Eu comprava um carro em 2ª mão a Cristóvão?

Ponto prévio: eu não voto em Bettencourt. Por várias razões. Não quero mais Paulo Bento. Não apoio a reestruturação financeira que Bettencourt vai tentar passar outra vez em AG, aproveitando a maior popularidade que goza em relação a Soares Franco. Não quero que os principais credores, clientes e financiadores do Sporting continuem a mandar no clube e enriqueçam à conta das minhas quotas. Não quero uma belenização do Sporting, uma quinta de meia dúzia de tios e betos, que acham que o clube é deles por direito de família. Recuso a impunidade vigente, a falta de respeito pela história, pelos adeptos, pela memória leonina. Estou farto da camada de verniz que estes senhores colocaram sobre a podridão e amadorismo que dominam as entranhas do clube.

Dou dois factos: o passivo do Sporting disparou, durante a gestão desta gente, de 60 para mais de 300 milhões, pulverizado por dezenas de sociedades fantasma, que escondem milhões em comissões bancárias e “luvas” de gestão; o número de sócios com quotas pagas regularmente está perto dos 30 mil.

Dir-me-ão, o Bettencourt é diferente. Não é. É, com todo o respeito, a mesma merda. Apenas cai melhor no goto dos sportinguistas, um insondável mistério da condição humana. O apego pelo controlo da imprensa (pouco) livre, a obsessão por querer enfiar a Academia na SAD – a poucos anos do valor dos terrenos disparar -, a conivência com os poderes do sistema do futebol português, são as mesmas premissas do seu mandato de liderança. Mandato esse que nem sequer tem um programa eleitoral, o que diz absolutamente tudo sobre a sobranceria insultuosa desta gente.

Se dúvidas houvesse, a campanha prova tudo: uma colagem patética às ideias do opositor e uma idiota tentativa de se aproximar do povo.

Dito isto, voto no candidato PJ, uma das figuras que mais rapidamente invadiram o imaginário dos taxistas, só comparável a Oliveira Costa, Maddie e aquela senhora inglesa feia e que canta bem?  Voto em Paulo Pereira Cristóvão?

Não.

O homem tem uma eloquência de um empregado de um call center. O que não era necessariamente mau, se não se percebesse que está a desempenhar uma personagem que, se eleito, desaparece imediatamente para dar lugar ao verdadeiro Cristóvão. Que ninguém conhece. Mas que se desconfia que não deixará ninguém indiferente. Depois, promete tudo o que os sócios descontentes (como eu) querem ouvir. Mas fundamenta pouco. Mostrem-me os contratos do pavilhão, o acordo da câmara, as minutas da proposta de sócio com a opção de quota para as modalidades, o cartão único, a proposta concreta de revisão dos estatutos, os regulamentos dos vários fundos de fomento e bolsas para sócios desfavorecidos. Mostrem-me o projecto financeiro para aumentar as receitas anuais do grupo Sporting em 18% e reduzir as despesas anuais em 15%, mostrem-me os contratos-promessa a celebrar com a banca para reduzir passivo sem recorrer à deterioração do património. Provem-me que vão enfrentar o Oliveirinha. Mostrem-me o papelinho com o nome do Eriksson.

Eu votava de caras em todas as ideias, sobretudo a do Eriksson (acho incrível que se prefira o Paulo Bento ao sueco, é como preferir uma zarolha, coxa de 20 anos a uma quarentona ex-top model). Mas não confio no homem.

Se Cristóvão me tentasse vender um Golf de 1998, com 100 mil kms, preto e com jantes de liga leve, eu temia que quando fizesse mais dois mil km, a tinta começasse a enferrujar, o motor rebentasse e as capas das jantes saltassem. Tenho pena, porque eu gosto mesmo do aspecto do carro, mas o vendedor não me convenceu até praticamente ao fim.

Como tal, eu não vou votar na sexta. Mas mantenho as quotas em dia.

PS: dito tudo isto, dou graças pelo espírito relativamente democrático que se vive no clube, com discussão de ideias e projectos, ainda que coxos e mal-cheirosos. Basta olhar para o lado e ver a desgraça que se está a preparar para os lados da Luz.