Por muito que alguns dos que, diariamente, nos ajudam a fazer do Cacifo aquilo que ele é não gostem, a definição que o Douglas encontrou para o Sporting parece-me perfeita: zombie ou morto-vivo. Não creio, no entanto, que apenas dois ou três pedaços do zombie estejam livres da podridão que, nos últimos dois anos, semana após semana, alastra pelo corpo deste Sporting em agonia. Vai daí, lembrei-me de dissecar o zombie.
Cérebro
Foi aqui que o vírus teve início, trazido das planícies alentejanas por um senhor de olhos esbugalhados atrás de óculos fora de moda. Os que se lhe seguiram – uma espécie de Dom Quixote agarrado à coca, um cabeçudo de Torres amigo do whisky e crente de que valia mais três segundos lugares do que um primeiro, e um bandalho ordinário que fica na história do clube pelas piores razões – apenas contribuiram para alimentar os agentes infecciosos que grassam pelo corpo do nosso Sporting. Curiosamente, no dia 26 de Março, temos oportunidade de mexer no cérebro e começar a tentar que o antivírus faça efeito.
Olhos
Turvos… raiados de sangue… quase cegos. A culpa não é deles, mas sim das lentes que lhes deram. Umas lentes que servem para Paços de Ferreira, para Leixões, até para a Selecção, mas que levaram, nos últimos 30 meses (ao tempo que andamos nisto…) o clube para um verdadeiro deserto de ideias, de conhecimentos tácticos e, pior, para um derserto de identidade e de conhecimento da grandeza do clube. Para este zombie, jogar bem é esforçar-se e, no final, dizer que vamos levantar a cabeça. Não admira que o pescoço esteja todo fodido, de tantos esticões…
Boca
Não há. Não há uma voz de comando. Não há um grito. Não há um soldado capaz de guiar as tropas e minimizar a incapacidade do comandante para o cargo que desempenha. O zombie está mudo.
Pescoço / Cervical
Disse-o acima: tudo fodido. Das sete vértebras que minimizavam o andar marreco e de cabeça em baixo, uma está no estaleiro, outra foi para o Porto, outra foi para o Génova, outra enlouqueceu e não há treinador que lhe deite a mão, outra foi sambar a troco de uns milhares de euros que nos permitam, no final da época, pagar a cirurgia para lipoaspirar o sebo gadelhudo que se alojou na cintura. Sobram duas vértebras, demasiado tenrinhas e desamparadas para conseguirem fazer o que quer que seja.
As mãos
É das partes do zombie em melhor estado, muito por culpa de uma das vértebras tenrinhas que, apesar de tudo, vai conseguindo melhorar (mesmo sem alguém que o ensine). Claro que Patrício, fruto desse processo de crescimento, continua a enterrar de quando em vez, mas é dos pedaços do zombie que devemos preservar. Tiago, por uma questão de acreditar que sabe o que é o Sporting, poderá ser aproveitado para treinar os guarda-redes das camadas jovens. E o alemão, se quiser, pode ficar e ajudar o Rui a crescer.
Os pés
Dos nove dedos que restam ao zombie, aproveitam-se três e dois meios: Torsi (haja um defesa que não manda biqueirada para a frente), João Pereira (haja atitude a sério) e Carriço, pese embora este último dê indícios de poder estar afectado pelo virus. Os meios são Evaldo, a quem sou capaz de dar o benefício da dúvida e esperar para ver o que joga com um treinador decente, e Cedric, escondido num abrigo à espera que o surja a cura.
Os restantes dedos não têm qualidade para encher uma chuteira com mais de cem anos de história e aspirações a vencer. Ou porque já deram o que tinham a dar (Polga), ou porque são dos jogadores mais patéticos de que tenho memória (Grimi).
A cintura
Gorda e pesada. Maniche é um verdadeiro insulto para qualquer Sportinguista. Não tem lugar, obviamente. Pedro Mendes tem qualidade, mas o motor começa a dar sinais de cansaço (ainda assim, penso que é importante mantê-lo, até pelo carácter e experiência que representa para o balneário). André Santos é, claramente, para manter. Zapater… eu sei lá o que vale Zapater…
O coração
É curioso como o jogo de ontem mostrou que ainda existe alguém capaz de fazer bater o coração do zombie. Matías Fernandez fez, provavelmente, o seu melhor jogo ao serviço do Sporting, e deixou-nos esperançados num futuro onde Valdés e, quem sabe, Vuk, levarão o sangue limpo a todo o corpo (e há um tal de Tales que, de tão pequenino, nem se vê. Dá para emprestarem?)
Os braços
Para este zombie, em tempos conhecido como o maior fabricante de asas futebolísticas, abrir os braços é um constante esgar de dor (não só para ele como para nós). Cristiano ia abrir um rodízio com Paulo Sérgio e Cabral. Yannick é outro Varela ou outro Lourenço (como preferirem), incapaz de fazer mais do que seis ou sete jogos a sério por época, passando o resto do tempo entre movimentos tecnicamente aberrantes, o posto médico e o sofá, vendo os vídeos da Luciana a vomitar. Salomão só estará pronto para o Sporting depois de um ano numa equipa que lhe permita ir ganhando estaleca, enquanto não tira o aparelho dos dentes.
As pernas
Já viram que só temos duas? Postiga e Saleiro. Está tudo dito.
A alma
Somos nós e, confesso, ontem fiquei com a ideia de que seremos capazes de recuperar o zombie. Desde que não voltemos a dar-lhe um dador de sangue também ele infectado. Nesse caso, o melhor mesmo é dar um tiro na cabeça deste farrapo verde e branco.