Outra vez?!?

Mesmo aqueles que apenas me conhecem através das linhas que vou escrevendo no Cacifo, por certo já chegaram à conclusão que uma das coisas que mais me irrita é termos que ser “amiguinhos”, “parceiros”, “camaradas”, “aliados” ou o raio que parta que queiram chamar-lhe, de algum dos outros chamados grandes.
A “amizade” com o filho da puta nortenho só tem servido para nos enterrar. As beijocas que vamos dando aos nossos vizinhos e rivais são, por assim dizer, a cereja no topo de um bolo que eu me recuso a comer.

E a que propósito estou eu com esta conversa? Simples. Depois de ter antecipado a vergonha que se passou em Alcochete, com a entrega de bilhetes ao Benfica para o jogo que decidia o campeonato de júniores; depois de ter repudiado o adiamento do jogo na Luz, na época passada, em que em vez de jogarmos num domingo jogámos numa terça, colocando de lado a vantagem do Benfica ter jogado a meio da semana; não podia deixa passar em claro mais um cafuné nos testículos lampiónicos, abdicando do direito de adiar o jogo da quinta jornada, novamente na Luz, que se realiza menos de 72 horas após a nossa partida em Lille.

Mas afinal, que merda vem a ser esta?!?

Os cabrões e os anjinhos

“A SAD do Sporting esqueceu-se de incluir uma cláusula que impedisse João Moutinho de se transferir para outro clube português no documento que serviu para mandatar o empresário israelita Pini Zahavi para vender o passe do jogador e que foi assinado em Junho (nota do Cacifo: ou seja, afinal a capa da Bola sobre deixar de ser capitão, era verdade).  Na reunião em que o Sporting colocou nas mãos de Zahavi o futuro de João Moutinho, que se mostrava decidido a deixar Alvalade, ficou ainda decidido que aquele agente FIFA ficaria incumbido de ajudar os leões na contratação do defesa argentino Marco Torsiglieri, do Velez Sarsfield. O certo é que o empresário adiantou parte da verba para a contratação do central, tendo de imediato iniciado contactos formais para a colocação de João Moutinho.
[…]
De acordo com as informações recolhidas, a administração da SAD leonina só alguns dias depois de assinado o documento com Pini Zahavi se apercebeu que se havia esquecido de incluir a cláusula que impedisse Moutinho de ir para um dos rivais. No dia 26 de Junho, dois dias depois da apresentação de Torsiglieri, é que a SAD sportinguista tentou junto de Pini Zahavi fazer uma adenda ao documento, por forma a impedir a saída do capitão para outro clube português. Tarde de mais. O empresário recusou liminarmente essa possibilidade, até porque as conversações com o FC Porto já estavam em marcha.
[…]
O futebolista acabou por rumar ao FC Porto, mas o DN sabe que no final da semana passada o mesmo empresário ofereceu o capitão leonino ao Benfica, que terá recusado entrar na corrida pelo jogador por forma a não iniciar uma guerra com os rivais, mas também porque não seria uma prioridade do treinador Jorge Jesus.”

in DN

p.s. – ainda a propósito de cabrões, não posso deixar de registar as declarações do Bruno Alves, gozando com os nossos dirigentes (“não percebi como é que o Sporting deixa sair um jogador do nível do João Moutinho, mas os dirigentes é que sabem o que é melhor para os clubes”) e dando a colher de chá à ausência de profissionalismo do Moutinho (“Para já, tenho contrato com o F.C. Porto, mas sou um jogador ambicioso. Procuro disputar um outro campeonato, mas, se assim não for, terei de respeitar porque tenho contrato com o F.C. Porto”).

O Sporting somos nós

A célebre frase, transformada em tarja pela mais antiga claque do clube, não me sai da cabeça desde ontem, mais precisamente a partir do momento em que comecei a ler as reacções à saída do Moutinho para o Porto (ainda não está confirmada, mas como os senhores que gerem o nosso futebol ainda não foram a correr à CMVM desmentir…).

Há quem diga que ele é outro Simão. Há quem diga que tem uma cabeça demasiado grande para o corpo. Há quem diga que tem perna curta. Outros preferem insistir na história da braçadeira demasiado larga para a medida do braço. Existe quem não hesite em afirmar que ele era o bufo do balneário. Outros preferem o simples “Moutinho é um filho da puta”. Muitos gritam aos sete ventos “vai-te embora, lampião!”, outros tantos apelidam-no de “birrinhas”. “Não jogas nada”, chega mesmo a ler-se, tal como “ganhavas demasiado para o que jogas”. No topo deste bolo de disparates, a frase “os portistas é que devem ficar preocupados com este negócio!”.

Pois, claro, os portistas devem estar a cortar os pulsos e a atirar-se da Dom Luís, ao saberem que vão encaixar uns 12/15 milhões pela venda do Raul Meireles e, imediatamente, colmatam essa saída com o capitão e um dos melhores jogadores de um adversários directo por… menos de metade da cláusula. E que, ou muito me engano, ou, no máximo, daqui por dois anos estará fora do país a troco de duas dezenas de milhões.

Entretanto, as notícias que eu esperava já começaram a circular, podendo mesmo ler-se num dos pasquins desportivos que o Moutinho afirmou que não voltava a jogar pelo Sporting, dizendo “vendam-me a quem quiserem, vendam-me ao Porto!”. Aliás, até o regresso do Vuk (que eu adoro, sabem), mais vítima que culpado, surge no seguimento das notícias que dão como certo um crescente distanciamento entre Moutinho e o balneário.
Portanto, encaixa tudo na perfeição: Bettencourt e Costinha espetam um barrote cheio de pregos nas costas do sportinguistas, despacham o capitão para um clube rival por menos de metade do preço estipulado, e limpam daí as mãos apontando todos os dedos possíveis e imaginários a um puto que serve a casa há 11 anos e que foi impedido de ir embora há dois, quando o Everton oferecia 15 milhões.

Onze anos, meus caros, é metade da vida de um futebolista. Para um adepto, daqueles pequeninos que querem um novo equipamento todos os anos, é uma vida. E, como o Cintra tão bem afirmou, nessa curta vida de Sportinguista, Moutinho será, senão o maior, um dos símbolos maiores. Expliquem, então, a um desses pequenos sportinguistas, porque razão o seu jogador preferido vai para um dos clubes que o pai aponta como sendo um daqueles contra os quais temos que lutar.

Se não souberem o que dizer-lhes, tal como eu não saberia se a minha filha já tivesse 11 anos e me perguntasse “Papá, porque é que o Moutinho vai para o Porto?”, escolham uma das bonitas frases que eu coloquei acima. Ou, então, vão até Alcochete e esperem que os mentores do negócio (ou quem aplaude o mesmo) conte a história do “Moutinho Pequenino e Mau” que termina, imagine-se, não com um “e foram felizes para sempre”, mas com um “vá, não te preocupes. O Sporting somos nós”.

Nessa altura, se eu estivesse por perto, sentir-me-ia obrigado a acrescentar, em jeito de epílogo: “é verdade, infeizmente o Sporting são vocês. Vocês que clamam a verdade desportiva, mas lambem o cu ao sistema, ao ponto de oferecer-lhes, de mão beijada, alguém que enverga o leão, com toda a dedicação, há mais de uma década. Vocês que crucificam jogadores na praça pública (Izmailov, Vuk, Viana, agora Moutinho), e que depois ficam calados quando vos respondem. Vocês que, apenas num ano, foram capazes de nos dar 90% das piores memórias de sempre. Vocês que assobiam jogadores formados na casa e, agora, cospem no ex-capitão dizendo-lhe que já devia era ter ido embora há mais tempo. Vocês que…”

Por esta altura, já o pequeno ou a pequena sportinguista estaria lavado/a em lágrimas. No fundo, expressando a tristeza que eu sinto por, perante tão vergonhoso cenário, não poder afirmar com orgulho, “este Sporting sou eu!”