Porreiro, era fazer dele um símbolo

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As senhas e a fome

Este fim-de-semana foi dia de recolha de alimentos em diversas superfícies comeciais. Quando cheguei à caixa de uma delas, para pagar, sou interrompido por uma qualquer voluntária do banco alimentar que se dirige à funcionária que passava as minhas compras e lhe entrega um molhinho daqueles vales que valem uma determinada quantia e que podem ser trocados por alimentos.
“Olhe, as pessoas entregaram isto, mas isto ali não tem valor nenhum”
“Pois, têm é que pagar aqui na caixa e deixá-lo connosco”, respondeu a funcionária.
“É, deixamo-nos isto ali só para fingir que deram alguma coisa”.

Confesso que aquela merda me irritou. Profundamente. No espaço de dois segundos questionei-me umas dez vezes se valeria a pena encetar uma discussão. E perguntar à dita voluntária se, por acaso, ela tinha explicado às pessoas que lhe deixaram os vales que, para valerem efectivamente algo, deviam ser pagos e deixados na caixa? Acabei por cagar no assunto.

Acontece que o assunto não cagou para mim. E perseguiu-me, sem que eu desse conta. Ao longo destes dois últimos dias, esperou que eu lesse e escutasse a opinião de alguns Sportinguistas e voltou a atacar. De um momento para o outro, alguns daqueles com quem partilho preferências clubísticas foram transformados em voluntários do banco alimentar. Diziam eles que o Sporting devia ter ganho o jogo a jogar contra dez. Que continuamos uma merda nas bolas paradas. Que este aquele e mais o outro não jogam um caralho. E que o Domingos se fartou de fazer merda. Ou, se se preferir, depois de um derby onde puderam ver o Sporting mais personalizado dos últimos anos, resolveram regressar à bilheteira e vociferar que aquilo é só fogo de vista para enganar os mais despercebidos e que, afinal, não estamos é prontos para ganhar nada.

Ora, como não fiquei de bem comigo mesmo por não ter dito nada à tal da voluntária, permitam-me que vos diga a vocês: lá porque andamos com fome de títulos, não deixem que a barriga vazia vos engula o cérebro.

E o vândalo sou eu?!?

Ponto prévio: não concordo com o pegar fogo às cadeiras do lampiódromo. E, como não poderia deixar se ser, a merda da nossa comunicação social prefere dar seguimento a essa novela do que questionar a organização de um jogo de alto risco (a propositada colocação de uma manita de “vistoriantes” para quase quatro mil pessoas, sendo os stewards responsabilidade directa da segurança do Benfica), os lasers constantemente apontados aos jogadores do Sporting, ou a forma, ainda mais alarve do que em anos anteriores, como os adeptos do Sporting foram conduzidos para dentro do lampiódromo. 
A curta dimensão da zona preparada para receber os Leões, que passou de confortável a desconfortável numa questão de minutos, a falta de água ou o impedimento de acesso às casas de banho, acabam por ser pormenores que nem espantam quem tem por hábito acompanhar o Sporting ao moderno cesto de pão virado para o Colombo. Só a rede manhosa é que foi novidade.

Mas o pior no meio disto tudo, é que, parece-me, fizemos um favor aquela gente, dando-lhes motivos para poderem vir, com aquele estilo que me fode mais o estômago do que maionese estragada sobre camarão fora de prazo, fazerem-se passar por paladinos da verdade e do desportivismo. As recentes palavras de Luís Filipe Vieira, são a cereja no topo do bolo. «Custa-me a crer que o presidente do Sporting se reveja nas palavras do dirigente do seu clube. Talvez seja o mais grave de tudo o que se está a passar neste momento no futebol português. Ver um presidente de um clube com a grandeza do Sporting, eleito pelos sócios, rever-se nas declarações daquele dirigente… vamos caminhar muito mal no futebol. A ser assim, o Benfica vai rever a sua posição na relação com o Sporting, no futuro […] No futebol não pode valer tudo. Já dei provas suficientes da postura e dos valores que o Benfica defende e da minha maneira de estar no futebol».

Mais uma vez, a comunicação social e os fazedores de opinião que comandam a carneirada (cada vez percebo mais o porquê do país estar tão no fundo), vão assobiar para o lado e vão fazer do Luís das Escutas (ou da rega, ou dos túneis, ou dos apagões) uma espécie de vingador, esquecendo o que uma das mais execráveis figuras do nosso futebol, aka João Gabriel, fez e continua a fazer na nobre arte de acicatar a violência e sentimentos de ódio. A inacreditável frase «Não houve fosso, ninguém caiu ao fosso», por certo ficará gravada na memória de quem tem um pingo de decência, algo que vai faltando, em demasia, neste futebolês de merda.
Afinal, o que conta é seguir o que diz o homem que já deu provas suficientes da postura e dos valores que o Benfica defende e da sua maneira de estar no futebol e que, perante as palavras do seu fantoche da comunicação, atira sem rodeios: «Quanto ao resto, vamos ignorar e passar ao lado de quem pouco se importa com as consequências das suas irresponsáveis palavras e actos».

O Leão já tem juba (e eu vou com ele para qualquer batalha)

Passaram-se cerca de cinco meses desde que nos foi apresentado um leãozinho. Como na música do Caetano, deu-nos prazer vê-lo dar os primeiros passos sobre o sol de Verão.
Largámo-lo na selva, mas erros de cativeiro impedia-no de ter sucesso nas batalhas. Repensámos o treino. A estratégia. Vimo-lo, ferido de morte, fincar as quatro patas no chão e recusar-se a baquear.
Ganhou confiança, foi ficando mais forte. Fez-nos voltar a sair de casa, sem receio de segui-lo e apoiá-lo onde quer que o instinto o levasse. Fez-nos acreditar que este jovem Leão, a dar os primeiros passos, era finalmente o Leão capaz de ocupar o trono entretanto ocupado por bichos estanhos.

Hoje foi dia de batalha. Uma das mais complicadas, em terreno traiçoeiro. O ecos da selva passavam a ideia de que o nosso jovem Leão ia entrar à defesa, tentando não tremer perante as adversidades. Espanto geral, o jovem Leão, atrevido, lançou-se à presa. Dominador, ameaçou de cabeça, em estilo holandês. O adversário, incapaz de passar do meio-campo criando lances de perigo de bola corrida, respondeu da forma mais perigosa que consegue fazê-lo: num lance de bola parada, que embateu com estrondo no nosso lado direito. Estava dado o aviso. Sem tremer, o Leão não abrandou a pressão e numa nova combinação holandesa esteve muito perto do êxito. Pena que o golpe tenha sido desferido com o pé direito, num movimento que teria sido perfeito se terminado com o pé contrário.
A toada mantinha-se, com o adversário manietado e o leão a procurar a melhor forma de atingi-lo em cheio. Novo canto. Desatenção. Feridos à cabeçada.

Descansa. Respira. Tens tempo para a dar a volta a isto, Leão. Tenta-se um movimento de elavado grau de dificuldade, em estilo brasileiro. Bola cortada, redondinha, a pedir que o arco encaixe no ângulo. Passa perto. Nada mudou, é o Leão quem assume as despesas da batalha. O adversário esperneia e envia uma biqueirada para a frente, para poder respirar. Má recepção, erro, abre-se a guarda. Bomba de pé esquerdo inimigo. Vale a classe com que o Leão apara o golpe. Ruge para nova investida, adversário fechado no seu meio-campo. Nervoso, continua a cair por tudo e por nada e a barafustar. É-lhe assinalada falta técnica, que o deixa em inferioridade (agora já não é só em jogo jogado).
O Leão aposta na direita. Fura. Ataque cruzado, com final de cabeça. O adversário defende o golpe de forma inacreditável. A batalha já só tem um sentido. O Leão apela à crença holandesa, recupera uma bola que parecia perdida. Adversário com a guarda completamente aberta. Nós, lá do alto e um pouco por todo o mundo, temoso golo a soltar-se da garganta. O kick brasileiro vai de raspão. Olhares incrédulos, perante o desperdiçar do momento chave da batalha. O Leão sente a sua própria falha. Domina, encosta, rodeia, tenta de pontapé de moinho holandês, mas não se mostra capaz de um golpe certeiro. Entra em modo desespero, transformando a defesa à americana em reforço do ataque. Surpreende o adversário, de cabeça, numa assistência perfeita. «Vai», gritamos, mas o golpe de capoeira sai à figura.

Sobram dois minutos. Tempo suficiente para, entre a crença de que em dez segundos tudo muda e a ideia de quem hoje é daqueles dias que os golpes não chegam para um KO, dar comigo a interiorizar uma certeza: estes Leão, ainda a dar os primeiro passos, é mesmo aquele Leão capaz de ocupar o trono entretanto ocupado por bichos estanhos. Está a ser obrigado a crescer demasiado depressa, pois está, mas a juba que apresenta já é digna de enfrentar qualquer campo de batalha. E, quando assim é, a legião que o segue só pode continuar a aumentar de semana para semana.

O Bloco de Notas do Gabriel Alves – jornada 11

É um estádio bonito, novo… arejado
Benfica – Sporting
26 Novembro 2011
20h15, Estádio da Luz

Uma humidade relativa, muito superior a 100%
Vai estar uma noite perfeita para se jogar à bola. Cerca de 10 graus, sem chuva. Um estádio lotado e, diz-se, cerca de seis mil Leões na bancada prontos a calar os 50 mil adversários.

A selecção do Mali tem um futebol com perfume selvagem e com um odor realmente fresco…
Sejamos sinceros: a nível interno, e pese a boa fase do Braga, o Benfica é a equipa mais forte que temos que defrontar. É verdade que o jogo de Manchester foi uma excepção às exibições medianas dos últimos quatro ou cinco jogos, mas é uma equipa com vários jogadores que podem fazer a diferença e com um dos melhores treinadores nacionais. Tacticamente, o Benfica equilibrou-se com a compra de Witsel, dando a Javi “eu não sou racista nem uso os cotovelos” Garcia um apoio que na última época não tinha e que deixava o Benfica muito mais permeável a equipas capazes de ocupar as linhasentre o meio campo e a defesa encarnada. No fundo, este é um Benfica que ataca menos, mas com maior capacidade para gerir ritmos de jogo. Continua a ser perigoso nos lances de bola parada (embora sem aquelas movimentações do Saviola ao primeiro poste e, amanhã, sem o cabeçudo do Luisão) e, curiosamente, apresenta-se num 4-2-3-1 que assenta que nem uma luva no nosso desenho táctico.

Este homem é um Mister
Jesus conseguiu um resultado muito motivador em casa do “night” e até tem mostrado imenso respeito por este novo Sporting de cada vez que fala (ainda para mais, estando escaldado com Domingos). As suas qualidades como treinador são, duas a três vezes por ano, traídas por uma enorme vontade de inventar, principalmente em jogos grandes. Era porreiro que amanhã fosse uma dessas vezes.

Ele é excelente nestes lances porque a bola está morta e passa a estar viva
A quebra de rendimento do Benfica tem estado intimamente associada à “ausência” de Aimar. O dez encarnado voltou a aparecer, frente ao Manchester, e o resultado foi imediato, ou seja, o que o Benfica jogar amanhã em muito vai depender do que jogar (ou deixarem jogar) Aimar. E seria de mau tom não falar de Rodrigo, que está para o Benfica como Wolfswinkel está para nós.

A vantagem de ter duas pernas!
Emerson é o elo mais fraco do Benfica, formando com Bruno César uma ala esquerda que pode e deve ser aproveitada.

E agora entram as danças sevilhanas da Catalunha
O segredo deste jogo, parece-me, residirá no meio-campo que melhor souber encaixar no outro e ter, ainda, capacidade para chegar mais à frente. Estou curioso para ver se vais lançar Carrillo de início (duvido) e para perceber quem segurará a posição seis. Ou será que vais mesmo apostar num duplo pivot? O que é que eu fazia?  Acho que avançava num claro 4-2-3-1, com Capel, Matías e Carrillo atrás de Wolfswinkel, gritando no balneário que o adversário tem muito mais a perder neste jogo do que nós.
Mas quem sou eu, Domingos, para estar a dar-te indicações, sendo tu o maior pesadelo do Jesus? São várias as vezes que o tens obrigado a engolir a pastilha e mostrado que tens a lição Benfica bem estudada. A verdade é que já não ganhamos na Luz há quatro anos (e que noite foi aquela, obrigando a Bola a escrever na capa “Banho de Bola”) e amanhã parece-me um óptimo dia para inverter essa tendência, num jogo lixado comamerda e ganho com muito esforço, dedicação e devoção

Vamos jogar no Totobola
Benfica – Sporting   X 2

Os vizinhos

O S é um gajo porreiro. Vive no terceiro andar.
Dois pisos abaixo vive o B, um gajo cujo lado porreiro é invariavelmente manchado por uma estranha postura perante a vida.

O B adora dar nas vistas. Tornar-se no centro das atenções, quando está em festas ou em grupos maiores de pessoas, nem que para isso tanha que falar alto, rir ainda mais alto, ou puxar de uma boca mais boçal. Importa é que se riam, que olhem para ele, que falem dele. Mesmo que, depois, o gozem. No final do dia, diz que tem um porradão de amigos, que conhece este e aquele e que todos gostam dele (e que quem não gosta é parvo “comamerda”).
O S não pretende forçar a sua visibilidade. Integra-se, observa, deixa-se observar. Sorri, sem gargalhar de forma estridente. Quando sente necessidade, assume a sua opinião e pontos de vista e, se vir que faz sentido, conta uma piada com efectiva piada. Marca as pessoas aos poucos e assume, desde cedo, que ou gostam dele como é ou escusam de esperar que se faça passar por mais uma ovelha de opinião volátil.

O B adora poder exibir o último gadget da moda, mesmo que utilize o último smartphone unicamente para fazer chamadas ou o mais fino tablet apenas para consultar o e-mail. A roupa, para ele, tem que deixar bem à vista a marca. E, quando não a deixa assim tão visível, ele próprio faz questão de aproveitar a mínima ocasião para publicitá-la. Conta a toda a gente que foi aqui e ali. Mesmo que não lhe perguntem. E, se for caso disso, deixa no ar a ideia de que, quem não foi ou não conhece, é isto e tal e o camandro.
O S também gosta de gadgets e de restaurantes porreiros. Aparece com o gadget sem dizer nada, preferindo que alguém diga “ah e tal compraste isto”. Vai aos restaurantes porreiros, mas evita repetir quatro vezes por semana que já lá foi (há coisa que fazem sentido quando surgem em conversa).

O B fica lixado quando sente que algum chico esperto está a ser mais chico esperto do que ele. Critica, oh se critica, mas o que está ali latente é uma irritação desencadeada pelo facto de alguém chegar mais longe do que ele, mesmo que por caminhos manhosos, dissimulados, graxistas ou intrujões.
O S abomina chicos espertismos, lambe botismos e intrujices, o que já lhe valeu ser apelidado de parvo pelo B e sus muchachos. Mexe-lhe com as entranhas colocar no cesto do “tudo a €2,99” as suas ideias e os seus princípios. O seu objectivo é afrontar este sistema onde o melhor não é quem o é efectivamente, mas o que apanha o expresso da vergonha e, ao chegar lá acima, ainda tem a desfaçatez de dizer que foi por mérito próprio.

O B fala de gajas à boca cheia. Mais ou menos ficcionadas, as suas histórias devem impressionar. E acha que a postura “olha, a minha pila está aqui e aposto que tu a queres” é a melhor para impressionar a população feminina. Até porque as mulheres são todas iguais.
O S tem noção de que cada gaja é uma gaja. Impressiona-as por deixar transparecer que a pila está, efectivamente, ali, mas que isso não se trata de um mero desenvolvimento da distinção natural dos géneros.

Como não poderia deixar de ser, o B e o S têm clubes diferentes. Clubes com os quais se identificam. Clubes onde encontram uma ramificação dos seus valores e da sua forma de estar.
Como não podia deixar de ser, o B acha que todo o mundo adora o seu clube, que o veneram, que o respeitam, que ninguém ganha mais do que ele, que por mais provas que existam o seu clube sempre ganhou em campo e nunca por outras vias. São os maiores do mundo e são e são porque os jornais dizem que sim (o B gosta muito de jornais que digam coisas bonitas sobre o seu clube pelo menos seis vezes por semana). E, fanfarrão como é, anda há mais de uma semana a dizer aos que são do clube do seu vizinho S que, no sábado, menos de três é derrota (e repete-o, de cada vez que se cruza com o vizinho no elevador ou nas escadas).
O S tem noção da dimensão do seu clube, tanto em termos de adeptos como de historial. E orgulha-se disso. Agradece aos céus não ter nascido virado para o lado B, porque só mesmo na música é que isso reporta a agradáveis surpresas. Acredita, de forma algo naif, que um dia o futebol vai resolver-se apenas nas quatro linhas. E também acredita que, no sábado, o seu clube vai ganhar, preferindo partilhar antevisões com os que lhe são mais chegados ou adeptos das mesmas cores.

Escusado será dizer que, se ganhar no sábado, o S irá cumprimentar o B com um sorriso trocista. E, sempre que assim se justificar, fazê-lo conter a fanfarronice com memórias recentes.
Se acontecer o contrário, o B fará questão de dizer ao S que já se estava à espera, que o seu clube é o maior e que “eu tinha-te avisado”. E, ainda, que o campeonato está no papo.
Estranhamente, o S continuará com um sorriso trocista. E, isso, é algo que sempre fez e continuará a fazer uma enorme confusão ao B.