Passado, presente, futuro

«Não tive tempo nem união, enquanto estive no Sporting. Talvez um dia fale melhor sobre o que se passou… Sinto que tinha competência para ser treinador do Sporting e que podia ter vencido o desafio. […] Até à minha saída sinto-me responsável pela situação do clube. A partir daí não me podem responsabilizar pelo que não me deixaram fazer. A equipa era nova, saíram jogadores que não deviam ter saído e era preciso tempo. A qualidade estava lá, mas com tanta descrença… […] Leonardo Jardim já mostrou ser competente, conseguindo sempre bons resultados, mas precisa de tempo para trabalhar, tal como Inácio e o presidente. Os sportinguistas devem unir-se em torno desta jovem direcção. Só assim teremos um Sporting forte e ganhador», Sá Pinto, in Record.

Esforço, Dedicação, Devoção e Lágrimas: o lado racional

Terá valido a pena festejar com lágrimas, uma vitória sobre o Gil Vicente? Terá valido a pena gritar golo a plenos pulmões? Terá a revolução táctica sido pensada, ou fruto da vertigem causada pelo abismo? Terá Sá Pinto percebido que tem mesmo que mexer na rigidez em que amarrou o nosso futebol?

Estas são algumas das perguntas que se colocam, e que são completamente válidas. Afinal, depois de uma pré-época as soluços e de um arranque de época completamente engasgado, uma vitória arrancada a ferros não dá garantias algumas de que entremos no rumo certo. Nem de que Sá Pinto venha a revelar-se o homem certo no lugar certo. Mas dois pormenores ficaram, inegavelmente, demonstrados: primeiro, que a revolução táctica não foi feita assim tão à toa; segundo, que os jogadores acreditam que este treinador pode conduzi-los às desejadas conquistas (basta ver o que Ínsua acabou de escrever no twitter).

Ao entrar em campo numa fusão de 4-4-2 com 4-3-3 (Viola, várias vezes, era mais extremos do que segundo avançado, Pranjic deixava várias vezes a linha para se juntar a Rinaudo e Izmailov no meio), Sá Pinto cortou radicalmente com o Sporting mecânico, em que cada movimento da equipa parecia obedecer a regras de xadrez e onde o espaço para a criatividade ficava, unicamente, entre à inspiração de Carrillo. A entrada em jogo da equipa provou isso mesmo e, confesso, espanta-me ler que vários leões considerem que pouco fizemos para resolver o jogo na primeira parte. Para mim, fizemos a melhor primeira parte da época e, em condições normais, as três ou quatro oportunidades de golo claras (sim, claras) de que dispusemos, praticamente deixariam sentenciada a partida antes do intervalo e obrigariam o adversário a trocar a Marranita por uma Vanette, aumentando as possibilidades de mais golos surgirem.
Pelo meio, como aquele fio de água gelada que entra pelo isotérmico quando se decide ir às ondas no inverno, sofre-se um golo às três pancadas, golpe doloroso numa alma já tão amassada.

Depois, a meia hora do final, o murro completo na mesa. Sá tira um central e coloca Carrillo em campo. Se me disserem que isto não foi ensaiado, acredito. Se me disserem que não foi pensado, duvido. A falta de ensaio notou-se no tempo que os jogadores demoraram a assimilar o novo desenho, na forma muitas vezes atabalhoada como ocuparam os espaços, até no bloqueio cerebral, que podia ter custado um segundo golo e que Rui Patrício resolveu com silenciosa classe. O não ser pensado… não me parece que a entrada de Carrillo seja à toa, tal como a colocação de Izmailov e a forma como ele e Rinaudo se articularam para compensar a dificuldade do russo chegar-se à frente.

Se Sá Pinto teria feito algo do género num outro cenário. Provavelmente, não. Mas fez quando tinha que fazer. Arriscou em demasia?!? Foda-se, mas, afinal, em que ficamos? Se mantém o médio defensivo em campo é um maricas, se assume que temos capacidade para ganhar a adversários destes com as preocupações defensivas quase abaixo de zero é louco? Se querem que vos diga a verdade, Sá Pinto terá feito algo muito aproximado do que qualquer um de nós faria. Mais, Sá Pinto acabou por reforçar a minha tese de que, a jogar em casa contra 90 por cento das equipas do nosso campeonato, é encostá-los lá atrás de tal forma quem nem têm tempo para pensar em contra-ataque. Sim, porque, e custa-me que alguns de nós vão nas cantigas da imprensa desportiva, se o Gil jogou assim tão pouco não é apenas por ser uma equipa limitada; antes porque os nossos jogadores souberam fazer sobressair essa limitação com as diversas recuperações de bola feitas (mas isto não vejo ninguém, com responsabilidades editoriais, escrever).

Terá valido a pena festejar com lágrimas, uma vitória sobre o Gil Vicente? Terá valido a pena gritar golo a plenos pulmões? Terá a revolução táctica sido pensada, ou fruto da vertigem causada pelo abismo? Terá Sá Pinto percebido que tem mesmo que mexer na rigidez em que amarrou o nosso futebol?
Sim. Sim (sempre). Não sei bem. Não sei.
Mas sei que, e já o disse, vi algo sem o qual qualquer genialidade táctica vale tanto como engatar a Monica Bellucci e sofrer de ejaculação precoce: vi todos a remar para o mesmo lado, acreditando no seu líder. E isto é coisa para permitir que o meu lado racional abra espaço à emoção, à fé de puto Sportinguista que, por mais anos que passem, não quero deixar de ser e que só pede que o deixem manifestar-se mais vezes.