Os estranhos desígnios da arte de gerir (take 2)

Renovar com Hélder Postiga parece-me um tremendo disparate. Não estará ao ao nível da patética renovação com Pedro Silva mas, ainda assim, não consigo compreender esta decisão de quem gere o nosso clube.

Por mais que tenha a certeza de que, sim, Postiga é um jogador esforçado, é incontornável não olhá-lo como um avançado que não marca golos. E, meus senhores, quem quer ganhar campeonatos, taças e o raio que parta, não pode dar-se ao luxo de ter avançados que não marcam golos. Sim, Liedson está na curva descendente da sua carreira, mas não queiram fazer de mim idiota dando a entender que Postiga será o seu substituto. Até porque, bem vistas as coisas, o pior Liedson de sempre, lesionado, desinspirado, cansado, e se não me falham as contas, tem apenas menos um golo que o melhor Postiga de sempre.

p.s. – o amadorismo com que somos geridos deixou-nos chegar a estar situação: o nosso melhor avançado já não tem o rendimento de outros tempos, mas nunca houve ninguém capaz de pensar “epá, o Liedson já tem trinta anos, se calhar é melhor começarmos a pensar num nome para substituí-lo quando os golos e o ritmo começarem a baixar”;

p.s.2 – enquanto nós estamos dispostos a renovar com um jogador que, quanto a mim, não justifica o que ganha com aquilo que rende, o Braga, que até arrecadou mais de 10 milhões na Champions, dispensa três jogadores de relevo para aliviar a folha salarial: o redes Felipe, um dos capitães e dos jogadores mais respeitados, Andres Madrid, e um dos melhores jogadores da nossa Liga, Luis Aguiar. E não é por isso que ficarão mais fracos;

p.s.3 – esta noite, por alguns minutos, matei saudades de Aldo Duscher, agora com a camisola do Español. O ritmo pode não ser o mesmo, mas a classe está lá toda. Ah, e as pernas para aguentar uma época, também.

O sistema

4-4-2
Foi desta forma que Paulo Sérgio pensou o Sporting 2010/11.
Sem 10. Com dois “médios elásticos”, Pedro Mendes e Maniche. E dois avançados.
Quando se pergunta o porquê do Sporting europeu ser diferente do Sporting para consumo interno, e para lá do facto de os adversários europeus não se fecharem lá atrás esperando um erro nosso para marcar e de nós só à quinta-feira parecermos perceber que o jogo começa ao apito inicial, esta história do sistema pode ajudar a perceber algumas das diferenças.
Poderá resultar, de quando em vez, de outra forma, mas é assim que sabemos jogar. Com dois médios centro, num falso lado a lado, e dois alas capazes de acelerar o jogo, de desequilibrar, procurando os dois avançados.
Por outras palavras, insistir em Valdés (ou outro do género) junto à linha, será sempre meio-caminho andando para a equipa emperrar. Aliás, se foi para ocupar essa posição que o compraram, estamos perante um erro de casting. Mas isso daria outro post…

F5

(carregar na tecla refresh)

Esta é a sensação primeira à saída do jogo de apresentação. F5. Sportinguismo refrescado, uma surpreendente sensação de ruptura com o passado recente. F5. Cinco pontos, todos sobre futebol, o novo futebol do leão.

1- Fora-de-jogo
2- Bolas paradas
3- Duplo pivot
4 – Artistas
5 – Liedson

Fora-de-jogo – A filosofia da defesa assenta toda na subida dos quatro jogadores, para “empurrar” o meio campo na pressão e, mais importante, para forçar o fora-de-jogo alheio. Risco alto, a exigir máxima coordenação da defesa. Nos primeiros 15 minutos, foi o caos, com dois defesas centrais – Tonel e Torsiglieri – fortes na marcação mas lentos e pouco coordenados. Depois, mudou a táctica e começou-se a sacar fora-de-jogos, foram quase uma dezena em meia-hora. Na segunda parte, a equipa defendeu toda e a defesa foi poupada (e o adversário ajudou).

Bolas paradas – Há trabalho. Ofensiva e defensivamente. Temos finalmente alguém a marcar livres e cantos com critério e colocação, há livres directos estudados e, mais relevante, a defender houve poucos buracos na primeira parte e só alguns na segunda. Com o tempo, a tendência é melhorar. Pior que nas últimas épocas é impossível.

Duplo pivot – O treinador usou três tácticas, mudando-as a cada meia-hora. Nos primeiros 30 minutos, um 4-1-2-3, com Pedro Mendes (capitão) sozinho atrás. Não resultou, porque abria demasiados buracos a defender (Maniche e Veloso sem ninguém para marcar, ficavam muito subidos). E a atacar, o meio campo não dava linhas de passe. Paulo Sérgio mexeu e mexeu bem. Tirou Veloso (patrão a falar com os companheiros, mas completamente fora da equipa) e meteu Matias, recuando Maniche para o duplo pivot com o Mendes. A equipa melhorou instantaneamente, a defender de forma mais agressiva e coordenada e, a atacar, com dois “registas” alternados a alimentar, com futebol directo, os três artistas. Imagem que vale mil palavras: Maniche e Mendes saíram abraçados ao intervalo, a corrigir posicionamentos: são eles os novos líderes futebolísticos da equipa. Haja saúde…

Artistas – Vuk, Matias e Valdes. Durante os últimos 15 minutos da primeira parte e os primeiros cinco da segunda, o Sporting  jogou à bola. Com Maniche a dar uma dimensão nova ao futebol da equipa, a procurar jogar rápido e nos espaços vazios. E a procurar os artistas: Matigol, Vuk e Valdes, três jogadores que correm com a bola e ultrapassam adversários com facilidade. Valdes foi o melhor, mas também sem “bagagem negativa” com os adeptos. Matigol a distribuir mas ainda sem finalização. E Vuk, um renovado Vuk, pressionante, mais colectivo, sempre em diálogo com o treinador e na direita, como quer. Esta é a melhor versão do Sporting 2010-2011. É a luz ao fundo do túnel. Tem tudo para dar certo, com alternativas como Izmailov (???) e Salomão (está ali um Nani, se ele quiser e o deixarem). Tudo isto é muito giro, mas há um pormaior: Liedson

Liedson – É o herói incontestado de Alvalade. Está sozinho no coração dos adeptos. Basta entrar no relvado em direcção do banco para ser aplaudido e celebrado. Pode ser um problema. No estádio percebeu-se que não gostou de entrar a cinco minutos do fim e “obrigou” o preparador físico a confortá-lo quando Paulo Sérgio lhe disse que entraria daí a dois minutos. Mas, depois, entrou e viu-se logo. A equipa cresceu imediatamente. Mas já em 4-4-2, que tinha sido introduzido aos 60 minutos, com a saída do Matias e a entrada do Postiga e do Salomão. A grande incógnita deste Sporting é o entendimento geral entre Paulo Sérgio e o “cabeça de cartaz” da equipa. Se o treinador convencer o Liedson a jogar sozinho (precisa de trabalhar porque não sabe fazê-lo), a equipa ganha dimensão. Se for “forçado” a jogar no 4-4-2, a ladeira fica mais íngreme.

Fez-me bem ir a Alvalade. As primeiras impressões assustavam (estádio tenso, anti-clímax na apresentação, habitual ambiente de festa artificial) mas, com o tempo, a coisa foi-se compondo. A equipa ajudou. Há um novo Sporting. Ainda sobram “maçãs podres”, o Veloso, o Djaló e o Patrício parecem estar a mais. Involuntariamente, mas são os rostos de um passado que está a ser rapidamente enterrado. Polga sobrevive, Liedson é Liedson e o Vuk pode voltar a ser o Vuk. Falta outro médio centro, outro “artista” e um gajo que marque golos (o Pongole parece mais fresco, mas não rematou…). E um guarda-redes, se a Juve Leo continuar a assobiar o Patrício (outra sintonia com a direcção?).

“O Maniche, o Maniche. Que se foda o Moutinho, nós ficámos com o Maniche”. É o novo cântico da época. Um exagero emocional e claramente em sintonia com a direcção, mas ficou-me na cabeça. Como símbolo do novo Sporting, assente na rodagem de jogadores experientes em detrimento das bandeiras de jovens-velhos. F5. Refresh, o novo Sporting vem já a seguir, para o bem ou para o… costume.

E ires à tua vidinha, não?

Hélder Postiga reconhece que o Sporting podia ter sido mais eficaz nas duas partidas que já fez durante o estágio em França, contra os Young Boys e o Nice, e em que só conseguiu marcar dois golos. “É normal aparecerem erros nos jogos de pré-época. Acho que podíamos ter feito mais golos, inclusive eu. Essa é a minha meta, vou corrigir”, in Maisfutebol.

Eu diria que andas para corrigir esse problema desde que chegaste ao Sporting, oh Hélder…

A RAZÃO DESCONHECE

Porquê? Porque razão ou razões assiste alguém a um jogo como o de hoje? Não sei. Não sei porque assisti, mas assisti. Para quê, porquê, não sei. Há hipóteses:

– para ver o Postiga marcar um golo (o equivalente futebolístico à erupção de um vulcão na Islândia).
– para ver o Liedson de férias.
– para perceber que o Saleiro falha muitos golos. 
– para perceber que o caso Izmailov foi, de toda a merda que se passou este ano, a pior de todas.
– para ver o João Pereira pedir amarelo em todas as vezes que foi ao chão.
– para ver um lançamento lateral mal marcado.
– para ver um canto para a bancada.
– para ouvir dez minutos de um gajo, sozinho, a berrar cânticos para um megafone.
– para ver Nuno Santos, um dos piores guarda-redes do campeonato.
– para ouvir um comentador dizer “ele tentou não agarrar”.
– para perceber que, destes jovens que passaram pelo relvado hoje, só sete (Patrício, Carriço, Mendes, Veloso – se ningúem o quiser -, Moutinho, Izmailov – se deixarem – e Liedson) têm lugar garantido no plantel do próximo ano. Isto é, se quisermos mesmo ser campeões outra vez.
– outras razões que eu e a razão desconhecemos. Quais? As mais ilógicas serão escolhidas pelos membros do Cacifo e eventualmente premiadas com coisas tão parvas como o resto da Gamebox desta época ou peças de roupa interior feminina, a sortear por tamanhos.

TÁ MUITO BÓM (agora com imagem)


Grimi: Sabes que há uns gajos que dizem que tu és muito menos útil à equipa do que o Postiga e do que o Saleiro?
Liedson:  Não vai mi dizer que são os gajos que dizem que um avançado pode ser analisado em três eixos: o individual, o colectivo, e o relativo?
Grimi: Não, esse também acha que foi por saíres da equipa que o nosso futebol melhorou, mas são aqueles que dizem que tu és um avançado sem escola.
Liedson: Sabi qui mais, Grimi. Em dez minutos eu marco mais golos que o Postiga numa época inteira. Não acha isso bom?
Grimi: Aaaaaaaaaaaahhhhh, tá muito bom!