Hipocrisias

Começo por deixar algo que fica para a posteridade: espero nunca ter que ver Jorge Jesus como treinador do Sporting. Aborrecem-me pessoas com pouca personalidade e, a julgar pelo que vou vendo e ouvindo, Jesus já aprendeu que neste futebol português vale de tudo. O homem que, enquanto treinador do Braga, apontava o dedo ao sistema, é hoje o homem que, depois do «limpinho, limpinho», choraminga favores e que, depois de ter tido que engolir Cardozo, volta a ficar célebre por se envolver em cenas lamentáveis no final de um jogo (eu percebo que ele queira que os lampiões gostem dele, mas tudo tem limites).

Mas Jesus é um homem feliz, pois os seus lamentos foram ouvidos. Não é de hoje que se sabe que há várias formas de influenciar um jogo. O amordaçar de uma equipa com cartões amarelos é uma delas. Que o diga o Guimarães, ontem, que se viu reduzido a dez fruto desse critério apertadinho do árbitro (ao contrário da largueza de outros), e que não só perde o jogo às três pancadas como ainda fica com um jogador castigado para, imagine-se, a visita ao Dragão.

É, é verdade, o jovem Fonseca veio queixar-se e, arregalem os olhos, até disse que o Sporting tinha sido prejudicado no dia anterior. Ora, para além de eu querer que o jovem Fonseca vá levar no sítio onde levam algumas das amigas do seu presidente, aproveito para dizer-lhe que, curiosamente, o seu fcporto tem apanhado equipas com jogadores castigados. É coincidência, claro, tal como o é o surgimento de um penalti ou de uma decisão salvadora sempre que a vitória está mais tremida. Ontem, caro Fonseca, antes do penalti que, efectivamente não foi, Otamendi devia ter sido expulso. E, já agora, não me parece que o segundo golo seja fora de jogo.

No meio desta salganhada, há quem vá cantando e rindo. Caladinho, o Braga foi escolhido como o moço de recados neste arranque de campeonato. Jogava com os adversários que, de seguida, apanhavam o fcporto. Expulsões, decisões manhosa, com a cereja no topo do bolo a ser servida neste fim-de-semana, com um penalti claro a ficar por marcar, a favor do Arouca. Arouca que, e a maldita conjugação dos astros tem muito que se lhe diga, é treinado por Pedro Emanuel. Agora, imaginem o que o bom do Pedro não diria se este lance tivesse acontecido num jogo frente ao Sporting. Alguém o viu espumar?

Espumar espumámos nós, no sábado, e peço desculpa pelo meu português: endereço um sentido «vai pró caralho!» a todo o Sportinguista que me vier dizer que, como jogámos mal, não devemos falar da arbitragem. Mas que merda é esta, foda-se?!? Então só se marcam penaltis quando uma equipa está a jogar bem?!? Foi penalti e tínhamos uma enorme oportunidade de fazer o 2-1. Ponto.
Ao meu português de há pouco, acrescento um «foda-se!», dirigido aos Sportinguistas que ainda me digam que não podemos falar muito porque já tivemos dois golos em fora de jogo. Ponto um, achar que se foi favorecido no jogo contra o benfica é patético. Entre a não expulsão do maxi e o golo do ic que nasce de uma falta inexistentes, escolham vocês o resto de asneiras do trio de arbitragem.
Ponto dois, sim, o golo em Faro foi em fora-de-jogo e desbloqueou o jogo. Mas isso significa o quê? Que temos que ser prejudicados para compensar? É que, se assim for, isso são excelentes notícias: neste deve e neste haver de arbitragens, vamos ser compensados nos próximos dez campeonatos pela vergonha que têm sido estas três últimas décadas (a propósito, o tal ronny da mão que nos lixou um título faz parte do plantel do rio ave).

Leonardo Jardim acabou por resumir tudo numa frase: «É uma hipocrisia os três grandes falarem de arbitragem quando são os mais beneficiados».
O que Leonardo Jardim depressa vai aprender, é que maior hipocrisia do que essa só a de fazer crer que o Sporting é menos prejudicados dos que os outros dois. Maior hipocrisia do que essa, só a de não querer ver que ao Sporting  não basta jogar melhor do que o adversário. Tem que jogar muito melhor. Porque, imagine-se, até alguns dos seus adeptos acham que um árbitro não marcar um penalti escandaloso, é castigo merecido quando se está a jogar mal.

xistra

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Quem é Mohamed Labyad?

A pergunta ecoou pela mente de milhares de Sportiguistas, depois de terem lido o relatório e contas e percebido que Labyad veio tudo menos de borla ou pagando uma simples compensação ao PSV.
Ora, ao que parece, Mohamed Labyad é pai do Zakaria e a godinhice em que o Sporting se encontrava mergulhado até deu para dar uma banhada à CMVM, contratando o tal do Mohamed como “olheiro” de forma a pagar mais de dois milhões em comissões relacionadas com a transferência.
A auditoria de gestão promete. Ó se promete…

p.s. – ainda relativamente a Labyad, se é para continuarmos a pagar-lhe o ordenado não faria sentido que o deixassemos tentar justificar o que ganha nos treinos e, caso seja convocado, em campo?

O raio da galinha da vizinha e uma implacável cultura de exigência que nasceu há quatro meses

Época 2011-2012. Leonardo Jardim era, então, treinador do Braga. Em Alvalade, 50 mil enchiam as bancadas, entusiasmados pelo Sporting de Domingos, repleto de contratações sonantes. Passaram seis meses. Domingos foi posto na alheta (ou foi a alheta que se montou nele, vá-se lá saber) e, de um momento para o outro, jogadores como Douglão, Elderson, Paulo Vinícius ou Leandro Salino, tudo gente a actuar pelo Braga, passaram a ser exemplos de boa prospeção de mercado. No fundo, tal como João Pereira, Moisés, Rodriguez e Evaldo tinham sido apontados como uma defesa capaz de resolver os problemas que se iam arrastando, em Alvalade. Só não veio Moisés, que até já tinha passado pelo Sporting com documentos manhosos, e o resultado desse olhar para galinhas alheias foi o que se viu, com excepção para João Pereira.
Mas havia mais. Havia Lima que, sim senhor, já tinha mostrado que sabia o que fazia com a camisola do Belenenses, clube que o contratou a um Avaí (oi?!?), e havia Carlão, para muitos a batata mais ondulada do planeta, capaz de meter Wolfswinkel do bolso, rapaz que fez duas épocas engraçadas em Leiria, cidade onde chegou com um CV fantástico, onde se incluía, por exemplo, o Duque de Caxias e o Bangu (oi?!?) e que, pese os golos lá para as bandas do Lis, acabaria por sair para o Japão (nem sei onde é que este suposto craque anda actualmente).

Já este ano, foi surpreendente o entusiasmo como que vários adeptos leoninos encaram a possível contratação de Rafa. Vídeos bonitos no youtube e lá estava «o gajo que ganhava pouco e que era infinitamente melhor do que Labyad» (continuo incrédulo com os assobios com que o rapaz foi brindado, no jogo de apresentação). Depois, havia toda a constelação de estrelas canarinhas, perdão, estorilinas, que foram debandando para os lados do Dragão. «Oh, foda-se! andamos a dormir! estes gajos é que são craques que permitem formar uma bela equipa com pouco dinheiro». Diz que alguns destes achados, nem calçaram no jogo de apresentação, sorte que teve outro fenómeno, o Josué, outro que foi incrível ter-se perdido. Depois, depois levámos com nomes atrás de nomes pelos jornais. E era o Sílvio e era o Pizzi e era o catano. O primeiro contou com a clubite aguda do presidente da Associação de Futebol de Lisboa para não ficar de fora, por castigo, logo na primeira jornada; o segundo, e tal como o fantástico Hugo Vieira (lembram-se dele, também encaixava que nem uma luva em Alvalade), passa pelo outro lado da segunda circular para receber o cheque de assinatura de contrato e «vai lá dar uns chutos para Espanha que aqui não há espaço para portugueses».

Fico por isso meio atónito, face à revolta por muitos assumida no seguimento das contratações de Maurício, Welder (por empréstimo) e Magrão (sem esquecer os que chamam patudo a Cissé. Se calhar, porque o Carlão é que era). «É uma vergonha!», «este Inácio é um incompetente!», «está direcção é muito jeitosa para contas, mas de futebol percebe zero!», e por aí fora, numa implacável cultura de exigência e num surpreendente espírito crítico que parecem ter incorporado alguns sportinguistas aquando das últimas eleições. Rafa, o craque se Santa Maria da Feira, tinha lugar em Alvalade, mas qualquer um destes brasileiros de segunda (vale lá a pena olhar para os clubes por onde já passaram) é uma merda ainda antes de assinar contrato.

Seria hipócrita se vos dissesse que ponho as mãos no fogo por qualquer um deles. Seria hipócrita se vos dissesse que são contratações que me deixam tremendamente entusiasmado (algo que acontece com o despontar de tantos novos miúdos, formados por nós, e das notícias que vão dando conta da renovação de contrato com muitos deles). E seria hipócrita se vos dissesse que me agrada a possibilidade de irmos buscar o Orlando Sá.
Mas seria sei lá o quê se, sem os ver jogar, os apelidasse de merda só para poder atacar uma direcção que, diariamente, tem que limpar mais um cocó feito por quem de lá saiu há quatro meses, num cenário que leva, precisamente, a que tenhamos que procurar soluções que encaixem num rigoroso plano financeiro e numa rigorosa tabela salarial. Vergonha?!? Vergonha é achar normal que, por exemplo, Diego Rubio ganhe 500 mil euros por ano para praticamente não jogar. Vergonha é ter um gajo que custou 9 milhões, Elias, a dizer que deixou o Sporting com oito meses de salário em atraso!

Por isso, o que desejo é que o «trio elétrico» ajude os miúdos a animar a malta e a frase de Leonardo Jardim, «temos que viver com o que somos», faça eco na cabeça dos novos exigentes. Até porque, o que somos actualmente, em muito se deve, precisamente, à pouca ou nenhuma cultura de exigência, e ainda menor espírito crítico que, nos últimos cinco anos, deu carta branca aos «gestores de topo» para usarem o Sporting a seu belo prazer.

12 milhões

É a bombinha do dia, chutada para um canto da capa da Bola. Ao longo do reinado do pequeno Godo, pagaram-se 12 milhões em comissões!!!
Claro que foi necessário convidar a sair o médico que não queria dar o sim à contratação de Rodriguez e de Luís Aguiar, entre outros, porque o importante era fazer bons negócios, mas o que são 12 milhões para quem tinha uma bomba de gasolina que valia 18?

O futebol à imagem do país

Depois de um processo negocial que durou cerca de dois meses, e durante o qual vários funcionários aceitaram a redução salarial, o Sporting avançou para um processo de despedimento colectivo que afectará cerca de meia centena de pessoas. Tal como em qualquer outra empresa (sim, foi nisso que o Sporting e o futebol se transformaram), haverá pessoas de valor inquestionável entre os despedidos e entre as rescisões amigáveis; e haverá quem saia de bolsos cheios depois de anos de muito tacho e pouca obra.

Face a isto, uma nota e um desejo: aplaudo a iniciativa de colocar uma equipa especializada em direito do trabalho à disposição dos afectados; espero que, a curto prazo, fiquemos a saber, em pormenor, os nomes e as razões que conduziram o Sporting a esta situação.

O presente e o futuro do Sporting (ou aquilo que está longe de ser um conto de fadas, numa entrevista de 15 minutos)

«Não há dúvida nenhuma que o Sporting olha para a sua equipa B, olha para a sua equipa de juniores, olha para os vários escalões de formação, e consegue perceber que tem um excelente futuro. […] Eu acho que o Sporting tem que ter muito cuidado com a forma como faz o lançamento dos seus jogadores, porque o lançamento de jogadores nas equipas principais tem que ser sustentado […] Mais importante do que termos valores é termos equipa. Tem que existir um determinado conjunto de valores e uma determinada mentalidade, para podermos formar uma equipa. É nisso que estamos a trabalhar».

Pode garantir que as jovens jóias da coroa vão permanecer no clube?
«Sabe que, muitas vezes, isto da cobiça não tem só a ver com o valor dos jogadores, tem a ver com a formação dos próprios agentes e, face a isso, não podes prometer absolutamente nada. Como se sabe, houve uma série de jogadores que foram lançados na equipa sem que tivesse havido a preocupação, prévia, de com eles estabelecer um contrato. São essas as situações que estamos a tentar resolver, o que nem sempre é fácil por causa de alguns empresários, mas acredito que vamos conseguir. Até porque para o desenvolvimento deles é muito melhor ficarem no Sporting do que fazerem aventuras prematuras. Consiga toda a gente envolvida perceber isto… eu acho que os jogadores já perceberam, nós estamos a fazer o nosso trabalho, espero que os empresários percebam que é preciso pensar nos jogadores e não apenas neles»

«Claro que é necessário criar receitas, mas temos que perceber que no momento em que o Sporting tiver necessidade de vender miúdos de 18 anos para garantir a sua estabilidade financeira, é muito mau sinal. Há outras possibilidades de conseguirmos receitas, há outros jogadores […] Vender os miúdos não é a nossa estratégia e a questão só se coloca porque, anteriormente, as pessoas não foram capazes de precaver o lançamento desses jovens na equipa principal […] Neste momento há empresários com mais consciência, outros com menos, nós não temos a mínima dúvida de que os miúdos gostam de estar no Sporting e que querem evoluir no Sporting […] É uma realidade que o Sporting tem que comprar, tem que vender, mas não é, de certeza absoluta, com miúdos de 18 anos».

«O que podemos prometer é que, seja qual for a modalidade, os atletas entrarão para honrar a camisola do Sporting e para devolver o orgulho aos Sportinguistas. Será esse o caminho para, o mais rapidamente possível, regressarmos às conquistas […] Não vamos embarcar em sonhos, porque quando uma coisa está muito má não vale a pena promover sonhos […] Não é possível dar grandes esperanças aos Sportinguistas, quando eles já perceberam que temos uma reestruturação grande pela frente que é fundamental para o futuro do Sporting […] Quanto a títulos teremos que esperar […] há muito trabalho a fazer para, o mais rapidamente possível, conseguirmos ombrear com os nossos mais directos adversários»

«As pessoas já perceberam que há futuro […] Política financeira é algo que o Sporting não tinha há muitos anos. Tinha lá alguém, que fazia algumas coisas, mas um clube com a dimensão do Sporting não é para ter lá alguém a fazer algumas coisas. E também não é não assinando alguns documentos que as pessoas se ilibam da responsabilidade. Acho que há várias coisas que as pessoas se vão aperceber, principalmente relacionadas com a área financeira e e gestão, já na próxima assembleia geral. Os Sportinguistas vão perceber o que é que foi a política desportiva, financeira e de gestão que nos levou onde levou; vão perceber que chegámos onde chegámos porque existiram dirigentes que nos fizeram chegar até aqui. Pode ser que, aí, as pessoas deixem de falar tanto e deixem que cá está fazer algo que não se faz há muitos anos, que é trabalhar para atingir resultados»

 
Estes são alguns destaques retirados da entrevista, dada por Bruno de Carvalho à Radio CIRV, de Toronto. Quem quiser escutar a entrevista na íntegra, pode clicar aqui.