E porque não 4-2-3-1?

Eu sei que estamos numa fase em que devemos ser optimistas.
Acreditar que o entendimento entre o Matias e o Liedson vai ser fantástico.
Que o André Marques vai ser o defesa esquerdo com que há tanto tempo sonhamos.
Que o Abel nunca vai ser titular. E que continuar a insistir no Caneira a lateral foi só para baralhar os adversários.
Que o Vuk vai fazer uma época brutal e ser considerado a revelação da Champions depois de pregar três batatas ao Real.
Que vamos iniciar a época a dar um verdadeiro bailinho, na Choupana.
Veja-se bem, é até uma fase em que devemos acreditar que o tratamento conservador escolhido para o joelho do Izmailov foi uma excelente opção e que, daqui por uma semana, o rapaz não está a ser operado e a perder metade da época.

É com estes bonitos pensamentos que devemos encarar um dia de sol melhor que os últimos 15.
Quem estiver duas horas para conseguir chegar à praia, e outras tantas para estacionar, não pode parar de sorrir.
Porque temos que ser optimistas.
Porque ver 20 jogadores, juntos há dois anos e liderados pelo mesmo treinador, chegarem ao primeiro teste da época, frente ao “Trofense de Inglaterra”, e apresentarem-se quase sem fio de jogo e como se se conhecessem há meia dúzia de dias, não pode ser motivo para preocuparmo-nos.
Afinal, o optimismo diz-nos que o losango que, curiosamente, continuaria a manter-se em Alvalade caso o por muitos tão suspirado Jorge Jesus tivesse assinado a verde e branco, é a melhor táctica do mundo.

Peço-vos desculpa mas, talvez por não conseguir sorrir perante a hipótese de ir para a praia a um domingo, quero mudar um pouquinho desta história optimista.
Quero acreditar que o Paulo Bento vai acordar hoje, no hotel, e, por alturas do pequeno almoço, vai anunciar aos jogadores que “acabou o losango!”. Eles vão tremer, claro, até porque o losango é a melhor táctica do mundo, tão boa que qualquer treinador devia ter como máxima “losango forever!”
Mas o Paulo, homem de ideias fixas, não vai vacilar.
Vai colocar o Rui na baliza.
O Pedro Silva à direita, o Carriço e o Polga no meio e o André Marques à esquerda.
Moutinho e Veloso vão formar um duplo pivot, capaz de assegurar transições ofensivas e defensivas.
Vukcevic, Matias Fernandez e Izmailov (se o tratamento conservador se mostrar mais acertado que o losango), formarão uma linha de três, apostada em dar todo o apoio a Liedson.

E digo-vos mais. Depois de imaginar tudo isto, sinto-me capaz de ir dar um mergulho…

Efeito Ronny ou o constatar de um facto?

Foi o Ronny ou foi o facto do Paulo Bento ter abdicado de um lateral que não passa do meio campo, que mudou o jogo em Guimarães?

É um facto que o Ronny entrou muito bem em jogo, um pouco à imagem do Tiuí na final da Taça de Portugal, e teve peso enorme na reviravolta mas, para mim, este acontecimento só veio reforçar algo que estou farto de escrever aqui no Cacifo: uma equipa que precisa de atacar e encontrar espaços no meio campo adversário, não pode dar-se ao luxo de ter laterais que jogam de cadeirinha, como o Abel que faz centros do meio-campo (os centrais adversários agradecem) porque não vai à linha, ou como o Caneira, que equilibra defensivamente, mas que nem centros do meio campo faz.

É por isso que o Pedro Silva depressa ganhou a nossa simpatia, que o Pereirinha sempre será melhor lateral que o Abel, ou que o Grimi nos cativou e nos (me) fez pensar que era um bocado melhor do que realmente é. É por isso que perdemos pontos na Trofa ou em casa, com a Académica.

O Sporting, como qualquer clube que encontre 18 clubes defensivos em 20 jogos que faça, precisa de ter laterais capazes de desequilibrar. O Ronny conseguiu fazer isso.
(mas pedir que o homem seja o nosso médio esquerdo, é capaz de ser um bocadinho demais)

Não é querer falar mal, mas confesso que isto faz-me alguma confusão

Já há uns tempos que ando para escrever sobre a verdadeira “brigada do reumático” em que se tornou a nossa equipa.
Tirando a lesão do Grimi, que aconteceu como  aconteceu (apesar de todos sabermos que o gajo tem pernas de esferovite), a verdade é que chegamos a esta altura da época com a equipa presa por arames sendo que, nalguns dos casos, os arames rebentaram (Vuk) ou estão prestes a rebentar (Izma).

O Liedson joga em esforço.
O Polga em esforço joga.
O Caneira joga em esforço e quando a época terminar vai ser operado. 
O Yannick não joga, mas ainda assim está carregadinho de mialgias.
O Izma joga em esforço (desde a época passada).
O Rui Patrício apresenta mialgias.
O Pedro Silva está tocado.
O Derlei, tocado está. Ou melhor, cumpre plano específico.
O Vuk foi operado ao ombro. O tal ombro que já estava lesionado, à espera de uma bordoada mais forte para ceder de vez, num misto de atracção pelo risco e estupidez que podia ter sido evitada com uma operação no final da época passada.
O Rochemback rasgou a coxa e só volta daqui a 15 dias.

Eu confesso que gostava que alguém me explicasse isto. Se é uma época mal planeada, se é a componente física dos treinos que não presta, se é um departamento médico que mete água a torto e a direito? Claro que ninguém vai explicar nada ou, no máximo, vão usar a frase preferida do Fernando Santos: “futebol é isto”.

O espírito

Izmailov, Polga, Caneira, Rochemback.
Todos eles sofrendo de problemas físicos. Todos eles fazendo um esforço para tentar terminar a época da melhor forma possível. Todos eles dando seguimento ao espírito de sacrifício que outros, como Liedson, Moutinho, Vuk ou Derlei, já demonstraram.

Eu, quando era puto e sonhava ser jogador do Sporting, nem que fosse à baliza defendendo penaltis como o Schumacher (mas sem o bigode) ou sorrindo depois de sacar uma bola como o Jean-Marie Pfaff (mas sem os caracolinhos), só não jogava à bola se tivesse um pé partido.

Seria precisamente esse espírito que teria, caso vestisse a verde-e-branca, por isso, tal como critico quando julgo que devo fazê-lo, não posso deixar de aplaudir quando vejo alguém do meu clube perceber que, no futebol, há dores bem piores do que as provocadas pelas lesões.

Alguém tem licença de porte de arma?

… assim como assim, os adeptos já são detidos em Alvalade por muito menos…

Adepto iraquiano mata jogador adversário que poderia empatar jogo

Um adepto iraquiano matou domingo a tiro um futebolista da equipa adversária, numa altura em que este estava isolado frente ao guarda-redes e tinha a possibilidade de marcar um golo que empataria o desafio.

Muthanna Khalid, responsável da polícia iraquiana, revelou que quando um jogador da equipa amadora de Buhairat estava isolado frente ao guarda-redes, durante um jogo de amadores em Hillah, um adepto da equipa de Sinjar atingiu-o com um tiro na cabeça, quando faltava um minuto para o jogo terminar.

A fonte policial indicou que o espectador foi detido.

Fonte: Lusa, via O Jogo Online.

Dúvida central

“Depois do experiente defesa Marco Caneira e de outros jovens como o guarda-redes Rui Patrício, o avançado Yannick Djaló, o defesa/médio direito Bruno Pereirinha e o médio Adrien Silva, na calha aparece agora Daniel Carriço, defesa-central de 20 anos que entrou na academia leonina aos 11 e saboreou os primeiros momentos na mais importante prova de clubes da Europa na derrota caseira de 5-2 frente ao Barcelona, no final da Novembro, depois da estreia na Liga portuguesa. Enquanto a maioria dos clubes tende a suavizar a entrada de jovens na equipa, a aposta em Carriço, de 20 anos, num encontro tão importante – embora favorecida, na altura, pela onda de lesões no sector defensivo, nomeadamente no eixo – encaixa perfeitamente na filosofia do Sporting em dar oportunidade à gente jovem”,
(este é apenas um trecho de um artigo sobre a capacidade formadora do Sporting, que pode ser lido em http://pt.uefa.com/competitions/ucl/news/kind=1/newsid=786159.html )

Ao ler esta passagem, decidi colocar aqui uma pergunta que tenho feito a mim mesmo nos últimos dias: agora que temos todos os centrais recuperados, quais dos quatro devem ser titulares?
Carriço? Caneira? Polga? Tonel?

Barco à deriva?

A fonte é duvidosa. Mas, a ser verdade, a notícia é deveras preocupante.
Diz A Bola que o Yannick e o Miguel Veloso estão dispostos a propor a saída.
“[…] A ponto de, apurou A BOLA, os atletas em causa estarem até na disposição de serem emprestados, sendo que, para isso, é preciso que os dirigentes leoninos estejam naturalmente de acordo. Se a situação já era muito complicada, a entrevista recente concedida por António Veloso, pai de Miguel Veloso, ao Correio da Manhã, caiu como uma bomba em Alvalade e extremou ainda mais as posições, já de si muito distanciadas. […]

Eu já nem vou buscar o caso Stojkovic e também sinto que tudo o que se passa em Alvalade e motivo para haver caso (com a ajudinha do próprio PB e de declarações despropositadas como as que se seguiram ao jogo com o Marítimo), mas depois de um caso Liedson, de um caso Moutinho, de um caso Vukcevic, de um caso Djaló e de um caso Miguel Veloso (os quatro principais activos do clube) já para não falar, por exemplo, da forma como despachou o Deivid por uma questão de feitios ou, se quiserem, da forma como o seu estilo de liderança tem sido prolongado da pior forma por dois dos jogadores que deveriam ser uma referência no balneário, Caneira e Derlei, o que podemos nós esperar mais deste reinado bentiano que, com a união da equipa feita num caco, se arrasta penosamente para o fim (ou não…)?

A atracção pelo abismo, de que tão bem falou o Douglas, faz-se sentir com cada vez mais força. Difícil é prever o que sobrará, depois da queda anunciada.

 

p.s. – para não serem só más notícias, hoje ficamos também a saber que o Daniel Carriço vai renovar até 2015.

Últimas caneiradas

Caneirada IV
“Pode-se começar em 4x4x2 e passar para o losango. O esquema pode ser determinante mas o que importa é, acima de tudo, os jogadores dentro do próprio sistema”.

Record, 2/8/2008

Não é das ideias mais originais da entrevista mas é a mais reveladora sobre o Sporting 2008/09. Há muitas coisas importantes para atingir o sucesso desportivo, mas eu sou um pouco Luís Freitas Lobo nas minhas convicções. Dois aspectos são determinantes para chegar lá: os jogadores e a táctica. O individual e o colectivo.

Quando não há grandes jogadores, a chave é a capacidade de usar uma óptima organização para tapar as deficiências da equipa. Isso foi feito na primeira fase da vida do losango pelo Paulo Bento, que pôs fim às loucuras peseirentas. Mas faltou sempre dar o salto. Porque, de repente, o sistema táctico do Sporting era o mais discutido nas tabernas. E quando os bêbados acertam na táctica das equipas é porque o esquema tornou-se demasiado previsível.

O Caneira fala em “começar” no 4-4-2 e depois mudar para o losango. Se a equipa tiver capacidade para fazer essa mutação, aumentará muito a capacidade competitiva. Contra a Samp, viu-se um cheirinho dessa mutação, mas ao contrário. Com entrada do Veloso e do Pereirinha, os movimentos colectivos foram mais de 4-4-2 clássico, ainda que o Moutinho tenha jogado à frente do Veloso. O Sporting usou mais os médios ala para estender o jogo e centrar para a área. E os avançados deixaram de receber a bola nos flancos para passar a ficar mais no meio, a cortar nas costas ou a finalizar centros (como quando o Postiga falhou grotescamente um cabeceamento sozinho). Os movimentos do Djaló foram paradigmáticos. Na primeira parte, o Sporting só furou, em ataque organizado, quando ele escorregava para a direita para abrir linhas de passe no corredor. Fê-lo duas vezes com sucesso (depois decidiu mal). Na segunda parte, as melhores jogadas saíram do apoio dos defesas laterais ao Izmailov e ao Pereirinha, com o Moutinho sempre a dar tempo para alimentar essas subidas. O Djaló prendia os centrais, libertando o Postiga (vide cabeceamento desastroso). Resta uma incógnita muito importante: Rochemback. No losango clássico, o seu jogo à patrão não é capitalizado num dos vértices do losango. Na adaptação ao 4-4-2, ou joga no meio com alguém ao lado (Moutinho ou Veloso) ou fica demasiado exposto aos seus defeitos (sozinho atrás não segura o meio-campo, a 10 fica com pouco espaço à frente para distribuir).  

Como o Caneira diz, são precisos jogadores que saibam mudar o “chip”. Ler o jogo para melhor aproveitar as duas tácticas. Moutinho é o jogador perfeito para isso. Infelizmente ainda há os “15 segundos infames”. Se os jogadores não conseguirem fazer a mutação a meio do jogo, o Paulo Bento pode estar a dar um passo maior que a perna. E todos – ele, nós e os jogadores – ficaremos tão frustrados como naquele jogo, há dois anos e pouco, em Alvalade quando o Porto fez a festa com o golo do Jorginho. Porque é sinal que, desde aí, a equipa não conseguiu crescer o que precisava para ganhar. 

Caneirada V

“Quiseram passar esses direitos dos jogadores, do grupo, para uma empresa que não estava liga à Federação (…). E eu expressei o meu ponto de vista, que não estava de acordo. Foram questões externas [que me afastaram] da selecção´.”

Record, 2/8/2008

Às vezes esquecemo-nos da importância da selecção nacional para tarados como nós. 22 anos depois de Saltillo e seis depois de Macau, o desempenho de Portugal em mais um dos cíclicos pontos altos da história do futebol voltou a ser enxovalhado pela mesquinhez e provincianismo típicos deste país ainda a gatinhar para fora do esgoto histórico. É pena, porque podíamos, com alguma sorte e, sobretudo, com muito mais competência, ser bicampeões europeus… Mas ao menos houve gente que ficou um bocadinho mais rica… menos mau…

Caneirada Extra

“É verdade que [o estabelecimento de leitões Caneira em Negrais] não tem nenhuma ligação comigo e muitas vezes existe esse equívoco”

Record, 2/8/2008

Choque! Não posso acreditar! E eu que trincava aquele bacorinho cristaliço com uma infantil convicção de que estava a viver um momento cumplicemente leonino… Este início de época é desilusão atrás de desilusão…

 

Caneirada II e III

“Tenho comigo essa característica há uns anos e também tenho conseguido desenvolver essa liderança por esses campeonatos fora. Sinto-me, sem qualquer tipo de problemas ou preconceitos, o grande líder desta equipa do Sporting”

“Tudo parte de cima e aí [o Sporting] tem as pessoas certas neste momento. O presidente Soares Franco, Ribeiro Telles, Rita Figueira, que lideram a parte se calhar não tão vista para fora mas que é muito importante para sustentar a sociedade. (…) Quando as coisas estão bem, não há que mudar.”

Record, 2/8/2008

A fusão entre estas duas caneiradas torna os propósitos do Caneira bem claros. Há estratégia nesta entrevista. E permite perceber coisas interessantes para o futuro do clube. Mata o tabu do Soares Franco. É óbvio que se recandidata, desde que tenha as condições mínimas. Para solidificar a sua posição junto dos sócios, procura ganhar apoios no balneário. É bom ou mau para o Sporting? Mais uma vez, depende dos resultados.
Quanto ao balneário, esta auto-proclamação pode ser importante. Mas para fora. É óbvio que os líderes não se apregoam. E é claro também que todos os jogadores do Sporting já sabem que o Caneira é o líder. Ele não fez esta declaração no chuveiro nem na piscina. Ele disse-nos a nós o que todo o plantel já sabia. E quando o soube, soube-o naturalmente. Mas, neste momento, os adeptos precisavam que lhes fosse assegurado que o “abalo” que o Moutinho causou está a ser resolvido. E que há gente lá dentro a assumir as suas responsabilidades. Eu prefiro que haja alguém que se levante e diga “ok, isto é fodido, mas temos de andar para a frente”, em vez de ficarem todos sentados a conspirar sobre o que se vai passar.

E é aqui que se juntam as caneiradas: o Caneira está intimamente ligado à SAD. Tem a confiança dos superiores e é, ao mesmo tempo, um deles no balneário. Os grupos que se geraram naturalmente – os brasileiros e os putos, basicamente, agora que a balcanização foi dissolvida – vão ouvir o que o Caneira tiver para dizer. Porque na parte detrás do seu cérebro, estará sempre a pairar a possibilidade de, se antagonizarem o auto-capitão, podem criar anti-corpos nos signatários dos seus contratozitos. No fundo, era o que se passava com o Jorge Costa no Porto, com o Humberto Coelho no Benfica.

O outro claro sintoma desta parte da entrevista é que o Moutinho não é o verdadeiro capitão. Era o capitão que ganhou o respeito da equipa em campo. Mas não era o tipo para resolver os amuos do Vuk, as birras do Liedson, o apagamento do Izmailov, as dores de burro do Pipi, os perus do Patrício, os refrigerantes do Veloso ou os excessos do Tonel. Esse papel estava nas mãos do Paulo Bento. E isso não chega. É preciso alguém ao mesmo nível mas com autoridade moral para que as coisas se resolvam. O treinador tem a cenoura e o pau. É ao burro do lado que se tem de ir buscar o exemplo para continuar a puxar a carroça. O Caneira é esse burro. O Sá Pinto era esse burro. Não está aqui em causa, apenas, a identificação com o clube. Nisso, o Moutinho era, até aos infames 15 segundos, uma boa aposta. Mas é preciso mais. O Caneira tem a autoridade leonina (ainda que um pouco forçada), tem a autoridade dos superiores (a sintonia com o Paulo Bento é quase familiar e com a SAD é “just business”) e tem a autoridade dos intangíveis. Aqueles factores que não são visíveis de fora. Aqueles que levam a que todo um grupo de onze jogadores concentre os olhares num só jogador no preciso momento em que a equipa sofre um golo num jogo decisivo, à procura de alguém que assuma o comando e os guie de novo para o jogo. (Quem viu o épico da taça no estádio, percebeu que sem o Derlei o Sporting não ganhava aquele jogo. E percebeu-o muito antes de ele entrar em campo).

Uma imagem: o Figo a ir buscar a bola ao fundo da baliza depois daquele golo contra a Inglaterra. Não é o gesto que importa. É um acto natural em qualquer jogador normal. É o olhar. É a expressão naquela cara que nos diz que está ali o líder daquela equipa.

Caneirada I

“Foi aqui que comecei, que aprendi há muitos anos a vencer, a ter o gosto de ganhar nos jogos e nos treinos, que me formei como homem… Espero que isso possa acontecer [acabar a carreira no Sporting]”.

 Record, 2/8/2008 

Admito o oportunismo da declaração, admito o interesse próprio do jogador e admito a sintonia conveniente com o projecto. Admito a questão táctica da entrevista do Caneira, numa altura como esta. Mas faça-se um esforço de abstração. Imagine-se que por baixo desta frase estava “Luís Figo”. Ou “Cristiano Ronaldo”, “Simão”, “Quaresma”. Ou “Paulo Futre”. Não é o queremos que um jogador do Sporting diga? É verdade que saiu em litígio com o clube (ou com as pessoas que dirigiam o clube). E é verdade que jogou no Benfica. E que, se os dirigentes do Sporting, pelo que se percebe, não tivessem oferecido ao Caneira uma opção profissional de futuro, ele estaria de novo no Benfica. Mas não está. Está no Sporting, dá equilíbrio táctico à equipa, é experiente, erra pouco, sabe ler um jogo de futebol, é razoavelmente bom a defender um-para-um. Pode até estar a embelezar a paixão pelo clube, mas mostra-a. Não a esconde lá atrás, no fundo de um qualquer cacifo em San Siro, na Luz, no Dragão ou em Old Trafford, como se de um empecilho numa carreira futebolística se tratasse. Fosse o Varela, o Lourenço, o Miguel Garcia ou o Poejo, eu ria-me. Com um jogador como o Caneira, eu agradeço.