Bruno de Carvalho responde aos cacifeiros

O desafio foi lançado aqui, as perguntas seguiram aqui. Para todos os candidatos. O prazo terminava ontem à noite e, ao contrário do que alguns vaticinavam, existiram respostas. Respostas a perguntas, que digo eu, são mais importantes do que discutir quem é a lista que reuniu as pessoas com caras mais bonitas e nomes mais pomposos. Respostas que mostram respeito pelos milhares de Leões que, diariamente, vivem e pensam o Sporting na blogosfera. Tirem as vossas conclusões.

Entre os tão falados problemas de tesouraria, o mais vezes sublinhado prende-se com os ordenados dos jogadores. No entanto, é impossível ignorar a importante fatia gasta com vencimentos de outros funcionários, nomeadamente com o de nomes escolhidos para “atirar sportinguismo para os olhos dos adeptos” e que, em vários casos, nem se chega a perceber o que fazem. Qual é a sua posição perante esta situação que pisca o olho à famosa expressão «jobs for the boys»?

Em primeiro lugar temos que separar o trigo do joio e ter respeito pelas pessoas que trabalham no Clube e na Academia que se dedicam de alma e coração dedicadas ao nosso Sporting e que por vezes em situações bem complicadas. Quando tomarmos posse iremos falar departamento a departamento, pessoa a pessoa, para vermos qual a melhor forma de implementarmos o nosso projecto em função da estrutura existente e das mudanças necessárias operar. Negociaremos directamente com cada um deles.
Para nós é claro que o Sporting Clube de Portugal tem de ser gerido com muito rigor, exigência e eficiência. Os recursos disponíveis tem que ser optimizados, têm que ser reorganizados, com objectivos e responsabilidades claramente definidas e consequente responsabilização pelo que não há lugar a “jobs for the boys”. Teremos muita exigência e a nosa gestão terá por base a méritocracia.  Queremos uma reforma profunda, uma mudança positiva do Clube do nosso coração.
Tem sido incómodo, senão embaraçoso, para larga franja de adeptos leoninos, ver o compadrio existente entre o seu Sporting e o FCPorto, não só pelo facto de passar a imagem de clube que não se indigna com situações às quais está associado o termo corrupção, como pela vassalagem prestada aquando da transferência de jogadores (o caso de João Moutinho é gritante, primeiro com os elogios feitos por Pinto da Costa, depois com inacreditável não convocatória do jogador para o Mundial, a que se seguiu a birra do próprio João Moutinho). Por tudo isto, e porque o sentimento é de que não precisamos de alianças, muito menos das que fazem com que os nossos “aliados” cresçam à nossa conta, torna-se quase doentio ver os nossos últimos presidentes sentados ao lado de Jorge Nuno.
De que forma encara este cenário?

Connosco o Sporting Clube de Portugal manterá relações institucionais com todos os clubes, na defesa dos interesses comuns mas não aceitaremos subserviências a qualquer clube ou presidente. Temos a vantagem de nunca termos que ter obedecido a nenhum presidente de outro clube, nem feito o que eles mandaram. Comigo podem ter a certeza que nunca me vão ver a trabalhar para outro clube! Comigo não há parcerias e muito menos parcerias obscuras que  prejudiquem  ou afectem o Sporting Clube de Portugal. Tudo o que for feito neste domínio tem que salvaguardar os interesses supremos do Sporting e existir uma vantagem clara para o nosso Clube. Terá que existir sempre um respeito mútuo institucional e quando assim não for, haverá uma resposta firme  do Sporting Clube de Portugal e do seu Presidente.

A propósito, na sua perspectiva, como se gerem desportivamente situações com a de Moutinho e de Izmailov. E, sendo o nosso objectivo o de formar homens, como se poderá gerir essa mesma formação de personalidades, nomeadamente de miúdos, jogadores que vivem na Academia, que utilizam o facebook para manifestar a sua preferência por clubes rivais/adversários?

As situações como as referidas na sua questão têm que ser enquadradas num todo mais vasto e que passa por o Clube ter que inverter completamente a lógica organizativa e a visão que tem da estrutura que dirige o futebol. É o clube que tem de criar uma estrutura que governe o futebol, bem alicerçada, competente, com práticas estabelecidas.
A existência de uma equipa B é de enorme importância para o desenvolvimento sustentado e servirá de ponte entre o futebol júnior e o futebol sénior. Utilizando as mesmas metodologias, práticas, organização e sistemas de jogo que a equipa sénior profissional, os jovens que integram a equipa B estarão aptos a integrar a equipa principal, seja em caso de necessidade, seja por mérito próprio, fruto do desempenho pessoal.
Mas a questão passa também pela redefinição dos objectivos da formação. Nos últimos anos estes são pouco claros e, muitas vezes, dão a sensação de terem a ver com tudo menos com a defesa dos superiores interesses do Clube. A formação existe para formar jogadores de futebol, uns melhores, outros não tão bons, na medida do seu talento. No entanto, em termos de entendimento do jogo, das suas diversas vertentes, do profissionalismo, do primado do colectivo acima do individual, e do orgulho em representar o Sporting Clube de Portugal, serão todos iguais.
As componentes sociológicas e psicológicas associadas aos jogadores e ao seu meio envolvente são fundamentais e carecem do acompanhamento devido. Não basta terem habilidades inaptas ou outras, trabalhadas tecnicamente, é fundamental a sua formação enquanto seres humanos, tendo que lhes ser incutidos princípios e valores que devem observar e um principio básico, o respeito absoluto pela instituição Sporting, seja em que situação for. Será depois o talento que possuem e a forma como se integrarem na equipa B e no futebol profissional que ditará a maior utilidade que tiverem para o Clube. Será a partir do acompanhamento que soubermos dar a estes jovens jogadores, da forma que conseguirmos ensinar em termos daquilo que é a realidade de uma profissão dura, intensa, difícil, exactamente o contrário daquilo que sempre lhes pareceu durante o seu período de formação, que voltaremos a ter na equipa sénior diversos atletas vindos da formação, passando pela equipa B e chegando à equipa principal em condições de render de imediato em termos desportivos e de, a médio prazo, poderem alguns deles ser vendidos de forma a melhorar as finanças do clube e a suportar os custos inerentes à actividade da Academia.
Convidamos todos a partir da noite de 21 de Março a consultarem no no site em www.sportingnocoracao.com  a nossa análise da estrutura do futebol actual e a organização do mesmo preconizada no nosso modelo de gestão desportivo.
Ainda no que toca a gestão desportiva, é incompreensível, por exemplo, a dispensa de Ogushi para a contratação de Boulahrouz. Que política de contratações podemos esperar, e de que forma é que a mesma se funde com a aposta na equipa B e na formação?

O nosso modelo aposta claramente na formação.  Com a reactivação da equipa B, o plantel deverá ser menos numeroso – 20 jogadores. Um plantel mais reduzido é mais barato, mais fácil de gerir e com uma competitividade interna acrescida. Não há nenhuma equipa que seja competitiva contra os seus adversários, se não viver um clima de competitividade interna permanente.
Deverá ser a partir do plantel actual, com alguns excelentes jogadores e alguns com previsível futuro muito risonho, que se deve construir o próximo plantel. Sempre tendo em atenção os aspectos financeiros. Deverá ser absolutamente proibido aumentar o passivo da SAD por via da compra de passes de jogadores, investindo recursos que não estejam disponíveis. Cinco ou seis jogadores, numa escolha cirúrgica, experientes (ter em atenção que no futebol a experiência não está directamente relacionada com a idade) e capazes de acrescentar valor ao plantel existente, serão suficientes para a construção de uma equipa que possa lutar pelos objectivos de curto, médio e longo prazo do Clube. Lutaremos por um Sporting Clube de Portugal Campeão! Ao contrário do que tem sido prática recente, o recurso a jovens criados na formação do Sporting deverá
O que faz mais sentido: gastar dinheiro num jogador ou utilizar esse dinheiro para recuperar parte dos passes, entretanto alienada, de jogadores considerados valores seguros?

Esta pergunta tem várias condicionantes e dependem da sua aplicação a casos concretos mas a mesma só se coloca, se a gestão desportiva não estiver claramente definida. Aquilo que preconizamos e que evitará estas questões foi o que já explanamos em traços gerais nas respostas anteriores.

Quais os planos, concretos, para as modalidades ditas amadoras?

Pretendemos dar maior visibilidade às nossas modalidades, em que a Sporting TV terá um papel importantíssimo. É uma forma de reforçarmos o ecletismo do clube e estender a nossa marca. É uma questão de identidade. Através das modalidades levarmos o Sporting a todos os pontos do País projectando os nossos atletas não só a competir em Portugal mas também pelo Mundo. Iremos avaliar a disponibilidade financeira para manter as modalidades históricas e as que os Sócios pretendam implementar no Clube, o Conselho Directivo poderá apoiar a criação e manutenção, desde que haja a capacidade de angariar meios financeiros para suportar os custos da sua actividade.

Foi-lhe passada informação efectiva sobre o plano para construção de um novo pavilhão, junto ao Estádio de Alvalade? De que forma é que o projecto de utilização de Odivelas, a longo termo, influencia a construção desta nova estrutura?

Sobre  a construção do pavilhão, junto ao Estádio de Alvalade não nos foi adiantada  qualquer informação. O que é de conhecimento público é que como a CML não tinha dinheiro para pagar ao SCP, sugeriu que o SCP escolhesse algum dos terrenos disponíveis. O SCP entrou em negociações com a CML e escolheu o terreno das bombas da Galp avaliado em cerca de 5 Milhões, para a construção do pavilhão. Neste seguimento foi aprovado em Assembleia Camarária que aquele terreno só poderia ter aquele destino (pavilhão). Entretanto soubemos pela comunicação social esta semana que o Plano Pormenor dos terrenos para a construção do Pavilhão, foi aprovado pela Assembleia Municipal de Lisboa. Pensamos que a utilização das infraestruturas em Odivelas não terá influência na construção do Pavilhão junto ao Estádio, porque este não é substituível por Odivelas. É nosso propósito que este seja uma realidade até ao final do nosso mandato. A concessão do Pavilhão Carlos Lopes à Fundação Aragão Pinto abre também a possibilidade das modalidades poderem ter mais um local para treinarem.

Ao longo de 100 anos, o Sporting foi construindo uma identidade que, infelizmente, se vai esbatendo (a mudança de símbolo, na camisola, é um bom exemplo). Como define a identidade do Sporting e de que forma podemos reforçá-la?

A identidade é aquilo que nos torna únicos, o que nos diferencia dos demais, o nosso ADN. Neste momento atravessamos de facto aquilo que poderemos designar por uma crise de identidade pelo que se torna critico conhecer o que é percebido pelos Sportinguistas como essencial para o Sporting, o que distingue o Sporting dos demais e quais as características percebidas que mantém e desenvolvem a ligação entre o passado com o presente do Sporting e sobretudo com o seu futuro. Esta clarificação é necessária porque é através dela que reforçamos a nossa própria identidade e desenvolver aquilo que entendo seja o sentido da pergunta, a marca, onde o rigor, a competência e a liderança sejam os motivos do sucesso que todos ambicionamos e merecemos.
A marca Sporting é, reconhecidamente, uma marca valiosíssima, nomeadamente na possibilidade de conquistar um universo adolescente e jovem adulto. Existe uma estratégia para potenciá-la?

Sim, através de uma redefinição estratégica, onde se exige uma gestão rigorosa que permita desenvolver de forma integrada todo o seu potencial, quer os domínios já explorados quer em outros. É determinante o respeito pela identidade Sporting, pelas características que o tornam único, pelos seus valores, direccionando a marca Sporting para onde possa acrescentar valor mas também que aumente o seu valor. A gestão integrada da comunicação, da reputação são vitais, a par dos Núcleos e Sportinguistas espalhados pelo mundo, os quais temos de envolver, porque cada um deles é Embaixador da Marca Sporting. A conquista de universos mais jovens inicia-se numa fase mais precoce e de forma indirecta muito relacionada com os seus  ambientes, nomeadamente familiares e amigos.  Aqui é fundamental a  valorização do papel dos núcleos, assumindo claramente  o seu valor no desenvolvimento estratégico para o clube. Uma maior interacção com os núcleos, numa relação biunívoca que fortaleça os seus laços, com uma política permanente de auscultação que permita reforçar o cumprimento de objectivos comuns. Numa outra vertente já na fase adolescente e jovem adulto ir de encontro àquilo que são as sua motivações, expectativas e interesses. Aqui há que ter uma auscultação permanente deste público, perceber as tendências e antecipá-las. Pensamos o desenvolvimento de conteúdos específicos que vão de encontro aos seus anseios, distribuídos por diversas plataformas criadas e a criar, tais como a  Sporting TV, site, redes sociais, consolas, etc. são uma das vias para potenciar essa captação. As modalidades têm aqui também um papel vital, pois sabemos que muitas crianças e jovens, descobrem ou fortalecem o seu Sportinguismo pela prática de modalidades, pelo que a transmissão dos valores e orgulho na camisola do Sporting Clube de Portugal têm que estar sempre presentes, em que situação for. Esta é uma das muitas razões pelas quais defendemos o Ecletismo que nos permite para além de ganhos directos, muitos outros indirectos. Traçaremos um caminho próprio, sem complexo e tiver que ser, contra tudo e contra todos na defesa do nosso Clube do coração.

A Sporting Tv poderá ser um desses potenciadores? Tem um plano definido para o canal do clube?

Sim, sem dúvida. A Sporting TV é um pilar estratégico do nosso modelo, para a comunicação de forma transversal e um potenciador do valor e expansão da marca Sporting. A Sporting TV,  está  inserida num modelo mais abrangente que envolve outras plataformas, tais como a rádio, Web, edições, entre outras  e que parte duma gestão integrada de conteúdos que serão distribuídos em função das plataformas existentes. Ou seja, os conteúdos serão adaptados às plataformas existentes e a criar. Prevemos o desenvolvimento de aplicações para redes móveis, consolas, tablets .
O nosso modelo é sustentável que para além de se pagar a si próprio permite tornar-se uma fonte de receita, através dos conteúdos e serviços associados. Há, no entanto, ter presente que a Sporting TV já está em andamento e pelo que foi tornado publico já existe um memorando assinado com a ZON e outro que estava pronto com a PT e que foi suspenso em consequência da demissão da Direcção do SCP. Isto implica que teremos numa primeira fase perceber quais os compromissos já assumidos e quais os contratos assinados e ajustar o modelo naquilo que se considerar necessário. Em função do estado de implementação e da viabilidade e sustentabilidade do projecto actual, avançaremos o mais rapidamente possível.

O Sporting Clube de Portugal detém diversas participações em sociedades imobiliárias e de promoção imobiliária, avaliadas em  algumas dezenas de milhões de euros. Que sociedades são estas? Para que servem? O que fazem? Que pessoal têm? Que dívida têm? Quanto valem na realidade? E o que acrescentam ao Sporting? É possível responder, ou só lá vamos com uma auditoria de gestão?

As diversas participações foram constituídas em princípio por questões de operacionalidade e de eficácia económica, financeira e fiscal. Iremos avaliar a situação de cada uma delas e promover a sua dissolução ou fusão, salvo se essa operação acarretar custos acrescidos para o Sporting

 

Como se lida com as constantes faltas de respeito de que o Sporting é alvo, seja por falta da arbitragem, da liga, da federação e da própria comunicação social? E, a propósito desta última, faz parte da sua estratégia acabar, de vez, com a possibilidade de existirem “paineleiros” que desempenhem funções directivas no clube?

O Sporting em primeiro lugar tem que ele próprio se dar ao respeito. Estar devidamente representado nos locais certos e falar menos e actuar mais.
A estratégica com a comunicação social tem que ser absolutamente profissional e tem que começar internamente com a implementação do nosso modelo programático, exigindo que o Sporting fala a uma só voz. Só fala quem estiver especificamente mandatado e sobre aquilo para que está mandatado. Estas intervenções são centralmente articuladas de forma a imprimir rigor, coordenação e coerência no discurso e assegurar que as mensagens do Sporting passam conforme definidas. A nossa Direcção após a tomada de posse irá reunir com os responsáveis da comunicação social de forma a apresentar um conjunto de princípios de relacionamento que assegure o respeito pela instituição Sporting Clube de Portugal e salvaguarde a qualidade e rigor de informação sobre o nosso Clube. Não permitiremos que os interesses do Sporting sejam lesados por eventuais práticas jornalísticas desvirtuadas pelo que não teremos qualquer dúvida em denunciar práticas ilegítimas aos Provedores do Leitor, Provedor do Ouvinte e Provedor do Telespectador, à Comissão da Carteira Profissional do Jornalista e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social. No nosso mandato não teremos membro dos órgãos directivos a integrarem painéis residentes na comunicação social.


Seria capaz de dizer aos sócios, num fundo um pouco à imagem do que aconteceu no B.Dortmund, que, durante meia dúzia de anos, a política do clube passaria por fazer crescer os seus talentos e apenas lutar por um lugar na europa, de forma a criar as bases para uma equipa capaz de ganhar títulos consecutivamente?

Se fosse essa a realidade e a única alternativa para a sustentabilidade do Clube não hesitaria em faze-lo mas como leram nas respostas anteriores temos um plano financeiro e da divida, e um plano desportivo que nos permitem honrar os nosso compromissos e obter o sucessos desportivos que é o apanágio do Sporting Clube de Portugal um Clube Campeão e de Campeões.

 

p.s. – Carlos Severino também respondeu, pedindo desculpa por não ter tempo para aceder a todos os pedidos de entrevista que recebeu durante esta última semana, mas agradecendo a forma como o Sporting é vivido no Cacifo e que se torna motivante «por saber que há quem viva este Clube a sério, até mesmo quando o sentido de humor é a única resposta às coisas mais caricatas a que já assistimos todos». José Couceiro é capaz de ter pedido ao Paiva dos Santos para checkar o e-mail…

Ainda sabes o que é ter esperança?

Estamos a um dia e meio das eleições. Não sei se serão as mais importantes eleições de sempre, mas sei que a margem de erro é bem menor do que há dois anos. E sei que é chegada a hora de dizer-vos o que penso, sem rodeios.

Quando vi quais os dois candidatos que iam disputar o lugar de presidente com Bruno de Carvalho, tive duas certezas: Carlos Severino só serviria para fazer barulho e animar as hostes; José Couceiro representaria mais do mesmo servido com um molho diferente. Não me enganei.
Severino tem feito barulho e animado as hostes; Couceiro tem sido um vazio semelhante ao que foi Godinho Lopes, com uma agravante: nem ele sabe bem, porque raio é que se candidatou a presidente do Sporting. Olho para ele e leio-lhe o pensamento «se o Figo tivesse aceitado ser candidato, eu podia estar bem mais sossegado». Couceiro não tem perfil e, peço desculpa pela sinceridade, mostra pouca personalidade ao utilizar o emblemático nome do avô, Peyroteo, para tentar ganhar votos (pintava a minha cara de merda, se tivesse um apelido desses e não fizesse questão de usá-lo todos os dias). O resto, não precisa de apresentações: a máquina Cunha & Vaz, com a pequena diferença de afirmar que Bruno de Carvalho será o próximo Godinho Lopes (vale tudo, incluindo cuspir no prato onde comeram) em vez de o apelidar de novo Vale e Azevedo; a presença de Nobre Guedes; a rábula de Paiva dos Santos, a chegar tarde na sua tentativa de fingir que se candidatava independentemente ao Conselho Leonino. Está lá tudo, incluindo as almoçaradas com a presença de um dos líderes da mais antiga claque (sim, os tais que convocaram uma press para dizerem que não se metiam em campanhas eleitorais), as promessas balofas e o não assumir o que quer que seja (nós podemos, repare, nós podemos, repare… gira o disco e soa ao mesmo). Só muda o protagonista, empurrado à força para um papel para o qual, a cada entrevista, se mostra muito pouco confortável.

Depois, Bruno de Carvalho. Gabo-lhe a capacidade para, durante dois anos, aceitar ser alvo de todas e mais algumas calúnias e rumores, tanto sobre a vida pessoal como sobre a vida profissional. Até o raio das contas do condomínio do homem, servem para tentar minar o pensamento dos sócios. Meus caros, estou-me literalmente a cagar para o passado de Bruno de Carvalho (e apelido de desonestidade intlectual os momentos em que esse passado é questionado por quem, por exemplo, aceitou os passados de Godinho Lopes, Luís Duque ou Paulo Pereira Cristóvão). Prefiro pensar no que ele poderá oferecer-me, enquanto sócio e adepto do Sporting, no futuro. Olho para Bruno de Carvalho e penso que podia ser eu a estar ali. Com entusiasmo. Com sonhos. Com vontade de trabalhar. Com capacidade de liderança. Com um Sportinguismo, por vezes ingénuo, que não se envergonha de alimentar-se em sonhos de criança. Mas com Sportinguismo de cachecol, não de gravata, coisa de que tanto sentimos falta.

Ontem, quando pensava na melhor forma de explicar-vos o que penso, considerei perfeito este exemplo.
Imaginem que o Sporting é uma das pessoas mais importantes da nossa vida. Essa pessoa adoeceu, com os sintomas a agravarem-se com o passar do tempo. Resolvemos interná-la, num hospital cheio de médicos de renome. “Temos os melhores médicos, temos credibilidade, temos tecnologia, temos tratamentos de ponta, temos a solução”. Veio um, dois, três, quatro médicos. E o Sporting, uma das pessoas mais importantes das nossas vidas, foi piorando. Ficando cada vez mais débil, sem capacidade de reação, vulnerável a novas patologias ou vírus trazidos do exterior.
Cansados, resolvemos começar a procurar novas alternativas. E damos de caras com um médico que apresenta novas soluções e sugere um tratamento diferente. «Homem, você não faça isso! Isso é a morte do seu amor! Não vê que isto é um charlatão? Um vendedor de banha da cobra? Você conhece o passado dele? Já o viu fazer qualquer coisa de relevante? Ó homem, você é que sabe, mas veja lá… Não sabemos se continuará a ter o seu Sporting se interromper o nosso tratamento». Mas estamos mesmo cansados. E queremos mudar. O problema, é que o conselho familiar resulta numa decisão contrária. «Homem, foi melhor assim. A sua família tomou bem esta decisão por si. Vai ver que, daqui por três anos, vai estar na rua, a festejar o regresso do seu Sporting e a vitória sobre esta doença!».
Passaram dois, não três, e o nosso Sporting quase já não reage aos estímulos. Pior, olhamos para ele e sentimo-nos cada vez mais impotentes, cada vez mais sem energia para transmitir-lhe energia (mesmo sabendo que isso, sim, poderá ser o seu fim). Revoltamo-nos. «Chega, chega desta merda!», dizemos interiormente. E gritamo-lo, bem alto, na recepção do tal hospital cheio de médicos credíveis e de soluções fantásticas. Eles arregalam os olhos, incrédulos. A nossa fúria é tal, que desperta a de outros familiares, camaradas, amigos, que também sofrem com o definhar do Sporting. E, fruto desse murro na mesa, surge, novamente, a oportunidade de dar uma chance ao outro médico, o tal que apresenta novas soluções e sugere um tratamento diferente. Os avisos sobre a idoneidade do mesmo não tardam a voltar a repetir-se, mas, na nossa cabeça, já só existe um pensamento.
Baixamo-nos e, olhos nos olhos, dizemos a essa pessoa de quem tanto gostamos: se perdermos esta luta, meu Sporting, não há-de ser por falta de tentar. É verdade que não sei bem para onde estou a levar-te, mas sei que estou a levar-te para o único caminho onde me transmitem o que me têm roubado. A mim e a ti. Esperança.

 

Fala, Severino

Em rápidos, o que o homem diz, hoje, no Record (por momentos, pareceu-me ouvir o eco do Dias da Cunha)

«especialmente a partir do final de 2005 a situação tornou-se insuportável. Por demais»

«o Sporting – não é o Sporting, são os seus dirigentes – é um moço que faz fretes ao sistema, por acordos que são incompreensíveis, como os jogadores do Sporting que foram para o fcporto»

«há gente do sistema infiltrada em todos os órgãos de comunicação social»

«o sistema não quer matar o Sporting. O que acontece é que os dirigentes do Sporting deixam que o sistema se utilize do Sporting»

« O Sporting no final do ano arrecadou 12 milhões que ninguém me quis dizer de onde vieram, depois arrecadou mais 2,5 milhões. Nobre Guedes disse-me que foram fundos, que o Sporting vendeu passes aos fundos. Ele disse-me, palavras dele, que Rui Patrício não está vendido. Eu acredito que não esteja vendido a um clube. Está vendido a um fundo. Esse é dado adquirido»

«o que me disse Nobre Guedes foi que, sim senhor, até Fevereiro está tudo garantido (ordenados), mas que depois não sabe»

 

Bela forma de lançar o clássico

«Até houve um comentador que ontem referiu que dava a sensação de que ele queria desmoralizar o Patrício, para que ele fosse desmoralizado para o jogo com o fcporto. E nós sabemos que o professor Jesualdo treinou o fcporto e nós não queremos infiltrados no Sporting», Carlos Severino, aqui, a propósito das críticas de Jesualdo Ferreira a Rui Patrício e Wolfswinkel, no final do jogo com o Estoril.

E…e… eu acho, que se é para agitares ainda mais as águas em torno da equipa, valia mais estares calado.