a alheta que se montou nele, vá-se lá saber) e, de um momento para o outro, jogadores como Douglão, Elderson, Paulo Vinícius ou Leandro Salino, tudo gente a actuar pelo Braga, passaram a ser exemplos de boa prospeção de mercado. No fundo, tal como João Pereira, Moisés, Rodriguez e Evaldo tinham sido apontados como uma defesa capaz de resolver os problemas que se iam arrastando, em Alvalade. Só não veio Moisés, que até já tinha passado pelo Sporting com documentos manhosos, e o resultado desse olhar para galinhas alheias foi o que se viu, com excepção para João Pereira.
Mas havia mais. Havia Lima que, sim senhor, já tinha mostrado que sabia o que fazia com a camisola do Belenenses, clube que o contratou a um Avaí (oi?!?), e havia Carlão, para muitos a batata mais ondulada do planeta, capaz de meter Wolfswinkel do bolso, rapaz que fez duas épocas engraçadas em Leiria, cidade onde chegou com um CV fantástico, onde se incluía, por exemplo, o Duque de Caxias e o Bangu (oi?!?) e que, pese os golos lá para as bandas do Lis, acabaria por sair para o Japão (nem sei onde é que este suposto craque anda actualmente).

Já este ano, foi surpreendente o entusiasmo como que vários adeptos leoninos encaram a possível contratação de Rafa. Vídeos bonitos no youtube e lá estava «o gajo que ganhava pouco e que era infinitamente melhor do que Labyad» (continuo incrédulo com os assobios com que o rapaz foi brindado, no jogo de apresentação). Depois, havia toda a constelação de estrelas canarinhas, perdão, estorilinas, que foram debandando para os lados do Dragão. «Oh, foda-se! andamos a dormir! estes gajos é que são craques que permitem formar uma bela equipa com pouco dinheiro». Diz que alguns destes achados, nem calçaram no jogo de apresentação, sorte que teve outro fenómeno, o Josué, outro que foi incrível ter-se perdido. Depois, depois levámos com nomes atrás de nomes pelos jornais. E era o Sílvio e era o Pizzi e era o catano. O primeiro contou com a clubite aguda do presidente da Associação de Futebol de Lisboa para não ficar de fora, por castigo, logo na primeira jornada; o segundo, e tal como o fantástico Hugo Vieira (lembram-se dele, também encaixava que nem uma luva em Alvalade), passa pelo outro lado da segunda circular para receber o cheque de assinatura de contrato e «vai lá dar uns chutos para Espanha que aqui não há espaço para portugueses».

Fico por isso meio atónito, face à revolta por muitos assumida no seguimento das contratações de Maurício, Welder (por empréstimo) e Magrão (sem esquecer os que chamam patudo a Cissé. Se calhar, porque o Carlão é que era). «É uma vergonha!», «este Inácio é um incompetente!», «está direcção é muito jeitosa para contas, mas de futebol percebe zero!», e por aí fora, numa implacável cultura de exigência e num surpreendente espírito crítico que parecem ter incorporado alguns sportinguistas aquando das últimas eleições. Rafa, o craque se Santa Maria da Feira, tinha lugar em Alvalade, mas qualquer um destes brasileiros de segunda (vale lá a pena olhar para os clubes por onde já passaram) é uma merda ainda antes de assinar contrato.

Seria hipócrita se vos dissesse que ponho as mãos no fogo por qualquer um deles. Seria hipócrita se vos dissesse que são contratações que me deixam tremendamente entusiasmado (algo que acontece com o despontar de tantos novos miúdos, formados por nós, e das notícias que vão dando conta da renovação de contrato com muitos deles). E seria hipócrita se vos dissesse que me agrada a possibilidade de irmos buscar o Orlando Sá.
Mas seria sei lá o quê se, sem os ver jogar, os apelidasse de merda só para poder atacar uma direcção que, diariamente, tem que limpar mais um cocó feito por quem de lá saiu há quatro meses, num cenário que leva, precisamente, a que tenhamos que procurar soluções que encaixem num rigoroso plano financeiro e numa rigorosa tabela salarial. Vergonha?!? Vergonha é achar normal que, por exemplo, Diego Rubio ganhe 500 mil euros por ano para praticamente não jogar. Vergonha é ter um gajo que custou 9 milhões, Elias, a dizer que deixou o Sporting com oito meses de salário em atraso!

Por isso, o que desejo é que o «trio elétrico» ajude os miúdos a animar a malta e a frase de Leonardo Jardim, «temos que viver com o que somos», faça eco na cabeça dos novos exigentes. Até porque, o que somos actualmente, em muito se deve, precisamente, à pouca ou nenhuma cultura de exigência, e ainda menor espírito crítico que, nos últimos cinco anos, deu carta branca aos «gestores de topo» para usarem o Sporting a seu belo prazer.

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No reino do Carvalho smells like teen spirit

Quanto vale uma vitória no jogo de apresentação?
A resposta será dada à medida que os jogos e os pontos forem sendo disputados. Para já, vale duas mãos cheias de indicações positivas, a primeira das quais a certeza de que existe um trabalho de base que tem faltado nos últimos anos. Mérito para Leonardo Jardim, o homem que nos deixou a frase «temos que viver com o que somos» e que está a introduzir processos de jogo onde a estrutura defensiva serve de ponto de partida para tudo o resto. E esse tudo o resto, neste momento, é uma enorme solidariedade entre todos os jogadores, uma constante procura pela correcta ocupação dos espaços e uma vontade, inequívoca, de pressionar o adversário no último terço de terreno. Falta, obviamente, a afinação das movimentações atacantes, pese uma ou outra boa saída como aquela que deixou Esgaio na cara do golo, já na segunda parte. E, também, a capacidade de ter a bola, que andou demasiado perdida nos pés do adversário. São as chamadas dores de crescimento, que poderão ser atenuadas por uma sequência de vitórias que permita à mente dar garras a tudo o resto.

Individualmente, e para lá do primeiro aplauso dado a Leonardo Jardim, é impossível não falar em William Carvalho, de quem já se dizia ser o próximo a brilhar e a querer desertar, mas que entrou em campo com contrato renovado até 2018 e no lugar do capitão Rinaudo. Não tremeu e menos comprometeu, parecendo capaz de estender o seu raio de acção a onde quer que a bola estivesse e dando à equipa uma componente atlética que tantas vezes tem sido questionada, nos últimos anos. E, já que de gigantes falamos, obrigado, Carvalho, por teres aparecido e teres acabado com a merda de teorias de que Dier podia ser trinco e podia ser oito e podia ser box to box. Dier é central, e que central, no alto dos seus 19 anos tão adultos e fazendo parelha com um surpreendente Maurício.
Entretanto, Adrien trocou de lugar com o seu irmão gémeo, um Silva capaz de defender e de atacar com uma vontade e responsabilidade impressionantes. O golo, de levantar qualquer estádio, foi a cereja no topo de um bolo com outros ingredientes muito interessantes: André Martins, a pressionar logo nas costas de Cissé e a alternar de posição com Labyad  (inacreditáveis os assobios para o marroquino, quase desde o primeiro toque que deu na bola); Wilson Eduardo, também ele motivado pela renovação de contrato, a mostrar uma inegável vontade de agitar o jogo e destacando-se nos cruzamentos para a área; Carrillo e o próprio Labyad, artistas de corpo à procura da alma, que já perceberam que os craques também defendem.

Quanto vale uma vitória no jogo de apresentação?
Vale a certeza de que, se o caminho se faz caminhando, demos mais um passo, seguro, rumo ao objectivo de criarmos algo sólido. Mas faltam, ainda, muitos outros degraus. Continuem os jogadores a incorporarem este espírito de Leão e continuem as bancadas a mostrar o entusiasmo dos primeiros 45 minutos, antes de alguém ter feito birra na curva, que conseguiremos ir queimando etapas com sucesso. E isso dará ainda mais prazer, quando envolto neste smell a teen spirit.

É hora de voltar a casa

Há coisas que não se explicam. O que sinto quando chego ao Estádio José Alvalade, é uma delas.

Longe vão os tempos em que tinha que apanhar um barco e, depois, um metro, para chegar a Alvalade. O velhinho. Com a 10-A, com a Nave e com um campo de treinos mesmo ali ao lado, perfeito para faltar às aulas da faculdade e ir ver o Balakov a treinar livres que eu tentava imitar (mas com o pé direito).
A viagem começava cedo, pela manhã, porque isto de ser-se doente pelo Sporting faz com que o apito inicial comece a ser vivido com demasiadas horas de antecedência. E os contorcionismos estomacais iam aumentando de intensidade, à medida que sentia a proximidade de Alvalade. Era o tempo das almofadinhas para a bola, das concentrações no Saladanha para percorrer o resto da distância a pé, de ser responsável pelo meu irmão que raios me partissem se tivesse sido de outro clube que não do Sporting, de devorar um pack de nougat para adoçar a garganta, de ter alguém ao lado com um rádio de bolso para não perder um pormenor, de apanhar chuva durante 90 minutos e ter que regressar à margem sul com a roupa a secar no corpo.

Hoje, os tempos são outros. A chuva só me molha a caminho do Estádio, o meu irmão já não precisa que eu tome conta dele, os nougat estão fora de moda, os smatphones amplificam as mais-valias dos rádios, o barco e o metro foram trocados pelo carro, as almofadinhas não passam de memórias bonitas. Os treinos são demasiado longe e não dá muito jeito faltar ao trabalho (a não ser que tragam o Balakov de volta), a 10-A só se abre com o coração e a Nave aterrou em planeta incerto, à espera de uma réplica ali ao lado de um novo José Alvalade onde um iluminado resolveu transformar a pista de atletismo num fosso, onde as cheerleaders sodomizam o Jubas.

Mas houve algo que não mudou: o que sinto quando chego ao Estádio José Alvalade. É como vos digo; há coisas que não se explicam. Como esta, de estar rodeado de milhares de desconhecidos e de ter a certeza que estou em casa

 

este texto foi originalmente publicado aqui.

Ser lampião (essa triste sina), episódio 2

Esta manhã, senti-me na obrigação de voltar a ligar ao meu amigo benfiquista (para quem não reparou, apresentei-o aqui).
«Estou, Rui. Estás bem?»
«Estou, e tu, estás porreiro?»
«Yá, está tudo bem. Olha lá, estou outra vez preocupado contigo…»
«Foda-se, outra vez?!? O que é que foi agora?»
«Tu já viste como se chama o museu do Benfica?»
«O museu?!? Já. É Cosme Damião»
«E não ficas lixado com isso?»
«Tás parvou, ou quê? Faz todo o sentido!»
«Ah… Então, está bem…»