Com quantos ovos se faz a omelete da estabilidade?

Quando: 31 de janeiro, um dos dias mais vergonhosos e patéticos da história do Sporting
Arma: ovos.
Alvo: vice-presidente da mesa da assembleia geral do Sporting.
Snipers de pacotilha: os dos mustafados comunicados.
Motivo: manter a estabilidade* no Sporting.

*Estabilidade
Qualidade de estável; Firmeza, solidez; Permanência; Equilíbrio; (nova entrada, em 2012) forma de encher os tímpanos a sócios e adeptos, na tentativa de manter um poder nefasto e bafiento 
Tudo começou há quase dois anos, numa noite que se arrastou madrugada dentro e se cravou na história do Sporting como um dos momentos mais negros da mesma. Era noite de eleições, as mesmas que, ainda hoje, permanecem envoltas em dúvidas. O recém-eleito Godinho Lopes pedia aos sócios e adeptos que colocassem de lado as divergências e que o deixassem cumprir um projecto que traria o Sporting vencedor de volta.
A turba acalmou-se, aplaudiu contratações, comprou camisolas e cachecóis, encheu Alvalade num jogo de apresentação onde nem faltou um pobre Leão branco metido numa jaula. A época começou mal, mas ninguém arredou pé. Uma onda de vitórias fez-nos acreditar que era possível conquistar algo. Puro engano. Na procura da estabilidade, que começava a ser manchado com episódios patéticos como o das paredes dos túneis ou a rábula da visita ao estádio dos orcs, Domingos é demitido. E Carlos Barbosa demite-se.

«Calma», pede Godinho, que anuncia Sá Pinto como o homem certo no lugar certo. A turba volta a responder positivamente e, mesmo que com dúvidas, aceita acreditar num nome que lhe falava ao coração. Canta-se bem alto o nome Sporting, numa madrugada passada no aeroporto, mas o grito final fica atravessado na garganta, em pleno Jamor. Pelo meio, Paulo Pereira Cristóvão, arrasta o nome do Sporting para uma lama com a qual temos tentado evitar sapicar-nos. Demite-se, não se demite, é demitido. Mas aqui, meus amigos, não se colocava em causa a estabilidade.

Nova época, novas promessas, zero futebol. O passar de de um sono agitado para um pesadelo. À saída de jogadores com carisma, junta-se uma série de exibições e resultados vergonhosos. Sá Pinto, o tal que tinha sido apresentado como o homem certo no lugar certo, é demitido. Atira-se Oceano para a fogueira, sem que se perceba se é ele que fica até final, se está ali de forma provisória (isso logo se veria, importava era a estabilidade). Passados quinze dias, de olhos esbugalhados, Godinho rouba a vassoura a Duque e dá-lhe tamanha varridela que Freitas vai por arrasto. Tal como o projecto que recuperaria o Sporting vencedor. «Meus amigos, sócios e adeptos, ao fim de um ano e meio de trabalho percebi como é que isto funciona. Basto eu, uma espécie de especialista e um treinador. Ninguém nos pára!», anunciou Godinho, enquanto os jogadores perguntavam a Oceano: mister, o mister é o mister ou vem outro mister?

Veio, pois que veio, um gajo que eu tinha na minha caderneta de cromos do México 86. Ex-jogador com pinta, Franky Vercauteren foi apresentado como um treinador vencedor e ideias condizentes com a do presidente. Era o homem certo para estabilizar o Sporting, apostando na formação. Desculpe?!? Sim, apostar na formação. É esse o caminho. É esse o projecto. Mas, calma, estava tudo planeado. Afundámos as contas do clube para deixar os miúdos crescerem, cheios de estabilidade, na equipa B. Agora que estão prontos, podemos despachar, a qualquer custo, estes gajos que custaram e recebem balúrdios, pois já se acabou o dinheiro para pagar estes ordenados. Mas, por favor, acreditem em mim e no meu trabalho. Só precisamos de estabilidade ade ade ade ade ade ade (o eco ouvia-se pela boca dos notáveis do costume).

Entretanto, enquanto Franky esperava pela chegada do adjunto, Godinho trazia Jesualdo Ferreira. Estabilidade. «Eu sou o treinador dos treinadores», disse o professor, que depressa viu que o aluno belga era caso perdido e, com a concordância do reitor, tratou de mandá-lo para casa, suspenso ad eternum. E sem telemóvel. «Estejam descansados que agora é que é», disse Godinho para, imagine-se, os muitos que ainda o queriam escutar ou, mais estranho ainda, para os que acreditavam que a culpa do Sporting estar a lutar para não descer era dos que assobiavam a direcção e questionavam o trabalho feito. Dos que não davam estabilidade, no fundo.

E, em busca dessa estabilidade, Jesualdo Ferreira deu uma conferência de imprensa que acendeu, ainda mais, os ânimos. A claque amiga fazia greve. A marcação de uma AGE, para dar voz aos sócios, estava em marcha. «Voz aos sócios?!? Para quê? Isso não traz estabilidade!», exclamou Godinho (ade ade ade ade ade ade, o eco ouvia-se pela boca dos notáveis do costume). Abre a janela de transferências e a estabilidade transforma-se em leilão. Em trocas e baldrocas. Em ameaças de impugnação, em anúncios de providências, em comunicados de uma claque transformada em guarda pretoriana. Jesualdo volta a ser voz de quem o contratou, reforçando que os jogadores precisam de paz para trabalhar. Mas qual paz, foda-se?!?, apetece perguntar, enquanto os exemplos de incompetência se vão acumulando.

Anuncia-se Niculae. De uma assentada, alegra-se o cada vez mais ferido coração dos adeptos e dá-se, finalmente, um parceiro a Wolfswinkel. Medida do cacete. «Presidente, isto vai dar merda», alguém alerta Godinho. «Oh, anuncia lá o gajo no site. Olha lá, já limparam a foto do russo com a camisola do porto, não já?». O gajo, Marius Niculaeu, é anunciado. Mas não vem, porque ninguém sabe se pode jogar. «Musta, manda lá uns quantos gajos aterrorizarem o cabrão do Sampaio e quem mais por lá estiver, que eu vou ligar ao gajo que eu tenho como exemplo, para ver se desenrasco esta «estória» do avançado. Duvido que o meu amigo me deixe na mão. Olha, olha, e leva uns ovos. Vamos mostrar a estes gajos, como é que se cozinha a omolete da estabilidade!»

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Vercauteren devia ser contratado como press conferencista oficial!

«Izmailov disse-me que a cabeça dele estava no Sporting enquanto for do Sporting. É o que espero de um jogador profissional. […] Se há jogadores do F.C. Porto interessantes? Há vários», sorriu o técnico belga, para depois acrescentar: «Nunca olho para os outros, porque isso seria um desrespeito para a minha equipa. Não creio que o FC Porto deixe sair a equipa inteira, mas se calhar quer mais do que um jogador nosso.»

Pensamento solto

Li que, hoje, Jesualdo Ferreira já dará a sua opinião, numa reunião para começar a preparar o mercado de Janeiro. Assim sendo, e se não for pedir muito aos deuses do futebol, espero que o professor aponte a vassoura ao Elias, ao Boulahrouz e ao Gelson.
Os primeiros por já não poder olhar-lhes para a tromba, o último por se ter enganado quando escolheu o tipo de atleta que queria ser.

O golo

Julgo ser unânime a opinião de que se há posição onde estamos bem servidos, essa posição é a baliza. Rui Patrício é, hoje, um dos melhores guarda redes do mundo (pelo menos para mim), tendo ainda grande margem de progressão. E, contrariando muitas das opiniões que por aqui leio, sou da opinião que, na outra ponta, também estamos bem servidos. É verdade que Wolfswinkel não é um Van Basten, é verdade que falha golos que devia marcar, mas continuo a achar que temos um ponta de lança para dar-nos muitas alegrias e muitos golos (saiba a equipa aproveitá-lo, como fez Dier).

E é, precisamente, na questão da finalização que pretendo pegar, por achar que reside aí um dos nosso principais problemas (e que esse problema não está em Wolfswinkel). Recuando à época anterior, referência para a maioria destes jogadores, tivemos um Schaars (sim, ele mesmo) a marcar, tivemos Capel, tivemos Carrillo, tivemos Matías, tivemos Onyewu a resolver alguns jogos, até Izmailov que, quando jogava, marcava. E bastará olhar para os três primeiros classificados na nossa liga, para entender a importância de ter médios com golo nos pés (é só recuar uns dias e ver o que fez Lucho) e centrais capazes de, de quando em vez, ajudarem a desbloquear situações mais complicadas.

Este será, em meu entender, um dos grandes desafios de Vercauteren.

Vercauteren

 

Ao contrário do que alguns cacifeiros pensaram, e afirmaram, não fiquei esfuziante com a contratação de Franky Vercauteren. Fiquei, e esse terá sido o meu primeiro sentimento, aliviado. Primeiro por, finalmente, termos um treinador que abre a possibilidade de surgirem novas ideias no nosso futebol; depois por não levar com um qualquer Rui Faria desta vida. Começaria, precisamente, por aqui. Porque motivo deveria eu rotular o novo treinador de forma menos abonatória, pelo simples facto de apenas o conhecer da caderneta de cromos do México 86? Alguém, mas de uma forma lógica e sustentada, consegue dizer-me porque raio o sorumbático Franky é pior do que o dito Faria ou do que um Zico? Não poderá ter mais qualidade do que o Cruyff de Felgueiras que tantos sonham resgatar aos lampiões? Torcer o nariz a este quando havia quem apontasse o nome de Temuri Ketsbaia ou de um qualquer Tito espanhol? O Slaven Bilic é que era bom?

Obviamente que percebo que não tenha sido um nome capaz de encher os nossos ouvidos, mas a verdade é que, parece-me, não temos dinheiro para trazer um desses nomes. Eu disse, aqui, qual o nome que gostava de ver chegar a Alvalade e, confesso, nem nas minhas listas de treinadores mais rebuscadas me lembrei do nome de Vercauteren. O que até pode nem ser mau, no sentido de poder vir a ter uma boa surpresa. A questão fundamental, em minha opinião, é se alguém terá explicado ao belga, de forma sincera, o estado atual do Sporting. E se ele terá percebido.
Franky terá que ser um treinador de ferro, capaz de fazer passar uma mensagem ao balneário: «acabou a bandalheira!». Depois, olhar para os jogadores e ser capaz de recuperar todos aqueles que estão francamente abaixo daquilo que podem render. Basta atentar no caso de Insua, para se perceber o estado físico e anímico da maioria daqueles rapazes (e para perceber o desnorte dos adeptos que até já o apelidam de novo Grimi).
O terceiro passo será conseguir implementar um modelo e um fio de jogo, algo que, actualmente, não existe. É aqui que acho que temos muito a ganhar com a chegada de alguém que chega com a cabeça cheia de ideias frescas e, muito sinceramente, por muito que goste e respeite Oceano, temo que a sua presença mantenha alguma ligação aos erros básicos de um passado recente (por exemplo, as notícias que dão como certa a manutenção do 4-3-3 deixam-me a pensar se será o desenho táctico preferido do belga, se uma dica de quem já lá estava).

Para além de tudo isto, Franky terá que lidar com a falta de tempo (continuo a achar vergonhosa a forma como se desperdiçou a paragem do campeonato). Primeiro, porque os adeptos estão fartos de serem enxovalhados; segundo, porque tem sete meses para tentar mostrar que merece começar uma época; terceiro, porque o Sporting é uma equipa sem tempo, a precisar de ganhar como se dessa vitória dependesse a vida. Alguém duvida que, perante uma não vitória no próximo jogo, haverá quem aponte o dedo ao treinador?

E, finalmente, o grande problema de Franky Vercauteren: está intimamente ligado a Godinho Lopes, um nome de quem até já os meninos da sul estão cansados. Um nome que simboliza uma gestão do clube sem projecto para a sua maior bandeira: o futebol profissional. No fundo, Franky é uma espécie de aventureiro, capaz de aceitar um desafio muito complicado, mas cujo sucesso será de duplicado sabor. Neste momento, é neste homem que temos que depositar as nossas esperanças, sabendo que é dele e da sua equipa que dependemos para voltar a associar o nome do nosso clube às vitórias. E, enquanto adeptos, o primeiro passo será sermos capazes de não descarregar a nossa fúria relativa à direcção, num gajo que acabou de chegar com a vontade de fazer tudo o que lhe for possível para inverter a negra marcha em que nos encontramos.

Se conseguir passar das palavras aos actos…

«I want football to be played the proper way, with the ball on the ground and every single person in the team playing his part. I want my football teams to entertain as well as win. This is how I was brought up and it’s why I fell in love with the game. Nobody remembers boring football teams, so why would any coach set up his team to be that?», Franky Vercauteren
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