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it’s cacifo do paulinho!

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Ela é linda

Foi amor à primeira vista.

Vínhamos de uma relação falhada, frustrada, traumática. Tínhamos sido mal tratados, estávamos doridos, feridos. Tínhamos problemas de autoconfiança, uma crise de amor próprio e vulneráveis emocionalmente. Ela apareceu do nada, naquele jeito despreocupado, ignorando o nosso passado. A mera visão da beleza prometida fez-nos apaixonados, irracionalmente.

As primeiras trocas de olhares, os encontros fortuitamente planeados, a pré-época da nossa relação, foi culminada com a primeira noite. Mágica, intensa, tão inesquecível quanto inesperada, apesar dos nervos. O fuso horário tornou tudo mais especial. E, entretanto, ela continuava a juntar argumentos, continuava a olhar de volta, sempre com novos brilhos, novas promessas.

Voltámos a casa e caímos no chão. Ela não estava a cumprir o que tinha prometido. Mostrava os mesmos defeitos da anterior paixão dolorosa. Parecia tudo igual, demorava a consumar o que prometia, tinha problemas de saúde, como a outra, tinha defeitos, os mesmos que a outra. Seria ela ou seríamos nós? Estaríamos a projectar os nossos traumas nela? O problema se calhar era nosso.

E de repente, numa noite avulsa, ela voltou. Contra todas as probabilidades, o encanto voltou. Do caos fez-se luz. As discussões, as gritarias, os choros, a raiva – naturais quando dois seres tentam compatibilizar-se à pressa, sob intensa pressão – ameaçavam tudo. Mas uma superior necessidade de sobreviver, de fazer bem, de escapar ao destino, transformou-a. Primeiro com sofrimento, com suor e lágrima, depois com confiança, com ego, agora com encanto, com magia.

Estamos apaixonados. Ela é linda.

Estamos empurrados por um “segundo vento”. O cabelo cheira bem, o torso é renascentista, as pernas fortes mas elegantes, tem uma personalidade especial, ri como nenhuma outra, das coisas certas, pensa, fala e escreve como os melhores poetas e filósofos. E é prática. Humanamente prática. Eficaz, tem noção das suas próprias limitações, mas contorna-as com sentido de humor e uma frieza nórdica. E a cara, deuses… baby face… killer.

Van Wolfswinkel. Explica o encanto. É a primeira coisa que se vê nela. A cabeça. Diego Capel. Vê-la mexer-se assim, aquele gingar, aquela pose, dá-mos um arrepio pela espinha. Elias. As pernas. Longas, lindas, vitais. Schaars. A personalidade, o carisma. Rinaudo. A paixão, o coração. Onyewu. A força, a imponência de um corpo olímpico. Matigol, a magia, a poesia. Carrillo. O ego. O id. O superego. Insúa, o pragmatismo, o realismo. Rodriguez, a maturidade. João Pereira, a inconsciência. Bojinov, a paixão. Jeffren, a  promessa de uma vida constante em comum.

Ela é linda e estamos loucamente apaixonados. Cada noite em casa é tão inesquecível quanto a ressaca do dia seguinte é desestabilizadora. Escrevemos o nome dela nos cadernos, cravamos as árvores com os nossos nomes, contamos os minutos até à próxima noite. Fora de casa, o sentido de aventura aumenta os níveis de adrenalina e destrói-nos o resto da vida pessoal.

O prazer de viver com ela é ininterrupto. Mas é finito. Em breve, acabar-se-á a paixão. Seremos confrontados com os seus defeitos. A vida em comum é isso mesmo. Teremos de aprender a viver com as curvas que a vida dá, que o futebol dá, aprender a não descarrilar, juntos. Temos de passar por cima das contrariedades, saltar ao mesmo tempo, aguentar as oscilações hormonais, os buracos negros da química que agora é tudo. A nossa paixão, hoje, é um treino. É um enraizamento para nos preparar, para nos segurar no meio das tempestades que se avizinham. Nestes momentos de encantamento, temos de estar conscientes que estamos a trabalhar-nos para o futuro, a esculpir a cumplicidade que nos fará sobreviver a todas as crises e a todos os nossos inimigos.

Antes de melhorar, vamos piorar. Vamos cair outra vez. E vamos levantar-nos, olhos nos olhos, à procura da velha paixão que nos consome agora e que nos salvará depois. Só então estaremos preparados para fazermos algo juntos, que ficará para sempre, para a história, a nossa e a dos outros. O filho da nossa paixão demorará o seu tempo, mas se nos lembrarmos de como ela era linda quando a conhecemos, como ela é linda agora, como ela pode ser linda sempre, mesmo quando não parece, esse filho chegará, custe o que custar, demore o que demorar. Se da paixão se fizer amor, seremos campeões!

 Sporting!

PS: Este é o meu último texto no Cacifo. Oficializo assim a saída que já era oficiosa. Faço-o por muitas razões que não interessa explicar. O Cacifo fica em boas mãos. Sem mais. “Douglas is dead, long live o Cacifo!”

Crítica da Razão Pura

Acabou o treino. Agora vai ser a sério. Chegados aqui, ficaram-me vislumbres de coisas. Serão reais? Para mim são. Porque para mim é clara a resposta à questão fundadora da obra de Kant: “quais são os mal-entendidos e as ilusões que podem insinuar-nos nos raciocínios cuja premissa maior é extraída da razão pura (premissa que talvez seja mais uma petição que um postulado) e que se elevam da experiência a essas condições?”

Peticionemos então:

Marcelo Boeck: Vi um guarda-redes bem parecido. Bonito até. De sorriso brasileiro, mas com aparência nórdica, capaz de nos convencer que pode ser má ideia organizar a próxima AG numa ilha norueguesa. Os reflexos estão lá e podem ser-nos úteis se tivermos de arrumar a loiça ainda quente, acabada de lavar na máquina. O potencial de marketing é ilimitado, tendo especialmente em conta o nosso patrocinador Super Boeck.

Atila Turan: A imaginação é pouca para a utilização de um jogador cujo primeiro nome é Atila. Gostei dos carrinhos a antecipar a recepção de bola do adversário. Chamam-se carrinhos orientados. O Barcelona já nos disse que Atila era bom. Mas quem viu aquele pontapé a 40 metros não precisava desse carimbo de validação. Participou na insolvência do seu anterior clube, o que só reforça o papel que pode ter na renegociação do passivo bancário do Sporting.

Oguchi Onyewu: Um homem entre meninos. Um estivador. Um primeiro nome japonês, um segundo nome nigeriano, força bruta, ombros largos, pés grandes, cabeça dura. Dá vontade de apertar os bíceps. É componente essencial do binómio Bud Spencer-Terrence Hill do novo Sporting, sendo o Terrence Hill qualquer jogador que agrida um adversário e o Bud Spencer o calmeirão que assegura que o Rinaudo não sofre represálias. Morato socorreu-se de uma expressão brasileira para falar do amaricano, segundo a qual “a bola é feita de pele de vaca, a vaca come erva e a bola é para jogar pelo chão”. Errou. Porque com Onyewu a vaca fica no chão, pouco importa a bola. E, na minha lógica, é a vaca que dá leite, não é a bola.

Alberto Rodriguez: O mudo. Com mais dez centímetros e estava no Porto. O que diz tudo. Em qualquer luta de gangs sul-americanos há sempre um elemento que se guarda para o fim da batalha, quando os músculos já doem e o fôlego escasseia, e aparece sem aviso para espetar a faca no baço do líder do outro gang, arrumando de vez com uma guerra fraticida. Esse elemento no Sporting é o Rodriguez.

Santiago Arias: A pré-época está a ser feita ao mais alto nível, num mundial. E, até agora, tudo o que fez, fez com grande classe. Marca golos, sofre penalties, tira fotografias com o James Rodriguez. E já se fala no interesse dos grandes italianos. Se não vestir a camisola verde-e-branca, representará a maior venda do clube desde o Veloso.

Fito Rinaudo: Rinaudo merece a Razão Pura. Emociona-me. Partilho uma confidência: vi o jogo contra a Udinese quase de madrugada, cansado, fisica e mentalmente. Em diferido. Distante do mundo real. Vi o jogo como se de uma fábula se tratasse. Cada carrinho em esforço, cada salto indignado com o árbitro, cada corrida de perna aberta em posse, cada imagem dos calções arregaçados, o look menino do coro, a agressividade terrorista, os passes teleguiados, o abraço de festejo… O Rinaudo entrou fundo no meu coração. Estou encantado, enfeitiçado. Quero-o no topo do mundo e que, para chegar lá, nos carregue às costas. Desgostoso, traído pelo resultado, “estava em campo” apenas pela minha fé. Já não me apetecia mais aquilo. E o Rinaudo deu-me uma lição: no minuto 89 a câmera mostra-o ofegante, exausto, com um olhar vítrio. Está rebentado, pensei; Minuto 90: Sprint em esforço para impedir em carrinho o remate frontal do quarto golo do adversário; minuto 92: sprint com a bola até um beco sem saída junto à linha final, onde conquista o penalty que atenuava a dor e devolvia algum orgulho. Eu já tinha desistido no meu sofá. Ele não, no relvado. Quero a camisola do Rinaudo como nunca quis a de um jogador tão cedo na época.

Stijn Schaars: É o Vermeer do meio campo leonino: a beleza está na simplicidade, a elegância está no traço. As párabolas dos seus cantos trazem à memória as trajectórias dos mísseis aéreos mais certeiros. A míriade de erros de pronunciação do seu nome é, ela própria, um sintoma do arsenal caleidoscópico das suas aptidões futebolísticas. Está para os centrocampistas como o Nivea Bálsamo está para os after-shaves… onde os outros picam, ele acalma, suaviza e hidrata. Não se pode pedir mais de um centrocampista carismático.

Luís Aguiar: zangado, quando vejo Aguiar penso em alguém que foi aos estúdios da RTP para se candidar a um emprego na informática e acabou na audiência da Praça da Alegria a ouvir receitas de Bacalhau à Brás. O homem está fodido. E está numa missão: arranjar no Sporting razões para sorrir. Não há melhor desígnio, na perspectiva de um adepto. Que sorria um dia, é tudo o que desejo a Luís Aguiar.

Diego Capel: Vai levantar o estádio. Isso é garantido. “Os mercados já descontaram” esse efeito de Capel nos sócios do Sporting. A perspectiva de ver um novo “mochilas”, a meter mudanças enquanto serpenteia pelos cones adversários, acalenta o adepto. O Futre original já apadrinhou o novo Futre. E quando sair, agarrado ao escudo, vai chorar mais, muito mais do que chorou em Sevilha. E vai agradecer a Alvalade. E Alvalade vai agradecer a magia. No mínimo, criará uma dúzia de lances que perdurarão no imaginário leonino. Tenho, aliás, um estranho feeling que Capel será dos últimos nomes a escaparem do meu envelhecido cérebro, já quando estiver a passar os últimos dias num lar.

Jeffren Suarez: Vai dar-nos o título. Disso tenho a certeza. Está fadado para o último danoninho. 4-0 do Barça ao Madrid não tem nada a ver com 5-0, numa perspectiva biblíca. O quinto foi obra de Jeffren e aqueles dois remates de pólvora seca contra o Málaga mostram o que aí vem. As diagonais ensaiadas também. Estamos na presença de um crack, de raízes venezuelanas, que dão sempre jeito. É culto no futebol e domina todos os fundamentos. E ganhou por osmose aquele verniz dos campeões. E vai passá-lo no balneário do Sporting como uma epidemia de vitória. Infelizmente vai regressar ao Barcelona mais cedo do que devia, o que é pena para nós, mas justo para ele.

Andre Carrillo: No outro dia perguntaram-me porque é que eu gosto de futebol. Tive de pensar um pouco. Serão os urros de alegria, com o coração a 1000, o pescoço rebentado, os joelhos sem força, como naquele golo do Djaló contra os lampiões em Alvalade? Serão os jogos mentais da pré-época? Ou as possibilidades? O incerto? Será a beleza do bailado colectivo, o poder do físico masculino, a inteligência artificial da máquina humana? Será a cultura enciclopédica da táctica ou a liderança de homens? A balística da bola ou partilha de emoções que nos ajudam a sentir-nos integrados socialmente? Será a cumplicidade de um abraço ou o agonismo de uma discussão? Tinha de dar só uma explicação: Podiam ser todas as anteriores, mas há uma acima de todas: a magia, o “regate”, o drible, a finta, o desequilíbrio físico proporcionado pela destreza humana de um pé com uma bola. O André Carrillo é isso. E se for mesmo isso, não precisa de ser mais.

Ricky van Wolfswinkel: Nesta pré-época o jogador com nome de personagem do Alô, Alô mostrou tudo aquilo que dará ao Sporting nos jogos a doer: não mostrou nada. E é precisamente por isso que será tão valioso: não se mostrará nos jogos, ninguém lhe ligará nenhuma, ninguém dará nada por ele… e quando menos se esperar, a bola vai aparecer dentro da baliza. Puro génio, este rapaz.

Diego Rubio: O balão encheu, encheu, meteu 50 mil em Alvalade, rebentou, esvaziou, ficou ali, morto no chão, com aquele aspecto velho e molhado de tanto cuspo. E veio o Diego, o Dieguito, pegou nele e soprou com a força da inconsciência lá para dentro, tentando meter ar onde já só há buracos. Soprou com tamanha força que olhar para o seu ar traquinas devolve-nos imediatamente a alegria de ser do Sporting. Este miúdo é do Sporting, no sentido em que poucos jogadores apareceram logo com o leão tatuado naquela testa franzida com que disputa todos os lances, naqueles remates do meio da rua, sem preparação. Para quê preparar o que é genuinamente bom. Já devemos alguma coisa a este miúdo. E temos a certeza que o que fez até agora vai voltar a fazê-lo quando for a doer. Por isso, e porque já me fez gritar “golo” três vezes em jogos da pré-época, eu tenciono saber se é possível registar um bébé com o nome Rubio em Portugal.

Valeri Bojinov: O Bojinov. Sou suspeito. Sinto-me ligeiramente parcial e talvez um pouco iludido em relação ao Bojinov. Gosto do Bojinov há muito tempo. Lembra-me aqueles momentos na preparatória em que andávamos semanas a cortejar a miúda dos ténis Vision, aproximando-nos das amigas, tornando-as nossas aliadas em troca de posters da Bravo, trocando bilhetinhos com piadas saloias, combinando lanches antes do regresso a casa, oferecendo cassetes com clássicos do metal dos anos 70, marcando encontros nas traseiras da escola… e quando finalmente ela chega às escadas do prédio atrás da escola, vem com herpes na boca. Eu quero curtir com o Bojinov. Quero ter a minha primeira vez com o Bojinov, agora que ele está no meu quarto, todo nu. Mas o Bojinov está com o período. Vamos esperar uns dias, então, para consumar esta paixão.

Voltando a Kant, “Nem o entendimento, nem os sentidos podem, apenas por si mesmos, errar”. Pois bem,

Vivó Sporting!

Excelente treino…

… para, espero, arrumar de vez com o Postiga e o Djaló no banco.
… para jogar em 4-3-3, com o meio-campo recheado por Rinaudo, André Santos ou Schaars, Matigol ou Luís Aguiar ou mesmo Izmailov.
… para meter Rubio a titular no ataque.
… para meter Carrillo a titular.
… para dar a braçadeira ao Rinaudo. Ou a outro qualquer, todos menos o Pereira.
… para perceber que continua a ser preciso um central de categoria. Só o Rodriguez é titular de caras.
… para rezar que o Arias e o Atila sejam mesmo bons…
… para perceber que os laterais são os pés-de-barro desta equipa…
… e que se este problema não for resolvido, não há marquês para ninguém.
… para dar mais tempo aos espanhóis.
… e para usar o 4-4-2 apenas em Alvalade e contra o autocarro.

De resto…

…. Vivó Sporting!

Bem vindos a Alvalade

Muita gente nova, um leão e 50 mil histéricos.

Bem vindos.

O objectivo é simples mas difícil: convencer toda a gente que hoje encheu Alvalade a voltar… nem que seja em Maio…

… e evitar sair ao intervalo debaixo de um coro de assobios. Porque Alvalade não é um estádio como os outros. É um estádio capaz das duas coisas: de encher o balão irracional e de o rebentar com a mesma força demencial.

E para a próxima, talvez fosse melhor convidar um Toulouse e não um Valência para fazer a festa.

O novo ídolo de Alvalade!

Em Toronto ainda estão a perguntar se havia mais alguém a jogar naqueles 40 metros entre as áreas! Que grande jogador!

A partir de agora vou passar a usar as calças pelo umbigo, porque é assim que o Rinaudo joga à bola (como observou e bem o Jordão).

PS: ganhámos em equipa e sem os quatro melhores jogadores de ataque… e ganhámos aos corruptos. Só bons sinais…

SPORTING!