Verdes Anos: Os tomates no sítio e outras «estórias»

Belíssima entrevista, repleta de memórias, publicada, hoje, no i. O entrevistado é Domingos Castro, que nos brinda com verdadeiras pérolas!

O Domingos faz parte da nossa memória. No tempo em que só havia dois canais de televisão, estava sempre a aparecer.
Ui, bons tempos esses…

Quanto tempo ficou no Sporting?
Vivi lá 18 anos.

Viveu?
Sim, eu e o Dionísio fomos de Guimarães para o Estádio José Alvalade. Vivíamos lá dentro, no centro de estágio, e convivíamos com uma série de malta. Nem imagina…

Pois não, quantos quartos?
[Faz contas de cabeça em voz alta.] Onze.

E que malta era essa?
Ena pá, tantos, tantos. Começo pelos futebolistas: Futre, Litos, Figo, Fernando Mendes, Venâncio…

Havia de outras modalidades.
Claro que sim. Nós, por exemplo. Os dias eram assim: treino de manhã, almoço, treino à tarde e jantar. Nesses intervalos íamos ver todos os desportos, como boxe, karaté, voleibol, ginástica, hóquei em patins, ciclismo. De repente encontrávamos o António Livramento ou o Joaquim Agostinho.

Assim, sem mais nem menos.
Sim senhor [olha pela janela, como que a reviver todos os encontros]. Uma vez, o Joaquim Agostinho chamou-me: “Ó Domingos, vem cá comer estas caracoletas.”

Ui, grande Agostinho.
[Domingos ri-se e põe a língua de fora em tom de desaprovação.] Não sei se sabe, mas lá em cima, e eu e o Dionísio somos de Guimarães, não se vê caracóis em lado nenhum. Não é um petisco comercial como cá em Lisboa. Bom, o Agostinho está ao lado de uma panela e chama-me. Ele tinha acabado de fazer caracoletas e queria que as provasse. Se dissesse à minha mãe que tinha provado caracoletas, ela caía para o lado. Como era o Agostinho, lá tive de provar. Meti a primeira na boca, mastiguei-a e fiz um sorriso. O Agostinho a olhar para mim. Comi a segunda e depois não quis mais. Não por falta de qualidade, mas por falta de hábito. Ainda hoje não me consigo ver a comer caracoletas [deita a língua para fora novamente].

Livramento, Agostinho, que classe.
E faltam outros. Do ciclismo, dei-me ainda com o Marco Chagas, o Alexandre Ruas, o Emídio Pinto. Repare, ainda apanhei a pista de ciclismo em Alvalade.


Naquele tempo, o Sporting estava todo concentrado nesse espaço. A porta 10A era o sonho de qualquer atleta. Entrávamos ali todos os dias e ficávamos com pele de galinha. Agora lembro-me de uma história engraçada: uma vez saí do estádio, uma pessoa perguntou-me onde era a Rua Francisco Stromp e eu não sabia! A Francisco Stromp é aquela à frente do estádio. Então eu passava lá a vida e não sabia, que vergonha [dito isto, uma palmada na mesa mais uma gargalhada sonora].

Como atleta do Sporting, via os jogos de futebol?
[Faz uma careta, sinal de “pfff, lógico”].

Lembra-se de algum?
Muitos, o 7-1, o 6-3, isto com o Benfica, e o 2-1 ao Barcelona.

É de que ano esse jogo?
[Pensativo.] Acho que 1986/87, Taça UEFA. Perdemos lá 1-0 e cá estamos a ganhar 2-0 até dez minutos do fim [golos de Negrete 40′ e Meade 60′]. Quando nos marcam [Roberto 83′], que desilusão. Não me lembro de alguma vez ter saído do estádio tão desorientado.

Via os jogos onde?
Na bancada da pala. Dormíamos mesmo por debaixo dessa bancada central. Era só subir para os camarotes. Os sócios até faziam questão de nos ver por lá.

Também ia aos jogos fora de Alvalade?
[Faz uma careta como que a dizer “Sporting até ao fim”]. Uma vez fui à Luz. Encostado ao varão da escada, aquilo estava mais cheio que sei lá o quê. Ganhámos 2-1.

E fora de Portugal?
Quando havia tempo também íamos. Lembro-me de uma viagem à Roménia [começa a rir-se descontroladamente com a mão direita na testa].

Timisoara?
Isso, 1990. Tínhamos goleado 7-0 em Alvalade. Na comitiva, além de mim e do Dionísio, o Valentim Loureiro. Mal chega lá dá-nos uma pasta cheia de dinheiro, mas cheia mesmo, deste tamanho [e faz questão de a medir com as duas mãos em cima da secretária; garanto, era grande mesmo].


Bem, fomos às compras e não havia nada para comprar. A revolução que derrubou o regime do Ceausescu tinha sido em Dezembro do ano anterior. Começara até em Timisoara, pelo que ainda havia marcas de tiros nas paredes dos prédios e a cidade estava vazia. Só para ver, não havia nada nas lojas dos centros comerciais. Além de que aquele dinheiro não valia nada. Ou seja, tínhamos uma mala cheia de nada. Eu não consegui comprar nada e o Dionísio contentou-se com um lagarto de madeira [lá vêm as gargalhadas sonoras, com a mão a bater na mesa… de madeira].

E mais?
Mais? No dia do jogo, vamos para a bancada de imprensa.

Vamos?
Era aí que queria chegar. A disposição táctica é a seguinte: Dionísio, Marinho Peres e eu.

Marinho Peres, o treinador?
Exacto, ele estava suspenso, por ter feito um manguito aos adeptos do Malines na primeira eliminatória. A propósito, também fui à Bélgica ver esse 2-2. O guarda-redes deles era o Preud’homme. Mas vá, voltamos a Timisoara. O Marinho Peres está no meio de nós, eles fazem o 1-0, depois o 2-0. O Marinho vira-se para o Dionísio e diz-lhe “vai lá abaixo dizer para entrar o Luisinho”. Lembra-se do Luisinho? Que classe. Ele estava no banco. Entrou na segunda parte e não houve mais golos.


Espera aí, lembrei-me agora de outra bem boa. Ainda Timisoara. No jantar de despedida, no Hotel Continental, sabe o que aconteceu aos instrumentos da banda que estava a tocar?

Não faço ideia.
O presidente [Sousa Cintra] comprou tudo, de um momento para o outro!

E falar de atletismo, que é bom?
Também pode ser.

É o organizador da Meia Maratona de Luanda.
Vou hoje para lá, fazer os preparativos. O percurso é propício. É todo plano, do porto [de Luanda] à ponta da ilha [do Cabo]. Há estradas novas e uma paisagem encantadora. Só esperamos que o tempo nos ajude e a temperatura não esteja alta a 1 de Setembro.

Quantos atletas?
Estabelecemos um limite de 300. Vinte deles de ponta, com contrato assinado. Há prémios bons para os dez primeiros.

E se alguém bater o recorde mundial?
O recorde é 58 minutos e 23 segundos, de Tadese, da Eritreia, estabelecido em Lisboa há três anos. Se o baterem, o vencedor ganha 100 mil dólares [75 mil euros].

No seu tempo também era assim?
Sim, também eram tentadores.

Alguma vez ganhou?
Já [ups, gargalhadas; lá vem história]. Uma vez, o Gebrselassie bateu o recorde dos 10 mil metros em Oslo. Queria dar-me uma volta de avanço, isso é que era bom. Comecei a correr, a correr, a correr, ele sempre no meu pé e os organizadores a dizerem-me repetidamente Domingos out.

Porquê?
São proibidas lebres, atletas que puxem por outros. É uma prática comum, mas não era o caso, claro. Então continuei a correr até cortar a meta. Resultado: o Gebrselassie bateu o recorde do mundo.

Foi medalha de prata nos Mundiais-87 em Roma. Como foi?
Ainda hoje tenho esse dia aqui [aponta para a cabeça]. Antes da prova, eu e o Dionísio íamos a entrar para o estádio quando o Moniz Pereira [treinador] se separou de nós em direcção à bancada. De repente, menos de um minuto depois, vejo-o a vir ter comigo e diz-me só isto “hoje é o teu dia, tomates no sítio”. Ganhei a prata.

Atrás de quem?
Said Aouita, Marrocos. Uma jóia de pessoa.

No ano seguinte, Olímpicos de Seul.
Fui a quatro Jogos Olímpicos e essa aldeia olímpica foi a melhor de todas. Estávamos todos concentrados naquele espaço e divertíamo-nos sempre. O problema foi que não cheguei ao fim.

Então?
Fiquei em quarto lugar nos 5000 metros, mas ia em segundo na última curva. Chorei como um bebé [volta a olhar pela janela, com nostalgia] e tive de me ir embora nesse dia. O Comité Olímpico conseguiu-me um voo para Portugal.


Mas aquilo era malta fixe, impecável. Almoçávamos todos juntos, dávamo-nos muito bem. Todos, sem excepção. Lembra-se daquele cubano, Sotomayor, do salto em comprimento?

Sim.
Cada vez que o via chamava-lhe Banco Pinto e Sotto Mayor. Às tantas já era ele que me dizia isso [mais risos].

Verdes Anos: A primeira de ouro veio ao pescoço de um Leão

Tinha sete anos e jamais me esqueci. Enquanto tentava perceber o porquê de estar a decorrer uma corrida num horário completamente diferente do nosso, tentava, também, perceber o estado de espírito dos adultos. Uma televisão ligada, uma mesa com comida e bebidas, duas mãos cheias de adultos impacientes, vendo outros adultos a correr. Carlos Lopes, Carlos Lopes, Carlos Lopes. O nome ia-se repetindo e os meus olhos decoravam aquela figura magra que não parava de correr. Disseram-me que era Portugal que ali corria. «O teu país, o nosso país». «E o Sporting?», perguntei eu. Alguém me disse, meio de raspão, que aquilo não era futebol, mas que o Carlos Lopes era do Sporting.
Depois vieram brindes e sorrisos. Adultos felizes, partilhando comigo uma alegria que eu sorvia ao ritmo de um Capri-Sonne. Portugal. Sporting. Sporting. Portugal. Carlos Lopes. O hino! O hino! Adultos ainda mais felizes, alguns de lágrimas no olhos. Adormeci tarde, mas acordei cedo. E numa manhã daqueles agostos que eram parte de férias de três meses, corri para a rua sem a bola debaixo do braço.

Verdes Anos: Carvalho – não há amor como o primeiro!

carvalho e damas

 

Carvalho – não há amor como o primeiro!, by manel

Carvalho foi o titular da baliza do Sporting ao longo de quase toda a década de 1960. Provavelmente o seu valor ainda não foi totalmente reconhecido, pois está entalado entre dois guarda-redes míticos: Carlos Gomes, antes, e Vítor Damas, depois. No entanto, Carvalho foi um extraordinário guarda-redes na linha do que era tradicional no clube de Alvalade. A colecção Ídolos do Desporto intitulou-o de “Homem tranquilo” do Sporting, mas os companheiros de equipa chamavam-lhe “Cavalo” tal era impetuosidade com que saía da baliza. Adversários e colegas experimentaram aquele rolo compressor que nada temia e que se impunha na luta dentro da grande área. O entusiasmo que colocava no jogo era de tal ordem que não hesitava em empurrar violentamente os defesas do Sporting para a frente. Conta a lenda que na finalíssima com o MTK esbofeteou o Pérides porque este hesitou numa bola dividida. No final do jogo com o Varzim, que sagrou o Sporting campeão nacional em 1965-66, Carvalho desfaleceu com a emoção.

Nesse tempo, o Sporting jogava em 4-3-3 com “notas” do 4-2-4. Jogadores da linha média como Osvaldo Siva, Ferreira Pinto ou Peres incorporavam-se no ataque, tornando a equipa bastante ofensiva e espectacular. Era fundamental ter um guarda-redes assim. Mas entre os postes também era extremamente competente. Há imagens televisivas de jogos com o Benfica ou o Porto que revelam que Carvalho, apesar da sua invulgar compleição física, era felino a reagir aos remates de curta distância.
Por essa altura os quatro “grandes” possuíam guarda-redes com categoria semelhante: Carvalho, Costa Pereira (Benfica), José Pereira (Belenenses) e Américo (F. C. Porto). Eu não tinha dúvidas, o melhor de todos era Carvalho. No rádio ouvia nas tardes de domingo os relatos de futebol. As descrições do jogo eram de tal forma minuciosas que eu o visualisava vestido de negro defendendo com heroicidade a baliza leonina. Não era por ali que a coisa dava para o torto.

Num dos últimos dias de dezembro de 1967, pela primeira vez, entrei no Estádio de Alvalade e, pela mão de um tio, instalei-me no velho peão que rebentava pelas costuras. Apesar de ainda ser um puto, fi-lo com a solenidade de quem entra numa catedral. Pudera, até aí não tinha passado do S. Luís, do Sporting Farense. Logo na minha estreia para um derby com o Benfica. E, finalmente, Carvalho estava ali ao alcance do meu olhar. Para tudo ser perfeito, o Sporting venceu por 3-1!
Nesse jogo, a realização de um sonho, Carvalho confirmou todo o seu esplendor como guarda-redes!
Eu não sabia, mas aquela seria a última época de Carvalho como titular da baliza sportinguista. Um jovem turco chamado Vítor Damas, no banco dos suplentes, espreitava o futuro. É conhecida a fotografia em que de uma forma fraterna e protectora Carvalho pousa a mão no ombro de Damas. A passagem do testemunho. Um Leão!
Depois, ao longo do tempo, grandes guarda-redes defenderam a baliza do Sporting. Mas, como é sabido, não há amor como o primeiro!

Verdes Anos: O Stradivarius

Verdes Anos: O Stradivarius, by Pachota *

Único, sublime, desejável e mais uns quantos adjectivos que aqui caberiam, servem para caracterizar o violino de que escrevo. Como o instrumento acima mencionado, este Homem entretanto já falecido, era (e é), visto como uma peça rara, de fino recorte e com características que mais nenhum conseguiu até hoje, no panorama desportivo nacional geral !
Conseguiu chegar ao mais alto nível em simultâneo em dois desportos tão diferentes, que me arrisco a dizer que além de ser um “case study” que devia ser objecto de estudo em vários cursos universitários, a fasquia dos seus feitos é demasiado elevada para o nosso cantinho à beira-mar plantado.

“Entre dois amores – Memórias de Jesus Correia”, escrito por Vitor Santos numa reedição (não comercial) da Câmara Municipal de Oeiras foi o livro que acabo de ler e me levou a enviar esta prosa para o Cacifo e para os cacifeiros se for publicada, digo-vos que durante a leitura, senti algumas vezes o orgulho à flor da pele, de ser adepto do Sporting Clube de Portugal tal é a dimensão dos feitos e dos números que o Jesus Correia atingiu quer como atleta do nosso clube, quer como atleta do Paço de Arcos e nas selecções . Atenção que o Homem pelo meio ainda tinha emprego no Armazém do Grémio, para a quase totalidade dos nossos atletas profissionais devia ser-lhes dada a conhecer esta façanha, talvez alguns aprendessem a ser mais humildes para com o clube, enfim eram outros tempos e outras gentes …
Aconselho vivamente a sua leitura como é obvio, o livro está disponível nas bibliotecas municipais de Oeiras, leiam e divulguem os seus feitos engrandecendo assim o nosso Clube e contribuindo para que o nosso fabuloso passado não se dilua na neblusidade do presente (fosca-se onde é que eu li isto!), salvaguardando em simultâneo o futuro (que esperemos nós ), nos traga mais jornadas de sucesso .

“Raras são as figuras do desporto que conseguem ascender ao primeiro plano e tornar-se figuras populares em duas modalidades distintas. Jesus Correia é um dos poucos atletas que realizaram tal proeza e teve a felicidade de se dedicar precisamente aos dois desportos que maior voga conhecem em Portugal: o futebol e o hoquei em patins! Conseguiu ser um ídolo de multidões em qualquer um desses desportos, conquistando um popularidade plenamente justificada pelos seus méritos de atleta excepcional.” Pelo Tenente-Coronel Ribeiro dos Reis.

Um abraço para todos os Cacifeiros
Pachota

*Verdes Anos é a prateleira do Cacifo onde os leitores arrumam as memórias mais antigas do nosso Sporting.
Envia o teu texto para ocacifodopaulinho@gmail.com

Verdes Anos: Corre, Mamede! Corre!

Ontem, os cacifeiros escolheram o nome desta nova rubrica. Hoje, sou atropelado por uma proposta de post que não vai tão ao fundo do Cacifo, mas que encaixa neste desfilar de enormes memórias. E, logo de seguida, salta um comentário que me apetece transformar em post (só o título é que é meu).

Corre, Mamede! Corre!, by RugidoVerde, com ideia de Hic Svnt Leones e título de Cherba

E que puta de corrida fez o Mamede nesse dia!! Tinha 10 anos e lembro-me como se fosse hoje!!!!
Sempre em alto ritmo (O Carlos Lopes trabalhou para o Mamede durante toda a corrida) e depois à entra para a última volta o Mamede “fresquinho” ultrapassa o Carlos Lopes como se estivesse a correr os 800m!!
Alucinante!
Agora era o Carlos Lopes a tentar aproveitar a boleia do Mamede, mas já estava todo roto. Aliás acho que não me lembro de ver o Carlos Lopes alguma vez assim tão esbaforido no final de uma corrida. Mesmo assim o seu esforço foi compensado com o 2º melhor tempo de sempre mas a 4 segundos do Mamede, o que diz tudo!!!

Eu que aos 10 anos já era um leão fanático, delirei: dobradinha para o Sporting com ambos a baterem o recorde do Mundo?!?!? Melhor era impossível!!
No final, o sentido abraço entre o Carlos Lopes, o Mamede e o Moniz Pereira é de levar qualquer leão às lágrimas!


nota: Fernando Mamede bateu o recorde do Mundo e da Europa dos 10 000 metros em Estocolmo, com a marca de 27.13,81 minutos. Foi uma jornada gloriosa para o Sporting, porque o segundo classificado da prova foi o também sportinguista Carlos Lopes, com 27.17,48 minutos, então a segunda melhor marca mundial de sempre. A marca de Mamede foi recorde do Mundo durante cinco anos e da Europa durante 15 anos.

Permitam-me completar o ramalhete com esta aceleração impressionante!!!