E tu, o que pensas disto?

Carlos Lopes regressa a Alvalade pela porta grande, nomeado director do Departamento de Atletismo.
Creio que quanto a Sportinguismo, estamos conversados. Resta saber o que conseguirá fazer como profissional.

Verdes Anos: Os tomates no sítio e outras «estórias»

Belíssima entrevista, repleta de memórias, publicada, hoje, no i. O entrevistado é Domingos Castro, que nos brinda com verdadeiras pérolas!

O Domingos faz parte da nossa memória. No tempo em que só havia dois canais de televisão, estava sempre a aparecer.
Ui, bons tempos esses…

Quanto tempo ficou no Sporting?
Vivi lá 18 anos.

Viveu?
Sim, eu e o Dionísio fomos de Guimarães para o Estádio José Alvalade. Vivíamos lá dentro, no centro de estágio, e convivíamos com uma série de malta. Nem imagina…

Pois não, quantos quartos?
[Faz contas de cabeça em voz alta.] Onze.

E que malta era essa?
Ena pá, tantos, tantos. Começo pelos futebolistas: Futre, Litos, Figo, Fernando Mendes, Venâncio…

Havia de outras modalidades.
Claro que sim. Nós, por exemplo. Os dias eram assim: treino de manhã, almoço, treino à tarde e jantar. Nesses intervalos íamos ver todos os desportos, como boxe, karaté, voleibol, ginástica, hóquei em patins, ciclismo. De repente encontrávamos o António Livramento ou o Joaquim Agostinho.

Assim, sem mais nem menos.
Sim senhor [olha pela janela, como que a reviver todos os encontros]. Uma vez, o Joaquim Agostinho chamou-me: “Ó Domingos, vem cá comer estas caracoletas.”

Ui, grande Agostinho.
[Domingos ri-se e põe a língua de fora em tom de desaprovação.] Não sei se sabe, mas lá em cima, e eu e o Dionísio somos de Guimarães, não se vê caracóis em lado nenhum. Não é um petisco comercial como cá em Lisboa. Bom, o Agostinho está ao lado de uma panela e chama-me. Ele tinha acabado de fazer caracoletas e queria que as provasse. Se dissesse à minha mãe que tinha provado caracoletas, ela caía para o lado. Como era o Agostinho, lá tive de provar. Meti a primeira na boca, mastiguei-a e fiz um sorriso. O Agostinho a olhar para mim. Comi a segunda e depois não quis mais. Não por falta de qualidade, mas por falta de hábito. Ainda hoje não me consigo ver a comer caracoletas [deita a língua para fora novamente].

Livramento, Agostinho, que classe.
E faltam outros. Do ciclismo, dei-me ainda com o Marco Chagas, o Alexandre Ruas, o Emídio Pinto. Repare, ainda apanhei a pista de ciclismo em Alvalade.


Naquele tempo, o Sporting estava todo concentrado nesse espaço. A porta 10A era o sonho de qualquer atleta. Entrávamos ali todos os dias e ficávamos com pele de galinha. Agora lembro-me de uma história engraçada: uma vez saí do estádio, uma pessoa perguntou-me onde era a Rua Francisco Stromp e eu não sabia! A Francisco Stromp é aquela à frente do estádio. Então eu passava lá a vida e não sabia, que vergonha [dito isto, uma palmada na mesa mais uma gargalhada sonora].

Como atleta do Sporting, via os jogos de futebol?
[Faz uma careta, sinal de “pfff, lógico”].

Lembra-se de algum?
Muitos, o 7-1, o 6-3, isto com o Benfica, e o 2-1 ao Barcelona.

É de que ano esse jogo?
[Pensativo.] Acho que 1986/87, Taça UEFA. Perdemos lá 1-0 e cá estamos a ganhar 2-0 até dez minutos do fim [golos de Negrete 40′ e Meade 60′]. Quando nos marcam [Roberto 83′], que desilusão. Não me lembro de alguma vez ter saído do estádio tão desorientado.

Via os jogos onde?
Na bancada da pala. Dormíamos mesmo por debaixo dessa bancada central. Era só subir para os camarotes. Os sócios até faziam questão de nos ver por lá.

Também ia aos jogos fora de Alvalade?
[Faz uma careta como que a dizer “Sporting até ao fim”]. Uma vez fui à Luz. Encostado ao varão da escada, aquilo estava mais cheio que sei lá o quê. Ganhámos 2-1.

E fora de Portugal?
Quando havia tempo também íamos. Lembro-me de uma viagem à Roménia [começa a rir-se descontroladamente com a mão direita na testa].

Timisoara?
Isso, 1990. Tínhamos goleado 7-0 em Alvalade. Na comitiva, além de mim e do Dionísio, o Valentim Loureiro. Mal chega lá dá-nos uma pasta cheia de dinheiro, mas cheia mesmo, deste tamanho [e faz questão de a medir com as duas mãos em cima da secretária; garanto, era grande mesmo].


Bem, fomos às compras e não havia nada para comprar. A revolução que derrubou o regime do Ceausescu tinha sido em Dezembro do ano anterior. Começara até em Timisoara, pelo que ainda havia marcas de tiros nas paredes dos prédios e a cidade estava vazia. Só para ver, não havia nada nas lojas dos centros comerciais. Além de que aquele dinheiro não valia nada. Ou seja, tínhamos uma mala cheia de nada. Eu não consegui comprar nada e o Dionísio contentou-se com um lagarto de madeira [lá vêm as gargalhadas sonoras, com a mão a bater na mesa… de madeira].

E mais?
Mais? No dia do jogo, vamos para a bancada de imprensa.

Vamos?
Era aí que queria chegar. A disposição táctica é a seguinte: Dionísio, Marinho Peres e eu.

Marinho Peres, o treinador?
Exacto, ele estava suspenso, por ter feito um manguito aos adeptos do Malines na primeira eliminatória. A propósito, também fui à Bélgica ver esse 2-2. O guarda-redes deles era o Preud’homme. Mas vá, voltamos a Timisoara. O Marinho Peres está no meio de nós, eles fazem o 1-0, depois o 2-0. O Marinho vira-se para o Dionísio e diz-lhe “vai lá abaixo dizer para entrar o Luisinho”. Lembra-se do Luisinho? Que classe. Ele estava no banco. Entrou na segunda parte e não houve mais golos.


Espera aí, lembrei-me agora de outra bem boa. Ainda Timisoara. No jantar de despedida, no Hotel Continental, sabe o que aconteceu aos instrumentos da banda que estava a tocar?

Não faço ideia.
O presidente [Sousa Cintra] comprou tudo, de um momento para o outro!

E falar de atletismo, que é bom?
Também pode ser.

É o organizador da Meia Maratona de Luanda.
Vou hoje para lá, fazer os preparativos. O percurso é propício. É todo plano, do porto [de Luanda] à ponta da ilha [do Cabo]. Há estradas novas e uma paisagem encantadora. Só esperamos que o tempo nos ajude e a temperatura não esteja alta a 1 de Setembro.

Quantos atletas?
Estabelecemos um limite de 300. Vinte deles de ponta, com contrato assinado. Há prémios bons para os dez primeiros.

E se alguém bater o recorde mundial?
O recorde é 58 minutos e 23 segundos, de Tadese, da Eritreia, estabelecido em Lisboa há três anos. Se o baterem, o vencedor ganha 100 mil dólares [75 mil euros].

No seu tempo também era assim?
Sim, também eram tentadores.

Alguma vez ganhou?
Já [ups, gargalhadas; lá vem história]. Uma vez, o Gebrselassie bateu o recorde dos 10 mil metros em Oslo. Queria dar-me uma volta de avanço, isso é que era bom. Comecei a correr, a correr, a correr, ele sempre no meu pé e os organizadores a dizerem-me repetidamente Domingos out.

Porquê?
São proibidas lebres, atletas que puxem por outros. É uma prática comum, mas não era o caso, claro. Então continuei a correr até cortar a meta. Resultado: o Gebrselassie bateu o recorde do mundo.

Foi medalha de prata nos Mundiais-87 em Roma. Como foi?
Ainda hoje tenho esse dia aqui [aponta para a cabeça]. Antes da prova, eu e o Dionísio íamos a entrar para o estádio quando o Moniz Pereira [treinador] se separou de nós em direcção à bancada. De repente, menos de um minuto depois, vejo-o a vir ter comigo e diz-me só isto “hoje é o teu dia, tomates no sítio”. Ganhei a prata.

Atrás de quem?
Said Aouita, Marrocos. Uma jóia de pessoa.

No ano seguinte, Olímpicos de Seul.
Fui a quatro Jogos Olímpicos e essa aldeia olímpica foi a melhor de todas. Estávamos todos concentrados naquele espaço e divertíamo-nos sempre. O problema foi que não cheguei ao fim.

Então?
Fiquei em quarto lugar nos 5000 metros, mas ia em segundo na última curva. Chorei como um bebé [volta a olhar pela janela, com nostalgia] e tive de me ir embora nesse dia. O Comité Olímpico conseguiu-me um voo para Portugal.


Mas aquilo era malta fixe, impecável. Almoçávamos todos juntos, dávamo-nos muito bem. Todos, sem excepção. Lembra-se daquele cubano, Sotomayor, do salto em comprimento?

Sim.
Cada vez que o via chamava-lhe Banco Pinto e Sotto Mayor. Às tantas já era ele que me dizia isso [mais risos].

Verdes Anos: A primeira de ouro veio ao pescoço de um Leão

Tinha sete anos e jamais me esqueci. Enquanto tentava perceber o porquê de estar a decorrer uma corrida num horário completamente diferente do nosso, tentava, também, perceber o estado de espírito dos adultos. Uma televisão ligada, uma mesa com comida e bebidas, duas mãos cheias de adultos impacientes, vendo outros adultos a correr. Carlos Lopes, Carlos Lopes, Carlos Lopes. O nome ia-se repetindo e os meus olhos decoravam aquela figura magra que não parava de correr. Disseram-me que era Portugal que ali corria. «O teu país, o nosso país». «E o Sporting?», perguntei eu. Alguém me disse, meio de raspão, que aquilo não era futebol, mas que o Carlos Lopes era do Sporting.
Depois vieram brindes e sorrisos. Adultos felizes, partilhando comigo uma alegria que eu sorvia ao ritmo de um Capri-Sonne. Portugal. Sporting. Sporting. Portugal. Carlos Lopes. O hino! O hino! Adultos ainda mais felizes, alguns de lágrimas no olhos. Adormeci tarde, mas acordei cedo. E numa manhã daqueles agostos que eram parte de férias de três meses, corri para a rua sem a bola debaixo do braço.