Faltam menos de 24 horas para a estreia de Carlos Carvalhal como treinador do Sporting. Parece-me, por isso, chegado o momento de encerrar o meu silêncio neste blogue sobre o rosto do “pós-Paulo Bento”. Podia deixar-me estar, ver o que a coisa dá, esperar, inclusive, pelo derby, e só depois emitir os primeiros esboços de opinião. Mas não me parece justo. Prefiro pôr a cabeça no cepo e sujeitar-me ao julgamento dos cacifeiros que nos acompanham. Escrevo, por assim dizer, para memória futura: este é o ponto de partida para a evolução das minhas ideias sobre quem nos treina. E assumo sem problemas que espero, daqui a uns meses, reler este post e dizer, de peito cheio, “que besta que eu fui”. Oxalá.
Ponto um: não simpatizo por aí além com Carvalhal. Tecnicamente não o acho mau. Não penso que seja um fora-de-série, mas está longe de ser um daqueles treinadores horríveis que me envergonharia por estar no Sporting. É minimamente competente, não tem uma figura alarve ou patética, tem um discurso mais ou menos articulado e alguma ideias interessantes. Mas, admito, não simpatizo particularmente com a figura. Sim, é certo que nunca o vi a saltar vedações nas vitórias. Mas se virmos que as vitórias não foram assim tantas e se interpretarmos essa referência como uma metáfora, as 317 entrevistas que ele deu na semana a seguir ao triunfo na Taça da Liga (além de um patético artigo de opinião n’A Bola com um título do género “como eu desmontei a táctica do Sporting”) também podem ajudar a desmontar um pouco essa sobriedade que ele agora apregoa. Mas isto são pormenores. E subjectivos. O facto é apenas um e é problema meu: não simpatizo particularmente com o novo treinador do Sporting. Isso custa-me. Mas estou, desde domingo passado, de coração aberto para mudar de ideias. E – escusado será dizer – terá o meu apoio incondicional. Assim o mereça. Se consegui achar que Octávio Machado ou Robert Waseige não eram “assim tão maus” (ai o futebol, o futebol), acredito que Carvalhal não terá de fazer um grande esforço para ter-me como grande defensor numa qualquer conversa de circunstância com lampiões ou tripeiros.
Ponto dois: tenho dúvidas sobre o acerto da escolha de Carvalhal. Não me refiro ao passado recente, aos momentos baixos da sua carreira, aos sucessivos projectos que acabaram em chicotadas. Isso acontece a todos e depende sempre de um vasto conjunto de variáveis. Falo de coisas mais importantes: acho que precisávamos de outro tipo de treinador, com mais calo e mais experiência. E também, se possível, “menos português”, no sentido de estar mais alheado da realidadezinha do nosso futebol e mais liberto dos “estatutos” do balneário do Sporting. Mais do que um 4×4x2 em linha, um 4×2x3×1 ou um 4×3x3, o futebol do nosso clube precisa, claramente, de um novo ar. Talvez, mesmo, de uma forte corrente de ar, uma ventania que arejasse mentes e virasse do avesso os vícios, rotinas e manhas que naturalmente se instalam durante um reinado de quatro anos. Dou a Carvalhal o benefício da dúvida. Espero que consiga ter sucesso nessa tarefa. Mas temo que a sua condição de novato nestas lides, com este grau de exigência, impacto mediático e pressão de adeptos, possa jogar contra ele. O facto de ter sido uma segunda (ou terceira? ou quarta?) escolha não ajuda. E vai ser decisiva a capacidade de ter, ou não, os jogadores a seu lado. Se “conquistar” o balneário a coisa pode correr bem. Se não o “conquistar” o cenário será outro. Um daqueles que recuso sequer aflorar aqui. Obrigo-me a ser optimista.
Ponto três: fica também a dúvida sobre a estratégia de longo prazo inerente a esta escolha. Carvalhal vem por seis meses. Se correr bem continua, se correr mal vai embora. Ou seja, Carvalhal é uma espécie de aspirina para uma gripe que está na iminência de resvalar para pneumonia. O que acho que não faz sentido. Sobretudo porque, como que por artes mágicas, agora aparecem “sete ou oito milhões de euros” para reforçar a equipa em Janeiro. Para “posições chave” que, deduzo, tenham sido definidas por Carvalhal. E já correm nomes que, deduzo, também venham a ser definidos ou subscritos por Carvalhal. Como o Edinho (enfim…) que ele treinou no Setúbal. Em teoria faz sentido: é ele o treinador, é ele quem vai escolher a táctica, é ele quem deve montar a equipa. Mas, na prática, a estratégia pode ter uma brecha enorme: não seria mais avisado encarar o mercado de Janeiro já com um olho no ano seguinte? Não seria melhor começar já uma gradual “limpeza de balneário” e iniciar um necessário upgrade de qualidade? Danny por seis meses? Quarema por seis meses? Já não basta o Carvalhal por seis meses? E depois desses seis meses? Voltamos à estaca zero? Ou a estratégia é apostar as fichas todos num cavalo e cruzar os dedos para que corra bem? Ou seja, a ideia que fica é que tudo foi gerido numa perspectiva conjuntural e não estrutural.
Em resumo: tenho dúvidas. Sobre Carvalhal e sobre a forma como foi pensada e preparada a estratégia para o que sobra desta época. E, mais ainda, para o resto da vida do clube. É óbvio que ainda há muito para jogar e para ganhar este ano. Não tenham dúvidas que o meu lado de adepto irracional acredita piamente que é possível não apenas ganhar a Taça da Liga, a Taça de Portugal e a Liga Europa, mas também recuperar a distância para o primeiro lugar no campeonato, fazer uma série de jogos inolvidáveis, galgar lugares atrás de lugares e terminar a época no Marquês a festejar o título e a queimar o portátil em que agora escrevo esta merda. Não tenho dúvidas de que isso pode acontecer. MESMO. Já dizia o outro que “o futebol é isto”. E vou, claro, torcer para que assim seja. Em todos os jogos, em todas as conversas, vou acreditar que o Carvalhal é o melhor do Mundo e que os nossos jogadores, como sempre, são os melhores e os mais bonitos. O problema é que há também um lado racional alimentado a cepticismo. E que teima em não conseguir encontrar bases para sustentar esse optimismo acéfalo que tanta falta me faz. Por isso ponho-me, a partir de hoje, nas mãos de Carvalhal. E fico à espera que ele me prove, preto no branco, que eu não percebo um caralho de futebol. Força homem! A partir de amanhã, com os Pescadores, a tua felicidade será a minha felicidade. Boa sorte!