Areia para os olhos

Já tinha dito, na antevisão ao jogo com a Naval, que achava muito estranha a não convocatória de Pedro Mendes, ainda para mais quando o treinador dizia que não estava em condições de fazerpoupanças e que ia com os melhores a jogo.

Ora, passados dois ou três dias, eis que o cheiro a esturro saia da cozinha e chega ao nariz de todos os que conseguiram fechar os olhos a tempo de evitar o punhado de areia. Afinal, o rapaz não joga porque está a treinar de forma individualizada, gerindo o esforço e precavendo lesões que parecem espreitar a cada tufo de relva.

Seguindo o conselho do outro Paulo

“Para assistir a grandes espectáculos vou ao cinema”, disse, enquanto treinador do Sporting, o homem que é agora seleccionador nacional.
Como resolvi ficar em casa a ver o Sporting e o espectáculo está a deprimir-me, como estamos, uma vez mais, a perder com uma equipa ridícula, já pedi à minha mulher para ir escolhendo um filme no videoclube virtual…
Para mim chega, foda-se!

p.s. – eu acho que o Postiga merece renovar. Por mais dez anos, no mínimo…

Por mim, chega!

Tínhamos feito o mais difícil, não tivemos maturidade e inteligência, mesmo com dez, para guardar o resultado […] Também acredito que o Maniche está arrependido da asneira que cometeu. Conto com ele para dar maturidade, essa maturidade que faltou após expulsão“, Paulo Sérgio.

O Sporting de hoje: do “clube amador” à “gestão profissional”

Reza a lenda que no início da década de 90 havia um clube governado por um louco ali para os lados de Alvalade. O louco era o Sousa Cintra e o clube era o Sporting. Nesse tempo, quando se vivia na expectativa de voltar a ganhar o título que fugia há uma década, havia um leão a viver verdadeiramente na selva: despediam-se treinadores como quem bebe copos de água, vendiam-se ilusões, apareciam Pelés que acabavam a jogar no Famalicão, corríamos com quem liderava o campeonato, contratavam-se Douglas, Silas e Luisinhos, viviam-se momentos históricos na UEFA, juntavam-se Balakovs, Figos, Valckxs e Paulos Sousas num único onze, levava-se a imprensa em tournée para contratar avançados jugoslavos que acabavam por não vir, pilhava-se o plantel aos lampiões, enfim, era a loucura. Não ganhávamos, mas era a loucura. Acreditávamos, enchíamos Alvalade, jogava-se à bola, tínhamos jogadores com mística e mesmo perdendo para os rivais havia sempre ânimo em cada adepto para enfrentar uma discussão, convicto de que nós é que éramos realmente grandes. Isso de não ganhar era um detalhe.

Nesse tempo que a história teimou em marcar como a época de gestão taberneira e amadora, o Sporting tinha um passivo de 30 milhões de euros. Estávamos em 1995. Repito: 30 milhões de euros. Com a curiosidade de, nesse mesmo ano – e como explicou recentemente o Tomás Aires num artigo do “CM” – o Sporting ter um património superior a 60 milhões de euros só em terrenos. Ou seja, sensivelmente o dobro do passivo. E isto, sublinhe-se, com uma gestão amadora.

Depois veio Roquette. Primeiro com Santana como fantoche, depois ele próprio como mestre da banda. Vinha o mundo das SAD e da gestão profissional. O argumento era simples: o futebol moderno era uma indústria e o clube tinha de ser gerido como tal. Uma indústria que pressupôs ser visionário, antecipar o futuro, transformar o clube numa empresa, primeiro, e num conjunto de empresas, depois. Todas elas com activos tangíveis e intangíveis, capitais, accionistas, balanços, empréstimos obrigacionistas, dívida financeira, passivo corrente, passivo não corrente, VMOCS, enfim… um fartote. O adepto comum não percebeu nada. Ouviu falar num estádio novo, numa academia, na aposta na formação e na projecção do Sporting como grande emblema nacional do século XXI. E nisto o povo português é fodido: cheirou a modernice, o verbo era erudito, a malta tinha pinta de perceber do assunto e até era descendente de fundadores, portanto… vai de aceitar tudo.

Depois, depois cá estamos nós, hoje, para fazer contas à gestão profissional: o estádio ia custar 75 milhões e teve uma derrapagem para mais de 115 milhões; a Academia estava orçada em 6 milhões e custou quase o triplo; na vertigem de consolidar o domínio após o primeiro título (em 2000) gastou-se o que se tinha e o que não se tinha na compra e salário de jogadores caros nos anos seguintes (João Pinto, Paulo Bento, Dimas, Sá Pinto, Jardel, entre outros), construíram-se edifícios-sede, centros comerciais, exploraram-se clínicas… por aí fora. Em 2000 o passivo do clube rondava já os 65 milhões de euros. Em 2005 os relatórios e contas apontavam para passivos na ordem dos 150 milhões de euros. Mas em 2009, Soares Franco viria esclarecer que afinal o passivo estava mascarado e o seu montante real era de 280 milhões desde… 2005 (?!?!?!?!). O clube estava tecnicamente falido e nas mãos da banca e credores. Hoje o passivo ronda os 300 milhões e sucedem-se as fugas em frente com reestruturações financeiras atrás de reestruturações financeiras.

Aqui chegados, que balanço? Em 15 anos ganhámos dois campeonatos, meia dúzia de taças e supertaças e fomos a uma final da UEFA. O passivo entretanto cresceu de 30 para 300 milhões. Compensou? Claramente não! Sobretudo porque ninguém consegue perceber ao certo o que se passou durante este trajecto que levou o clube a multiplicar o seu passivo por 10 em década e meia. A não ser o mais simples de se perceber: que muita gente terá ganho dinheiro à custa do clube e que José Roquette, Dias da Cunha e Soares Franco (e todos os que os acompanharam nas suas aventuras) são os rostos de uma gestão danosa que comprometeu seriamente o presente e o futuro do Sporting.

Não, isto não é populismo: é um facto. Foi esta gente que conduziu o Sporting à situação actual. Por isso me custa hoje a acreditar que esteja nestes senhores, ou nos seus cooptados, a salvação para o buraco em que estamos enfiados. Ainda acreditei em Bettencourt: pela falta de comparência de oposição credível e talvez porque me parecesse menos engravatado que os antecessores. Mal sabia eu o que aí viria… Por isso, repito, já não consigo acreditar nesta gente. Espero que me surpreendam, claro, mas já não acredito. Sobretudo porque, com o clube financeiramente estrangulado e com a gestão desportiva algemada à banca, a Sporting SAD está hoje condenada a colocar em segundo plano aquilo que era suposto ser o “core business” da “empresa”: o futebol enquanto espectáculo. Pior do que não ganhar, pior do que a terrível sensação de não estarmos aptos a lutar pelos títulos, é esta ideia de que o futebol jogado do Sporting parece traduzir, há um par de anos, a mesma sensação que os nossos gestores e accionistas devem ter quando olham para a merda que fizeram: “é uma chatice”.

(Próximo capítulo – “O Sporting de hoje: o jogador, o activo e a acefalia do gestor”)

Voltamos a repetir: dava mesmo jeito desmentirem esta merda

Quando a notícia surgiu pela primeira vez, pedimos para que alguém tivesse a coragem de dar a cara.
Agora, em entrevista ao site Academia de Talentos, e entre várias outras alfinetadas, Paulo Barbosa garante que o Sporting tentou mesmo despachar o Izmailov para o Benfica e que tal só não aconteceu porque o russo se recusou a jogar no rival.

Será que Bettencourt e Costinha vão voltar a assobiar para o ar? Será que Paulo Sérgio estava de acordo com a vassourada?
Estou cansado de silêncios ensurdecedores. Como aquele que envolve a vergonhosa passagem de Pongolle por Alvalade.

Outra vez?!?

Mesmo aqueles que apenas me conhecem através das linhas que vou escrevendo no Cacifo, por certo já chegaram à conclusão que uma das coisas que mais me irrita é termos que ser “amiguinhos”, “parceiros”, “camaradas”, “aliados” ou o raio que parta que queiram chamar-lhe, de algum dos outros chamados grandes.
A “amizade” com o filho da puta nortenho só tem servido para nos enterrar. As beijocas que vamos dando aos nossos vizinhos e rivais são, por assim dizer, a cereja no topo de um bolo que eu me recuso a comer.

E a que propósito estou eu com esta conversa? Simples. Depois de ter antecipado a vergonha que se passou em Alcochete, com a entrega de bilhetes ao Benfica para o jogo que decidia o campeonato de júniores; depois de ter repudiado o adiamento do jogo na Luz, na época passada, em que em vez de jogarmos num domingo jogámos numa terça, colocando de lado a vantagem do Benfica ter jogado a meio da semana; não podia deixa passar em claro mais um cafuné nos testículos lampiónicos, abdicando do direito de adiar o jogo da quinta jornada, novamente na Luz, que se realiza menos de 72 horas após a nossa partida em Lille.

Mas afinal, que merda vem a ser esta?!?