Cada um acredita no que quiser

Mas, para lá de tudo isso, isto parece-me respeito pelos sócios. Quantas situação debatemos nós, aqui e noutros lados, defendendo ser fundamental ouvir uma posição oficial do clube? E o pior, meus caros, é que isto só reforça a teoria de que deixámos sair o russo por razões monetárias e que a melhor solução que encontrámos foi… oferecê-lo aos corruptos.

«Desde que entrei no futebol profissional e assumi a direção clínica do Sporting sempre mantive discrição e recato. Acima de tudo pela dignidade dos atletas e pelos atletas que represento. O quadro clínico não deve ser exposto na comunicação social. Para toda a regra existe exceção. Perante notícias erradas tem de se dizer», começou: «Izmailov estava parado há um ano e meio e foi acordado que iria ser operado ao joelho direito nos EUA. Dissemos a atleta e empresário que seria erro e que devia ser operado única e exclusivamente pelo Sporting. Em outubro de 2011 foi operado aos dois joelhos. Jogou com regularidade e após quatro anos foi convocado pela seleção russa, onde realizou exames médicos», prossegue.
Depois, a situação da primeira metade da temporada. «Nesta época, voltou a estar indisponível. De 21 de julho a 20 de agosto de 2012 queixou-se de lomblagia. De 9 novembro a 8 dezembro esteve parado, devido a uma lesão no ligamento lateral interno com evidência nos exames complementares. De 13 de dezembro a 5 janeiro queixou-se de nova lombalgia, com exames feitos. Esteve dois meses parado por queixas de lombalgia.» Quando tenho um jogador que apresenta dor, a dor é um parâmetro subjetivo. Ao ter dor, temos de investigar. Fizemos exames complementares, veio sem alteração. O jogador ia para treino, mas por ter dores abandonava o treino», explica.
Frederico Varandas diz que, do seu ponto de vista, o russo é um jogador apto: «Abandonou o Sporting a 8 de janeiro de 2013. Também passou exames no FC Porto e jogou pelo FC Porto. «Estas são as ocorrências objetivas. O que posso dizer é que quando ele sai do Sporting tenho 100 por cento de certeza que está disponível para jogar futebol.» (in Maisfutebol)

 

Aquecer o clássico

«A questão do Izmailov é uma questão de honestidade, ou se calhar eu não soube tirar tudo dele…”, começou por responder, prosseguindo no mesmo tom irónico: “Olhando à intensidade com que ele joga hoje, alguém estava mal. Ou o departamento médico, ou o departamento técnico ou então o profissionalismo dele.», Domingos, in O Jogo, reproduzindo declarações proferidas no programa Grande Área, da RTP.

Das três, uma. E estou mais inclinado a acreditar na terceira (cabrão do Costinha deve estar farto de rir-se).

Essa coisa, ultrapassada, do amor e das referências

«Cada vez me capacito mais de uma coisa: ídolos, referências ou símbolos não são feitos de defesas, golos ou juras de amor eterno…isso é dever profissional ou forma fácil de agradar. Ás vezes confundem-se, injustamente, estes conceitos sem que se tenha a garantia do carácter da pessoa», João Benedito.

Eu conheci o Sporting através da rádio. E dos jornais, que me ajudavam a aprender a ler. Tinha cinco anos e, nessa altura, falava-se muito do amor à camisola, a mesma que eu pedi como prenda, dois anos depois. Falava-se de craques e de ídolos. Dizia-se que o Manuel Fernandes era a alma do Leão, que o António Oliveira era um dos melhores jogadores da nossa história, que o Jordão era elegante, que o Carlos Xavier e o Mário Jorge eram diamantes a lapidar e que o Meszaros tinha um talento para defender bem maior do que o bigode com que jogava.

Depois apareceram Venâncio e Morato que, segundo os mais velhos, eram Leões de verdade. Eu nunca gostei muito deles como jogadores, mas defendia-os como se fossem os melhores do mundo. Também apareceu um gajo com nome de escritor, um tal de Rodger Wylde, e outro com nome giro para ser boneco do Match Day, o Boskovic, que, mal sabia eu, haviam de ser uma espécie de pré-aviso para a carrada de estrangeiros sem qualidade que, desde essa altura, foram tendo a honra de vestir a mais bela camisola do mundo. E, qual cometa, apareceu um puto (bem, o puto era eu, diga-se em abono da verdade) cheio de estilo, chamado Futre. Eu só ouvia falar do Futre. O mesmo que me confundiu, ao aparecer a celebrar golos com a camisola de um clube de que ninguém gostava. Felizmente havia o Manel, sempre lá, como referência de bem jogar e de amor à camisola.

O amor foi reforçado quando apareceu Damas. E o que eu chorei quando, no México 86, disseram que ele tinha tido culpa de perdermos contra Marrocos. Damas, Damas, Damas, até hoje Damas, símbolo desse tal amor, referência, craque, relegando para o banco o enorme e ilusório Katzirz, que animava o velhinho Alvalade tocando com o pé na barra durante o aquecimento. Havia, também, Litos, capítulo primeiro de toda uma história de eternas promessas que nunca chegam ao patamar vaticinado, e dois gajos com nome que ficava no ouvido; Saucedo e Eldon. Seguiu-se Raph Mead, ídolo de muito boa gente, e Duílio, ensaiando o samba no centro da linha mais defensiva. E o Manel, sempre lá. Mais o Jordão. E o Damas, claro.

Bem no coração do jogo, ia-se impondo uma espécie de arrastão, chamado Oceano. Tosco, como um artesão sem jeito, impressionava pelo que corria, pelo que destruía, pela força, pela dedicação. A camisola ficava-lhe bem. Mais à frente, um mexicano chamado Negrete, inspirava-me a tentar pontapés acrobáticos sem ter noção de que alcatrão não é relva. Marlon Brandão veio rotulado de craque, mas transformou-se num claro exemplo de que é bem mais fácil sê-lo com camisolas que pesam menos do que a verde e branca. E os dois estarolas, Houtman e McDonald, quais gigantes de torres plantados na área, incapazes de, juntos, valerem meio Manuel Fernandes (que por lá continuava, imagine-se. Com o Damas, claro).

Mas o Manel estava cansado, e deixou o balneário entregue a Damas e Venâncio, com Oceano, Morato e Xavier como guarda de honra. E tentou-se suprimir o vazio deixado na frente com o goleador Paulinho Cascavel, com o buliçoso Tony Sealy (podia ser irmão do Tom Jones) e com um puto chamado Cadete que, depois de crescer, tratou de manchar as memórias de uma noite mágica à chuva, frente ao Celtic, festejando estupidamente, naquela que foi a sua casa, um golo com a camisola dos principais rivais.

Estávamos no final da década de 80 e, num ano em que chegava um ex-lampião bom de bola, Carlos Manuel, um avançado sueco, Eskilsson, irmão gémeo do vocalista dos Europe, e despontava um jovem chamado Paulo Torres, a minha galeria de notáveis ganhava três nomes: Ricardo Rocha, patrão da defesa; Silas, craque, craque, craque; e Douglas, provavelmente o meu jogador preferido da minha história verde e branca, que se juntou a Oceano para tomar conta do meio-campo. Para todos os efeitos, eu passei a ser o Douglas em todas as peladas. E a querer jogar de meias em baixo e sem caneleiras, nos meus primeiros passos como jogador federado (sim, também usei cabelo à Douglas).

Fiquei com Douglas, mas perdi Damas. Felizmente, a memória tornou-se menos dolorosa por, para o seu lugar, ter chegado um gajo com pinta de maluco, Ivkovic (iv-iv-ivkovic! iv-iv-ivkovic!), o tal que, em pleno San Paolo, defendeu um penalti do Maradona e que viria a repetir a gracinha ao serviço de uma das selecções de que mais gostei até hoje, a Jugoslávia. Na frente, um tripas que resolveu vir terminar a carreira com estilo, Fernando Gomes, ao centro um gajo sem jeito nenhum para a bola mas com um pontapé inacreditável, Valtinho, e os primeiros passos do primeiro dos dois melhores do mundo por nós formados, Luís Figo.

Veio Luisinho, tão craque que, hoje, há quem tente ter nome igual e só consegue fazer merda. E veio um treinador porreiraço, Marinho Peres, a quem ainda marquei um golo de bicicleta, numa jogatana nas areias da Caparica. Havia um Careca, tão irritante, e a oportunidade de ver chegar duas referências polvilhadas com mais amor do que canela sobre pastéis de belém: Balakov, jogador de nível mundial, e Iordanov, o eterno mochilas (“primér gol párá Sporting, estar muito féliz”, dizia ele).  Idolatrei Bobby Robson, treinador tão fixe como um jogador, odiando Sousa Cintra por tê-lo despedido. Fiquei com o nem sempre compreendido Juskowiak, com um dos melhores do mundo que nunca chegou a sê-lo, Cherbakov (e o que eu chorei, incapaz de estudar para o teste de alemão dessa tarde, depois de saber que um gajo pouco mais velho que eu, comungando a mesma paixão, ia ficar preso a uma cadeira de rodas) e guardei mais um nome dos meus jogadores preferidos, Valckx. Paulo Sousa chegou com requintes de malvadez quase tão grandes como a sua qualidade futebolística (outro de nível mundial), mas um tal de Carlos Queiroz conseguiu deitar a perder o que teria sido uma época de sonho. Vivíamos a época dos craques, daqueles que teriam vendido infindáveis camisolas se as camisolas tivessem nomes como hoje. Aos que já lá estavam, juntaram-se o senhor Marco Aurélio, Naybet e Amunike. E apareceu um tal de Ricardo ‘Coração de Leão’ Sá Pinto.

Ia-se cantando “u-a, Outtara!”, para entreter a malta, tentando esquecer o desaparecimento de referências. Oceano e Iordanov aguentavam o barco, Sá Pinto dava coração, e Pedro Barbosa começava a dividir as bancadas. Um jovem chamado Beto celebrizou o festejo de golos agarrando o símbolo do Leão, Rui Jorge conquistava-nos, e Acosta aterrava em Lisboa, fazendo-me sonhar com as compilações de golos que acompanhavam a sua chegada. Schmeichel, de braços abertos ocupando meia capa de jornal, deixava-me de coração aos pulos. Um puto, Duscher, entrava para o meu top 5 de jogadores preferidos. E André Cruz era pedra basilar de uma das maiores alegrias que senti até hoje. Tivemos Babb, tivemos João Pinto (um bom exemplo de saber não cuspir no prato onde comeu), tivemos Jardel, mas eu gostava mais de Quaresma, de Hugo Viana e de Niculae. Fomos campeões. E apareceu Cristiano Ronaldo, o segundo a conquistar o mundo com a marca do Leão, até hoje exemplo pela forma de quem lhe deu bases. Paulo Bento acompanhou o surgimento de CR, e, para lá de outras questões, mostrou ser irrepreensível no que toca a respeitar a camisola verde e branca.

Entramos na última década. E, para lá de Pedro Barbosa, de Beto, de um podia ter sido, mas não foi, chamado Miguel Veloso, e do regresso de Sá Pinto, apenas me surgem três nomes com inegáveis ligações ao coração dos adeptos leoninos: João Moutinho, Izmailov, e Liedson. Muitas das nossas esperanças, numa história recente, passaram pelos pés destes três jogadores. Cada um à sua maneira, com a conivência de quem nos dirige, para quem futebol é negócio e que mostra ser incapaz de ver a clara tentativa do fcp em trepar no futebol português à conta do “empequenecimento” do Sporting, souberam atirar a matar sobre os já tão castigados adeptos.

Está visto que isto só nos magoa a nós. Que lágrimas na despedida, só valem as nossas. É enxugá-las (felizmente que a minha filha não tem idade para ter tido um deles como ídolo, e que eu não tenho que amparar-lhe tal desilusão). E, enquanto rezamos para não serem vendidos, a preço de saldo, os jogadores que ainda nos transmitem alguma alma, refugiemo-nos nas mãos de um tal Rui Patrício, esperando que as mesmas embalem e defendam uma nova fornada de Leões, capazes de voltar a fazer-nos acreditar nessa coisa, ultrapassada, do amor e das referências.

oh Godinho, tu dás-lhe o cu e nós é que somos gozados

«Izmailov tinha terminado o seu ciclo no Sporting e, portanto, não era para eles uma mais-valia. Basta ver a forma como era utilizado». As palavras foram proferidas pelo corrupto mor do nosso futebol e são um verdadeiro olé ao nosso toureiro de metro e meio. Só é pena que os Sportinguistas sejam arrastados para a arena (menos aqueles que acham que este é o caminho certo, claro).

Izmailov

Vou tentar não me alongar muito sobre a hipotética ida de Izmailov para o fcp. Já várias vezes passei a palavras escritas a minha admiração sobre as qualidades futebolísticas do russo, fui seu defensor na célebre novela que coincidiu com a nossa eliminação, frente ao Atlético de Madrid, e tenho tentado resistir aos rumores de que o seu profissionalismo não é assim tão imaculado.

Neste momento, confesso, já não sou capaz de defender a pés juntos que Izma seja um profissional assim tão dedicado, que só não joga quando não pode. Acredito que isso aconteceu até à saída de Paulo Bento, com quem o czar mantinha óptima relação. Hoje, já não sei o que pensar sobre o que tem vindo a acontecer desde essa altura. Mas sei que:
– se fosse presidente não negociaria o que quer que fosse com o fcp (tal como não os receberia na tribuna);
– se existisse a possibilidade do Izmailov chegar onde quer que seja e, por um qualquer milagre, passar a ter joelhos para fazer 20 jogos seguidos, virava-me para ele e dizia-lhe: «meu caro Marat, se não queres jogar aqui, não jogas noutro clube até terminares o contrato».

Querem lá ver que não era apenas fumo, e que há mesmo fogo?

«Há um momento para tudo e este para mim este não é um momento para falar de Izmailov. O momento certo será em janeiro, quando reabrir o mercado de transferências. O clube tem de decidir o que quer do jogador e o jogador tem de encontrar uma solução com o clube […] Mas enquanto ele tiver contrato, tenho de respeitar esse contrato. A verdade é que depois do derby estava ok e ontem em cima da hora do treino fiquei a saber que ele não podia treinar porque tinha um problema nas costas. Depois de todas estas semanas, é um razão para eu não o vou convocar […] Treinar, não treinar, treinar um bocadinho, voltar a não treinar, isto para mim não é uma solução e penso que também não é uma solução para o grupo. Mas isto é a única coisa que posso dizer neste momento, tudo o resto pertence ao âmbito do clube e têm de ser decidas no momento e sítio certo […] É muito difícil explicar ao grupo que um jogador não treina há duas semanas, depois treina dois dias com a equipa, eu escolho-o logo e depois volta a parar e a treinar à parte Ele está a trabalhar, está a treinar, mas não está com o grupo e por isso é muito difícil defendê-lo».

As palavras de Vercauteren, depois da manchete da Bola sobre a possível ida de Izmailov para o Porto, parecem indiciar que o adeus do russo a Alvalade deve estar para breve. Para já, numa altura em que apenas há fumo, avanço com duas ou três notas:
– A postura de Vercauteren é mais um exemplo de um saber estar profissional. Continuo a ter poucas notas positivas em termos da sua prestação como treinador de campo, mas são várias as que apontam para uma postura que, penso, faz falta em Alvalade;
– Sejamos sinceros: por mais que adoremos Izmailov, esta situação já cheira mal. Eu, pelo menos, estou cansado de acreditar que o gajo vai voltar e vai trazer consigo aquele toque de classe que tantas vezes nos falta. E, se fosse jogador do Sporting, também ficaria bastante fodido se um gajo que mal treina parecesse ter lugar cativo (por muito bom que esse gajo fosse);
– Ver Izmailov no Porto, seria uma facada tão grande ou maior do que a que foi recambiar Moutinho lá para cima. Não posso aceitar esse cenário. Pior, só mesmo se o gajo chegasse lá e as lesões desaparecessem…

 

Marat-Izmailov-no-Sporting

Nem tudo foi mau

É a minha forma de estar na vida: tentar encontrar sempre um lado positivo, principalmente quando as coisas estão mal. Ora, de sábado, para além de um resultado merdoso e uma exibição que misturou o incapaz com o tresloucado, queria, ainda destacar o seguinte:

– Betinho teve, finalmente, uma oportunidade. O jogo era péssimo para a estreia, com o puto lançado às feras como se dele dependesse a nossa capacidade para inverter a desvantagem, daí que nem tenha dado tempo para grandes brilhantismos. Ainda não consegui ter a certeza de foi dele aquela recarga ao livre final, cortada quase em cima da linha, e que, a entrar, lhe daria uma estreia de sonho, mas fica o registo num jogo que também ajuda a tornar jogadores em homens;

– Viola continua a somar pontos pela entrega, irreverência e capacidade técnica. A adaptação ao futebol europeu está a ser feita à força (várias vezes dou comigo a vê-lo ao ritmo do tango), mas arrisco dizer que temos jogador;

– Aquele movimento de Izmailov, recebendo, rodando, cruzando com sabor a golo para Wolfs e Viola ficarem a milímetros do toque final. Tudo em movimento, pensando ao ritmo a que executava. Genial. Balakov ficaria orgulhoso de ver a camisola 10 no corpo do pequeno grande czar;

– Jeffren, quase sem darmos por ele, está recuperado (ou parece). Não só fisica como, não menos importante, mentalmente. Dois jogos seguidos em que entra e onde é visível uma qualidade superior na forma como ocupa os espaços, procura o jogo de equipa ou a iniciativa individual. Uma oportunidade a titular, já!

– Wolfswinkel. Assim, de repente, o «incapaz» começou a marcar e a resolver (ou a salvar). Continuo a achar patéticas as críticas doentias ao holandês, embora perceba que alguns dos seus falhanços são de fazer arrancar os cabelos. Continuo a achar que é um bom ponta-de-lança, com margem para vir a tornar-se muito bom. E, meus amigos, neste momento, o «tartaruga» vai fazendo de Liedson, o tal sacana que ia disfarçando as misérias tácticas e exibicionais.

p.s. – acho curioso como alguns Sportinguistas vão afirmando que o Ínsua devia ir para o banco. é tão bom falar de barriga cheia, não é?