Sucessão – O Treinador

Não creio que o nome do treinador seja, por si só, um assunto vital. Definir o perfil, sim. Arrumar a casa primeiro, claro. Varrer a merda toda, evidentemente. Depois da aventura Carvalhal, que quase toda a gente já sabia não ter mãos para tamanha empreitada, é necessário escolher. Existem duas opções:

Treinador “Cromo” –  Um verdadeiro rato de laboratório, preocupado única e exclusivamente com o rendimento desportivo da equipa. Em sintonia com a Direcção. Pode ser estrangeiro ou português. De preferência sem os tiques e manias do futebol nacional. Um tipo duro com conhecimentos contrastados e curriculum à prova de bala para não ser queimado por qualquer Liedson desta vida. Só poderá resultar se antes a estrutura for devidamente parametrizada. Necessita o apoio de um bom Director Desportivo que blinde o balneário e que crie a sensação de família. Precisa que o trabalho de casa da pessoa que coordena o mercado seja feito a tempo e horas e com critério. Confeccionar um plantel competitivo é crucial. E depois, deve olhar para cima e ver um Presidente solidário que defenda institucionalmente o clube. A missão deste tipo de treinador fica confinado ao futebol da equipa. Não contem com este treinador para gerir situações em que depois de uma vitória se depare com um balneário em pé de guerra onde o Director Desportivo ande à bofetada com o melhor jogador. No fundo, o clássico treinador à Porto. Entra com a máquina bem oleada e só se preocupa com o que tem que fazer. Se for razoavelmente bom, é meio caminho andado para o sucesso. É a minha opção preferida mas de execução inviável no contexto actual. Quanto a nomes, já se sabe não custa sonhar. Mas dentro das possibilidades económicas do Sporting, até pode ser um André Villas Boas (não porque tenha provado especialmente nada mas porque acredito que os melhores nesta profissão bebem da experiência dos melhores), ou já com provas dadas (muito mais do que o Carvalhal) como são, por exemplo, um Domingos Paciência, um Jesualdo Ferreira ou um Manuel Machado. Estrangeiro, seria melhor. Ernesto Valverde, Dick Advocaat, Michael Laudrup. Boloni não, por favor.

Treinador “Segurança” – O famoso costas largas. Num mundo perfeito seria um mestre das ardósias e dos desenhos tácticos. No momento actual e para a realidade portuguesa basta o resto. A personalidade envolvente e aglutinadora poderiam compensar as carências conceptuais relacionadas com o jogo. É o típico sobrevivente mesmo quando nada no lodo. No fundo, seria uma espécie de Paulo Bento mas numa versão revista e melhorada. O seu magnetismo e força dentro do futebol seriam tão impressionantes que disfarçariam a inexistência de um departamento de prospecção, um líder de mercado e um Presidente como Deus manda. É pau para toda a obra. Conhece o mercado, rodeia-se de agentes influentes, compra guerras com quem entende. A política de comunicação do clube é da sua responsabilidade. Mas, acima de tudo, é um terapeuta. Um Psicólogo. Junta os jogadores. Faz acreditar o plantel numa causa. Luta e faz lutar todos até à morte por um objectivo. Na sua versão mais perfeita e completa, é o Mourinho. Um treinador Estrela maior do que o clube. Na versão do Sporting para mim só tem um rosto. Luiz Felipe Scolari.

Importa, portanto, definir o perfil pretendido e começar a preparar a época. Escolha-se agora. Para que em Maio se prepare tudo com tempo. Que o serviço funerário arranque. A sentença de morte do treinador está assinada. Alguns jogadores também têm os dias contados. É o momento de cortar com o passado e avançar sem medo do futuro.

P.S. – Relativamente à opção Manuel José, tenho as minhas dúvidas. O seu nome remete para uma ideia romântica do futebol. É o 7-1 ao Benfica, o ataque com o Ralph Meade, as épicas noites europeias e a frustração de nunca ter tido a real possibilidade de mostrar o que vale com armas a sério. Mas para mim também é o insucesso no Sporting e a experiência totalmente falhada num Benfica à deriva. A verdade é que a nossa realidade não dista assim tanto desse Benfica de Paulo Nunes e Donizete. Eu gosto do Manuel José. Acho que é um treinador mais do que competente para o futebol em Portugal. Não sei é se o Manuel José não é apenas carne para canhão se o modelo para o futebol continuar a ser este.