“O Luís Figo é um símbolo do Sporting. Tenho lido que está a ser apontado como dirigente do Inter de Milão, mas, se fosse essa a vontade do Luís, com certeza que olharíamos para essa possibilidade“, José Eduardo Bettencourt, sobre a possibilidade de Figo querer prosseguir a carreira em Alvalade.
Sporting&Saudade
Olha que dois
Como qualquer sportinguista que se preze, Sá Pinto e João Vieira Pinto compreendem perfeitamente a atitude de Pedro Silva, na final da Tacinha da Vergonha.
“A frio é fácil analisar. Quando estamos sentados no sofá não temos noção do cansaço e da emoção que se vive dentro do campo. Quem é que nunca cometeu excessos? Quem está lá dentro é que sabe!”, diz JVPinto.
“Se calhar, na minha cabeça, tinha sido 30 ou 50 vezes pior. Logicamente que os jogadores têm responsabilidade perante todos os adeptos, mas é uma grande frustração saber que não se cometeu qualquer tipo de erro e, daí, ser expulso, ainda para mais numa final”, diz Sá Pinto.
Entretanto, o Pedro Silva foi premiado com um cartão de sócio honorário da Juve Leo.
No pasa nada
Sim, a utilização do termo em espanhol é uma referência ao Paulo Bento, mas também a todos os Sportinguistas que foram capazes de olhar o Enxovalho de Munique e dizer-me “epah, acontece. Não viste que o Real Madrid também foi humilhado pelo Liverpool?”. Pois…
Esta é, quanto a mim, a grande questão. Como é possível olhar-se aquele enxovalho, dividido em dois actos, com tal estado de espírito? Fernando Santos por certo diria, “futebol é isto”, mas como pode um adepto que sofre há anos pelas cores leoninas dizer-me coisas como “Foi um dia mau”. “Foi péssimo”. “Correu tudo mal”. “Acontece”.
Acontece, meus amigos. Acontece.
De cada vez que alguém me diz “acontece”, só me dá vontade de ir-lhe aos cornos com uma chuteira artilhada de pitons de alumínio. Mas, o que é que acontece? Levar cinco do Madrid, cinco do Barça, cinco do Bayern e mais sete do Bayern? Ser constantemente enxovalhado? Como é possível encarar-se tudo isto com um encolher de ombros, com uma atitude avestruz ou, simplesmente, esperar que uma noite de sono ajude a minimizar os estragos?
Isto é grave. Muito. E significa que, tal como a direcção, o treinador e os jogadores, muitos adeptos perderam a noção do que significa jogar de leão ao peito e perderam todo o sentido da responsabilidade. E, assim, o Enxovalho de Munique passa a ser algo que faz parte do passado.
Passa a ser um jogo que, tal como foi encarado, servia para cumprir calendário (afinal, o objectivo estava cumprido e esse passava por chegar aos oitavos para ganhar uns trocos).
Passa a ser um dia mau que, dizem, pode ser apagado com uma grande resposta frente ao Rio Ave, esse grande jogo frente a um colosso que vai permitir-nos continuar em busca do título.
Ou, como ontem já se pedia na Academia à saida dos jogadores, passa a ser um dia mau que terá na final da Taça da Liga, essa maravilhosa competição, um bálsamo topo de gama.
É triste. Mais até do que ser enxovalhado e passar a ser o “artolas da Europa que mais golos comeu numa eliminatória da Champions”, é triste sentir que tudo isto vai passar incólume.
No fundo, é como se ouvisse constantemente na minha cabeça as palavras do De Franceschi (esse mesmo), que foi de propósito a Munique ver o jogo, e depois do enxovalho afirmou “O Sporting nunca, mas nunca pode perder assim! Fazer esta figura!”. Depois… depois tento encontrar uma resposta a este pensamento que me parece correcto e a única que encontro vem ao ritmo das sevilhanas. “No Sportén? No Sportén no pasa nada!”
O meu dérbi (aquele que eu não vi)
Ter nove anos, querer ir à bola e não poder, é lixado.
Foi o que me aconteceu, em Dezembro de 1986, mês em que se jogava, precisamente, um Sporting-Benfica.
Como está bom de ver, culpei os meus pais por todos os males do mundo e mais alguns e, para não ter que partilhar o mesmo espaço com tais “criaturas”, agarrei no rádio de bolso e fui para a rua, ignorando os meus amigos lampiões (todos eles eram lampiões, pelo menos os mais chegados).
E foi sentado em cima da casinha onde o jardinheiro guardava as mangueiras, com um inesquecível portão verde garrafa, que fui festejando os golos. 1-0 e depois 2-0, a abrir a segunda parte. O Hugo, quatro anos mais velho, que entretanto tinha ido para casa ouvir o relato porque não acreditava que estava a levar duas batatas, ainda veio à janela feito estúpido (ou feito lampião, como preferirem), gritar o golo do Benfica, mas nessa tarde de Dezembro não voltou a pôr o nariz fora de casa.
3-1, 4-1, 5-1, 6-1, 7-1. O meu pequeno rádio em cores de táxi, verde e preto, pois então, berrava cada golo com toda a força que duas pequenas pilhas lhe permitiam. E eu berrava ainda mais, na direcção dos cinco pequenos lampiões incapazes de esboçarem uma reacção e, muito menos, continuarem a jogar às cartas.
Aquele dérbi, ainda hoje perdura na minha memória.
O dérbi em que um pequeno sportinguista calou uma rua de lampiões.
O dérbi em que o meu irmão, do alto dos seus seis anos, feitos há um mês, percebeu que a equipa mais fixe do mundo era o Sporting e não o Vitória de Setúbal.
O dérbi que eu não vi.
Obrigado, Marcos
Numa altura em que os posts do Cintra e do Douglas apaziguaram as dores de espírito, a minha memória fez-me recuar precisamente à época em que festejámos o fim da abstinência de títulos.
Nessa época 99/00, existia no plantel do Sporting um central brasileiro chamado Marcos que, depois de dar nas vistas no Rio Ave, rumou à Holanda, para jogar no PSV. Pouco ou nada utilizado, Marcos acabaria por chegar ao Sporting, para substituir Marco Aurélio, entretanto vendido no mercado de Inverno. Como está bom de ver, o pobre Mirko Jozic (claramente no meu top 5 de treinadores que passaram por Alvalade) nada ganhou com esta troca e acabámos por ficar em 4º lugar.
Nova época, novo treinador. Chegava Giuseppe Materazzi que, disse ele há uns tempos, quis trazer o filho para Alvalade. Não o deixaram, e o italiano teve que contentar-se com o Marcos, o mesmo que viria a dar a machadada final na curta carreira do Giuseppe pelas bandas de Alvalade ao meter as duas mãos à bola, dentro da área, contribuindo de forma decisiva para aquela vergonhosa derrota na Noruega, contra o Viking (3-0), e consequente eliminação da UEFA.
Materazzi foi corrido e chegou Inácio. O resto, todos nós sabemos de cor.
p.s. – só por curiosidade, no jogo em que Marcos se estreou, frente ao Desportivo de Chaves, alinhámos com a seguinte equipa: Tiago; Patacas, Beto, Marcos e Heinze; Pedro Barbosa, Vidigal e Vinicius; Simão, Krpan e Edmilson, tendo entrado, durante a segunda parte, Santamaria e Acosta. Se com esta verdadeira árvore das patacas acreditávamos no título, não podemos deixar de fazê-lo agora.
Tenho saudades…
Tenho saudades das sras dos autocolantes.
E dos srs a venderem almofadinhas para a bola.
De ver o Paulinho carregar bolas para o campo de treinos.
E de ficar a ver os craques prepararem o jogo seguinte.
De entrar e sair da “nave” as vezes que queria.
De espreitar a porta 10A.
E de esperar a chegada do nosso autocarro, para só depois entrar para o Estádio.
De passar o Tejo para ir ao Estádio, mesmo quando chovia a potes.
E de obrigar o meu pai a levar-me a Campo Maior para ver um jogo numa noite gelada.
De chegar uma hora antes do apito inicial e já só ter lugar sentado nas escadas.
De ver o Estádio de Alvalade cheio de adeptos certos de ver a equipa resolver jogos nos primeiros vinte minutos.
E de sentir os adversários todos borrados por irem jogar a casa do Sporting.
De festejar mais do que três golos no mesmo jogo.
E de não ter que levar com animadores histéricos nem passatempos estúpidos com remates estúpidos para uma baliza ainda mais estúpida.
Das camisolas com riscas verdes mais largas.
E de ver jogos à luz do dia.
Do cartão de sócio tipo passe, com as quotas em papel.
E de fazer colecção de bilhetes.
De ter um verdadeiro número 10.
E de jogar com extremos.
De ter um louco qualquer com nome acabado em ic ou ov, capaz de fazer-me comprar camisolas.
De gostar de todos os nossos jogadores, simplesmente por serem do Sporting.
E de ser capaz de achar que um qualquer João Luís II podia decidir jogos, fosse quem fosse o adversário.
De nunca admitir que o Sporting joga mal.
De ter um presidente que goste de futebol.
E que não queira ser amigo de tripeiros ou lampiões.
De ter uma estrutura para o futebol profissional que proteja o treinador e os jogadores.
E um treinador que arrisque e invente.
De ter as claques a uma só voz na curva sul.
E de identificar-me com a forma de estar de quem gere o clube pelo qual nunca hei-de deixar de sofrer.
Tenho saudades… do meu Sporting!
Sporting&Saudade ( Manoel)
Do hebraico “Deus está connosco”. Manuel(a) gosta de viver em sociedade, de comunicar com os outros, cultivar amizades. Alegre e optimista, de sorriso encantador, o seu sucesso no amor é certo, mas não no casamento pois, apesar de ter horror à solidão, a sua infidelidade compulsiva compromete qualquer união. Enfim, um cafageste salafrário, esse Manoel.
Apesar de não haver registos fotográficos, conta-se que Manoel chegou ao aeroporto de Lisboa sem camisa, em tronco nu. Segundo o próprio, estava um calor danado no Rio de Janeiro… embora bizarra, esta situação foi fortemente atenuada por decorrer o ano de 1975, o ano do Verão quente português. Manoel não quis saber da reforma agrária e muito menos do MFA, Manoel da Silva Costa, homem simples, queria marcar golos, beber umas cervejinhas e transar com umas minina.
Num estilo tosco, mais em força do que em jeito, jogou no Sporting durante 5 temporadas, venceu um campeonato e uma taça de Portugal, marcou 56 golos em 148 jogos. Foi colega de equipa de nomes como Inácio, Laranjeira, Manuel Fernandes, Jordão.
A primeira vez que o vi, marcou 3 golos ao Benfica num jogo da Taça de Portugal, fantástico.
A última vez que o encontrei, estava atrás do balcão e serviu-me uma imperial, foi na discoteca Kremlin, propriedade dos irmãos Rocha, filhos do presidente que o contratou.Tinha, então, terminado a sua decadente carreira futebolística na Sociedade Recreativa Almancilense.
É caso para dizer, Sporting, Saudade & Solidariedade.
Farás para sempre parte do meu imaginário, grande Manoel. Como diz o teu nome, que Deus esteja contigo.
