Garotices

Não há forma, creio, de não estar feliz.
Duas vitórias em quatro horas; uma no Canadá, outra no Estoril. A primeira frente ao campeão Uruguaio (deve valer alguma coisa, digo eu), a segunda frente ao Estoril, um dos representantes nacionais na Liga Europa. A primeira, valendo um enorme sorriso aos nossos emigrantes e um rugido lá por fora; a segunda, valendo a 30ª Taça de Honra, a tal que de «espectacular, ainda bem que recuperaram a competição mais antiga do nosso futebol», passou a rodapé de capas de diários desportivos. Em ambas, um denominador comum: os garotos, como diria o outro, ou, se preferirem, a aposta no ADN do Sporting.

É verdade que temos sido bipolares nesta questão (eu incluído, obviamente), pois tão depressa queremos ver os nossos garotos brilharem e conquistarem, como exigimos a contratação de craques. Depois levamos com Panjic’s desta vida (espero que algum olheiro tenha adorado o penalti e que o leve) e somos obrigados a chegar a uma conclusão: não há volta a dar, é este o caminho. A questão, e que ninguém se esqueça disto, é que este é um caminho que vai ser duro e ao qual só os duros terão capacidade de resposta. É um orgulho ver jogar João Mário, Ponde, Betinho, Esgaio, Chaby, William Carvalho, Fokobo, Nuno Reis, Iuri, entre tantos outros, juntando-os a Rui Patrício, André Martins ou Eric Dier, só para citar alguns nomes. É um prazer ver que há um sentimento, pelo clube, que os liga directamente ao coração do adeptos. Os mesmos que, quando as coisas correrem menos bem, vão ter que escutar esse lado do coração, em vez daquele que os impele a assobiar e a dizer que este ou que aquele são uma valente merda.

Não não, meus caros, não são. E ontem deram mais uma prova disso. Aliás, façamos a seguinte equação: o que é que impede uma equipa, que tem por base um grupo de jogadores que limpou tudo o que havia para limpar ao longo da sua formação, de continuar a somar vitórias quando chega à idade adulta? Trabalho apropriado por parte do treinador; contratações que acrescentem algo à matéria prima; paciência e solidariedade dos adeptos. Esta seria a minha receita sabendo que, como se viu ao longo desta Taça de Honra, o cerco de hienas à espera que tudo corra mal (das arbitragens sem vergonha aos comentários vergonhosos, esteve lá tudo) está mais apertado do que nunca. Meteu-se na cabeça, que este Leão de 107 anos estava moribundo e que seria chacota. Esqueceram-se que o Rampante, é apenas o que guia os Leões mais jovens e todos os que rugem por fora.
Resultado? O Leão, imagine-se, leva para casa o primeiro troféu da época e, lá de longe, chegam ecos de que o trabalho está a dar frutos. E tudo isto com um bando de garotos que, tal como eu, andam aos pulos, sentidos, de cada vez que o Sporting marca um golo.

Gira-discos (porque o estado de alma leonino também se canta)

Com dedicatória especial para o repórter que tentou o trocadilho mais estúpido de que tenho memória e para alguns sportinguistas que ainda devem estar a pensar se podem, ou não, ficar felizes com esta dupla vitória. Vou pôr isto em loop. Sorrir feito parvo. E mais logo, ou amanhã, falamos. Toma, caralho!