O meu dérbi (aquele que eu não vi)

Ter nove anos, querer ir à bola e não poder, é lixado.
Foi o que me aconteceu, em Dezembro de 1986, mês em que se jogava, precisamente, um Sporting-Benfica.

Como está bom de ver, culpei os meus pais por todos os males do mundo e mais alguns e, para não ter que partilhar o mesmo espaço com tais “criaturas”, agarrei no rádio de bolso e fui para a rua, ignorando os meus amigos lampiões (todos eles eram lampiões, pelo menos os mais chegados).

E foi sentado em cima da casinha onde o jardinheiro guardava as mangueiras, com um inesquecível portão verde garrafa, que fui festejando os golos. 1-0 e depois 2-0, a abrir a segunda parte. O Hugo, quatro anos mais velho, que entretanto tinha ido para casa ouvir o relato porque não acreditava que estava a levar duas batatas, ainda veio à janela feito estúpido (ou feito lampião, como preferirem), gritar o golo do Benfica, mas nessa tarde de Dezembro não voltou a pôr o nariz fora de casa.

3-1, 4-1, 5-1, 6-1, 7-1. O meu pequeno rádio em cores de táxi, verde e preto, pois então, berrava cada golo com toda a força que duas pequenas pilhas lhe permitiam. E eu berrava ainda mais, na direcção dos cinco pequenos lampiões incapazes de esboçarem uma reacção e, muito menos, continuarem a jogar às cartas.

Aquele dérbi, ainda hoje perdura na minha memória.
O dérbi em que um pequeno sportinguista calou uma rua de lampiões.
O dérbi em que o meu irmão, do alto dos seus seis anos, feitos há um mês, percebeu que a equipa mais fixe do mundo era o Sporting e não o Vitória de Setúbal.
O dérbi que eu não vi.

Obrigado, Marcos

Numa altura em que os posts do Cintra e do Douglas apaziguaram as dores de espírito, a minha memória fez-me recuar precisamente à época em que festejámos o fim da abstinência de títulos.

Nessa época 99/00, existia no plantel do Sporting um central brasileiro chamado Marcos que, depois de dar nas vistas no Rio Ave, rumou à Holanda, para jogar no PSV. Pouco ou nada utilizado, Marcos acabaria por chegar ao Sporting, para substituir Marco Aurélio, entretanto vendido no mercado de Inverno. Como está bom de ver, o pobre Mirko Jozic (claramente no meu top 5 de treinadores que passaram por Alvalade) nada ganhou com esta troca e acabámos por ficar em 4º lugar.

Nova época, novo treinador. Chegava Giuseppe Materazzi que, disse ele há uns tempos, quis trazer o filho para Alvalade. Não o deixaram, e o italiano teve que contentar-se com o Marcos, o mesmo que viria a dar a machadada final na curta carreira do Giuseppe pelas bandas de Alvalade ao meter as duas mãos à bola, dentro da área, contribuindo de forma decisiva para aquela vergonhosa derrota na Noruega, contra o Viking (3-0), e consequente eliminação da UEFA.

Materazzi foi corrido e chegou Inácio. O resto, todos nós sabemos de cor.

p.s. – só por curiosidade, no jogo em que Marcos se estreou, frente ao Desportivo de Chaves, alinhámos com a seguinte equipa: Tiago; Patacas, Beto, Marcos e Heinze; Pedro Barbosa, Vidigal e Vinicius; Simão, Krpan e Edmilson, tendo entrado, durante a segunda parte, Santamaria e Acosta. Se com esta verdadeira árvore das patacas acreditávamos no título, não podemos deixar de fazê-lo agora.

Tenho saudades…

Tenho saudades das sras dos autocolantes.
E dos srs a venderem almofadinhas para a bola.
De ver o Paulinho carregar bolas para o campo de treinos.
E de ficar a ver os craques prepararem o jogo seguinte.
De entrar e sair da “nave” as vezes que queria.
De espreitar a porta 10A.
E de esperar a chegada do nosso autocarro, para só depois entrar para o Estádio.
De passar o Tejo para ir ao Estádio, mesmo quando chovia a potes.
E de obrigar o meu pai a levar-me a Campo Maior para ver um jogo numa noite gelada.
De chegar uma hora antes do apito inicial e já só ter lugar sentado nas escadas.
De ver o Estádio de Alvalade cheio de adeptos certos de ver a equipa resolver jogos nos primeiros vinte minutos.
E de sentir os adversários todos borrados por irem jogar a casa do Sporting.
De festejar mais do que três golos no mesmo jogo.
E de não ter que levar com animadores histéricos nem passatempos estúpidos com remates estúpidos para uma baliza ainda mais estúpida.
Das camisolas com riscas verdes mais largas.
E de ver jogos à luz do dia.
Do cartão de sócio tipo passe, com as quotas em papel.
E de fazer colecção de bilhetes.
De ter um verdadeiro número 10.
E de jogar com extremos.
De ter um louco qualquer com nome acabado em ic ou ov, capaz de fazer-me comprar camisolas.
De gostar de todos os nossos jogadores, simplesmente por serem do Sporting.
E de ser capaz de achar que um qualquer João Luís II podia decidir jogos, fosse quem fosse o adversário.
De nunca admitir que o Sporting joga mal.
De ter um presidente que goste de futebol.
E que não queira ser amigo de tripeiros ou lampiões.
De ter uma estrutura para o futebol profissional que proteja o treinador e os jogadores.
E um treinador que arrisque e invente.
De ter as claques a uma só voz na curva sul.
E de identificar-me com a forma de estar de quem gere o clube pelo qual nunca hei-de deixar de sofrer.
Tenho saudades… do meu Sporting!

Sporting&Saudade ( Manoel)

Do hebraico “Deus está connosco”. Manuel(a) gosta de viver em sociedade, de comunicar com os outros, cultivar amizades. Alegre e optimista, de sorriso encantador, o seu sucesso no amor é certo, mas não no casamento pois, apesar de ter horror à solidão, a sua infidelidade compulsiva compromete qualquer união. Enfim, um cafageste salafrário, esse Manoel.

Apesar de não haver registos fotográficos, conta-se que Manoel chegou ao aeroporto de Lisboa sem camisa, em tronco nu. Segundo o próprio, estava um calor danado no Rio de Janeiro… embora bizarra, esta situação foi fortemente atenuada por decorrer o ano de 1975, o ano do Verão quente português. Manoel não quis saber da reforma agrária e muito menos do MFA, Manoel da Silva Costa, homem simples, queria marcar golos, beber umas cervejinhas e transar com umas minina. 

Num estilo tosco, mais em força do que em jeito, jogou no Sporting durante 5 temporadas, venceu um campeonato e uma taça de Portugal, marcou 56 golos em 148 jogos. Foi colega de equipa de nomes como Inácio, Laranjeira, Manuel Fernandes, Jordão.

A primeira vez que o vi, marcou 3 golos ao Benfica num jogo da Taça de Portugal, fantástico.

A última vez que o encontrei, estava atrás do balcão e serviu-me uma imperial, foi na discoteca Kremlin, propriedade dos irmãos Rocha, filhos do presidente que o contratou.Tinha, então, terminado a sua decadente carreira futebolística na Sociedade Recreativa Almancilense.

É caso para dizer, Sporting, Saudade & Solidariedade.

 

Farás para sempre parte do meu imaginário, grande Manoel. Como diz o teu nome, que Deus esteja contigo. 

 

 

 

Sporting&Saudade (Melo)

Melo (em ortografia arcaica Mello) é um relativamente frequente apelido de família da língua portuguesa. Sua origem provável poderá ser uma corruptela do nome de uma ave, o melro. Diz-se à boca pequena que, apenas neste caso, pode ser do frango a proveniência do sobrenome…invejas. 

 

 

Melo, este belo exemplar de guardião, tem honras de abertura nesta pretensa magnífica rubrica semanal.

Foi o grande protagonista do defeso de 81, numa transferência relâmpago desde o Vitória da cidade berço. Jogou 3 anos de Leão ao peito, campeão da regularidade, nunca saiu do banco de suplentes.

Joaquim Alberto Castanheira de Melo não se confinava à condição de guarda-redes, disponível e solícito, era o próprio que verificava manualmente a pressão das bolas. ( vidé foto) Rezam as crónicas  que, graças a Melo, entre 81 e 84 nunca houve bolas chôchas nos aprontos matinais lá para as bandas de Telheiras.

A sua saída para o Belenenses foi uma perda irreparável, um dos muitos erros que provocaram a triste travessia do deserto que percorremos durante tantos anos.

 

Que saudades do Melo.

Tinha classe.

 

 

Nota- Na foto, Melo representa o Belenenses… Foi a pala amarela, não resisti.