Pés no chão

«Um resultado positivo como foi o do Arouca é sempre importante para aumentar os níveis de confiança da equipa. Mas temos de perceber que foi só um jogo, foi só a primeira jornada […] O entusiasmo é sempre positivo: os sportinguistas sabem o que prometemos e o que a direcção prometeu. Prometemos em todos os jogos respeitar o adversário com uma ambição de vitória […] A equipa lutou, correu e os sportinguistas querem isso. Não podemos prometer vitórias, mas podemos prometer atitude. É por esse caminho que vamos e esperamos ganhar», Leonardo Jardim.

Durmam bem (se conseguirem)

Ainda não consegui para de rir mentalmente, face à desonestidade intelectual de muito boa gente. Depois do torneio do Guadiana, nomeadamente depois da derrota frente ao Braga, o mundo tornou-se negro. Duas derrotas seguidas eram sinónimo de que mais não podíamos esperar do que uma época miserável, sempre a sofrer e a jogar para não sermos risota no dia seguinte. Mais, gajos como eu, que diziam ter visto um jogo de sentido único e resultado falacioso, eram apelidados de “adeptos de vitórias morais”.
Quatro dias volvidos, o que é que eu ouço? Que não devemos entusiasmar-nos muito por ter ganho 3-0 à Fiorentina, porque estivemos vários minutos à beira de sofrer um golo, quando o resultado estava em 1-0.

Ora, portanto, devo depreender que esta é uma vitória que me devia deixar preocupado? Devia ficar preocupado por marcar três golos a uma equipa italiana de topo; devia ficar preocupado por ter sabido defender (quantas vezes a possa de bola viola resultou em zero?); devia ficar preocupado por ter sabido aproveitar as oportunidades (e falhar outras tantas); devia ficar preocupado por Maurício continuar a calar muito boa gente; devia ficar preocupado por ver mais um miúdo dar conta do recado; devia ficar preocupado por saber que quando não houver Rinaudo há um William (ou vice versa) e que não é preciso adaptar um Carriço ou ter que levar com um Gelson; devia ficar preocupado por ver André Martins cada vez mais consistente; devia ficar preocupado por Magrão dar todos os inícios de vir a ser um jogador importante; devia ficar preocupado por ver Montero marcar um golo monumental; devia ficar preocupado por, finalmente, ver um treinador fazer uso do potencial de Carrillo; devia ficar preocupado por, finalmente, sentir que tenho um treinador (que até já ensaia um esquema alternativo ao 4-3-3, com um apoio directo ao ponta de lança); devia ficar preocupado por ver Slimani prometer corresponder ao que dele se espera; devia ficar preocupado por ver uma Curva Sul unida, entoando um cântico que se estranha mas que se entranha; devia ficar preocupado por ter homenageado os Cinco Violinos com uma vitória e mais um troféu para o Museu…

Peço desculpa, mas não sou capaz de partilhar dessa vossa forma de pensar. Ao contrário de Quartins, Sobrais e Tadeias desta vida, seguidos por alguns adeptos para quem o copo teima em estar meio vazio, vou dormir bem. Muito bem. E sem comprimidos para a azia ou para as insónias.

Ponto final, experiências

Há duas formas de olhar para o jogo de ontem: olhar, apenas, para o resultado, dizendo que isto é mais do mesmo e que o melhor é nem renovar a gamebox; olhar para o jogo e perceber que este Sporting, continuando a ter um longo caminho à sua frente, é um Sporting que apresenta excelentes indicadores.

A primeira parte é perfeito exemplo disso mesmo. Só quem pretender ser tendencioso, ou mesmo parvo, pode afirmar que ao longo dos primeiros 45 minutos houve outra equipa em campo que não o Sporting. O Braga, salvo aquele remate à entrada da área que passou perto do poste de Patrício, foi completamente estrangulado no seu meio-campo não conseguindo, sequer, sair em lances rápidos de contra golpe. Os onze leões foram uma equipa, tanto a defender como a atacar, apostando na pressão constante, na procura da bola e inventando formas suficientes para chegar ao golo. Faltou isso mesmo, o golo, algo que o adversário conseguiu no segundo dos dois únicos remates que fez durante o jogo. Claro que a eficácia também conta, e muito, e que as vitórias morais valem o que valem, mas, neste caso, nem é apelar a este tipo de sentimento; é olhar para uma equipa à procura de sê-lo, com jogadores que treinam juntos há duas semanas (ou menos) e que procuram assimilar as ideias de um técnico em quem devemos confiar plenamente (a primeira parte de ontem é mais um ponto a favor de Leonardo). É olhar para um trabalho que, ao fim de um mês, nos permite ver coisas que andaram tão distantes no último ano e meio (pelo menos). É olhar para um trabalho que se quer de fundo, criando bases que vão muito além desta época. E, não me lixem, só um cogumelo pitosga não consegue ver que essas bases começam a ganhar alguma consistência.

Acontece que, a partir de agora, esse solidificar terá que ser promovido em competição e com muito menos margem de erro (e quase todos os golos sofridos resultam de erros um bocado primários). E com muito menos margem para experiências, algo em que o nosso treinador apostou ao longo destes amigáveis (e bem, digo eu, pois servem exactamente para isso). No domingo, frente à Fiorentina, a equipa que entrar de início deverá ser a equipa que Leonardo Jardim já tem na sua cabeça como titular, mesmo que, uma semana depois, frente ao Arouca, um ou dois dos protagonistas ceda lugar a outro.

Pensando no que foi este mês de preparação, diria que há jogadores que são titulares de caras. Patrício, Cédric (cada vez mais consistente), Dier, Maurício, William, Adrien, Carrillo e Montero. Faltam três.

Posso dizer-vos que, pese os elogios recebidos ao longo de toda a época anterior, nunca fui muito fã de Jefferson. E continuo a não ser. Parece-me um jogador preso, talvez pelo peso da camisola, e a jogar constantemente em esforço. Deverá ser titular, até porque, espero, Evaldo não passa de uma brincadeira de mau gosto. Seja como for, e esta parece-me ser uma discussão eterna, continuo a defender que Rojo é defesa esquerdo. Ah e tal, é muito rápido e agressivo para central e coloca bem a bola à distância. O problema é que o argentino continua a mostrar graves lacunas posicionais, o que me lava a perguntar: porque raio é que todos os treinadores apostam no gajo a central, quando até podíamos ter ali um defesa esquerdo completo?

Faltam dois.
Acredito que André Martins completará o meio-campo, ao lado de Adrien e de William (está em melhor forma do que Rinaudo, claramente, embora Fito tenha entrado muito bem, ontem). Seja como for, a primeira aparição de Magrão deixou excelentes apontamentos, tanto técnicos como físicos (bolas disputadas) e deverá ser a próxima boa dor de cabeça de Leonardo Jardim. (e ainda há João Mário, que gostava de ter visto, pelo menos durante 45 minutos, a fazer de André Martins).
Falta um, para a ala.
Capel ou Wilson Eduardo? Eu acho que Capel dá uma alma à equipa que, muito provavelmente, nenhum outro jogador consegue dar. Dá experiência e, já o mostrou, resolve jogos. Wilson fez bons jogos de preparação e, ontem, foi um dos agitadores de serviço, permitindo, ainda, transformar o 4-3-3 em 4-4-2 quando se chegava a Montero e oferecia a ala a Magrão. Resultado? Que bom é poder ter opções.

Depois, depois olhamos para os que sobram, entre plantel principal e equipa B, e somos levados a sorrir. E, permitam-me o desabafo, não acreditar nesta matéria humana e no que ela poderá dar-nos a médio/longo prazo é um exercício de profunda má vontade.

Fala, Leo Jardim!

«Queremos ter um grupo de vinte jogadores, que pode ir aos 22: 20 jogadores mais dois guarda-redes. Tendo, como já disse, por trás uma equipa B que nos vai permitir modificações e outras soluções ao longo da época. Em relação a esse grupo de vinte jogadores pouco posso dizer, o mercado está aberto, pode entrar mais alguém, há jogadores que podem ser excedentários, por isso é difícil falar de nomes, mas o objetivo está definido: vinte jogadores mais dois guarda-redes»

«Contamos com todos os jogadores que estão a trabalhar no plantel. Sabemos, porém, que o clube pode transferir alguns deles. O Rui Patrício é o guarda-redes titular da nossa seleção e pode sair até 31 de agosto. Como o Rui há mais jogadores, aliás. Mas temos sempre a esperança que eles fiquem e eu conto com o Rui Patrício.»

«O que posso dizer é que se o Bruma voltar ao Sporting, será bem recebido. Mas neste momento não posso alongar-me mais sobre esse caso.»

«Quando o Sporting procura jogadores define um perfil qualitativo, em termos de jogador e profissional e em termos económicos também. Não vamos falar do jogador A ou B, se ainda não está cá […] Quando vamos ao mercado temos de falar nestas três áreas e quando existem duas que preenchem requisitos, a área financeira por vezes não permite que isso se desenvolva. Temos de viver com o que somos»

«Jeffrén e Viola? São jogadores do plantel, que juntamente com outros ficaram na equipa B porque tínhamos de apresentar na Taça de Honra oito jogadores usados na época anterior. Ficaram cá e representaram bem o clube, porque vencemos a prova. Pertencem ao Sporting, e neste momento estão enquadrados na equipa B, porque existem alguns jogadores da equipa B que estão na A. Ao longo do ano esta alteração de equipas vai ser notória, porque o plantel vai ser extremamente curto»

«Faço um balanço positivo deste tempo de preparação. O primeiro objetivo era avaliar o plantel, temos 12 jogadores que transitam do plantel anterior, temos seis que regressam de empréstimos e temos mais meia-dúzia que subiram da equipa B. Fizemos essa análise, criámos identificação das ideias de jogo e trabalhámos a base técnico-tática do que será a equipa, por isso faço um balanço positivo […] A base parte do 4x3x3, mas mais importante do que se falar em 4x3x3 ou 4x4x2 é ter um modelo que capaz de criar dinâmicas, para se potencializar ao máximo as características dos nossos jogadores e também os da B»

«Tenho 38 anos e vi o Sporting ser campeão quatro vezes. Nos últimos quatro anos o Sporting esteve uma vez no pódio. Não me preocupa o que vamos atingir, estou mais interessado no processo que vamos desenvolver […] Os adeptos do Sporting já o são há alguns anos e sabem que era mais fácil estar aqui a iludi-los com um objetivo que, porventura, podíamos não conseguir. Eles sabem que o clube vive um momento de dificuldade a todos os níveis, como é publico. Teve de reestrutrar-se o futebol e vamos trabalhar para sedimentar a equipa e partir num pressuposto crescente, para formar bases para um futuro promissor.

Sobre Leonardo Jardim

«Acima de tudo posso dizer que é um técnico muito ambicioso, uma pessoa com os pés bem assentes no chão, tanto ele como a equipa técnica, são muito unidos e solidários. Por isso, vem tendo sucesso, pelos conhecimentos que tem, mas também pela união que demonstram para dentro do balneário. […] É uma pessoa extremamente competente. Parece-me que aquilo que o Sporting precisa é de união. Nota-se que os adeptos têm estado com a equipa, aliás têm sido excepcionais, se fossem outros, pelo que a equipa tem feito, não estariam tão próximos. Acho que é isso que falta no balneário do Sporting, embora desconheça na totalidade essa realidade. Mas se assim for, o Leonardo Jardim é uma mais-valia, nesse e em muitos outros sentidos», Hugo Viana in Record.

Passado, presente, futuro

«Não tive tempo nem união, enquanto estive no Sporting. Talvez um dia fale melhor sobre o que se passou… Sinto que tinha competência para ser treinador do Sporting e que podia ter vencido o desafio. […] Até à minha saída sinto-me responsável pela situação do clube. A partir daí não me podem responsabilizar pelo que não me deixaram fazer. A equipa era nova, saíram jogadores que não deviam ter saído e era preciso tempo. A qualidade estava lá, mas com tanta descrença… […] Leonardo Jardim já mostrou ser competente, conseguindo sempre bons resultados, mas precisa de tempo para trabalhar, tal como Inácio e o presidente. Os sportinguistas devem unir-se em torno desta jovem direcção. Só assim teremos um Sporting forte e ganhador», Sá Pinto, in Record.

Leão Leonardo

leonardolook

 

A nova estrutura de futebol do Sporting vai ser apresentada hoje, 20 de Maio, às 19h30, no auditório Artur Agostinho do Estádio José Alvalade. 
Augusto Inácio, Virgílio Lopes e o novo treinador do futebol profissional Leonardo Jardim serão assim apresentados aos sócios e à comunicação social, neste dia que marca uma nova era do Clube.

Agrada-me que não se tenha perdido a noção de que temos muito trabalho pela frente. E de que quanto mais cedo lhe deitarmos as mãos, melhor!