Sem luvas

Chama-se Ricardo, tem uma voz esquisita e há quem lhe chame “labreca”.
Em pequeno, como tantos outros rapazes, decidiu que queria ser jogador de futebol, acabando por chegar ao Sporting Clube de Portugal e à Selecção portuguesa.

Em 2004, numa manifestação máxima da sua auto-estima, Ricardo tirou as luvas para defender um penalti. Em plenos quartos-de-final de um Euro, num Portugal x Inglaterra que tinha ido para penaltis empatado 2-2, o Labreca (digam lá isto com voz de de Ricardo) lembrou-se de fazer tal coisa, defendeu o penalti e Portugal rumou às meias-finais, ou seja, esta controversa personagem acaba por ser figura maior num dos cinco jogos mais marcantes que vi ao vivo.

Pese esse momento e um outro jogo épico, novamente frente à Inglaterra, sempre tive a sensação que o tal do Ricardo só era titular da selecção porque o Scolaria gostava dele. Tanto, que até se esqueceu da final com a Grécia e ainda tivemos que levar com ele de olhos fechados contra a Alemanha, já este ano. Acontece que o Scolari, o tal que é muito amigo do seu amigo e adora bancos, foi para Londres a troco da reforma que nunca sonhou ter, sendo o seu lugar ocupado por Carlos Queiroz, curiosamente vindo de terras de sua majestade com a reforma mais do que assegurada.

Ora então, agora que o Queiroz anuncia a sua primeira convocatória, o pobre do Ricardo fica de fora, confirmando aquilo que muitos de nós já esperávamos. Já estou a imaginá-lo a choramingar, algures numa esplanada em Sevilha onde, curiosamente, corre o risco de passar a época no banco do Bétis local.
No fundo, sem amigos, se quiser voltar a vestir a camisola da Selecção nacional o Ricardo vai ter que fazê-lo sem luvas.  Numa qualquer bancada ou camarote, tentando fazer voz grossa quando, vítima do o seu problema de vista que tanto o atrapalha nas saídas, imaginar que a bola rematada do pontapé de baliza vem na sua direcção e gritar, de olhos fechados, “minha!”.

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