Às voltas com as voltas que isto dá

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O regresso de Nani pode representar um dos melhores reforços da história recente do clube. Da equipa também, claro, mas sobretudo do clube. Basta que este regresso seja cumprido com o maior profissionalismo possível. Nem lhe peço poemas de amor ao clube. Só profissionalismo. Porque bem necessitados andamos de bons exemplos na ligação entre o que somos e o que formamos. Ao aceitar regressar, ainda que temporariamente, Nani arrisca fazer pelo futuro do Sporting muito mais do que aquilo que imagina.

Agora é ver se a malta não se esquece de desatar a assobiá-lo, como quando ele tinha 18 anos e falhava um drible…

O Sporting de hoje: do “clube amador” à “gestão profissional”

Reza a lenda que no início da década de 90 havia um clube governado por um louco ali para os lados de Alvalade. O louco era o Sousa Cintra e o clube era o Sporting. Nesse tempo, quando se vivia na expectativa de voltar a ganhar o título que fugia há uma década, havia um leão a viver verdadeiramente na selva: despediam-se treinadores como quem bebe copos de água, vendiam-se ilusões, apareciam Pelés que acabavam a jogar no Famalicão, corríamos com quem liderava o campeonato, contratavam-se Douglas, Silas e Luisinhos, viviam-se momentos históricos na UEFA, juntavam-se Balakovs, Figos, Valckxs e Paulos Sousas num único onze, levava-se a imprensa em tournée para contratar avançados jugoslavos que acabavam por não vir, pilhava-se o plantel aos lampiões, enfim, era a loucura. Não ganhávamos, mas era a loucura. Acreditávamos, enchíamos Alvalade, jogava-se à bola, tínhamos jogadores com mística e mesmo perdendo para os rivais havia sempre ânimo em cada adepto para enfrentar uma discussão, convicto de que nós é que éramos realmente grandes. Isso de não ganhar era um detalhe.

Nesse tempo que a história teimou em marcar como a época de gestão taberneira e amadora, o Sporting tinha um passivo de 30 milhões de euros. Estávamos em 1995. Repito: 30 milhões de euros. Com a curiosidade de, nesse mesmo ano – e como explicou recentemente o Tomás Aires num artigo do “CM” – o Sporting ter um património superior a 60 milhões de euros só em terrenos. Ou seja, sensivelmente o dobro do passivo. E isto, sublinhe-se, com uma gestão amadora.

Depois veio Roquette. Primeiro com Santana como fantoche, depois ele próprio como mestre da banda. Vinha o mundo das SAD e da gestão profissional. O argumento era simples: o futebol moderno era uma indústria e o clube tinha de ser gerido como tal. Uma indústria que pressupôs ser visionário, antecipar o futuro, transformar o clube numa empresa, primeiro, e num conjunto de empresas, depois. Todas elas com activos tangíveis e intangíveis, capitais, accionistas, balanços, empréstimos obrigacionistas, dívida financeira, passivo corrente, passivo não corrente, VMOCS, enfim… um fartote. O adepto comum não percebeu nada. Ouviu falar num estádio novo, numa academia, na aposta na formação e na projecção do Sporting como grande emblema nacional do século XXI. E nisto o povo português é fodido: cheirou a modernice, o verbo era erudito, a malta tinha pinta de perceber do assunto e até era descendente de fundadores, portanto… vai de aceitar tudo.

Depois, depois cá estamos nós, hoje, para fazer contas à gestão profissional: o estádio ia custar 75 milhões e teve uma derrapagem para mais de 115 milhões; a Academia estava orçada em 6 milhões e custou quase o triplo; na vertigem de consolidar o domínio após o primeiro título (em 2000) gastou-se o que se tinha e o que não se tinha na compra e salário de jogadores caros nos anos seguintes (João Pinto, Paulo Bento, Dimas, Sá Pinto, Jardel, entre outros), construíram-se edifícios-sede, centros comerciais, exploraram-se clínicas… por aí fora. Em 2000 o passivo do clube rondava já os 65 milhões de euros. Em 2005 os relatórios e contas apontavam para passivos na ordem dos 150 milhões de euros. Mas em 2009, Soares Franco viria esclarecer que afinal o passivo estava mascarado e o seu montante real era de 280 milhões desde… 2005 (?!?!?!?!). O clube estava tecnicamente falido e nas mãos da banca e credores. Hoje o passivo ronda os 300 milhões e sucedem-se as fugas em frente com reestruturações financeiras atrás de reestruturações financeiras.

Aqui chegados, que balanço? Em 15 anos ganhámos dois campeonatos, meia dúzia de taças e supertaças e fomos a uma final da UEFA. O passivo entretanto cresceu de 30 para 300 milhões. Compensou? Claramente não! Sobretudo porque ninguém consegue perceber ao certo o que se passou durante este trajecto que levou o clube a multiplicar o seu passivo por 10 em década e meia. A não ser o mais simples de se perceber: que muita gente terá ganho dinheiro à custa do clube e que José Roquette, Dias da Cunha e Soares Franco (e todos os que os acompanharam nas suas aventuras) são os rostos de uma gestão danosa que comprometeu seriamente o presente e o futuro do Sporting.

Não, isto não é populismo: é um facto. Foi esta gente que conduziu o Sporting à situação actual. Por isso me custa hoje a acreditar que esteja nestes senhores, ou nos seus cooptados, a salvação para o buraco em que estamos enfiados. Ainda acreditei em Bettencourt: pela falta de comparência de oposição credível e talvez porque me parecesse menos engravatado que os antecessores. Mal sabia eu o que aí viria… Por isso, repito, já não consigo acreditar nesta gente. Espero que me surpreendam, claro, mas já não acredito. Sobretudo porque, com o clube financeiramente estrangulado e com a gestão desportiva algemada à banca, a Sporting SAD está hoje condenada a colocar em segundo plano aquilo que era suposto ser o “core business” da “empresa”: o futebol enquanto espectáculo. Pior do que não ganhar, pior do que a terrível sensação de não estarmos aptos a lutar pelos títulos, é esta ideia de que o futebol jogado do Sporting parece traduzir, há um par de anos, a mesma sensação que os nossos gestores e accionistas devem ter quando olham para a merda que fizeram: “é uma chatice”.

(Próximo capítulo – “O Sporting de hoje: o jogador, o activo e a acefalia do gestor”)

Um Barco à Deriva

“Não vou à Bola com o Bento”. Eu também já não vou à bola com o gajo. Mas ontem depois de assistir ao jogo, às declarações do homem e às declarações proferidas pelo JEB no dia anterior, pensei eu com os meus botões:

OS RATOS

O Paulo Bento não está agarrado ao lugar. As pessoas que estão acima dele é que lhe pedem encarecidamente para não abandonar o barco. Porquê? Porque pura e simplesmente não há uma única alma dentro daquele clube capaz de ter uma ideia para o futebol. Não fazem a mínima ideia como levar a bom porto esta empreitada. Estão paralisados. Sem capacidade para decidir e reagir. Porque não sabem. Não sabem vender e colocar jogadores com proveitos económicos significativos. Não sabem comprar e fortalecer competitivamente o plantel. Não têm redes de influência nas estruturas onde também se decidem campeonatos. Não têm capacidade para comunicar com os sócios e adeptos em geral. Não conseguem negociar comissões com empresários. Não conhecem o mercado nem os bastidores e as redes de agentes que colocam e trazem jogadores. Estão a imaginar o fartote que deve ser para os mafiosos que gravitam no nosso futebol negociar um jogador de um qualquer clube de merda com a Rita Figueira? É assim que está o nosso clube desde a saída do Carlos Freitas. Sem uma ideia, sem uma linha orientadora. Sem alguém que marque a pauta. Com um director Desportivo que decidiu ter uma conversa em família com o plantel há poucos dias pela primeira vez. São meros empregados de banco a aprender como tudo isto funciona. Assim se explica a razão das declarações de JEB. Desnorte total e disparos em todas as direcções. Podia ser que acertasse em alguém.

O CAPITÃO

Paulo Bento tem a sua parte de culpa. Por não ter exigido uma pessoa ao seu lado com conhecimentos de mercado e voz no balneário. Um verdadeiro líder e não um compincha de cacifo dos tempos em que depois do treino frequentavam o mesmo barbeiro e almoçavam com as mulheres e os filhos nos dias de folga. É responsável por ser limitado do ponto de vista técnico enquanto treinador. É culpado por não fazer evoluir jogadores e equipa e apresentar um futebol depressivo 4 anos depois. Em qualquer outra circunstância, despedir o terinador seria o ideal. Neste caso é uma incógnita. Estou certo que ninguém está a pensar que a solução passa por um Chico Vital, um Carlos Manuel, um Fernado Mendes. Mas no contexto em que vivemos todas as soluções são possíveis. As más, as boas, as assim assim. E é neste ponto que reside o problema. Ninguém sabe se é melhor virar à direita, à esquerda ou ir contra o muro. Por isso, ELES vão-se agarrando à única coisa autêntica que têm. O homem que dá o corpo às balas, que defende o clube, que já ganhou alguma coisa, que aprova transferências. Que come e cala! Por isso, não me surpreende ouvir os jogadores dizer que estão com o treinador até à morte. Pudera, aqueles que não são calhaus com olhos já viram bem a merda que os rodeia. Por isso, ficam debaixo das asas do Capitão de tantas guerras.

A ESPERANÇA

Só pode ser um golpe de sorte. Alguém lembrar-se de um nome qualquer que aceite herdar este pesado fardo e se torne pela personalidade e conhecimentos maior do que o cargo que ocupa. Alguém que seja treinador (bom de preferência) mas que aglutine e que aponte o caminho àquela gente. Que venha e acenda à luz. Porque ELES, coitadinhos, parecem miúdos a brincar aos clubes de futebol. Como no Football Manager, não é JEB?

Nota: O Cacifo é um espaço de opinião por pessoas que gostam e pensam o Sporting. Aqui não há amarras institucionais nem linhas de pensamento rectangulares. Cada um tem a sua própria versão do que acha ser o melhor para o clube.

 

Dores de Crescimento

Quando se atinge um determinado nível e se almeja algo mais é necessário procurar soluções que nos façam crescer sem comprometer o que de bom ficou para trás. O Sporting das tacinhas precisava de crescer e toda agente o dizia. O Paulo Bento fez o diagnóstico e achou que tinha condições para mais. Se calhar, erradamente, pensou ele e os que mandam que tinha recursos para crescer. Se calhar, equivocadamente, considerou ele e os amigos que o próprio conseguia dar mais de si.

O Sporting da Choupana é o exemplo perfeito do que acontece a quem quer dar um passo maior do que a perna. Quando agarrou a equipa, PB conferiu-lhe maior rigor defensivo. Era essa a principal lacuna do Sproting versão Peseiro. Fez disso uma imagem de marca da equipa. Controlo do jogo. Claro que isso acabou por custar pontos em algumas situações. Essa obsessão pelo rigor acabou por fazer esquecer que para se ganhar é preciso atacar.

A par de tudo isto veio o losango. Vértice de jogo no meio e um 10 que se associava aos interiores e ao lateral ou avançado para criar superioridade nas linhas. Deixou de ser perfeito quando o efeito surpresa acabou e os adversários adivinhavam o que se ia passar. Resultado: Melhor controlo defensivo e falta de acutilância ofensiva traduzida em alguns pontos perdidos que custaram campeonatos. É o velho problema das mantas curtinhas. Não dá para tapar tudo.

E agora? O Sporting actual tenta dar o salto. Para onde? Por este andar vamos direitinhos ao abismo. Não tem ADN, desintegrou-se. É uma equipa com medo de errar e sem rumo à vista. Não sabe ao que joga. Onde defendia bem, agora mete água por todo o lado. Onde se tornava prevísivel para os adversários pelas amarras tácticas, agora é um conjunto de jogadores loucos a trocarem de posição sem sentido.

O PB tentou mudar para fazer a equipa crescer porque, finalmente, entendeu que o modelo de jogo anterior já tinha teias de aranha. Até a mulher a dias do Manuel Machado já deve ter ouvido falar no losango. Vai daí e não foi de modas. Apresenta um 4-3-3 inócuo e sem treino no primeiro jogo do campeonato.

Se queria mudar, os jogos de preparação servem para isso mesmo. Por que razão se jogou tão pouco na pré-época? Se quer experimentar este sistema por que razão, escolhe aqueles jogadores? Postiga e Liedson a trocarem de posição entre a meia-esquerda e o centro? Djaló como extremo direito? Como é possível um 4-3-3 sem extremos? O Vuk não faria melhor que Djaló na posição onde diz que mais e melhor pode render? Matias no banco? O nosso estratega. O homem que sabe pensar o jogo e, provavelmente, um dos melhores sentadinho a apreciar a serra madeirense?

Sejamos honestos. A equipa não está apetrechada para mudar como devia. Mas tem jogadores para jogar melhor. Indiscutivelmente. O Sporting pode e deve fazer mais. É preciso que o treinador saiba explorar o plantel e pare de dar tiros nos pés. Actue com bom-senso e critério. Se fizer isto, as coisas vão melhorar. E ninguém lhe poderá apontar um dedo que seja.

Para onde vamos crescer? Talvez o Paulo Bento não seja o homem ideal para conduzir essa mudança. Pela amostra parece que não sabe mais do que isto. Para já é com isto que temos que conviver. Ou nos conformamos com as taças e os segundos lugares ou mudamos para pior.