A vitória invisível

Guardo na minha memória uma tarde, jogo de Taça, salvo erro contra o Fátima, em que fizemos uma exibição miserável. Salvou-se o génio de Balakov, os golos do Cadete, mas, no banco, Bobby Robson estava tão aziado como eu. A entrada desconcentrada, que nos valeu levar logo um golo, e a exibição desinteressada, valeram… voltas ao campo no final do jogo.

Hoje, ao ver a forma como o Sporting encarou a recepção ao Alba, clube do qual nunca tinha ouvido falar, veio-me à lembrança esse jogo e vários outros em que os nossos jogadores pareciam fazer um frete, confiando que, dadas as diferenças entre as equipas, o resultado se faria por ele mesmo. Foi impressionante, reforço, impressionante, a postura dos nossos jogadores. Respeitaram o adversário e, acima de tudo, respeitaram a camisola que tinham vestida! E, mais do que encher-me de orgulho por ver uma equipa estar em campo como eu estaria se tivesse a oportunidade de jogar de rampante ao peito, tal facto dá-me a certeza de que a mensagem do treinador está a passar. Dá-me a certeza que o plantel fala a uma só voz. Dá-me a certeza que o trabalho de preparação desta época (e das próximas, arrisco) foi muito bem feito.

Bruno de Carvalho, por mais do que uma vez, explicou que o facto de estar no banco tem a ver com a necessidade que tem de perceber se as pessoas estão comprometidas com a causa. Ou com o clube, se se preferir. O jogo de hoje, foi uma óptima resposta relativamente a esse compromisso. Isto vale infinitamente mais do que três pontos. Isto é daqueles pormenores que, mais cedo ou mais tarde, valem conquistas. Obrigado, rapazes!

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Está-se bem em Alvalade!

Peço desculpa pela demora na publicação desta crónica, mas ainda estou a rir-me à conta da azia que leva tanta gente a afirmar que, sem o brinde do defesa sadino que permitiu desbloquear o marcador, a euforia vivida nas hostes leoninas podia ser mais depressão que outra coisa. E eu tenho dificuldade em escrever quando estou a rir-me com vontade, pois os dedos teimam em não acertar nas teclas.

Ok, eu faço-vos um favor. Sim, aquele atraso disparatado deu jeito. Tal como deu um lance semelhante, protagonizado por Secretário. Mas hoje como então, isso de nada teria valido se a classe de quem interceptou a bola não tivesse transformado o erro em celebração. Acosta fuzilou; Montero embelezou. E que jogador é Montero! (sim, prometo um post só sobre ele).

Mas já que estamos a falar de grandes jogadores, de lances de classe e do reino dos “ses”, permitam-me afirmar que se aquele remate em arco do Carrillo, aos cinco minutos, tivesse entrado, a muito aplaudida táctica do Vitória, com marcação individual a William (falámos em grandes jogadores e em lances de classe?) e a Adrien (falámos?), não teria durado o que que durou. Também podemos ver as coisas por esta perspectiva, não podemos?

Voltemos ao jogo e, brinca brincando, com tanto “se”, estamos no intervalo, depois de uma primeira parte a jogar contra onze gajos enfiados no meio-campo defensivo, retirando quase todos os espaços para jogar ou trocar a bola (Adrien só se libertou uma vez, disparando uma bomba que merecia golo). E com cinco minutos de alguma falta de concentração (à passagem da meia hora), permitindo aos setubalenses chegarem à nossa área e o Patrício aparecer na televisão (a propósito, ó Rui, ouvi dizer que agora és tu quem anda a sair com a ex do Duarte Gomes? Porra, não era isto que queria dizer. Ó Rui, estiveste imperial nos cruzamentos, meu! Brutal!).

«Que golo do caralho!», é o que mais se ouve ao intervalo, recordando o «olha a bola ali, mas agora já está aqui e toma lá para dentro», com que o nosso Fredy Krueger brindou o redes do choco frito. Segunda parte. Jogo perfeitamente dominado. Cinco, dez, doze minutos da etapa complementar. Carrillo faz uma simulação que permite que a bola chegue a Adrien; este faz uma assistência de classe para o cobra que, em velocidade, recebe com o direito e, mais rápido do que meio estádio se levanta da cadeira, puxa do esquerdo para o segundo grande golo da noite!

A equipa abranda, baixa as linhas. Um ex-Leão, de seu nome Diogo Rosado, ensaia um remate à imagem dos que o celebrizaram quando era júnior, assustando Patrício e dizendo-nos que não há tempo para dormir. Bola para o outro lado, nos pés da cobra que se mexe com a energia de uma enguia eléctrica. Diagonal, finta, bola em Adrien, passe primoroso a desmarcar Piris, cruzamento, one two Fredy’s coming for you, com Carrillo a seguir os manuais e a aparecer pronto a marcar caso o colombiano lá não estivesse.

Por esta altura, já o Vitória mostrava que, afinal, a táctica iluminada de José Mota (não és o mesmo sem boné, ó Zé!) mais não era do que uma forma de esconder a incapacidade da sua equipa ter a bola nos pés e construir jogadas de ataque sem ser em contra-ataque. Penalti que não sei se foi, antes de outro que tenho a certeza de ter sido (sobre Carrillo). Aposta-se no hattrick de Fredy, mas é Adrien quem avança e faz o quarto. A turba agita-se e recupera o intemporal «só eu sei», hit da noite onde o «força brutal» foi cantado por mais gente do que o habitual e onde o my way deu um ar de sua graça. Só eu sei, porque não fico em casa, cantou-se bem alto. Não admira. Está-se bem, muito bem em Alvalade!

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O Fredy Krueger, a cobra mal amada e tanta gente aziada

«Este foi o Sporting que empatou com o Rio Ave». A frase é de Leonardo Jardim e, para mim, é fantástica como medicamento contra a bipolaridade dos adeptos. E vai ao encontro do que defendi, há uma semana: esta é a equipa que nos voltou a fazer acreditar. E o que é, afinal, esta equipa? É uma equipa que comunga um espírito de vitória, é uma equipa que se mostra unida, é uma equipa que honra a camisola que veste, é uma equipa que empolga, mas também é uma equipa que comete erros próprios de um crescimento e amadurecimento. É disso que não podemos esquecer-nos.

Parece-me, no entanto, imensamente injusto, questionar a atitude dos jogadores. O estar a fazer um jogo menos conseguido não significa falta de atitude, muito menos numa noite como esta. Não acho que tenhamos feito um jogo pouco conseguido; acho, até, que a equipa foi bastante adulta. Não vimos charutadas para a frente, nem vimos um dos centrais acabar a ponta de lança. Vimos uma equipa com critérios e com um modelos de jogo cada vez mais definido. Não é consistente? Se o fosse, ao fim de três meses, seria um verdadeiro milagre. Mas é uma equipa que não diz que entra para ganhar. Fá-lo! Prova disso é a vontade de controlar desde o apito inicial e mais um golo madrugador. Dele mesmo, que chegou como aviãozito e, neste momento, é o pesadelo das defesas (One, two, «Fredy’s» coming for youThree, four, better lock your door…) e um verdadeiro ídolo em Alvalade. Sim, voltámos a ter um craque dos pés à cabeça e isso é maravilhoso. Tal como deve ser desafiante para Leonardo conseguir corrigir a forma como a equipa reage quando se coloca em vantagem: a pressão alta fica menos alta, o recuo é demasiado, o meio-campo deixa de ter bola e desequilibra-se. Dores de crescimento que resultaram no golo do empate, muito consentido, primeiro pelos médios (se William não está, tem que estar Adrien ou Martins, não um Salomão em esforço vindo a correr sabe-se lá de onde), depois pelos centrais que não saíram quando se percebeu que ia haver remate, depois por Patrício, que por momentos deu ideia de ter dois blocos de cimento atados aos pés. Reacção, novamente por Fredy Krueger, numa aceleração que colocou Santos na rua.

A partir desse momento, só existiu Sporting, prolongando-se o sofrimento por culpa própria, pois várias foram as oportunidades para marcar. Adeptos com o coração a bater ao nível da garganta, garganta dorida de tanto gritar, punhos cerrados e unhas roídas. Um alvo, Carrillo, actualmente o mal amado. Eu percebo que quando vemos talento em potência nos custe não vê-lo explodir. Mas não percebo como, em função da má definição das jogadas, se ignore todo o restante trabalho: Carrillo durou 90 minutos e, ao longo desse tempo, não se escusou a ajudar a defender; mais, ao longo desse tempo, não se escondeu e quis ser ele a assumir a bola, o 1×1, o desequilíbrio. Sim, a cobra fez a dança da morte, só não soube matar a presa. Viria a ser um aparentemente inofensivo Cédric a decidir. Remate de raiva, redes mal batido (afinal, havia mesmo blocos de cimento naquela baliza), uma equipa em comunhão, já com um promissor Vítor em campo e um inesgotável Jefferson, que voltou a ser um dos melhores em campo (não me esqueço do intratável Maurício nem das antecipações de Rojo, não senhor).

Nesse momento, o Lobo Luís  quase chorou em directo (patético), dando voz às ondas de choque que atravessaram o país (incluindo, infelizmente, um determinado camarote leonino onde esta vitória soube a derrota). Na pedreira, onde um pseudo-grande quase ofereceu bilhetes aos seus para evitar o apoio à equipa adversária, só se escutava um cântico que fala de um clube chamado Sporting, com mais de um século de histórias para contar e outro século pela frente e que, apoiado por milhões de Leões, se revela uma força cada vez mais brutal!

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O Leão preguiçoso e o «xabichão» do apito

Se existir um Leão que não esteja realmente lixado com o resultado, vale mais pedir para ir cagar e não voltar. Sim, estou profundamente irritado com esta merda deste empate. Fodido, se preferirem. Mas tão grande incómodo acaba por ser bom sinal: é sinal que estamos comprometidos com esta equipa e que acreditamos nela.

Equipa que, esta noite, se apresentou numa versão estranhamente apática, pouco entusiasmante e pouco empenhada, com muita posse de bola, nomeadamente na primeira parte, mas poucos lances de perigo até termos sofrido o golo do empate. Com o meio campo quase despido de ideias (salvou-se Adrien), foi preciso um erro do guarda-redes adversário para chegarmos ao golo, num excelente gesto técnico de Wilson. A segunda parte agravou o estado de letargia (numa espécie de cópia do que aconteceu frente ao Benfica, o que pede uma urgente revisão da forma como a equipa entra nas segundas partes quando está a ganhar) e o golo vilacondense surge depois de dois avisos. Golo que, importa sublinhar, volta a ser sofrido de bola parada, um problema que parece mais complicado de resolver do que o de termos um relvado decente.

E até porque praticamente coincide com o sofrer do empate, há muitas vozes que questionam a substituição operada por Leonardo Jardim. Eu também teria colocado Vítor em campo, no lugar de André Martins, mas a verdade é que sofremos o golo sem que a equipa tivesse tempo de assimilar a mudança táctica. Do discordar com a substituição a começar, já, a questionar as capacidades do técnico vai um pequeno passo que, e permitam-me a frontalidade, é uma valente estupidez.

Tal como é uma valente estupidez começar a questionar a qualidade dos jogadores. Sejamos práticos: a equipa que empatou hoje, é a mesma que fez começar a crescer a onda verde. É a mesma que, todos sabemos, começou a ser oleada há menos de três meses. É a mesma que, todos sabemos, vai ter que crescer à força, sendo isso sinónimo de noites como a de hoje. É a mesma que, por mais que queiramos acreditar nisso, não vai vencer todos os jogos. É a mesma que nos faz acreditar no futuro de conquistas. É a mesma que nos faz ansiar pelo jogo da semana seguinte. É a mesma que consideramos ser digna de envergar a verde e branca.

p.s. – para a história do jogo fica o minuto 75 (o mesmo minuto que ficou para a história num jogo de ontem, onde o Arouca foi prejudicado), com um penalti vergonhosamente não marcado por um artista conhecido que, de frente para o lance e a dois ou três metros de distância, parece ter afirmado «não vi». Repitam as imagens e leiam os lábios. Não é «não vi»; é «não quis!». (tal como não quis marcar mais do que seis faltas contra o Rio Ave)

Aprender a ganhar sem brilhar

Costuma dizer-se que as vitórias mais importantes são aquelas que se conseguem em jogos menos conseguidos. Assim sendo, num final de tarde onde apenas a espaços se viu o Sporting tentar abrilhantar a exibição e onde não podemos esquecer a tão sublinhada pausa para compromissos comerciais, estes três pontos acabam por ser de redobrada importância.

Três pontos que, diga-se, são inteiramente justos, pese a tentativa de fazer passar a ideia de que «se aquela à barra tivesse entrado…». Antes dessa situação, o primeiro dos dois únicos remates dignos desse nome que o Olhanense fez à baliza, já o Sporting, embalado por Jefferson e pelo vitaminado Capel, havia desperdiçado três ou quatro situações de golo iminente, com destaque para o pontapé de bicicleta de Montero que daria um golo monumental. No fundo, também eu posso dizer «se aquela bicicleta tivesse entrado…», mas creio não ser necessário entrar neste universos dos ses face a um jogo que foi de sentido único até o Sporting tirar o pé do acelerador, a 20 minutos do final (e mesmo aí, não passou de disputado a ritmo morno).

Bastou, aliás, acelerar durante 15 minutos para desatar um nó que parecia complicar-se: primeiro Montero, de cabeça, em lance no qual parte de posição de fora-de-jogo (também já li por aí que marcou em fora-de-jogo escandaloso, mas hoje em dia temos que estar preparados para ouvir tudo); depois André Martins, surgindo bem a desviar um cruzamento rasteiro de Wilson. Leões de sorriso estampado no rosto, tanto no relvado como nas bancadas, onde os adeptos leoninos, que ontem virem a sua equipa aprender a ganhar sem brilhar, vão fazendo crescer a onda verde e branca. Sábado, há mais!

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O regresso do cachecol à janela

«oh pai, porque é que o Sporting não ganhou?», pergunta-me a minha filha, pela sexta ou sétima vez, depois de eu ter regressado do derby.
E, de cada vez que ela o faz, entro em modo flashback e obtenho duas respostas que me parecem demasiado elaboradas para justificar o empate a uma criança que acabou de fazer quatro anos: o Sporting não soube matar o jogo na primeira parte, altura em que enfiou o candidato balofo no canto do ringue sem saber dar-lhe o soco devido; o Sporting voltou a disputar um derby onde os dois pontos perdidos (sim, perdemos dois pontos) vão direitinhos para a pontuação do árbitro que, a continuar assim, terá um futuro radioso pela frente.

É patético (eu bem sei que seria complicado esperar o contrário) ouvir Jorge Jesus afirmar que o Benfica foi mais equipa. Desde logo porque, neste momento, o Benfica não tem equipa. Tem um conjunto de jogadores com qualidade: uns qualidade técnica, outros qualidade a fazer faltas. Desse mix, que tanto parece agradar ao treinador, resultou um empate que só satisfez a equipa da luz. Pelo contrário, o Sporting mostrou, uma vez mais, um colectivo, uma ideia de jogo e fundamentos na forma como o aborda. Naquele que era apontado como o grande teste à juventude treinada por Leonardo, a resposta não podia ser mais positiva. A primeira parte, então, não podia ser mais esclarecedora: futebol vistoso na forma como encontrou soluções atacantes, mudanças de flanco, posse de bola segura e personalizada. Uma defesa segura e cada vez mais entrosada, com Jefferson a ter maior liberdade para subir pelo flanco (grande jogo do brasileiro, um dos melhores em campo enquanto esteve no seu lugar); um meio campo que deixa rendido qualquer um que goste de futebol (monstruoso William Carvalho, impressionante Adrien com as suas rotações no espaço de uma tampa de esgoto, incansável Martins na ocupação de espaço e tentativa de esticar a equipa); um ataque com um puro craque, Fredy Montero (mais uma batata enfiada pela peida do Tadeia).  Faltou, apenas, a capacidade para deixar ko o adversário, muito por culpa de uma noite pouco inspirada dos extremos Wilson e Carrillo, com este último a conseguir enervar-me a um nível épico. Por tudo isto, o 1-0 sabia a pouco ao intervalo.

Na segunda parte, o adversário entrou melhor, muito por culpa da acção do mais prometedor dos seus ics. Ameaçou uma vez, com Rui Patrício a mostrar o porquê de ser um dos melhores guarda-redes do mundo (aquela mancha a la Schmeichel é brutal), marcou pouco depois, numa bela arrancada, é verdade, mas onde era obrigatório alguém ter medido o pé (sim, Dier, é para ti. Se levasses amarelo levavas, ponto). A nossa equipa acusou o golo e durante cerca de dez minutos desorganizou-se. A entrada, tardia, de Capel (Leonardo, ainda hás-de explicar-me porque razão demoraste tanto a meter o espanhol) agitou a alma do Leão, recuperou o equilíbrio e permitiu ao meio-campo voltar a pegar no jogo, embalando o Sporting para 15 minutos finais onde ficou provado qual das duas equipas estava satisfeita com a divisão de pontos.

Já a caminho de casa, o fm traz-me a voz do «limpinho, limpinho», a queixar-se da arbitragem. Tão típico, que até mete nojo. Aliás, depois da célebre fase que há-de acompanhar este palhaço para sempre, o homem outra coisa não tem feito senão lamentar as arbitragens. Eu sei que o Jesus é adepto da playstation, e por isso consigo perceber que ele considere inexplicável alguém não ter visto o «fora de jogo consolético» no momento intermédio da construção da jogada (e que jogada, meus amigos) do primeiro golo; também sei que terá que conviver com o punho enfiado no cu que foi o ser obrigado a manter Cardozo, daí a insistência em destacar lances onde o paraguaio seja protagonista. Mas esse mesmo punho enfiado no cu, por certo lhe tolda a vista, só o deixando abrir os olhos duas ou três vezes por jogo. Poderia começar pelo amarelo a Rojo, logo aos oito minutos, numa falta que não existe. Poderia falar de mais uma agressão de Maxi Pereira, que foi transformada em cartão amarelo e que mandaria o Benfica para o balneário a perder e com menos um (diz que o espírito do Capela acompanhou o Hugo Miguel). Poderia falar da sucessão de faltas de Garay, Luisão e Matic, muitas delas para amarelo, que não foram sancionadas, ao contrário do desarme limpo de Carrillo, sobre o meio-campo, transformado em falta com que se inicia o golo do empate. Podia falar da dualidade de critérios gritante que saltou à vista desarmada durante o período em que o benfica teve ascendente.

«oh pai, porque é que o Sporting não ganhou?», pergunta-me a minha filha, pela sexta ou sétima vez, depois de eu ter regressado do derby.
Eu volto a explicar-lhe de forma simples. «porque só marcou um golo, amor. Tinha que marcar mais um para ganhar. Assim, ficaram empatados».
«oh… pai e cantaram “tu vais vencer”?»
«sim, cantámos»
«por isso é que te dói a garganta?»
«sim, por isso e por gritar outras coisas»
«Pai, sabes porque é que a força do Sporting é brutal?», diz-me ela arregalando os olhos e pegando-me nos dois braços. «Porque é uma força assim tão grande, tão grande e porque tem poderes!»
Rendo-me à sabedoria infantil. É que este Sporting tem mesmo poderes. O poder de recuperar a magia de Alvalade. O poder de fazer-nos acreditar que podemos ganhar qualquer jogo. O poder de fazer-me ter vontade de prender o cachecol na janela do carro, deixando o verde e branco ondular ao sabor da velocidade, enchendo o olhar a quem quiser ver. E há quanto tempo eu não tinha vontade de fazer algo assim…

Deixem-me sonhar, caralho!

Tenho uma séria dificuldade em lidar com o meu Sportinguismo, pois ele assenta no meu lado de miúdo fascinado por camisolas verde e brancas de Leão Rampante ao peito. À medida que crescemos e vamos aprendendo, parece haver uma maldita voz criada para nos buzinar a alma com a teoria dos pés assentes no chão e de que quanto mais alto é o sonho maior é a queda. Creio, no entanto, que um dos segredos para dar cor à vida é passá-la tendo como objectivo, precisamente, nunca perder esse lado de criança e essa capacidade de «ver cenas fixes» por mais caótico que seja o cenário.

Ora, e estarei muito longe de sentir isto sozinho, por mais movediças que sejam as areias por onde caminha o Leão Rampante, esse meu lado de miúdo obriga-me a acreditar, sempre, em conquistas, em sorrisos, em golos, em histórias para guardar. Não sei viver o Sporting de outra forma. Começo cada época com a cabeça nas nuvens e por mais que sejam as vezes que caio, com estrondo, no chão, recuso-me a mudar a minha forma de ser. Recuso-me a olhar o futebol como uma máquina de fazer dinheiro, em vez de um prazer que nasceu em «relvados de alcatrão com postes feitos de pedras da calçada». Recuso-me a olhar o Sporting de forma comedida, ponderada, mesmo que por vezes transpareça esse estado de espírito. Para mim, Sporting é isto! É este sorriso interior que não se apaga, é este estômago apertado pelo risco de mais uma queda das nuvens, é os olhos vidrados sem justificação.

Eu sei que as goleadas não vão durar sempre (mas pode ser mais uma para a semana, pois pode?). Eu sei que temos que lidar com o bicho mais numeroso desta selva, as hienas, muitas delas disfarçadas com pele de Leão. Eu sei que se tentará desvalorizar, constantemente, o que o meu Sporting faz (o Arouca era uma merda e com a Académica a música seria outra; afinal a Académica também não tem estaleca; até no andebol, depois de se conquistar uma Supertaça contra um adversário extra de apito na boca, se quer passar a ideia que o fcp já tinha a cabeça no palyoff da champions). Eu sei que esta equipa ainda está em fase de laboratório. Eu sei que as bolas aéreas defensivas estão longe de estar afinadas (olha eu a suspirar pelo Dier). Eu sei, eu sei, eu sei… Mas também sei que vi o Rui a voar festejando golos; que este Sporting é formado por jogadores que ali querem jogar e que festejam os golos como equipa; que o William, o Adrien e o André me fazem sonhar; que continuo a apostar as fichas todas no Carrillo; que o Wilson quase marcou um dos golos do ano; que o Cédric cresce cada vez mais; que o Jefferson me vai calando; que o Montero é craque em cada toque que dá na bola; que temos homens como Capel no banco… E que, no espaço de 24 horas, demos três patadas bem dadas na tromba de milhões de hienas.

Olho para Leonardo. E sorrio. Ainda bem que temos alguém que transparece tanto sangue frio à frente da equipa. Ele que gira a emoção dos jogadores. Ele que nos chame à razão. Eu, enquanto Leão, adepto e eterno miúdo, reservo-me a pedir algo muito simples: deixem-me sonhar, caralho!