Durmam bem (se conseguirem)

Ainda não consegui para de rir mentalmente, face à desonestidade intelectual de muito boa gente. Depois do torneio do Guadiana, nomeadamente depois da derrota frente ao Braga, o mundo tornou-se negro. Duas derrotas seguidas eram sinónimo de que mais não podíamos esperar do que uma época miserável, sempre a sofrer e a jogar para não sermos risota no dia seguinte. Mais, gajos como eu, que diziam ter visto um jogo de sentido único e resultado falacioso, eram apelidados de “adeptos de vitórias morais”.
Quatro dias volvidos, o que é que eu ouço? Que não devemos entusiasmar-nos muito por ter ganho 3-0 à Fiorentina, porque estivemos vários minutos à beira de sofrer um golo, quando o resultado estava em 1-0.

Ora, portanto, devo depreender que esta é uma vitória que me devia deixar preocupado? Devia ficar preocupado por marcar três golos a uma equipa italiana de topo; devia ficar preocupado por ter sabido defender (quantas vezes a possa de bola viola resultou em zero?); devia ficar preocupado por ter sabido aproveitar as oportunidades (e falhar outras tantas); devia ficar preocupado por Maurício continuar a calar muito boa gente; devia ficar preocupado por ver mais um miúdo dar conta do recado; devia ficar preocupado por saber que quando não houver Rinaudo há um William (ou vice versa) e que não é preciso adaptar um Carriço ou ter que levar com um Gelson; devia ficar preocupado por ver André Martins cada vez mais consistente; devia ficar preocupado por Magrão dar todos os inícios de vir a ser um jogador importante; devia ficar preocupado por ver Montero marcar um golo monumental; devia ficar preocupado por, finalmente, ver um treinador fazer uso do potencial de Carrillo; devia ficar preocupado por, finalmente, sentir que tenho um treinador (que até já ensaia um esquema alternativo ao 4-3-3, com um apoio directo ao ponta de lança); devia ficar preocupado por ver Slimani prometer corresponder ao que dele se espera; devia ficar preocupado por ver uma Curva Sul unida, entoando um cântico que se estranha mas que se entranha; devia ficar preocupado por ter homenageado os Cinco Violinos com uma vitória e mais um troféu para o Museu…

Peço desculpa, mas não sou capaz de partilhar dessa vossa forma de pensar. Ao contrário de Quartins, Sobrais e Tadeias desta vida, seguidos por alguns adeptos para quem o copo teima em estar meio vazio, vou dormir bem. Muito bem. E sem comprimidos para a azia ou para as insónias.

Ponto final, experiências

Há duas formas de olhar para o jogo de ontem: olhar, apenas, para o resultado, dizendo que isto é mais do mesmo e que o melhor é nem renovar a gamebox; olhar para o jogo e perceber que este Sporting, continuando a ter um longo caminho à sua frente, é um Sporting que apresenta excelentes indicadores.

A primeira parte é perfeito exemplo disso mesmo. Só quem pretender ser tendencioso, ou mesmo parvo, pode afirmar que ao longo dos primeiros 45 minutos houve outra equipa em campo que não o Sporting. O Braga, salvo aquele remate à entrada da área que passou perto do poste de Patrício, foi completamente estrangulado no seu meio-campo não conseguindo, sequer, sair em lances rápidos de contra golpe. Os onze leões foram uma equipa, tanto a defender como a atacar, apostando na pressão constante, na procura da bola e inventando formas suficientes para chegar ao golo. Faltou isso mesmo, o golo, algo que o adversário conseguiu no segundo dos dois únicos remates que fez durante o jogo. Claro que a eficácia também conta, e muito, e que as vitórias morais valem o que valem, mas, neste caso, nem é apelar a este tipo de sentimento; é olhar para uma equipa à procura de sê-lo, com jogadores que treinam juntos há duas semanas (ou menos) e que procuram assimilar as ideias de um técnico em quem devemos confiar plenamente (a primeira parte de ontem é mais um ponto a favor de Leonardo). É olhar para um trabalho que, ao fim de um mês, nos permite ver coisas que andaram tão distantes no último ano e meio (pelo menos). É olhar para um trabalho que se quer de fundo, criando bases que vão muito além desta época. E, não me lixem, só um cogumelo pitosga não consegue ver que essas bases começam a ganhar alguma consistência.

Acontece que, a partir de agora, esse solidificar terá que ser promovido em competição e com muito menos margem de erro (e quase todos os golos sofridos resultam de erros um bocado primários). E com muito menos margem para experiências, algo em que o nosso treinador apostou ao longo destes amigáveis (e bem, digo eu, pois servem exactamente para isso). No domingo, frente à Fiorentina, a equipa que entrar de início deverá ser a equipa que Leonardo Jardim já tem na sua cabeça como titular, mesmo que, uma semana depois, frente ao Arouca, um ou dois dos protagonistas ceda lugar a outro.

Pensando no que foi este mês de preparação, diria que há jogadores que são titulares de caras. Patrício, Cédric (cada vez mais consistente), Dier, Maurício, William, Adrien, Carrillo e Montero. Faltam três.

Posso dizer-vos que, pese os elogios recebidos ao longo de toda a época anterior, nunca fui muito fã de Jefferson. E continuo a não ser. Parece-me um jogador preso, talvez pelo peso da camisola, e a jogar constantemente em esforço. Deverá ser titular, até porque, espero, Evaldo não passa de uma brincadeira de mau gosto. Seja como for, e esta parece-me ser uma discussão eterna, continuo a defender que Rojo é defesa esquerdo. Ah e tal, é muito rápido e agressivo para central e coloca bem a bola à distância. O problema é que o argentino continua a mostrar graves lacunas posicionais, o que me lava a perguntar: porque raio é que todos os treinadores apostam no gajo a central, quando até podíamos ter ali um defesa esquerdo completo?

Faltam dois.
Acredito que André Martins completará o meio-campo, ao lado de Adrien e de William (está em melhor forma do que Rinaudo, claramente, embora Fito tenha entrado muito bem, ontem). Seja como for, a primeira aparição de Magrão deixou excelentes apontamentos, tanto técnicos como físicos (bolas disputadas) e deverá ser a próxima boa dor de cabeça de Leonardo Jardim. (e ainda há João Mário, que gostava de ter visto, pelo menos durante 45 minutos, a fazer de André Martins).
Falta um, para a ala.
Capel ou Wilson Eduardo? Eu acho que Capel dá uma alma à equipa que, muito provavelmente, nenhum outro jogador consegue dar. Dá experiência e, já o mostrou, resolve jogos. Wilson fez bons jogos de preparação e, ontem, foi um dos agitadores de serviço, permitindo, ainda, transformar o 4-3-3 em 4-4-2 quando se chegava a Montero e oferecia a ala a Magrão. Resultado? Que bom é poder ter opções.

Depois, depois olhamos para os que sobram, entre plantel principal e equipa B, e somos levados a sorrir. E, permitam-me o desabafo, não acreditar nesta matéria humana e no que ela poderá dar-nos a médio/longo prazo é um exercício de profunda má vontade.

Bom para crescer

Se as vitórias dão moral, as derrotas ajudam a crescer. Principalmente numa pré-época. Jogo rasgadinho, para nos prepararmos para relvados de merda, para equipas muito físicas e para não oferecermos golos como os desta noite. Quarta-feira há mais.

Os putos continuam com alma

Já o tinham mostrado, frente ao Estoril, na Taça de Honra, ao recuperar de 3-1 para 3-3, acabando por vencer nos penaltis. Ontem, na Academia, num amigável frente ao Nacional, estiveram a perder 0-2, viraram para 3-2, acabando o jogo numa igualdade a três.
Nota para mais um golo de Betinho (4 em 4), para mais um golo de Esgaio (que só jogou a segunda parte) e para a titularidade de André Santos e de Salomão.

Eu também não percebo, ó Brian

Brian Pugach, empresário de Jeffrén, diz que não percebe a situação do jogador. «O Jeffrén assinou contrato com a equipa A e não com a B. Tem um contrato de craque, não percebo esta situação», diz ele. Pois é, caro Brian, eu também não percebo como é que o Jeffrén nos conseguiu enganar a todos e tem contrato de craque, mas no que toca à sua situação, epá, basta ver que o rapaz voltou a sair lesionado assim que fez um jogo a sério (frente aos lamps, na Taça de Honra).

Mas sabes o que é que eu não percebo, Brian? É porque raio nos fomos meter novamente com o Nice, o tal clube que ainda nos deve dinheiro do Djaló e que, agora, resolveu cancelar o amigável de quarta-feira.

 

ACTUALIZAÇÃO: ao que parece, foi o Sporting que cancelou a ida a Nice. Espero, sinceramente, que tenha sido para lixar o jogo de apresentação a estes merdas

No reino do Carvalho smells like teen spirit

Quanto vale uma vitória no jogo de apresentação?
A resposta será dada à medida que os jogos e os pontos forem sendo disputados. Para já, vale duas mãos cheias de indicações positivas, a primeira das quais a certeza de que existe um trabalho de base que tem faltado nos últimos anos. Mérito para Leonardo Jardim, o homem que nos deixou a frase «temos que viver com o que somos» e que está a introduzir processos de jogo onde a estrutura defensiva serve de ponto de partida para tudo o resto. E esse tudo o resto, neste momento, é uma enorme solidariedade entre todos os jogadores, uma constante procura pela correcta ocupação dos espaços e uma vontade, inequívoca, de pressionar o adversário no último terço de terreno. Falta, obviamente, a afinação das movimentações atacantes, pese uma ou outra boa saída como aquela que deixou Esgaio na cara do golo, já na segunda parte. E, também, a capacidade de ter a bola, que andou demasiado perdida nos pés do adversário. São as chamadas dores de crescimento, que poderão ser atenuadas por uma sequência de vitórias que permita à mente dar garras a tudo o resto.

Individualmente, e para lá do primeiro aplauso dado a Leonardo Jardim, é impossível não falar em William Carvalho, de quem já se dizia ser o próximo a brilhar e a querer desertar, mas que entrou em campo com contrato renovado até 2018 e no lugar do capitão Rinaudo. Não tremeu e menos comprometeu, parecendo capaz de estender o seu raio de acção a onde quer que a bola estivesse e dando à equipa uma componente atlética que tantas vezes tem sido questionada, nos últimos anos. E, já que de gigantes falamos, obrigado, Carvalho, por teres aparecido e teres acabado com a merda de teorias de que Dier podia ser trinco e podia ser oito e podia ser box to box. Dier é central, e que central, no alto dos seus 19 anos tão adultos e fazendo parelha com um surpreendente Maurício.
Entretanto, Adrien trocou de lugar com o seu irmão gémeo, um Silva capaz de defender e de atacar com uma vontade e responsabilidade impressionantes. O golo, de levantar qualquer estádio, foi a cereja no topo de um bolo com outros ingredientes muito interessantes: André Martins, a pressionar logo nas costas de Cissé e a alternar de posição com Labyad  (inacreditáveis os assobios para o marroquino, quase desde o primeiro toque que deu na bola); Wilson Eduardo, também ele motivado pela renovação de contrato, a mostrar uma inegável vontade de agitar o jogo e destacando-se nos cruzamentos para a área; Carrillo e o próprio Labyad, artistas de corpo à procura da alma, que já perceberam que os craques também defendem.

Quanto vale uma vitória no jogo de apresentação?
Vale a certeza de que, se o caminho se faz caminhando, demos mais um passo, seguro, rumo ao objectivo de criarmos algo sólido. Mas faltam, ainda, muitos outros degraus. Continuem os jogadores a incorporarem este espírito de Leão e continuem as bancadas a mostrar o entusiasmo dos primeiros 45 minutos, antes de alguém ter feito birra na curva, que conseguiremos ir queimando etapas com sucesso. E isso dará ainda mais prazer, quando envolto neste smell a teen spirit.

É hora de voltar a casa

Há coisas que não se explicam. O que sinto quando chego ao Estádio José Alvalade, é uma delas.

Longe vão os tempos em que tinha que apanhar um barco e, depois, um metro, para chegar a Alvalade. O velhinho. Com a 10-A, com a Nave e com um campo de treinos mesmo ali ao lado, perfeito para faltar às aulas da faculdade e ir ver o Balakov a treinar livres que eu tentava imitar (mas com o pé direito).
A viagem começava cedo, pela manhã, porque isto de ser-se doente pelo Sporting faz com que o apito inicial comece a ser vivido com demasiadas horas de antecedência. E os contorcionismos estomacais iam aumentando de intensidade, à medida que sentia a proximidade de Alvalade. Era o tempo das almofadinhas para a bola, das concentrações no Saladanha para percorrer o resto da distância a pé, de ser responsável pelo meu irmão que raios me partissem se tivesse sido de outro clube que não do Sporting, de devorar um pack de nougat para adoçar a garganta, de ter alguém ao lado com um rádio de bolso para não perder um pormenor, de apanhar chuva durante 90 minutos e ter que regressar à margem sul com a roupa a secar no corpo.

Hoje, os tempos são outros. A chuva só me molha a caminho do Estádio, o meu irmão já não precisa que eu tome conta dele, os nougat estão fora de moda, os smatphones amplificam as mais-valias dos rádios, o barco e o metro foram trocados pelo carro, as almofadinhas não passam de memórias bonitas. Os treinos são demasiado longe e não dá muito jeito faltar ao trabalho (a não ser que tragam o Balakov de volta), a 10-A só se abre com o coração e a Nave aterrou em planeta incerto, à espera de uma réplica ali ao lado de um novo José Alvalade onde um iluminado resolveu transformar a pista de atletismo num fosso, onde as cheerleaders sodomizam o Jubas.

Mas houve algo que não mudou: o que sinto quando chego ao Estádio José Alvalade. É como vos digo; há coisas que não se explicam. Como esta, de estar rodeado de milhares de desconhecidos e de ter a certeza que estou em casa

 

este texto foi originalmente publicado aqui.

Garotices

Não há forma, creio, de não estar feliz.
Duas vitórias em quatro horas; uma no Canadá, outra no Estoril. A primeira frente ao campeão Uruguaio (deve valer alguma coisa, digo eu), a segunda frente ao Estoril, um dos representantes nacionais na Liga Europa. A primeira, valendo um enorme sorriso aos nossos emigrantes e um rugido lá por fora; a segunda, valendo a 30ª Taça de Honra, a tal que de «espectacular, ainda bem que recuperaram a competição mais antiga do nosso futebol», passou a rodapé de capas de diários desportivos. Em ambas, um denominador comum: os garotos, como diria o outro, ou, se preferirem, a aposta no ADN do Sporting.

É verdade que temos sido bipolares nesta questão (eu incluído, obviamente), pois tão depressa queremos ver os nossos garotos brilharem e conquistarem, como exigimos a contratação de craques. Depois levamos com Panjic’s desta vida (espero que algum olheiro tenha adorado o penalti e que o leve) e somos obrigados a chegar a uma conclusão: não há volta a dar, é este o caminho. A questão, e que ninguém se esqueça disto, é que este é um caminho que vai ser duro e ao qual só os duros terão capacidade de resposta. É um orgulho ver jogar João Mário, Ponde, Betinho, Esgaio, Chaby, William Carvalho, Fokobo, Nuno Reis, Iuri, entre tantos outros, juntando-os a Rui Patrício, André Martins ou Eric Dier, só para citar alguns nomes. É um prazer ver que há um sentimento, pelo clube, que os liga directamente ao coração do adeptos. Os mesmos que, quando as coisas correrem menos bem, vão ter que escutar esse lado do coração, em vez daquele que os impele a assobiar e a dizer que este ou que aquele são uma valente merda.

Não não, meus caros, não são. E ontem deram mais uma prova disso. Aliás, façamos a seguinte equação: o que é que impede uma equipa, que tem por base um grupo de jogadores que limpou tudo o que havia para limpar ao longo da sua formação, de continuar a somar vitórias quando chega à idade adulta? Trabalho apropriado por parte do treinador; contratações que acrescentem algo à matéria prima; paciência e solidariedade dos adeptos. Esta seria a minha receita sabendo que, como se viu ao longo desta Taça de Honra, o cerco de hienas à espera que tudo corra mal (das arbitragens sem vergonha aos comentários vergonhosos, esteve lá tudo) está mais apertado do que nunca. Meteu-se na cabeça, que este Leão de 107 anos estava moribundo e que seria chacota. Esqueceram-se que o Rampante, é apenas o que guia os Leões mais jovens e todos os que rugem por fora.
Resultado? O Leão, imagine-se, leva para casa o primeiro troféu da época e, lá de longe, chegam ecos de que o trabalho está a dar frutos. E tudo isto com um bando de garotos que, tal como eu, andam aos pulos, sentidos, de cada vez que o Sporting marca um golo.